Terça-feira, 20 de Março de 2018

Contagem decrescente (28º Capítulo)

 

 

O ano de todas as coisas, boas e más, bonitas e feias, o ano da esperança, o ano do martírio e da desilusão.

Mais um ano, mais um aninho e a farda seria despida para sempre, pensava Noite Escura no decorrer de mais uma das operações em que frequentemente se via envolvido. Esta já ninguém lha tirava, tinha feito mais tempo que o normal, a “pedido” para que continuasse por mais uma comissão, mas agora chegava, já não podiam exigir-lhe mais, estava cansado daquela vida e na altura de organizar a sua. Lá para meados de 1975 estaria a ser dispensado das fileiras e a dar início ao que seria a sua vida futura, uma família, um emprego, uma vida. Queria dar aos pais a alegria de terem um neto e, empregos não faltariam que agora já não o podiam recusar por ainda não ter feito o serviço militar, como sempre faziam, estaria livre e com o serviço militar cumprido em dobro.

Com sorte, pensou, ainda visitaria Meia de Leite na Europa, tinha mesmo de pensar nisso pois estava com necessidade de reencontrar os amigos. Pelo menos este ainda o podia ver sem grandes problemas, já Branquelas nem imaginava se algum dia o pudesse fazer, não estava fora do país, estava bem lá dentro e a última vez que o viu não lhe encontrou qualquer arrependimento pela opção que havia tomado, bem pelo contrário, estava mais determinado naquilo que ele chamava de libertação do seu país. Que ironia do destino, e ele aqui a combatê-lo, como se explica isto, nunca ninguém vai conseguir fazê-lo, são as malhas que o império tece, mas também aquelas que os ocupantes, pessoas dadas a ligar-se facilmente aos ocupados, sem preconceitos de pele, salvo as raras excepções que só vinham confirmar a regra, abertos a toda esta novidade que era África, a mãe terra, a origem do homem como o conhecemos.

Os pais já lhe iam preparando o caminho, que ia ser funcionário público, um lugar nas novas administrações públicas, podia não ser o melhor do mundo, não se ganhava tanto como noutros empregos, no entanto, era certamente coisa de muito maior segurança e de futuro garantido, o Estado ia precisar sempre de funcionários. Com o tempo e os empurrões certos, aqui e ali, chegaria a um lugar confortável sem muito penar, mais a mais com as habilitações que tinha, ia ser canja. Ele é que não estava pelos ajustes, não queria embarcar logo no primeiro emprego que lhe aparecesse, e se depois encontrava outro melhor? Lá tinha de deixar um pelo outro com a consequente queixa de que os pedidos feitos ficaram sem efeito e parecia mal e coisa e tal. Não, ia ganhar algum tempo com a desculpa de estar cansado e precisar, antes de tomar qualquer decisão, de relaxar, descansar de todos aqueles anos de guerra, acreditava que os pais o iam apoiar e até o ajudariam se fosse caso disso.

E era caso para esperar a ajuda do pai, não era dinheiro que precisava porque tinha arranjado um pé de meia jeitoso durante aqueles anos de serviço militar, também, como não o faria se nem tinha tempo de gastar o dinheiro do pré que religiosamente lhe pagavam? Vivia quase sempre em aquartelamentos, ou da sua unidade ou nas outras para onde se deslocava para as suas missões, quando estava de licença, ficava em casa dos pais, o dinheiro ia-se, portanto, acumulando e ele faria uso dele para viajar até à Europa, ía visitar o amigo de infância, estava decidido. Mas é claro que precisava da ajuda dos pais, mais precisamente do pai, um funcionário do regime com uma alta posição na administração pública e dotado de uma inegável confiança por parte do poder oficial, ele ia ajudá-lo.

Precisava de um passaporte para poder viajar para fora do país e, naquele tempo, um passaporte não era coisa que todos tivessem à sua disposição. Era muito difícil de conseguir, tinha de se ser pessoa de bem, sobretudo bem relacionada, que nestas coisas fazia sempre jeito um empurrãozito, tinha de se ser abonado por alguém de confiança, enfim, dificuldades para retirar a possibilidade de que todos o tivessem à mão e dele se utilizassem para fugir do país subtraindo-se ao esforço de guerra do governo. Mas ele preenchia todas as condições, até tinha sido oficial do exército com duas comissões feitas ao serviço do governo, uma família tradicional e bem posicionada, tudo indicava que não haveria problemas. Ia ter o seu passaporte, iria à Europa e reviveria toda a sua infância ao lado do seu grande amigo Meia de Leite.

