Terça-feira, 10 de Setembro de 2013

Momentos de "Duas vidas & mais uma", (Chiado Editora - 2012)

"A decisão que tomou iria transformar toda a sua vida. De agora em diante tudo seria diferente. Passaria a dedicá-la, não ao vazio que sempre fora, mas a algo muito mais gratificante. Iria dedicar-se ao voluntariado já que, como nunca tinha trabalhado, nada mais poderia utilizar como ajuda que a sua vontade, os seus préstimos como voluntaria de causas que levassem à mitigação da dor, que aliviassem a fome, que ajudassem quem mais precisava, os desvalidos deste mundo.

Começou de imediato a entrar em acção, desde logo iria começar com o pé direito, iria ser uma verdadeira madre Teresa de Calcutá. Para tal, dirigiu-se à casa de banho, olhou para a enormidade de cremes e perfumes que se espalhavam sobre a bancada de granito negro, abriu o saco de plástico e começou a enchê-lo pegando nas embalagens uma a uma e despejando-as dentro dele. Não deixou de lançar um último olhar a todas estas coisa de que agora se despedia, neste relancear de vista não sentiu qualquer arrependimento do que estava a fazer, não teve nenhuma pena de lançar para o lixo tanto dinheiro em cremes e perfumes, sentiu-se livre, sentiu-se bem consigo própria.

Acabada a tarefa sentiu-se aliviada, liberta de toda uma pressão que, por nunca a ter sentido, sempre fora ignorada, estava eufórica com a decisão que tomara de mudar a sua inútil vida, trocando-a, é certo, por algo ainda não muito definido e de certa forma bastante incerto, mas era um princípio.

Dirigiu-se à cozinha, preparou uma suculenta taça de cereais, adicionou-lhe o leite, sempre frio, pegou na taça e foi sentar-se na varanda a comer. Abriu a porta da sala que lhe dava acesso e sentiu o ar já quente da manhã encher-lhe os pulmões, deu um passo até meio da varanda e o sol inundou-a de luz, envolveu-lhe o corpo com o seu calor, insuflou-lhe uma nova vida cheia de esperança.

As empregadas foram dispensadas, a casa passou a estar mais silenciosa, o trabalho passou a ser feito por ela, organizou-se de forma diferente e mais simples. Alice deixou de ser o que era, uma pessoa fútil sem perspectivas de vida para além do consumo diário da herança que a família lhe havia deixado.

Nunca havia trabalhado na vida, nada sabia fazer além de gastar o dinheiro que nada lhe custou a ganhar, agora iria iniciar-se numa tarefa, num trabalho que não servia para lhe garantir o sustento, que não precisava, iria trabalhar para ajudar os outros, para ajudar quem dela precisasse.

A tarefa deste dia era simples, procurar organizações de ajuda social onde pudesse desenvolver a sua nova aptidão. Seleccionou algumas e começou a ligar para pedir informações, como poderia ajudar, o que poderia fazer em regime de voluntariado como poderia disponibilizar-se para tal.

De todas foi ouvindo que sim, que era possível, que era desejável e que era muito meritório que o fizesse. De todas as que consultou escolheu a que lhe parecia a mais indicada para o seu caso. Combinou o encontro e aguardou pela hora em que seria entrevistada para assumir o seu voluntariado.

Foi andando até ao local combinado, um pequeno apartamento que servia de sede à organização. Tocou à campainha, abriram-lhe a porta e subiu as escadas até ao terceiro andar esquerdo, empurrou a porta e entrou.

O movimento lá dentro era intenso, meia dúzia de pessoas atarefavam-se na discussão de um plano de ataque a uma coisa qualquer que ela não percebia muito bem. Alguém lhe perguntou ao que vinha.

- Sou aquela que quer dar o seu contributo em regime de voluntariado, falámos ao telefone à mais ou menos duas horas.

- Já sei, Alice, respondeu o interlocutor. Entre ali para a sala que já falamos.

Enquanto se dirigia para o local indicado, foi ouvindo falar de números, de sopas, de pão, de cobertores e de um sem número de outras coisas que não fixou.

- Então Alice, diga-me o que a leva a abraçar esta causa.

- O desejo de ajudar a ajudar, respondeu.

- E quais são as suas disponibilidades?

- Todas, respondeu, estou totalmente disponível. Nunca fiz nada e nada faço neste momento, tenho sentido que a minha vida não tem sentido nenhum e, depois de ter passado por aquilo que eu classifico de um trauma inesperado, resolvi dedicar-me inteiramente a esta actividade.

- Muito bem Alice, e quando acha que pode começar?

- Logo que possível, respondeu, estou ansiosa por começar.

- Combinado, amanhã pelas nove horas apareça aqui para planearmos o dia e dar início à sua colaboração.

- Obrigado, então até amanhã.

Saiu satisfeita consigo mesma. Tinha conseguido ser aceite como colaboradora daquela instituição. Agora tinha que se dedicar de corpo e alma ao que seria a total mudança da sua vida, amanhã seria o primeiro dia do resto da sua vida.

Dirigiu-se a casa, preparou alguma coisa para comer, frugal, que os grandes almoços teriam que acabar pois o tempo tinha-lhe sido tomado com a nova actividade, urgia organizar-se para que tudo funcionasse na perfeição.

O resto do dia levou-o a pensar no assunto e a organizar a sua vida.

Nada seria como antes, nada seria igual."


publicado por: canetadapoesia às 16:26
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