Quinta-feira, 8 de Março de 2018

A noite protege os audazes (18º Capítulo)

 

 

De volta aos seus lugares, silenciosos e atentos, o pio do mocho fez-se ouvir, sinalizando que estava tudo em ordem, voltou a cair o silêncio na chana, não se ouvia nada para além do bater do coração de cada um e a respiração que não estava ainda ofegante, entrecortada aqui e ali por uma pressão maior e nada mais.

De repente Noite Escura sente uma leve comichão no nariz, sabia o que ali vinha, quando isto lhe acontecia era certo e sabido que tinha por trás uma série de espirros que não se podia permitir neste momento. Leva o indicador ao nariz, entre a base do nariz e a parte superior do lábio, esfrega lentamente a base do nariz, foi assim que aprendeu a debelar estes ruídos que poderiam pôr tudo a perder, aprendeu a técnica, aplicou-a com sucesso no momento mais delicado da operação, a espera. Começa a sentir um alívio, conseguiu debelar a crise sem comprometer a sua e as posições dos companheiros, perigo passado, nada a temer.

Conjectura sobre o medo, aquele sentimento que aterroriza as pessoas, mas que, de algum modo, também as transforma em heróis. Como é que as pessoas pensam que eles, por serem uma tropa especial, cheia de pergaminhos de valentia e coragem, com um treino que ia para além do que se podia suportar, não têm medo. Claro que têm, têm medo de ser apanhados desprevenidos, têm medo de não conseguir levar a cabo as missões de que são incumbidos, têm medo de ser apanhados nos tiroteios cruzados, têm medo de ficar deformados para o resto da vida com as armadilhas e granadas a que estão sujeitos quando empreendem as suas acções. Também têm medo sim e, muitas vezes, é esse medo que os lança em correria para a frente inimiga, ébrios de “vencer ou morrer”, porque sabem que o pior que lhes pode acontecer é ficar à espera quando os sinais de combate estão à sua frente. Têm medo como todos os outros.

Um ligeiro restolhar no capim chamou-lhe a atenção, ali havia coisa. Aguçou os ouvidos, apurou a vista, não conseguia ver nada, estava abaixo do topo do capim, era bastante alto, mais alto que ele, só podia concentrar-se no ouvido, tentar decifrar aquele quase imperceptível ruído. Uma coisa sabia, tinha a certeza, não era ruído de animal, que os animais andam livres pela floresta e não se preocupam com estratégias de guerra, fazem o ruído que têm de fazer e o seu caminhar é mais barulhento, não, aquilo não era animal, aquilo era ruído de quem caminhava cuidadosamente pelo meio do capim.

Voltou a senti-lo, agora mais audível para quem estava totalmente concentrado nele. O silêncio da noite foi cortado pelo pio do mocho, deu o sinal aos companheiros que ali andavam homens caminhando na chana e entrando no seu perímetro de emboscada. O pio foi sendo repetido, o mesmo que Branquelas tinha ouvido e o pôs de sobreaviso, deste lado era o aviso mesmo, que passava de homem a homem para que todos se preparassem para o que ia acontecer a seguir. Não era o sinal de atacarem que esse viria depois de terem a certeza do que estavam a enfrentar e de ter o inimigo na zona perfeita para o efeito, aguardaram novo sinal do comandante, Noite Escura.

Passou-lhe pela cabeça toda a vida, como um filme, lembranças da infância, dos grandes e inseparáveis amigos, da família. As expectativas quanto ao futuro, quando tudo isto terminasse, pelo menos para ele que já ia com tempo mais que suficiente, estava cansado destas andanças, de andar de um para outro lado, da perseguição e ataque ao IN, enfim, estava cansado da guerra. Um dia, pensava para si, tudo isto acabaria, não tinha sentido, uma guerra interminável, pôr irmãos contra irmãos, não fazia sentido nenhum. Quando estivesse livre ia até à Europa, descansava disto e ia apanhar outros ares, mas não ficava por lá que esta é que era a sua terra.

Parou o restolhar do capim, atentou no facto de ter acontecido depois do piar do mocho. Desconfiam de qualquer coisa, aperceberam-se que poderia haver por aqui tropa à sua procura, vão ser mais cuidadosos e vão levar mais algum tempo até avançar. Temos de manter a posição em silêncio até ao momento certo, temos de aguardar o seu primeiro passo, depois, avaliar a localização, o número de homens e a direcção que levam e então, só então, desferir o golpe necessário para os capturar.

Fez sinal para o homem que estava, ligeiramente afastado, mas atrás de si, guardando o guerrilheiro capturado, que o amordaçasse, mas era desnecessário, ele sabia o que tinha de fazer e já o tinha feito. Para além disso o prisioneiro estava tão amedrontado que quase tinha medo de respirar, deitado de costas com as mãos e os pés amarrados, não se movia. Voltou-se mais sossegado, tudo estava controlado, agora era só aguardar o primeiro passo, um passo em falso do IN e atiravam-se a eles sem dó nem piedade.

O Branquelas, aquele sacana havia-se passado para o outro lado, o que lhe teria passado pela cabeça? Um branco misturado com aquela gente em ataques e devastações pelo mato fora. Não conseguia compreender, nasceram todos no mesmo bairro, cresceram juntos, tiveram a mesma educação e logo ele, branquinho como a cal da parede, havia de ter esta ideia maluca. O desgosto que deu aos pais nem ele calcula, éramos tão amigos, éramos não, que eu não deixei de o ser, contínuo tão amigo como quando éramos miúdos. A única coisa que peço é que nunca nos encontremos nestas andanças da guerra, sabe-se lá o que aconteceria, qual a reacção de cada um de nós? Não sei se seria capaz de lhe fazer mal e ele? Seria capaz de lhe fazer mal a ele, o Noite Escura da infância deles? Não acreditava, mas nunca se sabe, o melhor mesmo era que nunca estivessem frente a frente.

A amizade tem destas coisas, especialmente a amizade de longa data e tão insistentemente cultivada, deixa os amigos preocupados entre si e aqueles dois, cada um de seu lado, mas ambos preocupados com o outro. Raio da guerra que só nos faz mal, vociferou para dentro da sua cabeça. Que seria da amizade entre as nossas famílias se um de nós eliminasse o outro? Não pode acontecer, de maneira nenhuma, isso nunca. Temos de evitar que isso aconteça e o melhor é mesmo não nos encontrarmos por estes matos.

O ruído, o restolhar do capim, recomeçou, agora com mais cuidado, pensou, sentiu-o aproximar-se da sua posição, iam dar de caras com ele. A adrenalina subiu-lhe à cabeça, os músculos retesaram-se, os dedos crisparam-se em volta da arma e no gatilho, pronto a disparar ao menor sinal de perigo. Uns segundos que levaram toda uma eternidade foi o tempo suficiente para perceber claramente que eram homens que estavam a passar mesmo debaixo do seu nariz, não se moveu um milímetro, suspendeu a respiração, os olhos fixaram-se nas movimentações à sua frente, não moveu um único músculo.

Foi ouvindo o restolhar cada vez mais afastado, lentamente foi relaxando os músculos, voltou a respirar, manteve-se atento à direcção que levavam, não os tinham detectado e encaminhavam-se direitinhos para o centro do cerco que haviam montado. Quando atingissem o ponto de não retorno, onde já não podiam recuar pois o cerco fechar-se-ia atrás deles seria, então, o momento de dar o sinal de ataque. Daí para a frente estava tudo nas mãos de Deus, lançar-se-iam ao ataque com a ferocidade que lhes era conhecida e tentariam capturá-los antes de os eliminarem, se se entregassem, se não opusessem nenhuma resistência, seriam simplesmente manietados e devolvidos ao aquartelamento para averiguações. Se o não fizessem, então, a coisa podia ficar feia, tiros de lado a lado e perigo eminente de ser fulminado, até por fogo amigo.

O som do restolhar deixou de ser ouvido, estavam a caminho do centro da área de ataque, a atenção redobrava, dentro em pouco estavam a ouvir o sinal de ataque, não demorou muito. Noite Escura escutou o primeiro pio do mocho, do outro lado da clareira, logo outro e mais outro, todos à volta da zona de operação, tinham atingido o centro e as alas dos emboscados davam o sinal de localização definida e dentro da zona de ataque. Restava-lhes avançar depois de serem lançados os very lights, a área seria suficientemente iluminada para que a captura dos guerrilheiros se processasse em segurança, passavam a ver tudo ou quase tudo.

Very lights lançados, área de operações iluminada e a ordem de avançar para o objectivo foi dada pelos pios de mocho. Em segundos movimentou-se uma máquina de guerra, preparada e bem oleada, pronta para o embate de gigantes que se ia desenrolar naquela chana, muita coisa ficaria resolvida depois da sua actuação e eles sabiam o que esperavam deles. Movimentavam-se seguros do terreno que pisavam, firmes e resolutos na procura de atingir o ponto central onde tudo se resolveria. Nada podia parar esta máquina a partir do momento em que é lançada ao ataque e ele tinha sido lançado.


publicado por: canetadapoesia às 22:48
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Camuflados na chana (17º Capítulo)

 

Camuflados na chana

Respiração normalizada, do coração já não se ouvia o ribombar das batidas, mais calmos e descansados, estava na altura de se porem a andar, saírem daquela margem e embrenharem-se chana dentro. Ainda tinham muito que andar para alcançar a aldeia que era o ponto de encontro assinalado para o reencontro de todos os que haviam participado no ataque à vila.

Não se esperava que todos convergissem para o ponto de partida de forma organizada e ordeira, isto não era uma força de um exército normal, daqueles que acima de tudo, põem a ordem e os standards de organização como essenciais ao seu funcionamento, isto era um grupo de guerrilheiros. Talvez se possa dizer e diz-se com alguma certeza, que não era um grupo normal, tinha sido aumentado pelo enorme número de homens que a ele se juntou, transformando-o num temível grupo de guerrilha.

O problema é que só se juntaram para este fim, para o assalto à vila que queriam fosse monumental e um exemplo de que a sua força não estava diminuída, como o afirmava a propaganda oficial. Queriam demonstrar que estavam vivos e actuantes e que até conseguiam dominar as tropas, enquadradas e organizadas no terreno. Falharam é certo, mas o susto foi grande e obrigou a uma envolvente militar bastante mais alargada para lhes fazer frente.

Já não se tratava só de lhes fazer frente, estava em causa uma credibilidade que o exército oficial não ia deixar passar em claro, ia rechaçá-los, persegui-los e aniquilá-los ou aprisioná-los para demonstrar, também ele, que era senhor dos territórios à sua responsabilidade. Era o que agora acontecia, tinha corrido com eles da vila, já de si com enormes perdas, em termos de vidas e em prisioneiros, estava a empurrá-los para o local onde, pela emboscada dos fusos seriam mais facilmente capturados, e já tinha em marcha a perseguição que lhes moveria.