Mais uma viagem de hélis, mais uma operação para os lados da zona mais rica do país de onde, as entranhas da terra, forneciam os preciosos vidrinhos que o mundo ansiava possuir dada a sua valorização nos mercados internacionais, era melhor, muitas vezes, do que possuir moeda corrente, estes não estavam sujeitos ao câmbio internacional mas sim ao preço internacional do mercado que era astronómico, o problema era consegui-los e conseguir atravessar uma barreira alfandegária com eles. No seu caso era só imaginação, não se permitia ir mais além do que a sua própria imaginação, sabia que isto eram mercadorias proibidas e muita gente era presa pela sua transacção, nem queria ouvir falar delas, tinha o seu dinheiro guardado e dele faria uso.

O bater sincopado das hélices ouvia-se distintamente na madrugada do dia que aí vinha; os seus homens quase todos companheiros desde o início, estavam atentos aos menores sinais do exterior e do interior, a ordem de saltar e queda na máscara para protecção dos meios aéreos e dos restantes companheiros. O primeiro héli encontrou zona de clareira, pouca arborização, o ideal para descer até à altura de poderem saltar, ouviu-se a ordem, “atrás de mim e armas preparadas”. Era sempre o primeiro a saltar, desse exemplo lhe vieram as lealdades quase caninas de todos os companheiros que sabiam que não se furtava às balas e que nunca deixou nenhum companheiro no terreno, mesmo os feridos quando os havia eram sempre retirados para zona segura antes de prosseguirem as operações em que estavam engajados. Ainda sentados, rodaram os tornozelos, as botas voltearam para um pequeno aquecimento antes do salto, a queda, por vezes, provocava entorses que poderiam pôr em perigo a operação, não queriam ficar no chão, afinal eram os leões da savana, não havia mata que os impedisse de cumprir o seu dever.

Um a um, foram-se preparando, Noite Escura dirigiu-se para a “saída de salto”, que portas aquela coisa não tinha, atrás de si mais dois companheiros, os habituais que nunca o deixavam só, acocorados e prontos, logo que ele saísse iriam atrás, a arma na mão direita e na esquerda uma ténue sensação de segurança que os bancos do héli lhes forneciam, seguravam-se contra as bruscas manobras, para não se desequilibrarem, os outros já prontos a segui-los. Seguros aos bancos aguardavam a sua vez. “Agora”, Noite Escura precipita-se para o vácuo por baixo de si, cerca de dois e meio a três metros abaixo estava a terra que os aguardava. Sentiu o frio da madrugada entrar-lhe pelo camuflado, arrepiou-se por uns segundos, mas a adrenalina era mais forte e logo se sentiu amplamente aquecido, dois segundos foi quanto bastaram para sentir debaixo de si o capim da estepe, estava no chão.

O som lúgubre do bater das botas de meio cano na terra, vindo daquela altura, era soturno, oco, assustador para quem o ouvia e ele sempre o ouviu, não se lembrava de nenhuma operação em que não desse conta dele. Pouh! Botas assentes na terra, mais dois sons idênticos e a certeza de que os seus companheiros ali estavam a protegê-lo e preparados para dar protecção aos seguintes. Pouh! Pouh! Pouh! Depois foi o restolhar do capim na exacta medida e direcção que os seus companheiros tomavam para alargar o perímetro de segurança, a partir dali formariam a tenaz que, alguns quilómetros mais à frente fecharia o círculo à volta dos seus alvos. Estas medidas eram tão automáticas, tão apreendidas durante os anos de convívio comum que quase não era necessário falarem, todos sabiam o que tinham de fazer e o que se esperava da sua actuação.

Não era nada de especial, uma operação corriqueira, meia dúzia de homens tinham-se infiltrado pela fronteira e estavam em território nacional, com alguma sorte apanhavam-nos sem disparar um tiro. Assim sucedeu, fizeram o envolvimento sem serem notados, os guerrilheiros estavam tão descansados, por estarem perto da fronteira e não terem encontrado resistência nenhuma até aqui, que se tinham dado ao luxo de acender uma fogueira para cozinharem. Descansados e descontraídos, com as armas afastadas de onde se encontravam, não podiam oferecer resistência nenhuma, apanhados à mão. Não sentiram a aproximação do grupo de Noite Escura que se deslocava na mata, silenciosamente como sempre, verdadeiros fantasmas da noite, a fogueira inundava o ar de uma luz que era suficiente para que eles, colocados em pontos chave, se entendessem pelo simples sinal de dedos. Em simultâneo, apareceram na clareira de todos os lados e de armas aperradas, nem uma reacção senão aquelas caras onde o espanto se espelhava.