Os homens destinados à perseguição que se seguiria ao fracasso do ataque à vila já estavam posicionados no terreno e a alargar a sua área de acção, preparados para só pararem quando nada mais houvesse que reprimir. A ordem era a captura, preferencialmente, e a destruição de todas as bases encontradas. Quando falamos de bases, não se pense que eram aquartelamentos como o da tropa, organizados, defendidos, abastecidos, não, nada disso, falamos de simples aldeias onde, com algum sentido de organização, é certo, mas depauperados de tudo o resto, se concentravam estes homens.

Homens que dedicavam a sua vida a esta causa, à causa da guerrilha, à causa da libertação de um país que consideravam o seu país, usurpado e explorado por outros. Aglomeravam-se nessas pequenas aldeias no meio da selva a que chamavam as suas bases, normalmente junto às fronteiras, daí partiam para as incursões que planeavam, açoitavam as tropas, as colunas militares e civis e destruíam o que podiam para afugentar quem se atrevesse a lá ficar.

Só muito raramente se assistia a uma operação como esta que envolvia tantos guerrilheiros, só se assistia a ela pelo simples facto de que, o movimento, precisava de dar, urgentemente, sinais de vida, de mostrar que estava actuante e que ainda conseguia efectuar ofensivas de grande calibre. Destes sinais, dependia a sua sustentação em termos das participações que recebia dos países que os apoiavam, sem resultados, as ajudas tinham vindo a decrescer chegando a um ponto insustentável, só esta acção revitalizaria toda a confiança no movimento, sem isto seria o fim a breve prazo.

Branquelas deu as indicações necessárias, sairiam dali em direcção à base evitando fazer-se notar, não que receasse de imediato a acção militar naquela zona, afinal estavam nas terras de outro país, mas todo o cuidado era pouco. Nada de conversas, fumar era proibido, entender-se-iam por sinais e, em caso de algum perigo, fariam o que estava combinado, desviarem-se uns dos outros, alargarem a área de procura, para que entre eles houvesse mais espaço e a detecção fosse dificultada.

Seguiram pela chana, capim alto, mais alto que eles, não conseguiam ver nada à sua volta, também ninguém os conseguia ver a eles. A única coisa que os poderia denunciar era o ligeiro restolhar que, ouvidos atentos e apostados em os detectar, poderiam de imediato relacionar com o caminhar de seres humanos que os animais faziam outro tipo de ruídos. Por mais cuidado que tivessem tinham sempre de produzir estes pequenos ruídos, fosse a afastar o capim ou a pisar algum galho mais seco e, neste silêncio absoluto que a noite produzia, onde só se ouviam o piar das aves noctívagas, soavam como badaladas de sinos, estrondosos.

Aquele ruído de hélices de helicóptero que lhe pareceu ouvir ao longe, minutos atrás, soou-lhe agora na cabeça, mais nítido e mais aterrador. Os comandos, transportaram-nos para o teatro de operações. Agora estava mais acutilante nos seus pensamentos, se os trouxeram de hélis de certeza que vão atravessar o rio e fazer a perseguição Zazânia dentro, temos de redobrar cuidados, simultaneamente fez sinal aos companheiros levando o dedo indicador aos lábios e fazendo-o rodar à volta do pulso, sinal de hélis na zona.

Agora o silêncio que já era brutal, acentuou-se e até os movimentos de afastar o capim se tornaram mais lentos. Na noite, só as aves se faziam ouvir. Branquelas levanta os olhos para o céu, não estava uma noite muito escura, mas tinha a sensação que estava a escurecer mais. Reparou nas nuvens, fiapos de uns e de outros lados estavam a construir outras maiores, estavam a juntar-se e, as maiores, já se notavam mais negras, ia chover e aqui quando chove, chove mesmo, tinham de alcançar terreno mais alto antes dela cair ou sujeitavam-se a ficar encurralados na lama que produziriam ao contacto com o solo e aquela terra árida e seca onde só o capim se desenvolvia com a humidade subterrânea.

E nesse instante de uma solidão extrema, mesmo com os companheiros a seu lado, sentia-se só, muito só, longe de todos os que amava e que sempre o amaram, lembrou-se de novo dos amigos de infância, do Meia de Leite, longe e seguro, do Noite Escura, engajado noutro exército, um combatente especial. Torturou-se nos seus próprios pensamentos, será que ele estaria entre os que para aqui foram transportados? Não podia ser, era coincidência a mais, era um golpe sujo do destino vir a por frente a frente dois tão grandes amigos de infância.

Acontecesse o que acontecesse, não queria que isto viesse a ocorrer. Como reagiriam? O que fariam? Numa situação destas, o que teria mais peso? A amizade? O dever? Não, não podia acontecer, era demais para ele, nunca imaginaria estar numa situação destas, o branco que milita num movimento elimina o negro do exército oficial, como soaria isto aos ouvidos de todos? Que aconteceria a famílias tão amigas como as deles? Seria ele capaz de uma atitude destas? Eliminar o melhor amigo de infância? Que Deus me poupe a uma situação destas.

E despertou de repente, os sentidos estavam na máxima atenção e notou uma pequena, quase imperceptível alteração do meio ambiente. O piar das aves nocturnas desapareceu de repente, mas ele ouvia algo, ouvia algo que não lhe agradava mesmo nada. Um pio de mocho nocturno, outro pio respondeu, mas de uma distância enorme, ainda outro e outro e mais outro, todos separados por distâncias consideráveis. Levou o dedo aos lábios, abanou a mão direita no sentido descendente, os companheiros estacaram, agacharam-se aguardando as suas instruções.

Estavam em tensão máxima, agora, Branquelas, ouvia claramente o coração a bater desalmadamente, a adrenalina subia-lhe ao córtex cerebral, tentava desesperadamente pensar. Queria encontrar uma solução que lhes permitisse sair dali ilesos e sem serem capturados, não conseguia pensar, estava agora preparado para uma reacção imediata ao perigo que os cercava e ele lá estava, na forma dos comandos espalhados por aquela chana imensa em que também eles se acoitavam e procuravam passar dissimulados. O piar do mocho nocturno a distâncias tão díspares soltou-lhe a imaginação e o entendimento daquilo que se estava a passar.

Afinal o que ele temia aconteceu. O exército oficial ia capitalizar, o ataque que tinham feito, a seu favor e com base na sua protecção e segurança resolveu efectuar a perseguição muito para além das suas fronteiras. Entraram na Zazânia com toda a pujança das suas forças especiais, os seus comandos estavam na zona para perseguir todos os que conseguissem salvar-se do ataque à vila e, estava certo, seria mais devastador. Não sairiam sem aniquilar ou capturar todos os que pudessem e destruir os parcos meios de subsistência que mantinham nas lavras ao redor das aldeias, a experiência de todos estes anos garantia-lhe isso.

Por meia hora mantiveram-se ali, agachados, ouvidos atentos, nem um som, não se ouvia nada, até a passarada estava silenciosa o que era mau presságio. Quando se calam é sinal que há animais na redondeza e estes talvez sejam os mais ferozes da natureza, os que matam, não por necessidade de se alimentarem, mas por razões políticas, por razões que só o animal homem descobre, inventa e desenvolve. Não seriam eles a mesma coisa? Pensou Branquelas, eram com certeza produto do mesmo fabrico, o animal homem, o animal mais feroz do mundo, o predador irracional e sem escrúpulos que lutava, matava e destruía em nome de algo que ele próprio tinha criado, o sentido de dever à pátria.


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Terça-feira, 6 de Março de 2018

Construindo gaiolas (16º Capítulo)

 