Manietados e amontoados à volta da fogueira, estavam agora a aguardar que o dia se fizesse de luz para a recolha pelos hélis. Uma operação sem tiros, sem mortes ou feridos como Noite Escura gostava, não tinha prazer nenhum em eliminar os oponentes a tiro e muitas vezes era bem mais fácil e sem riscos, mas evitava sempre essa solução e quando acontecia como esta, até se preocupava com o bem-estar dos seus prisioneiros, alimentando-os dentro das possibilidades que eles próprios tinham. Um verdadeiro senhor da guerra que afinal não fazia mais do que o governo tinha por indicação, aprisionar em vez de matar, havia sempre a possibilidade, as estatísticas assim o provavam, de muitos destes homens serem recuperados e passarem a ter uma vida normal, longe da guerrilha e quantos se passavam definitivamente para o lado do governo, eram muitos e cada vez mais uma vez que o resultado da guerra pendia dia-a-dia para o governo e contra os guerrilheiros.

O que Noite Escura esperava, sinceramente, era que as operações que ainda tivesse de fazer, até à sua disponibilidade, fossem todas deste género, simples rápidas, sem tiros. Até porque as grandes operações estavam a escassear, os movimentos já não faziam grandes ataques, aqui e ali umas emboscadas e tiros esporádicos, as coisas estavam mesmo mais calmas, mas, se necessário fosse, estaria preparado, ele e os companheiros. Já gozava com antecipação o momento da sua passagem à disponibilidade, os dias já eram contados de forma decrescente e ansiosamente. Que maravilha ia ser, sentir-se livre e dono do seu destino, poder decidir o que fazer e quando o fazer sem estar sujeito a esta rigidez de ordens que nem sequer podiam ser questionadas. Estava cansado, tinham sido anos de entrega intensa e até fisicamente se começava a ressentir. Estava a chegar o dia da saída.


publicado por: canetadapoesia às 17:19
link do post | comentar | favorito

Depois da revelação (27º Capítulo)

 

 

Ficou no ar um mal-estar que ninguém se sentia em condições de interromper. Cabeças baixas, olhares tristes e um silêncio ensurdecedor, apesar de algum alívio que a mãe de branquelas apresentava, o ambiente geral não ficou assim tão animado.

Na verdade, o grande pesar não se centrava só em Branquelas, Meia de Leite era outro filho do bairro que se tinha afastado. Cada um para seu lado, era certo, mas ambos saíram do aconchego de todos os que os amavam deixando os pais, em ambos os casos, destroçados pela ignorância do seu paradeiro e pelo temor do que lhes poderia acontecer. A falta que eles faziam à volta daquela mesa. Que bom que era quando todos se reuniam para um almoço ou jantar, alegres e felizes, apesar da dureza da vida e da abundância económica nem ser por aí além, eram felizes como amigos e naquele bairro.

O que é que o levou a fazer isto? Dizia o pai de Branquelas, logo ele a quem nada faltou, de onde tirou esta ideia? Passar-se logo para o inimigo? Quando se souber, vai ser bonito, não nos vão largar pela certa e a polícia ainda nos vai incomodar bastante, já para não falar do que vou sofrer no meu emprego. Não pense nisso Júlio, a polícia já o deve saber há que séculos, que eles não dormem em serviço, têm informadores espalhados por todo o lado e até agora não vos incomodaram. Ora se não vos incomodaram é porque sabem que não têm nada a ver com a decisão que Frederico tomou, sabem da vossa dor e da ignorância quanto ao seu paradeiro, se assim não fosse, era certo que já aqui tinham vindo.

Manuel, pai de Noite Escura, tentava animar os amigos da forma que melhor conseguia, mas sentia-se também incomodado. Afinal a sua família era negra e o que estava à vista é que o seu filho, Noite Escura, era o único que tinha ido cumprir a sua vida militar, que tinha entrado para o exército e, ainda mais, estava numa das forças mais temidas, as forças especiais que os guerrilheiros mais temiam e de que, sempre que podiam, se furtavam ao combate. O único que era negro ficou a defender o governo e a política do estado, os outros dois, um branco, que não enganava ninguém, o outro mestiço, tinham-se posto ao fresco e não quiseram saber de governo nenhum, pensava para si, que trapalhada era esta? Não compreendia nada disto, à vista desarmada estava tudo ao contrário, mas são os mistérios da vida, as teias que o destino tece.

Nem esta pequena circunstância que o destino tinha preparado alterou as suas posturas, o importante, ainda mais agora, era a sua amizade, era esse cimento entre eles que os tinha mantido durante tantos anos unidos e não era agora que se ia perder, fariam o possível para se continuarem a entreajudar. Neste momento, os dois amigos que tinham ficado sem os filhos ao pé de si eram a sua grande preocupação, eles é que precisavam de apoio para atravessar este momento difícil. Do que dependesse dele, podiam estar certos, tudo faria para que esta harmonia não fosse quebrada.