O dia amanheceu e os três mafarricos saltaram das suas camas, em cada uma daquelas casas logo começou o reboliço matinal. Lavar-se, vestir-se, tomar o pequeno-almoço, que era proibido dar início à brincadeira com os estômagos vazios, passarem pela primeira revista do dia, ouvir as recomendações, ignorá-las de seguida e desaparecerem da vista das mães.
O encontro, como habitualmente, era no ringue de patinagem, no largo. O primeiro a chegar, como de costume, esperava pelos outros e não tinham de esperar muito que todos tinham a mesma ânsia de brincadeira, de se juntarem a planear o dia, a decidir por onde começar ou o que fariam. Três amigos inseparáveis, colegas de escola, vizinhos e companheiros de brincadeira, só a vida os separaria, mas isso era muito mais para a frente, agora não se pensava nisso, até porque não eram adivinhos nem liam o futuro numa estrela qualquer.
Já a bola rodopiava no centro do ringue, entre três ou quatro dos habituais frequentadores, entre eles Noite Escura, um dos mais novos putos do bairro, ele e mais os outros dois amigos. Era sempre um dos primeiros a chegar, conseguia, quase por artes mágicas, desfazer-se das obrigações matinais e garantir à mãe que tudo correria bem durante o resto do dia, que não havia lugar a preocupações, que se portaria bem e que não fariam nenhuma loucura. Tudo estava certo vai, vai ter com os teus amigos e não te esqueças… não me esqueço mãe está descansada.
Direitinho ao largo, o primeiro a chegar. Quando viu o Tito a dar uns toques na bola logo se prontificou a fazê-lo com ele. És um puto muito pequeno nem sabes chutar a bola. Pelo menos vamos tentar e logo se vê, se não gostares eu deixo de jogar. Está bem, vamos a isso, para a cabeça, boa, conseguiste, mais uns chutos depois e a chegada de mais uns crescidotes e já Noite Escura era parte daquele grupo de chutos à bola. Inseriu-se pela sua perícia, daí para a frente seria solicitado amiúde para fazer parte das equipas que se formavam para umas partidinhas de futebol. Claro que isso acabava por chocar com os patinadores habituais já que os jogos se desenvolviam no ringue de patinagem, mas nada de mais, uns berros uns encontrões e chegava-se a um consenso equilibrado, manhãs para a bola, tardes para os patins.
Ainda Noite Escura dava uns chutos e já Branquelas e Meia de Leite se empoleiravam na vedação do ringue à espera que ele saísse para darem início ao seu próprio dia de aventuras. Mais uns chutos e Noite Escura abandona a quadra, cansado e suado. Estão à minha espera? Que é que te parece? Pões-te para aí aos chutos à bola e nós aqui a aguentar. Chegaram mais tarde do que eu o que queriam que fizesse? Fui adiantando o dia que um joguinho de bola até faz bem à saúde, estou pronto, vamos andando. Vamos trabalhar para onde? Vamos para a minha garagem que a minha mãe não está em casa e assim estamos mais à vontade, até podemos surripiar umas colas da geleira para ir matando a sede.
Saíram do largo, deram a volta em direcção à João de Almeida, contornaram a esquina com a João de Deus, uns passos mais à frente abriram o portão, entraram no quintal em direcção à garagem. A casa estava sossegada e em silêncio, do seu interior não vinha nenhum dos ruídos habituais, limpeza da casa, arrumações, eu sei lá, aqueles barulhos normais numa casa habitada por pessoas. Na garagem começaram a tomar decisões quanto ao desenrolar do dia. Primeiro que tudo, para que a coisa corra bem vais buscar as coca-colas e assim vamo-nos preparando para o árduo trabalho que nos espera.
Meia de Leite assentiu com a cabeça, virou-lhes as costas e meteu pelo jardim direitinho à cozinha. Empurrou a porta e entrou que aqui nada ficava fechado à chave, também para quê? Não havia ladrões e sempre dava mais trabalho fechar a porta à chave e voltar a abrir, sendo que, tinham de andar sempre com a chave, assim era tudo mais fácil, empurrar e entrar. A mesa da cozinha despertou-lhe a atenção, aproximou-se e verificou que a mãe tinha deixado uma merenda preparada, um bilhete escrito mesmo ao lado, significava que era obrigatório ler. Pegou no bilhete e leu, “está aqui um lanchinho para o meio da manhã, comam e não se empanturrem de coca-colas, como de costume, que isso não alimenta, venho mais tarde e já deixei na geleira comida para o almoço.”, mas quem é que quer comida para o almoço, pensou ele, mas o lanchinho até vinha a calhar.
Pegou nas sandes e nas coca-colas e levou-as para a garagem. Abusaste Meia, a tua mãe vai-te surrar, foste à geleira e além das cocas ainda trazes sandes? Nada disso, foi ela que deixou em cima da mesa da cozinha, até parece que adivinhava que vínhamos para aqui hoje. O que é que as mães não adivinham gritaram em coro. Depuseram o lanche e as cocas na bancada e começaram a separar os pauzinhos de madeira e bordão para a confecção das ditas gaiolas, aquelas que eles esperavam vir a ser utilizadas para confinar as celestes, viuvinhas e bicos de lacre que conseguissem apanhar. Depois deste intenso trabalho, Branquelas sai-se com a frase lapidar que todos receavam exprimir, “estou cá com uma larica”, pronto, desabou.
Todos estavam com larica, e este trabalho de separar as madeirinhas ainda lhes abriu mais o apetite. O melhor é fazermos um intervalo, trincar qualquer coisita e beber uns goles, depois continuamos o trabalho, que acham? Boa ideia, estávamos mesmo a precisar de um intervalo. São mesmo uns calões, atira Noite Escura, ainda agora começaram e já estão a baldar-se ao trabalho. Vai-te catar Noite, se não queres a sandes não comas que eu divido-a com o Meia e olha que não sabes o que perdes, são feitas pela mãe dele, sabes o que têm, sabes? Já devias saber que são sempre uma maravilha, peitinho de frango desfiado e sem ossos, sem ossos, é só trincar, e pelo meio ainda levam daquela coisa acastanhada, como se chama? Mostarda, diz Meia de Leite. Pois, mostarda, é isso mesmo, dá-lhe aquele sabor meio picante e, se apertares bem vês a mostarda a sair aqui pelos cantos. Se não a queres não se vai estragar, está descansado. Quem disse que não a queria? Só estava a chamar a atenção que assim nunca mais acabamos as gaiolas, passam a vida a parar e a fazer intervalos. Não te preocupes que o mundo não acaba hoje. Se não acabarmos as gaiolas hoje acabamos amanhã, e, com sorte ainda temos outro lanchinho destes.
Pegaram no lanche e nas cocas e foram para debaixo da mangueira que estava mais sombrinha, escolheram os lugares, sentaram-se à volta do tronco grosso da árvore e cada um retirou do prato um pão. Um gole de coca-cola e uma dentada no pão, em uníssono, deixaram sair pelas cordas vocais a sua satisfação, está mesmo bom, apetitoso, dá duas a cada um. Maravilha. Depois disto, construir gaiolas não custa nada. Durante um quarto de hora só se ouviu o mastigar do pão e o engolir da coca-cola, uma vez por outra, um som indeterminado soltava-se daquelas gargantas, mas não queria dizer nada, era só satisfação mesmo.
Olhavam para o pão, davam uma trinca, mastigavam e olhavam para a copa da árvore que gentilmente os protegia do sol. Até as árvores eram suas amigas, pensaram. Meia, tens aqui umas mangas madurinhas, será que não as comes? Andas a deixar estragar esta fruta boa? Não dá para comer todas de uma vez, vamos apanhando e comendo quando calha. Pópilas! Com este aspecto tão doce não parava de comê-las. Acho que vou apanhar umas para sobremesa deste lanchinho, vocês não querem umas? Vou trepar, diz Branquelas. Nada disso, eu é que vou, a mangueira é minha e nem se sentiria bem a ter outras pessoas a subir por ela, remata Meia de Leite, só mais um golinho e já lá vou acima retirar algumas para trincarmos.
Eh pá, já me esquecia, tenho um problema para resolver. Que problema tens tu, Meia? A minha mãe deixou comida na geleira, para o almoço e se não a como vai-me chatear e até me dá nas orelhas depois de ver que fomos às coca-colas e não lhe toquei. E o que é a comida, pode saber-se? Esparguete com almôndegas. É bom, diz Branquelas, mas também não me apetece nada, nem a mim, atira Noite Escura, estas colas enchem. Então estou frito, vou mesmo levar nas orelhas, bem podiam ajudar-me e comer qualquer coisita. Não dá, estamos a rebentar pelas costuras. Não te preocupes, diz Noite Escura, tenho uma solução. Qual é, pergunta Meia de Leite, diz-me que preciso de resolver este assunto. Essa comida até é boa demais, mas a solução que te vou dar garante-te um amigo para sempre, vai buscar a comida que já te mostro o que vais fazer.
Retorno à cozinha, retirar a comida da geleira, Meia de Leite reaparece no quintal com uma tigela repleta de esparguete com almôndegas. Pópilas Meia, a tua mãe cozinha para uma tropa inteira. Ela acha que eu estou sempre cheio de fome, diz que é para crescer, mas por mais que coma fico sempre pequenino. Nasceste em dias curtos, é o que é. Pega é na tigela e chama o Tarzan. O Tarzan? Já percebi, és mesmo um génio Noite, só tu te podias lembrar desta solução e é a melhor e a mais rápida, ele vai limpar tudo. Olha que pareces mais inteligente do que és, provoca Branquelas, desculpa, enganei-me, queria dizer mais inteligente do que pareces. Estás sempre a trocar as frases para me chatear, um dia ainda te vou ao focinho, mas hoje não que estou cansado, riram-se os três.
Um assobio de Meia de Leite e Tarzan, o seu cão, rafeiro que não havia essa coisa de cães de raça, aparece lampeiro e a abanar a cauda, uma marradinha em cada um e uma lambidela em Meia de Leite compõem os cumprimentos do animal. Estendem-lhe a tigela e Tarzan, sem se fazer rogado atira-se a ela, depois de umas trincadelas sôfregas, levanta a cabeça na sua direcção como agradecendo tamanho manjar e termina a imensa quantidade de esparguete com almôndegas, atira a língua para fora e lambe a tigela, não deixa nada que se veja que ali esteve comida. Olha para eles agradecido, que rico almoço, venham mais vezes que eu tomo conta de vocês, e tragam mais disto que eu gosto, parecia dizer. Afastou-se um pouco e deitou-se a remoer tão excelente comida, um rosnar de felicidade saía-lhe agora das narinas.
Agora vai lavar a tigela antes que a tua mãe chegue e sinta o cheiro do cão que aí sim, levavas poucas se ela soubesse que a deste ao Tarzan. Depois vamos às mangas. Meia de Leite assim faz, a mãe nem vai acreditar, comeu tudo e ainda lavou a tigela, este meu filho está a ficar cada vez melhor, mais atinado e até ajuda a mãe, sim senhor, vais longe. Tenho de dizer ao teu pai como te estás a portar e até tens direito a prenda e tudo, imaginações de Meia de Leite a funcionar em pleno.
Acercam-se da mangueira, os braços cruzados de Branquelas e Noite Escura servem de cadeirinha e apoio aos pés de Meia de Leite para um primeiro impulso que o alcandora ao ramo mais acima. Segura-se a ele com os braços, eleva as pernas e enrola-as à volta do tronco forte do ramo, endireita-se, está em cima da mangueira. Vejam daí de baixo onde estão as mais maduras e vão indicando para eu lá chegar. Mais acima um bocadinho, trepa ao outro ramo, isso, chega-te mais à frente e estica o braço, logo aí tens duas amarelinhas. Vai deixando cair que as apanhamos aqui. No ramo do lado tens mais três, e por aí fora até que meia dúzia delas tinham sido colhidas. Agora cá para baixo que as vamos comer.
Meia de Leite olhou para trás, estava afastado do ramo principal, bastante mesmo e agora se dava conta de que este, muito mais fino e menos resistente, começava a dar uns sinais estranhos. Começou por dobrar-se mais do que esperava e um estalo por baixo do seu corpo deixou-o de sobreaviso. Pânico, o ramo estava a partir-se e, daquela altura, se caísse, ia partir a cabeça pela certa. Tentou retroceder rapidamente para evitar a queda, já não foi a tempo. O movimento rápido acelerou a quebra do ramo. Meia de Leite viu-se a voar que nem passarinho, mas sem asas, e sem asas só podia cair, assim foi, caíu.
Estatelou-se em pleno quintal, caiu e torceu uma perna, pensava, que ficou debaixo do corpo. Doía-lhe imenso, Branquelas e Noite Escura, aparvalhados com este final infeliz não sabiam o que fazer. Tentavam levantá-lo mas, a cada movimento um grito de dor saía da boca de Meia de Leite, partiu a perna diz Branquelas, não consegue pôr-se de pé. Que fazemos Noite Escura? Vai a minha casa e chama a minha mãe, que venha já que o Meia está mal, ela vai ajudar-nos. Corre Noite escura a casa de Branquelas chama pela mãe, nem lhe dá tempo a saber o que se passa, arrasta-a com ele para casa de Meia de Leite. Que se passou aqui? Porque estás no chão Josué? Caiu da mangueira, dizem em coro os outros dois, deve ter partido a perna. E agora? Que fazemos? Não está cá ninguém que tenha carro, como o vamos levar ao hospital?
Vão ao sr. Baptista, da mercearia, que ele é capaz de nos ajudar a levá-lo na carrinha dele. Correm rua fora até ao outro largo, entram desabridos na mercearia onde o sr. Baptista conversava com a mulher, poucos clientes àquela hora. Que se passa com vocês, parece que viram algum bicho. Não sr. Baptista, o Meia de leite, isto é, o Josué, caiu da mangueira e partiu a perna e a minha mãe pede se o sr. nos pode levar até ao hospital que não há cá mais ninguém com carro para isso.
O sr. Baptista, beirão de gema, vai tirando o avental ao mesmo tempo que passa umas recomendações à mulher, vamos já, que se não for tratado a tempo ainda pode ficar com marcas para o resto da vida. Entram na carrinha, Datsun, caixa aberta, lá vão em direcção a casa do Meia de Leite, saem da carrinha, ainda a trabalhar e assim ficou para ser mais rápida a saída. O sr. Baptista pega em Meia de Leite ao colo, leva-o e deposita-o na caixa de carga da carrinha, deitado. Não faças força, deixa-te estar assim que é um pulinho até São Paulo, vamos aqui por dentro que é mais rápido. A mãe de Branquelas ao lado do condutor, o sr. Baptista, os putos na carroçaria, acompanhando o amigo. Segurança, proibição? Qual quê, emergência, isso sim e quando o amigo precisa não há polícia que impeça uma deslocação destas, também não havia proibição de galopar as estradas na caixa de carga de nenhuma carrinha. Vamos embora em direcção ao grande hospital de São Paulo, hospital universitário, como também era conhecido.
Paragem frente às urgências, maca, transporte para o interior, só a mãe de Branquelas entrou que ele era como um filho e como o seu o trataria. Os dois amigos e o sr. Baptista, esperaram cá fora, nervosos, preocupados com o estado de Meia de Leite e com o que diriam à mãe e ao pai dele quando chegassem a casa e soubessem do acontecido. Logo se resolveria, o que importava agora é que ele fosse tratado, e foi. Passado uma boa hora e meia aí vem Meia de Leite de muletas e com a mãe de Branquelas ao lado, impante e ufano na sua perna engessada.
Que tal correu? Ora sr. Baptista, uma perna partida sem mais consequências, está tratado, daqui a uns dias vem tirar o gesso e fica como novo. Raio dos miúdos, porque é que não vão comprar as mangas lá à loja em vez de andarem a subir árvores para as colher. Sempre a fazer publicidade ao negócio este sr. Baptista, então não vê que lhes sabem melhor quando as apanham na árvore? São novos, deixe-os lá crescer, têm muito tempo, quem me dera ficassem sempre assim. Vamos andando? Vamos, deixa-me ajudar-te a subir para a carroçaria que tens de ir com a perna esticada, vocês os dois, lá para cima também, vamos mais devagar que agora já não temos pressa.
Obrigado pela sua ajuda sr. Baptista, sem ninguém com carro aqui por perto ia ser difícil e chamar um táxi, não ia ser fácil, tínhamos de mandar um dos miúdos para a esquina da rua e sabe-se lá, quando passaria um. Ainda não havia telefones por todo o lado como agora, era bem mais complicado comunicar, mas, mesmo assim, tudo se resolvia. Ora não pense nisso D. Maria, estamos cá para isso mesmo, se não ajudamos a comunidade, aqueles que afinal são os nossos clientes, quem ajudamos, aqui neste bairro somos quase uma família, todos nos conhecemos e todos se entre ajudam e eu sinto-me muito feliz por poder participar e ajudar no que for possível.
Mais um dia de aventuras e que aventuras, ainda faltava a chegada dos pais de Meia de Leite, o que diriam? Nada de mais, com certeza, só a constatação de que o filho que tinham deixado inteiro antes de saírem de casa, estava agora com uma perna engessada e que, graças aos amigos e vizinhos, tinha sido tratado, acarinhado e nada de mais lhe acontecera. Mais um dia na Vila Alice.