Meus amigos, apesar de tudo estamos aqui reunidos como sempre estivemos, com algumas ausências de peso porque sofremos por elas, sabemos como estão aqueles que agora nos faltam, brindemos, pois, à continuação da sua saúde e bem-estar. Mesmo longe de nós, como filhos amados que são, sempre foram e sempre serão, mesmo ausentes fisicamente, estão presentes nos nossos corações, pensamentos e nas nossas preces. Que este mau momento passe depressa, mesmo que isso signifique envelhecermos rapidamente, e que, um dia, todos aqui reunidos de novo possamos regozijar-nos por ter passado e nos ter trazido a paz aos corações, aos filhos, à família e à amizade.

Bateram os copos, beberam a cerveja e retomaram a conversa, afinal estavam reunidos para celebrar e não para chorar, apesar da decisão que tomaram, Branquelas e Meia de Leite, estavam vivos e de saúde, isso era o mais importante. Se ao menos esta guerra acabasse, tudo se resolveria mais facilmente e depressa regressariam para junto de nós. Mal imaginavam que Meia de Leite, já tinha assente arraiais num novo país e que dificilmente regressaria, estava prestes a engajar-se numa nova aventura, criar família, longe deles num outro continente. Tem toda a razão José, já era mais que tempo de ter terminado, por muito que o país tenha evoluído desde o início da guerra, o que é certo é que contínua a ser dirigido de fora, devíamos ser nós a escolher o nosso caminho, gerir a nossa própria terra, sem interferências. Pois é uma grande verdade, Júlio, todos gostaríamos que assim fosse, mas até lá temos de ir aguentando esta situação, um dia assim será e nessa altura, muito vamos comemorar.

Estas conversas eram tidas entre eles sem receios, se não fossem tão unidos, uma destas frases seria suficiente para que em menos tempo que levava a riscar um fósforo seriam detidos pela polícia política. Ali estavam seguros, estavam entre amigos, sem necessidade de falsidades, falavam livremente e expressavam o que lhes ia pela alma. Não tinham receio nem se coibiam de dizer o que pensavam e, na verdade, todos pensavam de forma igual, todos queriam ser livres, todos desejavam ser independentes de uma metrópole que, por estar tão longe, nem imaginava o que era este país. A sua imensa riqueza deixava antever a razão do prolongamento desta guerra, não queriam largá-la, sabiam que sem colónias, especialmente sem esta, a mais rica, o país não tinha meios de sobrevivência eficazes, iria soçobrar por certo.

Como por magia, estas palavras, ditas entre amigos, viriam a ser quase proféticas, passados trinta e seis anos, o país, a potência colonial vivia uma agonia lenta e inexorável que não mostrava sinais de melhoria. Sobretudo, o país, não produzia o suficiente para se manter como país soberano, dono de si e orgulhoso da sua história. Os tempos eram difíceis e as organizações mundiais que ainda os seguravam com empréstimos usurários, já que para eles era um negócio, impunham as regras de governação que os outrora grandes cidadãos, noutra altura, se recusariam a aceitar. Malhas que o império tece e que os homens demasiado curtos de vista ou talvez não, distorcem e destroem, aniquilando países, matando sonhos, separando famílias.

Há noite, depois de todos se recolherem, findo o jantar que se efectuara, desta vez, em casa dos pais de Noite escura, Genoveva e Manuel, Branquelas continuou a ser o tema de conversa nas três casas, mas era na de seus pais que a preocupação era maior, o que não deixava de ser compreensível. Já viste Maria, onde é que falhámos para isto nos acontecer? Que é que deu ao Frederico para tomar esta atitude? Logo para o inimigo? Ao menos o Josué saiu do país, foi para a Europa, mas o nosso não, havia logo de se entregar à guerra e ainda por cima no lado errado. Não me conformo, devemos ter falhado em algum lado, mas onde? Sempre tão preocupados com a educação dele, tudo o que era melhor era para ele, mas o que é que lhe faltou? Não sei Júlio, não sei mesmo, o que sei é que a opção foi dele, ninguém o pressionou, ele escolheu. Sabes como ele sempre foi de ideias fixas e precoce para a idade, nomeadamente nestas questões de nacionalidade então, era ferrenho, sempre se sentiu mais nacional do país onde nasceu e sempre viveu que do outro que, segundo ele, não passava de um algoz que não deixava o primeiro respirar.

Branquelas era tipicamente Africano, de hábitos e maneiras, a única característica que denunciava a sua ascendência era aquela sua pele branca, nem era a pele de alguém habituado ao sol daquelas paragens, era mesmo branco, branquinho como leite e por isso o baptizaram, entre os amigos, de Branquelas, sem nenhuma intenção injuriosa. No entanto, dentro daquele corpo, bem fundo no seu coração era um Africano genuíno e não via outro país como seu senão aquele onde sempre vivera, onde tinha os seus amigos e onde nascera esperando também vir ali a fechar os olhos. Quando decidiu o que havia de fazer, para quem o estudasse, nas suas ideias e atitudes, não havia dúvidas que tomara a decisão consciente do que fazia e porque o fazia, a sua terra. Não havia, pois, nada que admirar.