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Segunda-feira, 5 de Março de 2018

Europa, finalmente (15º Capítulo)

 

 

Como previsto pelo cônsul, uma semana e meia depois estava e embarcar com destino à Europa, directamente para a capital de um país que acolhia a maior parte das organizações europeias, Bruxelas. O embarque fez-se normalmente, já que se encontrava documentado como refugiado político e com residência no país que o iria acolher, sem contratempos. Mesmo que os houvesse, ali estava, a seu lado, o cônsul da Bélgica no país, para resolver qualquer entrave que aparecesse.

Cerca de oito horas de vôo, nada de mais quando a perspectiva era alcançar a liberdade que tanto procurava. Sentia-se eufórico, tinha conseguido, apesar de todas as peripécias por que tinha passado, estava a caminho da liberdade, pelo menos daquilo a que ele chamava liberdade. Era como se lhe tivesse sido dada uma segunda oportunidade, uma oportunidade que não ia desperdiçar, era um novo começo de vida. Uma mudança que lhe possibilitaria ficar longe daquela guerra, também dos amigos, isso doía-lhe, mas estava convencido que não duraria sempre e que um dia, sim, um dia se haviam de juntar todos outra vez. Recordariam os melhores tempos da sua vida e voltariam a estar ligados de novo, como quando eram crianças, para toda a eternidade, sonhava Meia de Leite enquanto voava sobre as nuvens de um novo mundo.

O primeiro contacto com o país, com a sua cultura, com a língua, teve-o ali, em pleno ar, as hospedeiras falavam francês, embora dessem instruções também em inglês, mas a forma de se fazerem entender era na língua materna, o francês. Tinha-o estudado no liceu, gostava de dizer que falava francês, naquela altura era uma língua forte no ensino, mas de facto, agora que tinha de a utilizar, encontrava enormes dificuldades. Tinha falta de traquejo, faltava-lhe, sem dúvida a prática da conversação, havia de a adquirir já que, para onde ia não se falava outra coisa.

Senhoras e senhores: dentro de momentos será servida uma refeição quente a bordo do nosso vôo, soou no mecanismo de comunicação interna. Ajeitou-se na cadeira, fez descer a mesa presa nas costas do assento da frente, libertou-se do cinto de segurança que não tinha tirado desde que se sentou no avião. Que rico lugar, mesmo ao lado da janela, podia ver tudo o que aparecesse naquela pequena nesga, o que queria e o que o deixava triste. Olhou para fora, àquela altitude só nuvens, mas um céu limpo, brilhante, um céu autenticamente do continente que abandonava. Sentiu um lampejo de tristeza passar-lhe pelos olhos e, mais uma vez, se lembrou dos mafarricos que ali não estavam, mas despertou, deixou de lado essa nuvem escura e fixou-se naquela que queria descobrir, mais clara, mais limpa, que lhe desse mais perspectivas de vida.

Foi servida a refeição a bordo, comeu com gosto e satisfação, saboreando cada pedacinho da salada que lhe serviram, mesmo que alguns, mais habituados a estas viagens, torcessem o nariz a esta comida, para ele, foi um manjar dos deuses. Recolheram as sobras, passado meia hora voltaram à carga, carrinhos apropriados para um espaço tão curto, entre as cadeiras dos passageiros, subiam, e desciam o corredor. Os passageiros amofinavam-se na escolha e aquisição de vários objectos que iam dos perfumes aos óculos Ray-Ban, tudo a preços livres de impostos e muito mais baratos que os que se conseguiriam em qualquer loja de um país em que o seu comércio estivesse repleto destes bens. Também ele olhou para o catálogo, escolheu o que gostaria de comprar, mas ficou-se por aí, não tinha capacidade económica para o fazer e portanto, limitava-se a fingir que os comprava, escolhia-os e deixava-os onde estavam.

Meia de Leite olhava pela janela e já se imaginava a descer do avião em plena Europa, longe da sua África natal, longe da família que sempre o amparou e acarinhou, longe dos amigos, não conseguia ordenar estas saudades, qual seria a mais importante? Não sabia, todas eram igualmente parte da sua vida, de uma outra vida que agora ia começar uma nova. Mesmo assim, apertava-se-lhe o coração por ter tomado a decisão, por se ter posto a milhas e não ter falado com ninguém, nem família, nem amigos. Estava prometido, seria a primeira coisa a fazer assim que pusesse os pés em terra e se sentisse, minimamente, organizado.

Senhoras e senhores: dentro de momentos aterraremos no aeroporto de Bruxelas, para segurança de todos os passageiros, agradecemos que mantenham os cintos apertados até que se apague o sinal. Cumpriu o conselho, apertou o cinto de segurança, endireitou-se no lugar e aguardou a aterragem. Tinha visto pela janela a aproximação à cidade, a inclinação que o avião adquiriu ao tomar posição frente à pista de aterragem, deu-lhe uma panorâmica da imensa cidade que se encontrava a seus pés, extensa pensou para si. Com alguma excitação demorou o olhar quanto pode em direcção ao atomium, a única coisa que verdadeiramente se lembrava de conhecer por leituras de revistas, que lindo era visto daquela altura, tinha de o visitar.

Lentamente o avião desce até se encontrar ao nível da pista, quase sem se sentir, poisa os enormes pneus no asfalto da pista, desloca-se em alta velocidade que rapidamente vai reduzindo até se quedar num lento passeio pela pista. Meia de Leite não perde nada do que se passa à volta, não tira os olhos da janela, vê o avião aproximar-se de uma das mangas do aeroporto, a sinalização exterior por um funcionário do aeroporto, sente a velocidade a cair e após um silvo, que presume ser da activação dos travões do avião, confirma a paragem junto à manga. Agora, mais uns minutos e estaria em território Belga. O sinal de cintos apertados apaga-se, desaperta o cinto, levanta-se ao mesmo tempo que dezenas de outros passageiros, todos com pressa de sair. Volta a sentar-se e aguarda que alguns passageiros libertem o espaço entre os assentos, levanta-se de novo e procura a sua bagagem no armário por cima da sua cabeça, retira-o e segue na fila para fora do avião, entra na manga que o levará ao edifício principal e ao controlo de entradas.

Uma lágrima escorreu-lhe pela cara onde, um sorriso nos lábios garantia a quem o via a sua satisfação, a sua felicidade por ter finalmente pisado o solo europeu. África ficava lá muito para trás, não fazia ideia se alguma vez lá voltaria a verdade é que queria voltar a estar com os seus amigos, quando? Não sabia, mas acreditava que um dia ia acontecer. Aproximou-se do balcão do controlo, entregou os documentos que o consulado lhe tinha fornecido, aguardou sorridente até que o funcionário da polícia o informou que teria de aguardar na sala de espera, logo ao lado do balcão, que alguém o viria buscar para o encaminhar para uma residência de apoio. Esta não esperava, até tinham uma residência de apoio aos refugiados que chegavam ao país, estava cada vez mais satisfeito com a escolha, sentou-se e aguardou que o viessem buscar.

Não esperou mais de meia hora e uma agente da emigração aproximou-se, apresentou-se e, ajudando-o a pegar nas bagagens, levou-o consigo para fora do aeroporto. Uma carrinha de sete lugares esperava-os, entraram sentaram-se na fila de bancos logo a seguir ao condutor, outro agente, a que o acompanhou, sentou-se a seu lado e logo lhe foi explicando como as coisas funcionavam, quais os seus direitos e as respectivas obrigações e responsabilidades. Era a encarregada do seu acompanhamento, tudo o que precisasse teria de passar por ela, todos os passos que viesse a dar tinham de ser conhecidos por ela, tudo faria por ajudá-lo a integrar-se na sociedade que o acolhia e à qual viria a ser útil a seu tempo. Por hoje bastava, era-lhe destinado um quarto, numa residência comum, onde outros já se encontravam, iria descansar, arrumar-se e amanhã, bem cedo ela lá estaria para ultimar os procedimentos necessários à sua nova cidadania.

Atónito com tanta eficiência, com a recepção que tivera e sobretudo com o acompanhamento que teria, tudo seria mais fácil deste modo e, sobretudo, teria alguém com quem falar e dar os primeiros passos na prática da língua, na absorção da cultura de um povo diferente, teria uma companhia num país e numa cidade diferente, que não conhecia. Estava realmente deslumbrado, que maravilha, pensava, que pena os outros dois não estarem ali com ele, iam ficar contentes como ele estava neste momento. A agente despediu-se sem que deixasse de lhe lembrar que estaria ali cedo, e cedo era por volta das oito horas da manhã.