Genoveva e Manuel também se deitaram a conversar sobre Branquelas e sobre o seu próprio filho. Ainda intrigados com a opção que fizera, mas conscientes que fora pela sua própria cabeça. Não te parece Manuel que estas coisas fazem alguma confusão? Não te faz? Nós que somos negros temos um filho a defender o que os outros, branco e mestiço, não defendem, a defender o que o Frederico diz ser a opressão. Pois é Genoveva, os tempos estão difíceis e todos trocados, tudo está diferente, até a educação dos filhos hoje não tem nada a ver com o que era. Têm acesso a muito mais coisas, a leituras, algumas até malvistas e mesmo proibidas pelo regime, ouvem rádio vindo sei lá de onde, sabem mais coisas, depois, claro, não podemos admirar-nos que tomem decisões pela sua própria cabeça.

Sabes Manuel, o que me deu uma grande satisfação, foi saber que, apesar de estarem em lados opostos, apesar de serem inimigos, segundo a terminologia oficial, demonstraram um grande sentido de amizade e isso, se mais não lhes tivéssemos dado já era o suficiente para nos sentirmos satisfeitos e orgulhosos com a sua educação. Já reparaste como é o destino, os maiores amigos de infância encontrarem-se no meio da selva, só os dois, frente a frente? Os tortuosos caminhos da vida que levam sempre a um fim predestinado. Isto não foi por acaso Manuel, isto foi um sinal. Um sinal de quê Genoveva? Um sinal que as coisas estão erradas e têm de se compor, um sinal de que nem a guerra é mais forte que a amizade que eles se têm e que ela não a pode destruir. Estou muito contente com o encontro deles, ainda que naquelas circunstâncias, mas estou muito mais satisfeita pela atitude que ambos tiveram e olha que o Ambrósio bem sofreu por não ter nada mais para deixar ao amigo que as rações de combate que levava, coitado, achou-o bem mais magrinho e nem sequer reforçou o que viu para não preocupar mais os pais. É um bom menino o nosso Ambrósio, foi bem-educado.

Francisca e José, pais de Meia de Leite, também não ficaram alheios ao grande acontecimento do dia. Branquelas, como Noite Escura, eram como filhos, nados e criados debaixo das suas asas e queria-lhes como queria ao seu, os três mafarricos eram filhos de três famílias distintas, mas todas elas os sentiam como seus também, estava em crer que se um dia, credo, para longe com esta ideia, lhes acontecesse alguma coisa, o seu filho não teria problemas pois um dos outros amigos tomaria conta dele e o educaria como seu próprio filho. Já viste bem Francisca? O que os pais estão a sofrer em silêncio? Sabendo que o filho fugiu sem nada dizer e que ainda por cima se passou para o inimigo? Ao menos o nosso fugiu, sim senhor, mas fugiu do país para longe, para a Europa, fora daqui e ainda bem que assim foi, senão a preocupação era tão grande como a dos nossos amigos. Que situações nos arranjaram os nossos filhos, andamos uma vida a criá-los da melhor maneira que podemos e de repente começam a pensar por si próprios sem pensar no que causam aos pais.

Gradualmente o ambiente foi-se desanuviando, os almoços continuaram, as conversas também não esmoreceram, pelo contrário, estavam cada vez mais corrosivas e, se não se cuidassem, podiam ser ainda mais perigosas. Dois anos depois, Meia de Leite ainda lá para a Europa, perfeitamente instalado, agora com novidades, a sua vida estava em profunda alteração, para ficar por lá. De Branquelas nunca mais se soube nada, estava perfeitamente na penumbra, ninguém tinha informação nenhuma e ninguém perguntava ou logo se tornaria suspeito de colaboração com o IN, oficialmente escusava de se perguntar que nada era informado mesmo que soubessem e eles tinham a certeza que o sabiam melhor que ninguém. Nada a fazer neste caso, além de aguardar por melhores dias. Noite Escura ia na sua segunda comissão de serviço, não que o quisesse fazer, tinha sido convidado e estes convites traziam sempre anexado, uma ameaça, caso não se aceitasse a proposta oficial, de dificuldades de encontrar emprego, complicações na vida, uma lista completa. Ele aceitou e ficou mais uma comissão, sobretudo para que nada caísse sobre os seus pais, também estava a terminar, mais um ano e ficava livre, depois se veria o que iria fazer.


publicado por: canetadapoesia às 01:01
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 16 de Março de 2018

O princípio do reinício (26º Capítulo)

 

 

Um restaurante pequeno, simpático, no centro velho da cidade, era excelente para jantar, sobretudo porque ele não tinha assim tanto dinheiro e pelos vistos ela tinha bom gosto, escolheu um, cuja decoração era realmente agradável e acolhedora.