Bem, o dia estava a acabar, ele tinha chegado bem, estava satisfeito com tudo até àquele momento, era hora de arrumar os seus pertences nos armários, dar uma volta pelo quarto, se se podia chamar quarto àquilo uma sala suficientemente grande para servir de quarto de cama e sala, uma casa de banho, sóbria mas funcional, isto era um apartamento, um pequeno apartamento inserido num enorme edifício onde instalavam todos os que vinham na mesma situação que ele. Podiam cozinhar na própria sala, ao canto havia uma pequena cozinha com todos os apetrechos indispensáveis, excelente pensou, assim ainda poupo alguma coisa confeccionando as minhas próprias refeições. Melhor, era impossível.

Estava cansado, não por ter feito nenhum esforço especial, mas por tudo o que tinha passado desde a sua partida de casa, da Vila Alice, ou, talvez, fosse da tensão em que tinha vivido até ali chegar. O facto é que agora sentia essa descompressão que se sente quando se está em segurança, longe de problemas e ameaças que não se quer enfrentar. Só tinha um receio, o clima, era muito mais agreste do que imaginara, ia ter de viver com isso, mal saiu do aeroporto e olhou o céu, logo se deu conta do cinzento que era e o frio que sentiu, esse entrou-lhe pelos ossos dentro, apesar de ter vestido o casacão que lhe ofereceram, sentiu-o, eles sabiam o clima que teria de enfrentar. De facto, era diferente daquele a que estava habituado, tinha de se adaptar, ia adaptar-se. Era aqui que a sua vida ia começar e não seria o clima que o impediria.

Despiu-se, deitou-se, apagou as luzes, pela janela envidraçada e sem as cortinas corridas viu a luz da rua a entrar-lhe pelo quarto, não se importou, gostava de adormecer assim. Vieram-lhe à mente as brincadeiras de infância com os seus companheiros de toda a vida, pelo menos da vida até à sua deserção. As idas aos pássaros, as corridas de rolamentos, as tardes passadas no largo a andar de patins, os assaltos à macieira, será que havia maçãs da índia em Bruxelas?


publicado por: canetadapoesia às 21:00
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Domingo, 4 de Março de 2018

Perseguição (14º Capítulo)

A ordem chegou via rádio, era imperioso progredir para o embarcadouro, os fuzileiros estavam a postos, a segurança do perímetro estava por eles assegurada e estavam prontos a fazerem o transporte dos homens para a outra margem. Era importante que se apressassem, pois, a retoma da vila corria a bom ritmo e começava a verificar-se que umas pequenas brechas se abriam entre as hostes do IN, seriam empurrados para lá, como tal, era bom que os comandos já estivessem a progredir em terrenos hostis, bem dentro da Zazânia.

Noite escura deu o sinal de reunião aos seus homens. Foi-lhes dada a indicação de progressão rápida em direcção ao embarcadouro, seriam transportados para a outra margem onde, os primeiros, criariam um perímetro de segurança para o desembarque dos camaradas e seguiriam depois para o interior da chana adjacente em formação de combate e perseguição, aguardando emboscados até ao momento que fosse dado o sinal de ataque ao IN, podia demorar algum tempo, o silêncio e a ocultação eram essenciais para não demonstrar a sua presença. Todos entendidos, todos cientes da sua parte do trabalho a efectuar. Em marcha e progredindo para o objectivo imediato, o embarcadouro.

Ali chegados depararam-se com cerca de oito zebros, já a funcionar e prontos a zarpar, embarcaram, apertaram-se lateralmente, uns nos outros, o espaço era diminuto, mas com algum cuidado, cabiam dois grupos de cada vez. Largaram em direcção à margem oposta, os primeiros a chegar saltaram para a margem e imediatamente se espalharam e penetraram na chana para garantir o bom desembarque dos restantes. Três vezes fizeram esta travessia, três vezes levaram os homens e em cada viagem, oitenta comandos eram despejados na margem oposta, no fim, tínhamos contado 320 combatentes dos melhores militares, especiais, que havia no mundo, prontos para o que desse e viesse.

Entraram nas chanas e desapareceram do olhar humano, estavam invisíveis, mas presentes e atentos. Ninguém diria que naquela chana, naquele imenso mar de capim alto se acoitava a elite, o escol das forças de ataque oficiais, nem um som, nem um ruído por mais pequeno que fosse, só silêncio, quase um paraíso. Mesmo a passarada, tradicionalmente tida como sinal de presenças estranhas, pela sua ausência, ali se mantinha impávida e serena, saltitando de ramo em ramo, um paraíso na terra, diria qualquer passante que ignorasse a presença destes homens.

Ouviam ao longe, para os lados da vila os tiros e rajadas que iam identificando como sendo dos deles ou do IN, os sons eram inconfundíveis. De um lado as G3 com o seu som mais pesado e uma cadência de tiro inferior às “costureirinhas”, nome por que eram conhecidas as Kalashnikov da guerrilha, com um som mais fino, como se fosse uma máquina de costura, daí o seu nome, a cadência de tiro também era maior, eram mais leves e mais fáceis de transportar. Nada que assustasse os soldados, já se haviam habituado às suas G3 e até lhes chamavam, carinhosamente “BIC’s”, as esferográficas, eram bastante fiáveis desde que tratadas com os cuidados necessários, por isso, muitos traziam sempre consigo, nos bolsos, um instrumento de limpeza.

Este instrumento de limpeza era uma coisa bastante simples e fácil de transportar, limitava-se a um fio de nylon, uma corda se quiserem, em cuja ponta era adicionado um pequeno trapo. Em caso de necessidade e mesmo em situações normais, era usado para limpar o interior do cano da arma evitando acumulações de poeiras que poderiam prejudicar a acção e em alguns casos encravar a bala no seu interior. O seu funcionamento também era de uma simplicidade extrema, metia-se o fio pelo cano até aparecer do outro lado, depois era só puxar, ao passar pelo cano vai limpando todas as matérias inadequadas que ali se instalavam, bem simples e resolvia muitos problemas.

O bombardeamento ao aquartelamento continuava, esses ouviam-se bem dado o potencial da carga explosiva que continham os morteiros lançados. Para obviar a esta flagelação e eliminar a ameaça que representava, para quem defendia o quartel, foram destacadas meia dúzia de equipas de combate já que se desconhecia o número de guerrilheiros e a segurança que tinham montado ao redor do cume do monte. Tinham de alcançar o cimo nas condições habituais, silenciosamente e sem serem notados, para que a sua aparição fosse uma surpresa total. Assim aconteceu e em menos tempo do que seria esperado o reduto foi tomado e eliminada a ameaça que dali provinha. De repente terminaram as descargas de morteiro sobre o quartel, sem resistência, foram manietados e agrupados para recolha pelos caçadores que para ali se dirigiam.

As mesmas equipas que operaram esta eliminação asseguraram a emboscada daquele lado e assim se espalharam por uma área bastante extensa, mas não o suficiente, era muito grande, as laterais da chana, matos cerrados, seria o trilho por onde se encaminhariam as tropas especiais, os recuperados. Para além de garantirem que ninguém fugiria por ali, também tinham a missão de, depois de dado o sinal de ataque, destruírem todas as aldeias que encontrassem pelo caminho, não antes, que isso seria o mesmo que informarem que ali andavam, era a devastação total. Tudo preparado, tudo a postos.

Aqueles momentos de paz que antecediam o inferno da guerra devastadora em que andavam eram essenciais para manter o seu equilíbrio. Era nestes momentos que revia a sua vida, que pensava na família, nos seus pais, nos amigos, os amigos aqueles mafarricos, que seria deles? Onde estariam? Que andariam a fazer? De todos eles só Meia de Leite se esquivou a este inferno, pôs-se a andar para longe daqui para fora do país, para fora do continente. Um gajo que nunca tinha viajado para mais longe do que a praia que ficava para lá dos limites da cidade, como é que teve coragem de se atirar para uma aventura daquelas, correndo perigos e ultrapassando as barreiras que se lhe depararam para ir parar à Europa, à Bélgica. Gostava de a conhecer, outras gentes, outras culturas, outro mundo, ainda havia de lá ir, quando isto acabasse.

O pio do mocho, o pio do mocho, acabava de o ouvir. Sinal de que alguém estava a entrar no perímetro. Rastejou, lenta, mas decididamente até ao companheiro, muito perto da margem do rio, suficientemente encobertos pelo capim para não serem notados. Sensivelmente a meio do rio, alguém nadava para a margem, exactamente para o local onde estavam, viam-no cada vez melhor, esbracejava contra a corrente, avançava devagar, ainda assim ia-se chegando à margem. Os dois espectadores afastaram-se um do outro um par de metros, para que o nadador fosse quem fosse ficasse entre eles e o conseguissem dominar com o menor ruído possível, não sabiam se era o único ou se outros o seguiriam, não queriam alarmá-los se fosse o caso.

Chegou à margem, agarrou-se à erva, tentou elevar-se para terra, a erva estava escorregadia, levou algum tempo a segurar-se de modo a conseguir subir. Uma perna para cima, a seguir o corpo e a outra, estava em terra seca, estendido ao longo da margem, de barriga para baixo, a ganhar fôlego. Viram-lhe, nitidamente, atravessada nas costas a kalash, vinha fugido da vila, era o primeiro a chegar ali e isso significava que era dos que estava mais perto do rio na altura da debandada ou mesmo que estaria encarregue da guarda das canoas, não interessava, tinham de o dominar rapidamente, sem barulho, ou espantariam todos os que por ali pudessem querer escapar.

Noite Escura não hesitou e ainda antes de fazer sinal ao companheiro cai em cima do guerrilheiro, torce-lhe os braços e aperta-os por trás, o companheiro amarra-lhe as mãos e os pés. Nem percebeu como, de repente, estava amarrado, desarmado e de barriga para cima, viu dois rostos, um escuro e um claro. Tentou falar, fizeram-lhe sinal para se manter calado, insistiu em emitir um som, amordaçaram-no. Enquanto Noite Escura perscrutava o rio para verificar qualquer alteração, umas ondas que denunciassem agitação, um movimento, alguém nadando para a margem, o companheiro arrasta o prisioneiro para o interior do capinzal, colocaram-no afastado da margem e ao abrigo de qualquer tentativa de denunciar a presença da tropa por ali.

O ruído dos tiros e da metralha ia-se espaçando ao longe, a luz da vila ia acendendo e as pessoas começavam a aparecer, as ordens militares sucediam-se, as buscas na vila continuavam, raramente deparavam com mais algum guerrilheiro que tivesse ficado para trás. Nas ruas da vila só os corpos destroçados pela metralha, dezenas, espalhados pelas ruas onde decorreram os combates, no centro da praça uma boa mão cheia de prisioneiros. Recolhiam-se agora as baixas do lado militar, muito poucas em comparação com as baixas da guerrilha, eram colocados na berliet que os transportaria ao quartel. A operação prosseguia, agora longe das fronteiras da vila e do aquartelamento; não ia parar até completa aniquilação da ameaça.


publicado por: canetadapoesia às 19:21
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Sábado, 3 de Março de 2018

Desaire inesperado (13º Capítulo)

 

Branquelas estava num aperto que só ele sabia, começou a preocupar-se a partir do momento em que o comandante do batalhão, contra tudo o que era espectável e mesmo pondo em risco a segurança do perímetro militar, estrategicamente, resolveu fazer sair duas companhias para apoio e defesa da vila. Não eram duas companhias quaisquer, eram homens pejados de experiência da guerra de guerrilha que há muito cultivavam no terreno, essa coisa que só se aprende quando a enfrentamos, o medo, estava certo que isso iria estragar todos os seus planos.

Esta saída das tropas do aquartelamento, foi contra toda a estratégia que tinha preparado, contava que, após o início do bombardeamento ao quartel, toda a tropa se confinasse ao seu refúgio, por forma a fazer frente ao ataque directo que tinha planeado. Assim não aconteceu, enganou-se, ou pelo menos não conhecia bem o comandante do aquartelamento, homem com larga experiência desta guerra e que era conhecido pelas posições pouco ortodoxas em matéria de táctica e estratégia. Sobretudo, este homem, tinha no sangue o combate feroz e a ideia de que só se sairia vencedor de qualquer contenda se não se pusessem à defesa, mas sim ao ataque, foi o que fez, desferiu o seu golpe, à revelia de tudo o que seria de esperar.

Agora, a grande preocupação de Branquelas era que os seus homens aguentassem o embate, que se mantivessem organizados e alerta para o combate que se adivinhava, pelas ruas da vila, e que, nunca, mas nunca debandassem feito maltrapilhos. Afinal, tinham sido meses de preparação, política, militar, física, tinham, forçosamente, de estar preparados para todas as eventualidades, achava ele. Enganou-se mais uma vez. Os guerrilheiros iam imbuídos do espírito de vitória fácil, esperavam não encontrar resistência, esperavam que a tropa não saísse do aquartelamento. Depararam-se, depois de uma subida, do monte, até à vila com umas facilidades que até estranharam, pouca guarda, pouco patrulhamento, ruas desertas, pessoas reunidas em casa na ceia de Natal, tudo fácil. Repentinamente, após o início do bombardeamento ao quartel, as coisas mudaram de figura. Começaram a ser fustigados pelo fogo da tropa que os mantinha em situação difícil, ao mesmo tempo que iam fazendo o envolvimento do perímetro da vila. Começaram a sentir-se encurralados, fechados numa tenaz que não lhes concedia espaço de manobra nenhum e, ao contrário do que esperavam, a tropa não os receava nem se acomodou a uma defesa segura, atacava, e de que maneira.

Começaram a retirar, desordenadamente, fugiam para tudo quanto era lado e como não iam organizados mais facilidades deram à soldadesca para os perseguirem pois, às tantas, já nem ripostavam aos tiros que os perseguiam pela vila fora, rua a rua foram sendo despejados da vila e esta foi sendo libertada da pressão guerrilheira. O que Branquelas temia estava agora a passar-lhe perante os olhos, uma debandada desordenada e com imensas perdas para o seu lado, já nada se conseguiria fazer, mesmo estando o bombardeamento activo e o quartel a ser flagelado com tamanha carga de bazucada.

Preparou-se para retirar, agarrou nos homens mais próximos, uma meia dúzia de valentes que ainda resistiam e mantinham aquela posição, e um a um foram recuando até ao embarcadouro, havendo sempre um a garantir a segurança de quem recuava. Apercebeu-se do desaire total que havia sido este ataque, por muitos soldados que atingissem, nunca conseguiriam obter a vitória que tanto ansiava, estava tudo perdido. Se não conseguisse sair dali agora, era certo que o capturavam ou, o mais correcto seria dizer que morreria em combate, varado pelas balas dos soldados.

Ia morrer por uma opção de vida, por uma firmeza de carácter, por uma ideia de pátria, por uma intenção de liberdade, nesta altura lembrou-se dos amigos, os mafarricos da sua infância, onde estariam, que faziam neste momento, nunca mais os veria, ia morrer sem voltar a encontrar-se com eles. Mas, cada um toma as suas decisões na altura que as deve tomar e, a sua, foi uma decisão tomada sem o calor das decisões intempestivas, era uma coisa que já vinha de muito atrás, de muito longe, da idade da inocência e que se foi cimentando à medida que foi crescendo e se fez homem. A decisão estava tomada, não podia voltar atrás sem violentar a sua consciência. Esta era a sua terra, esta era a sua futura pátria, por ela lutaria e morreria se caso fosse.

Os sete homens meteram por um beco, traseiro à igreja, correram até ao extremo oposto, dobraram a esquina, ainda teve tempo, num lampejo do olhar, de ver Josué, ainda armado, entrar na igreja. Segurava kivaluko que a ele se amparava e sangrava de uma perna, já sem arma e com o braço direito aparentando estar destroçado. Viu-os perderem-se no interior pela porta aberta da igreja, não viu mais nada, tinham de correr até ao capim, do outro lado da estrada para onde o beco dava. Chegando ali, estariam mais cobertos pela noite e pela altura da erva, teriam mais facilidade de escapar se se mantivessem juntos e silenciosos enquanto se esgueiravam pelo mato. Tentavam a todo o custo atingir o embarcadouro, conseguir uma das canoas que lhes servira de transporte para atravessarem o rio e que tinham ficado amarradas para o caso de virem a necessitar delas.

Pelas casas por onde passavam não viam ninguém, todos recolhidos nos abrigos possíveis, que a população não era de guerra, só tinha de viver com ela, todas as casas fechadas, portas e janelas sem um som, uma luz, nada, imperava o silêncio. O silêncio ainda os torturava mais, não sabiam se, algum daqueles civis se predispunha a fazer fogo sobre eles pela calada da noite e de que só se dessem conta quando fosse demasiado tarde, mas até agora nada. Não havia ali heróis declarados, esses só apareciam quando as coisas os obrigassem a sê-lo, quando tivessem de lutar pela sua vida e pela vida dos que lhes eram queridos, se os deixassem em paz e resolvessem as coisas entre eles, guerrilheiros e militares, dali não lhes vinha mal nenhum.

Chegaram ao extremo do beco. Espreitaram para um e outro lado, ninguém, não havia tropas ali, começaram a atravessar, um de cada vez, com a protecção dos restantes, passaram todos sem problemas e infiltraram-se capim adentro. Estranho, pensou Branquelas, envolveram toda a vila e deixaram esta estrada lateral sem tropas. Ao longe ainda ouviam o tiroteio bem dentro da vila, estavam a ser dizimados, se não conseguiam fugir e ripostavam aos tiros dos militares recebiam em troca uma saraivada de balas disparadas pelas metralhadoras ligeiras, era uma metralha ensurdecedora.

Os que se deitavam no chão, atirando as armas para longe, eram de imediato manietados e capturados sem que nada de mal lhes acontecesse, agrupados, sentados no chão no centro da vila e guardados à vista por uma pequena guarnição, mais tarde, depois de tudo acalmar, seriam conduzidos ao aquartelamento e encarcerados nas prisões construídas para o efeito, iam ser, como mandava o regimento, sujeitos a interrogatórios e, quem sabe, alguns seriam recuperados para as forças oficiais.

Branquelas matutava, por que razão não haveria tropas daquele lado? Que os levaria a deixar aquele flanco desguarnecido? E fez-se luz, num repente, tudo se clareou na sua cabeça, estão a empurrar-nos para o ancoradouro, estão a forçar-nos a ir pelo mesmo local por onde viemos. Devem ter preparado alguma recepção para que, se para lá fugíssemos, nos pudessem capturar com mais facilidade, apanharam-nos as canoas pela certa. Mandou estacar os seus homens. Logo ali se refizeram os planos de fuga, estava fora de questão regressar ao ancoradouro e tentar apanhar uma canoa, já lá não estavam ou se estivessem estavam armadilhadas pela certa.

Que outro trilho de fuga lhes restava? Questionavam-se e discutiam a melhor maneira de se esgueirarem dali. Havia uma possibilidade, descerem a encosta e caminharem por mais uns cinco quilómetros para jusante do rio. Ali abria-se uma hipótese de fuga, o rio alargava, as correntes eram menores e poderiam atravessá-lo a nado. Decidido, iam descer a encosta e fazer o trajecto anunciado de forma a tentar atravessar a nado, já que não tinham outra possibilidade, esta apresentou-se como a única via de escape deste inferno em que se meteram. O silêncio voltou a imperar e caminharam em fila, sempre atentos, sempre alerta, ao longe, pareceu-lhes ouvir o barulho de helicópteros, não devia ser impressão pensou Branquelas, e seguiram. Não se enganava, eram mesmo os hélis que lançavam as tropas especiais, os comandos, no perímetro adjacente à zona de combate e perseguição, os homens que os esperavam no meio daquela imensa chana que se prolongava para lá da outra margem do rio.

Chegaram à margem, analisaram o rio e começaram a entrar, um a um, armas às costas, nadando em direcção à margem oposta. O primeiro alcançou a margem e criou um pequeno perímetro de segurança para que os companheiros ali chegassem sem atropelos, um voltou atrás, ajudou outro que não conseguia atingir a margem sozinho, mal sabia nadar e debatia-se com a corrente que, embora fraca, era suficiente para arrastar um incauto e inexperiente nadador. Sentados no capim, restabeleciam a respiração alterada e olhavam para a vila ao longe. Começava a iluminar-se, as casas iam acendendo as luzes, das ruas vinha um ruído de ordens militares, ténues e incompreensíveis a esta distância, os tiros iam-se espaçando, a certeza da derrota.

Sentiam-se seguros agora, bem, não muito, que esta tropa era bem capaz de atravessar o rio para perseguir os que haviam conseguido escapar-se e ainda eram bastantes. No meio de tamanha confusão, de uma metralha intensa, ainda houve uma centena de guerrilheiros que se escapuliram e conseguiram atravessar o rio de todas as formas possíveis e imaginárias, só queriam chegar à outra margem. Nas canoas, como Branquelas pensara, morreram mais uns quantos, até se aperceberem que estavam armadilhadas e que, logo que as faziam ao rio, explodiam, deixando na água um traço de vermelho vivo que não augurava nada de bom. Um trabalho exímio dos fuzileiros que haviam descido o rio nos zebros para se emboscarem nesta zona do embarcadouro, depois de transportarem os comandos para a outra margem onde estes se misturaram rapidamente com a vegetação, alargando o perímetro da sua acção.