Sentaram-se e olharam para a carta, sinceramente, Meia de Leite não sabia o que pedir, deixou nas mãos dela a escolha e foram falando, coisa que ele queria para ir aprimorando a língua que isto de saber francês pelo que se aprendeu na escola não é a mesma coisa. Ela corrigia-o nas situações em que a frase estaria mal construída ou, mais vulgarmente, na pronúncia, tinha uma pronúncia engraçada pensou ela.

Ia tentar arranjar-lhe um bom lugar para começar a trabalhar no país e depois, quando se sentisse verdadeiramente integrado, quando se mexesse livremente, então poderia ser ele a procurar outro, a mudar para o que lhe interessasse, aí estaria já nas mãos dele moldar a vida à sua maneira, agora ela ajudava que era a sua função. Mesmo depois que deixasse de estar incumbida desta tarefa estaria sempre ao dispor de Meia de Leite, ele que não se preocupasse que não lhe ia faltar apoio, este país era conhecido pela sua solidariedade para com quem aqui se refugiava e não ia ser desta vez que o deixava de ser.

Queria saber como tinha sido a sua vida até ali chegar e Meia de Leite foi contando. Nunca, que se lembrasse, tivera trauma nenhum durante o seu crescimento em África, só que a partir de certa altura, a partir de uma certa idade, havia pendente sobre a cabeça de cada jovem o estigma de que se não fosse a favor da política vigente e consequentemente da guerra, não era um verdadeiro cidadão, um homem às direitas, ele discordava, mas nestas coisas os que são contra são sempre silenciosos. Estas vozes não se ouviam e as que tentavam fazer-se ouvir, rapidamente eram silenciadas e muitas vezes desaparecendo mesmo os seus autores. Só tinha uma possibilidade, tentar a fuga do país, foi o que fez e teve sorte, correu tudo bem, ali estava defronte dela a conversar durante um jantar agradável, no centro da Europa.

A vida dela também não tinha traumas nenhuns, nasceu e cresceu no seio de uma família da classe média com a vantagem de ser ali, na Europa, como tal não teve de fugir para lado nenhum porque quando nasceu já o país se tinha livrado do seu inferno africano e os seus jovens estavam livres de uma guerra que nada lhes dizia. Tinha estudado segurança social e por isso estava naquele serviço por onde, aliás, já tinham passado muitos refugiados e não eram da origem que ele tinha, alguns vindos de onde ele viera, mas poucos. A grande maioria até vinha de países africanos que já há muito estavam livres do jugo colonial, mas com a ascendência ao poder de ditadores locais, rapidamente se transformaram em campos da morte, em infernos na terra, os seus cidadãos, sempre que podiam e conseguiam, fugiam deles a sete pés.

Na verdade, ele pouco sabia de política nunca se interessara e também não havia hipótese de se interessar porque no seu país tudo era muito bem controlado ao ponto da política ser só para alguns, mesmo assim escolhidos e debaixo da batuta de um maestro maior e controlador. A informação era o que o governo queria que se soubesse, a conta gotas, nada mais que isso e de onde vinha não se sabia sequer o que se passava nos países vizinhos, tudo era controlado e ele tivera sorte em conseguir sair sem nada lhe acontecer, nem acreditava que tinha conseguido, essa é que era a verdade.

Jeanne queria saber o que ele pretendia da vida, o que queria fazer agora que estava em segurança e admirou-se das suas convicções, das suas ideias e da firmeza que punha nelas. Afinal queria coisas simples, bem simples mesmo, arranjar emprego, trabalhar em algo de que gostasse e refazer a sua vida. Como refazia a sua vida? Começava exactamente por arranjar emprego e depois disso, depois de se sentir mais seguro economicamente, estaria em condições de a refazer, ou antes, de a iniciar criando família. Pensava criar família por ali mesmo, se conseguisse encontrar alguém de que gostasse e que também gostasse dele, casar-se-ia e teria filhos, naturalmente, e não previa sequer voltar a sair daquele país onde se encontrava em segurança e de que até começava a gostar como se sempre lá tivesse vivido.

Jeanne gostou do que ouviu, tinha uma pequena queda por ele, parecia-lhe, desde o primeiro dia, que era uma boa pessoa, simpático e sério. Notava-lhe algum acanhamento, era um pouco introvertido, falava pouco mas ligou isto ao facto de ter chegado há pouco tempo e ainda não estar tão integrado e dentro do espírito das gentes do país. Havia de se abrir mais e ela ia ajudar a que isso acontecesse, começava a gostar um bocadinho dele, era um rapaz com boa presença, bonito mesmo, porque não dizê-lo, era uma boa mistura de duas raças e isso não era motivo de desclassificação, muito menos no seu país, era uma pessoa como outra qualquer e sobretudo tão educado que até lhe custava a acreditar.