Não foi só por acaso ou por estratégia do comandante do batalhão que as companhias saíram do aquartelamento, não, foi porque assim que começaram a reportar o ataque para o comando central as ordens recebidas foram no sentido de empurrar os guerrilheiros para ali, para o embarcadouro de onde tinham vindo. O comandante foi posto ao corrente de toda a operação e por isso as coisas correram desta forma e o IN tinha sido surpreendido com a ferocidade dos combatentes oficiais, a ordem era limpeza geral e profunda. Das três centenas de guerrilheiros que assaltaram a vila, pouco mais de uma centena conseguiu fugir para o outro lado do rio, contando já com os que foram eliminados ao tentar usar as canoas armadilhadas, uma desgraça para eles.

Espalharam-se pela mata, tinham uma meta, a aldeia de onde tinham saído para o ataque à vila de Rivuri, iam tentar chegar lá. As matas, embora dentro de outro país, estavam minadas de tropas especiais que para ali tinham sido transportadas por hélis até à margem do rio e por fuzileiros, nos zebros, até à margem oposta, numa alteração da estratégia inicial em que deveriam esperar por eles junto ao embarcadouro, mas o êxito da resposta tinha elevado o patamar da ofensiva e agora iam começar a sua limpeza, já dentro de Zazânia, a chana deste lado foi deixada à cavalaria que já se havia posicionado também. Tinham-se infiltrado, espalhado e preparado para receber os que conseguissem fugir e persegui-los até onde fosse necessário, capturá-los ou eliminá-los e destruir as aldeias de apoio que por ali estivessem. As chanas, plenas de capinzal, não seriam suficientes para encobrir os guerrilheiros e mesmo os rastos que deixavam na fuga, do outro lado, na margem oposta, a cavalaria já estava em operações de limpeza e perseguição aos que não tinham conseguido atravessar o rio.

Meia dúzia de grupos de comandos já se tinham apoderado da montanha de onde partira todo o bombardeamento sobre o aquartelamento, não encontraram resistência e capturaram a dezena de guerrilheiros que ali efectuavam o tiro de morteiros sobre o quartel, cerca de um quilómetro dentro de Zazânia. Estava a aproximar-se o fim do ataque com a pacificação da zona ao redor da vila, mas a perseguição e ataque aos fugitivos estava agora a começar, a área de limpeza dentro de Zazânia era grande e para a cobrir toda era necessário o apoio de outras forças especiais, os recuperados, antigos guerrilheiros que agora operavam sob as ordens do exército, terríveis nos seus ataques, não perdoavam nada, conheciam o terreno como ninguém e a perseguição que efectuavam era em regra coroada de êxito.

Os dados estavam lançados, a zona controlada e, Branquelas e os seus homens mais chegados, em fuga pela chana fora, encobertos pela altura do capinzal, na tentativa de alcançar terreno mais seguro. Um desaire e uma debandada que não tinha sido prevista e que deitou por terra toda a estratégia criada e todo o esforço desenvolvido pelo movimento. Uma machadada irreversível.


publicado por: canetadapoesia às 12:51
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E hoje, que vamos fazer? (12º Capítulo)

 

 

Quando se começa o dia sem nada definido, sem planos para o ocupar, sem que se tenha preparado nenhuma possibilidade de brincadeira, a coisa complica-se. Anda-se por ali, em casa de um e de outro até se conseguir definir o que se vai fazer, este era um desses dias.

Acordaram sem perspectivas, pequeno-almoço tomado, saída para a rua, para onde? Para o sítio de encontro habitual, cada um chegava, deambulava por ali ou sentava-se pachorrentamente à espera pelos restantes. O largo tinha, assim, uma função muito especial como pólo agregador da criançada, e até mais cresciditos, da zona. Iam chegando, falando, discutindo os temas quentes da altura, que lhes interessavam já se vê, e aguardavam que os companheiros dessem a cara para depois debandar em várias direcções.

Os três mafarricos estavam atrasados, a esta hora já lá deveria estar algum, pelo menos, mas hoje ainda não tinham aparecido. A explicação era simples, o almoço de ontem tinha-os quebrado, comeram mais do que deviam, comeram até se cansar, lambuzaram-se até mais não. O resultado foi uma soneca pela tarde fora que lhes cortou o ímpeto que tinham para as célebres corridas de rolamentos, outro dia seria e até podia ser hoje, quando todos chegassem e se juntassem logo veriam o que fazer.

Meia de Leite, por ali andava falando com um ou outro, dando uns toques na bola com os mais velhos, que, excepcionalmente, lhe permitiram tamanha façanha. Passados uns minutos aparece Branquelas e uns minutos mais já Noite Escura se apresentava. A bola ficou para trás quando Meia de Leite deu pela presença dos seus amigos. Chegaram tarde, pá, deu-vos para dormir hoje? Já viram que perdemos uma parte da manhã com o vosso soninho? São mesmo uns calaceiros, já podíamos estar a aproveitar o tempo e ele é muito pouco, não tarda estão a começar as aulas outra vez.

És mesmo exagerado, diz Branquelas, ainda agora começaram as férias, temos ainda muito tempo pela frente até recomeçarem de novo, vamos é traçar o plano para hoje, ver o que se pode fazer já que ontem não combinámos nada. Noite Escura remata a conversa, nada de corridas hoje que torci o pulso e não consigo fazer força com ele. Como é que isso foi? Foi na garagem, estava de volta do carro de rolamentos e ao pegar nele, peguei mal, torci o pulso, foi uma dor daquelas, até gritei e a minha mãe pôs-me uma pomada e ligou-mo para ver se passava a dor.

Dormi todo entrapado, mas hoje já me sinto melhor. Bolas, Noite Escura, podias ter posto uma ligadura escura no braço, assim dá muito nas vistas, as ligaduras deviam ser de acordo com a cor da pele. Riram-se à solta, especialmente quando Noite Escura contra-atacou e se dirigiu ao Branquelas, mas olha que para ti também não é fácil arranjares uma ligadura da cor da tua pele, é que as ligaduras são brancas, mas tu ainda és mais branco que elas. Foi uma risada sem controlo. Eram assim estes mafarricos, nada os afectava, nem a cor da pele os impedia de serem e de se sentirem os maiores amigos do mundo, os mais chegados, daqueles que fariam tudo uns pelos outros.

Sabem o que podíamos fazer? Íamos até à serração e podia ser que conseguíssemos uns bordões. Uns bordões? Para quê? O que queres fazer com eles? Havemos de fazer uma caçada antes de acabarem as férias, então precisamos de arranjar umas gaiolas para meter os pássaros, não acham? Olha que até nem é má ideia, com o Noite Escura no estaleiro e sem grandes perspectivas o melhor mesmo é irmos para a garagem e fazermos umas gaiolas para o dia em que formos à caça. Bem gostava de apanhar uns bicos de lacre, umas celestes ou até umas viuvinhas para a minha gaiola grande.

Postos de acordo, logo se puseram em marcha até à serração. Não era muito longe, pelos padrões da altura e sobretudo de África, era só descer a Gen. João de Almeida, que atravessava o bairro todo e desembocava na fábrica do Macambira. Ali a rua inflectia para a direita e acabava na estrada de Catete, muito perto da esquadra de polícia e da entrada do bairro da madame Berman, logo ao lado do Macambira estava a serração e outras coisas que faziam mobiliário e demais artefactos de madeira. Ali conseguiriam as aparas de madeira necessárias e com sorte até o bordão que era muito mais fácil de trabalhar.

O que é que vocês querem outra vez? Não fazem mais nada senão andar por aqui? Chegam, entram e ficam a olhar? Digam logo o que querem, assim é mais fácil, querem o mesmo de sempre, não é? Vão lá atrás, que já conhecem o caminho, procurem o que querem e podem levar à vontade. Obrigado sr. Joaquim, vamos malta. Lá vasculharam, lá procuraram. Está aqui uma boa, há aqui mais, estas são das boas, são de contraplacado, bons pedaços, dá para fazer muita coisa, vamos juntar estas e depois procuramos o bordão e chega que há mais vezes para vir cá. Obrigado sr. Joaquim, vamos andando, já temos o que queríamos.

Repletos de aparas de madeira mais uns poucos paus de bordão aí vão eles de regresso a casa. Vão subir a Luciano Castilho, paralela àquela por onde desceram, vão lavar as vistas, naquela rua havia umas miúdas giras e eles resolveram passar-lhes à porta para lhes dar umas “pestanadas”. Ali estavam as meninas nas suas brincadeiras pela varanda fora sem se dignarem dar-lhes qualquer atenção. Ficavam mesmo “chateados”, uns putos jeitosos, cheios de charme e elas “népia”, não ligavamnenhuma. Escusavam de assobiar, fazer macaquices, não adiantava, elas não ligavam nenhuma, foram-se embora, desistiram.

Continuaram rua fora até chegarem à João de Deus, viraram à direita, uns passos mais à frente param, como que combinados, todos olham para o mesmo lado, trocam-se olhares entre si. Estavam perante a casa da macieira da índia, mas não se atreviam a entrar ali de qualquer maneira, tinham de ter cuidado. O dono da casa e a mulher nem se importavam, até achavam graça vê-los ali a trepar pela macieira à procura dos deliciosos bagos meio ácidos de que tanto gostavam, faziam até de conta que nem os viam quando eles se atreviam a entrar pela sorrelfa. Mas o filho, o filho era terrível, mais velho que eles, já na classe dos crescidinhos, nem gostava daquilo, mas adorava torturá-los e sempre que os apanhava dentro do quintal era o fim do mundo. Saía pedrada pela certa, o malandro, ainda por cima tinha uma pontaria certeira.

Por isso o melhor era terem cuidado. Olharam, não viram ninguém, a casa estava perfeitamente silenciosa, àquela hora também seria difícil que o atirador de pedras lá estivesse, mas não era de fiar, o melhor era entrar devagar. Assim fizeram, tabuinhas encostadas ao muro, entra Meia de Leite, era sempre o mais atrevidote, salta o portão, com cautela, olha à volta, não vê nada, sobe à macieira, instala-se e começa a retirar os frutos, mete-os no boné e, logo que o enche atira-o para fora, Noite escura recebe-o nas mãos e despeja-o no saco que levam, volta a devolver-lhe o boné.

Azar, caiu no chão, Noite Escura nem acredita, falhou o lançamento do boné, alguém tem de ir buscá-lo, Branquelas não se faz rogado, salta o portão, dirige-se ao boné, pega nele e zás. Atingido em cheio na testa por uma pequena pedra de burgau. Hesita no que deve fazer, desequilibra-se com o impacto e cai, mais uma lhe acerta, agora na coxa, outra no braço. Num esforço titânico consegue controlar-se, levanta-se de um ímpeto salta o portão e põe-se a coberto da saraivada que vinha da lateral da casa, mesmo por trás de um arbusto tão denso que seria impossível ver se lá estava alguém, por isso lhes passou ao lado a presença do malandro atirador de pedras.