Mas esta educação tinha um motivo, era a educação que os pais lhe deram, sempre lhe inculcaram a ideia de família, o respeito por todos, a carinho pelos mais velhos e isso acompanhá-lo-ia pelo resto da vida, era o mesmo que queria fazer aos seus filhos, quando os tivesse é claro, dar-lhes a educação que teve e que fez dele um ser humano cultural e eticamente desenvolvido. Devia-o aos pais e aos amigos com quem sempre vivera, à sua maravilhosa juventude que o marcou para sempre. Era impensável alguém queixar-se aos seus pais da sua falta de educação, estava mesmo fora de questão, então naquele bairro onde todos se conheciam, era tareia pela certa e os pais nunca lhe puseram as mãos em cima.

Acabaram o jantar, saíram e caminharam pelas ruas, agora quase desertas pelo adiantado da noite, deram umas voltas pela cidade, ela guiou-o até que se fizeram horas e desceram ao metro para se recolherem a suas casas. Insistiu em ir com ela até casa dela, que era tarde, que não era bom ir sozinha, que ele não se importava nada e que até se desenvencilharia bem e só faria bem para se ir habituando. Não, não era preciso que não havia problema nenhum em andar só pela cidade, mesmo sendo noite, ela é que ia com ele e daqui a uns dias então se veria se ele podia aventurar-se só pela cidade. Assim ficou, apesar da insistência de Meia de Leite, ela levou-o a casa e agora, com o metro mais vazio não houve encostos que o atormentassem, tinham espaço suficiente e até iam sentados.

Chegaram a casa dele, ou antes, à casa que lhe tinham destinado pelo menos durante dois anos. Despediram-se com a certeza que no dia seguinte se voltariam a ver, agora para falarem sobre as hipóteses de emprego que ela lhe traria, um novo dia no centro da Europa. Estendeu-lhe a mão, mas ela preferiu outra despedida, agarrou-o pelos ombros, suavemente, e deposita-lhe um beijo de cada lado da face. Apanha-o desprevenido, mais ainda quando ao soltar-se lhe diz, gosto de ti, és simpático, dorme bem que amanhã bem cedo cá estarei, como de costume. Ficou sem fala, não conseguia articular palavra, olhou para ela, estático, ali parado, a olhar para ela. Jeanne sorriu-lhe, virou costas e foi-se embora.

Viu-a desaparecer na esquina mais próxima e ainda ali ficou uns segundos a tentar decifrar o que lhe tinha acontecido, o que ela quereria dizer com ”gosto de ti”, deu por si a sorrir. Será que estava ali o princípio do seu reinício de vida? Seria possível que esta cidadã Belga gostasse dele a ponto de poder ser a pessoa que mudaria a sua vida? Seria esta a mulher que procurava? Aquela com quem iria dividir a sua vida? Virou-se subiu as escadas, abriu a porta do edifício e fechou-a nas suas costas, dois lances de escada depois estava à porta daquilo que chamava o seu apartamento, entrou e sentiu o calor que lhe vinha do interior, a casa estava mais quente que a temperatura da rua e era normal, estas casas eram construídas para suportar os frios invernos do norte da Europa, estavam preparadas para guardar o calor no seu interior e isso agradava-lhe, ele que vinha de um país quente, sabia-lhe sempre bem um pouco de calor.

A noite não foi pacífica, aquela despedida despertou nele algo que não se julgava, ainda, preparado para enfrentar, uma relação com alguém, uma relação que se poderia tornar mais séria, que poderia mudar a sua vida. O que ainda o preocupava era tomar uma decisão dessas e talvez casar, ter família, vir a ter filhos e estar tão longe dos seus, dos pais, futuros avós, que diriam eles? Como lhes contaria? Qual seria a sua reacção? De qualquer modo não sabia se algum dia lá voltaria e, se não voltasse, queria pelo menos que eles aqui viessem que estivessem com ele, que vissem como vivia e porque não, apresentar-lhes a sua mulher, mostrar-lhes os netos que não podiam mimar.