Quando Branquelas saltou o portão para o lado de fora, sabia que se ia abrigar, mas também sabia que Meia de Leite estava exposto e sujeito às pedradas daquele malandro. Noite Escura não perdeu tempo, ainda Branquelas não se tinha levantado e já respondia às hostilidades, também ele enviava pedras para o local de onde vinham as que os agrediam. Assim, Branquelas ripostou também, em conjunto com Noite Escura para poderem arranjar uma barreira à defesa de Meia de Leite que nesta altura se encolhia no ramo onde se encontrava para não ser atingido, tarefa quase impossível. Aquela alma danada além de boa pontaria sabia bem como acertar com dor e aquelas pedrinhas, pequeninas, não matavam, mas doíam que se fartavam quando acertavam.

A barreira de pedradas que tinham criado foi suficiente para que Meia de Leite descesse da árvore e saltasse o portão, sem que tivesse conseguido evitar uma ou outra pedrada nas pernas, para, em conjunto com eles, ripostarem e tentarem atingi-lo também. Não sabiam se o atingiam ou não, mas o certo é que as pedras que vinham de lá começaram a rarear até terminarem mesmo. A ameaça estava ultrapassada e, apesar do sofrimento, tinham conseguido um suprimento de boas e carnudas maçãs da índia que seriam o complemento ideal para o dia de trabalhos manuais em construção de gaiolas que se ia seguir.

Conseguiram, tiraram uma lição importante desta batalha, confirmaram que a união faz a força, conseguiram, todos unidos vencer o malandro das pedras e ainda lhe sacaram as maçãs da índia, mesmo nas barbas dele, muito se riram os três. Riram-se, mas com alguns esgares pois as pedradas deixaram marcas e doíam imenso sempre que acertavam. O pior estava para vir, quando chegassem a casa seriam submetidos a rigoroso inquérito para saber porque estavam cheios de nódoas negras. Não havia de ser nada a não ser o ser besuntado de pomada depois do banho, mas que ricas maçãs, ainda sabem melhor assim.


publicado por: canetadapoesia às 01:11
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Quinta-feira, 1 de Março de 2018

Procura de refúgio (11º Capítulo)

 

 

 

Nada estava ainda resolvido. Meia de Leite tinha passado a fronteira em segurança, que deixara para trás há um tempo largo já, mas agora, ainda havia etapas a considerar e não eram tão poucas como podiam parecer à primeira vista.

Não podia esquecer-se que, apesar de tudo, era um indocumentado num país estrangeiro e que não tinha relações com o seu, com aquele de onde tinha acabado de fugir, o que era, por si só, uma vantagem. A sua grande preocupação, no momento, era conseguir encontrar alguma organização humanitária que o acolhesse e que, dentro daquilo que eram as suas atribuições, o ajudassem a superar esta situação delicada.

Teriam de o apresentar às autoridades locais como refugiado político, como alguém que acabara de fugir de um país em guerra, um objector de consciência, um homem que, por princípio, era contra a guerra e a opressão, exercida fosse de que forma fosse. Esse era o estatuto que procurava e que, vindo de onde vinha, lhe granjearia há partida alguma simpatia e compreensão.

Sabia de antemão que, se se dirigisse às autoridades locais, seria de imediato acolhido, mas isso tinha um custo. O que teria de pagar, por essa imediata aceitação da sua condição de refugiado político, era a publicitação do seu caso. As campanhas de demonstração de que o país de onde provinha era dotado de uma tirania onde não existia liberdade, não havia respeito pelos direitos humanos, enfim, um rol de acusações que, em grande parte, sabia serem verdadeiras, mas, mesmo assim, não estava disposto a servir de bandeira para isso. Queria livrar-se daquilo, mas queria ir para longe, recomeçar a sua vida do zero, sabia que seria difícil, mas tinha arriscado e esperava consegui-lo.

Por outro lado, não queria que os amigos e família fossem incomodados pela sua fuga, sabendo que a polícia política os haveria de perseguir até se cansarem e verificar que nada tinham a ver com o que ele fizera. Não, não ia fazer campanha nenhuma, ia procurar quem o ajudasse fora das autoridades locais e, se o conseguisse, evitava o encontro imediato com elas. Resolveu-se, pois, a procurar por alguma dessas organizações que existem em todos estes países africanos e que, de uma forma ou de outra, conseguem oferecer alguma ajuda a toda a gente, mesmo aos que se refugiam por motivos políticos.

Após alguma pesquisa, acabou por encontrar, entre várias organizações, uma que lhe pareceu dar-lhe mais garantias para atingir os seus objectivos. Estava perante uma organização cuja origem era, nada mais, nada menos, que a antiga potência colonizadora deste país, para onde, aliás, sempre desejara partir e aí se refugiar, recomeçando a sua vida. Ninguém melhor que eles para concretizar o seu sonho, conseguir ser repatriado directamente para o país de acolhimento que escolhera e com a facilidade de resolver os assuntos legais, locais, com celeridade e com quem teria mais facilidade de o fazer.

Ali se apresentou, alegando a sua condição de refugiado político, fugido do país vizinho. Foi acolhido, recebido pelo cônsul, que não era cidade para ter embaixada, ali recolhido e dado início a todo o processo burocrático que culminaria com a sua extradição, legal, para a Bélgica, país que o receberia e onde teria todo o apoio necessário, até à sua total integração. Não tinha grandes possibilidades, parco de dinheiro e quase só com a roupa do corpo, foi assistido pelo consulado que providenciou alojamento, vestuário e alimentação, de que estava bem necessitado, até ao momento em que partiria num voo comercial em direcção ao objectivo do seu sonho. Partida que se consumaria dentro de uma semana ou, no máximo, em quinze dias, não mais que isso, segundo opinião do cônsul já experiente nestas andanças.

Agora, instalado e protegido, era altura de se tratar de toda a documentação necessária ao seu livre-trânsito pela cidade, até à sua partida e, depois de partir, tinha de entrar legalmente no país que o acolhera e na Europa. Europa, repetia para si, aquilo soava-lhe aos ouvidos como um hino à liberdade, um continente livre de guerra e daquela guerra que indispunha amigos e familiares virando uns contra os outros. Longe da opressão de sentir-se vigiado constantemente pela polícia política, mesmo que não o estivesse a ser, a simples existência desta, era o suficiente para manietar qualquer pensamento mais livre, qualquer opinião menos ortodoxa, um pequeno descuido que fosse, fora do que era o pensamento ideal do regime vigente.

Sentia-se seguro dentro das instalações do consulado, mesmo podendo fazê-lo, uma vez que possuía já a documentação necessária para livremente se mover no país, nunca o fazia sozinho. Procurava, sempre que isso acontecia, aproveitar a saída de algum funcionário do consulado e então saía com ele, apesar de tudo, sentia-se mais seguro, mais resguardado de qualquer tentativa de o arrastarem para o outro lado da fronteira de novo.

Não queria acreditar, mas já tinha ouvido uns zunzuns que isto já tinha acontecido com outros, há cautela, não arriscava. A polícia política não era para brincadeiras e se marcasse alguém, não o largava, ainda que tivesse fugido para outro país e, ali, tão perto da fronteira, mais possibilidades tinham de se infiltrar. Quando pensava nisso logo os pensamentos se optimizavam, não era possível, ninguém sabia onde ele estava e além disso, era um Zé ninguém, nunca se tinha metido em nada, nunca tivera acções políticas, passou sempre despercebido, não iam atrás dele por certo, ainda nem deram pela sua fuga e ainda ia levar algum tempo até o descobrirem. Estava seguro. Tempo era tudo o que precisava até estar na Europa e aí sim, estaria à vontade.

Agora que estava mais calmo, com um sentimento de segurança maior, deu por si a pensar nos seus amigos de infância, nos amigos que o acompanharam até à véspera de se meter nesta aventura e a quem nada dissera, nem os pais sabiam o que lhe ia na cabeça. Quando chegasse à Bélgica os informaria do sucedido, já seguro, calmo e sem stress. Havia de telefonar para casa, aquietar os pais, que eles informassem os amigos e os vizinhos chegados, os pais dos amigos, que logo que estivesse devidamente instalado lhes escreveria a contar a aventura em que se metera. Lamentava, por um lado, não os ter informado, tentado pelo menos que eles viessem com ele, mas, se o fizesse, o efeito surpresa estaria destruído e quem sabe, nem conseguiria prosseguir nos seus intentos que eles, por certo, tudo fariam para o demover.

Pela primeira vez, desde que se meteu ao caminho teve uma noite tranquila, descansada, como precisava dela. Os sonhos da sua terra natal não se desvaneceram com o sono, pelo contrário, parecia-lhe que estava a falar com os pais, na companhia dos amigos, nas brincadeiras de miúdos, no largo do bairro onde viviam todos e onde, bastas vezes brincavam e patinavam, no ringue ali existente. Acordou descansado; com uma ligeira nostalgia dos tempos de antigamente. Serviram-lhe uma refeição ao pequeno-almoço, recompôs-se da fome que atravessara e estava pronto para o que fosse necessário. Não queria permanecer ali sem ser útil, queria ajudar em alguma coisa, nem que fosse fazendo traduções já que falava bem o francês, aprendido no liceu, que era a segunda língua que escolhera no curriculum, qualquer coisa seria boa para mostrar a sua gratidão a quem o acolhera. Não era preciso, arengava o cônsul, ele só ali estava de passagem e depressa o poriam a salvo na Europa.

Como nada tinha para fazer, foi escrevendo, escrevendo a todos os que lhe eram queridos, à família e aos amigos. Quando aterrasse na Europa, despacharia as cartas pelo correio para que todos ficassem a saber que a aventura tinha tido sucesso e que se encontrava em segurança, longe dos amigos e familiares, era certo, mas longe da guerra e de uma possível desgraça maior. Estava satisfeito, seria esta a sua nova pátria, embora nunca esquecesse a que o viu nascer, essa ficaria sempre guardada no coração de quem a amava acima de tudo, embora longe dela. Enganava-se dizendo que um dia, um dia, quem sabe, voltaria à sua terra; por ora era aqui que ía refazer a sua vida. Arranjar trabalho, uma casinha e até, talvez constituir família que um homem tem de ter com quem partilhar a vida.

Fosse como fosse, corressem as coisas melhor ou pior, o passo estava dado, não voltaria atrás, iriam tendo notícias pois jamais se esqueceria deles. A sua grande preocupação eram os amigos chegados, os três da vida airada, os mafarricos, mesmo longe não deixavam de povoar os seus pensamentos. As preocupações com o que lhes aconteceria, iriam ser mobilizados, iriam combater numa guerra que não levava a nada a não ser a mortes desnecessárias de jovens que tanta falta fariam à mãe pátria.

Estava seguro, na Europa, e os amigos sujeitos às vicissitudes de uma política inclemente, isso preocupava-o, precisava de ir sabendo deles, o que passavam, como evoluiriam, o que lhes acontecia. Longe estava a ideia de que Noite Escura entraria nas fileiras defendendo o indefensável e, muito menos, que Branquelas se passaria para o outro lado. E nem sequer podia imaginar, que o destino ia pregar a estes dois uma partida que poria à prova os anos todos de uma amizade sem limites. Quem venceria, a raiva ou a amizade, isso era o que o destino também queria testar.


publicado por: canetadapoesia às 20:24
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