Não valia a pena estar com estas pieguices, amanhã seria outro dia e um atrás do outro havia de chegar o dia em que tivesse de pensar seriamente nestas coisas, agora não, tinha de se concentrar na sua nova vida, na vida que agora ia iniciar, no reinício daquilo que interrompera quando fugiu da guerra, quando deixou os seus amigos, sim, amanhã era outro dia e Jeanne lá estaria bem cedo para recomeçarem a aventura. Jeanne, até que o nome era engraçado como ficaria o seu nome se se casassem? Jeanne da silva? Ou será que ali não se usava o nome do marido para completar a união de duas pessoas que se casassem? Que raio, horas de dormir e eu a matutar nestas coisas. Virou-se para o outro lado, olhando o céu pela janela e adormeceu.


publicado por: canetadapoesia às 17:55
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 15 de Março de 2018

O repouso do guerreiro (25º Capítulo)

 

 

A operação terminou dentro das perspectivas que se tinha, em referência ao seu desfecho. As baixas foram relativamente pequenas do lado oficial e enormes no seio das forças do inimigo.

Noite Escura tinha cumprido a sua missão, derrotar o inimigo no sector que lhe estava destinado, persegui-lo e destruir as suas bases, dispersas e distantes umas das outras por escassos quilómetros. Esta proximidade permitia-lhes a constante movimentação de um para o outro lado sem que fossem detectados demasiados homens numa delas. Uma vitória fulgurante que seria recordada como exemplo de operações bem montadas e preparadas para dar luta ao IN eliminando-o das zonas mais críticas.

Agora estavam de regresso com os elementos capturados, entregues à guarda do aquartelamento, preparavam-se para retirar, novas operações os aguardavam, primeiro um justo descanso.

O que ele queria era uma semana inteira de descanso, férias que lhe permitiriam ir a casa, ver os pais, saber novidades, falar com os amigos, com os outros porque aqueles que mais queria perto de si estavam agora em campos totalmente diferentes. Um sabia que estava para a Europa, longe desta loucura, o outro, bem, o outro tinha acabado de o encontrar em situação complicada e surpreendente. Não queria que ninguém soubesse, para além de lhe criar problemas militares se alguém sonhasse sequer o que tinha acontecido, ia criar-lhe outro tipo de problemas e desses já tinha de sobra.

Não sabia como havia de falar aos pais de Branquelas no encontro que tinha tido com ele, mas por outro lado queria tranquilizá-los, tristeza já eles tinham desde o dia em que ele se transferira para o outro lado. Lembrava-se como se fosse hoje, tinham jantado em casa dos pais de Meia de Leite, a mesa já só tinha sete lugares, o único filho presente era ele, os outros dois, os seus grandes amigos, tinham seguido o mesmo caminho num espaço de tempo relativamente curto. Também com Branquelas, ninguém esperava, simplesmente desapareceu, mas antes teve o cuidado de enviar uma carta aos pais pelo correio, para lhe dar tempo a desandar sem a intervenção deles para o dissuadir. Foi o segundo jantar triste em que todas as famílias participaram. Só restas tu, Ambrósio, os outros abandonaram-nos pelas suas ideias, disseram-lhe. Nunca mais se esqueceu e prometeu a si próprio que ele não o faria e por isso ali estava, no exército, nas forças especiais, a perseguir o amigo.

Não sabia como havia de lhes confidenciar o seu encontro com Branquelas, mas como tinha a certeza que se juntariam a almoçar no sábado em que chegasse, aí, todos reunidos à volta da mesa e sem ouvidos indiscretos, poderia encetar a conversa nesse sentido. Os hélis que os transportariam à base de partida já se faziam anunciar pelo intenso ruído dos seus rotores, os homens preparavam-se para o embarque, lentos agora, cansados de tanta tensão e adrenalina no máximo, sentiam a carga a desaparecer e, no seu lugar, ficar aquele cansaço que resta depois de um enorme esforço. Tinham cumprido bem a sua missão e, no seio do seu grupo, nem uma baixa. Cansados, mas satisfeitos de estarem todos de regresso, não tiveram de carregar nenhum companheiro e isso era bom, sinal de que todos estavam vivos e bem, caminhando pelos seus próprios pés.

Chega a casa na véspera do fim-de-semana, como previa, todos souberam de imediato que ali estava. O almoço de sábado foi logo combinado, os preparativos iniciaram-se de imediato. Havia que confeccionar os doces para a sobremesa, preparar a galinha para a moamba e mais uma série de quitutes que não se dispensavam. Depois de um breve descanso lá foi visitar os amigos e colegas do bairro, dois dedos de conversa, por em dia a vida do bairro, quem chegou, quem foi embora, quem casou com quem, enfim, mexericos indispensáveis para se manter actualizado com o que ali se passava.

O jantar, em casa dos pais, foi alegre e divertido, queriam saber tudo o que fazia o que o esperava no regresso como lhe ia correndo a vida no exército, se se cuidava, quanto tempo ainda por lá andaria, preocupações de pais. Foi durante o jantar que soube que Meia de Leite tinha dado notícias, que estava bem e a encarreirar a vida na Europa. Contaram-lhe que tinha fugido para a Bélgica, pela fronteira do Norte e, apesar dos perigos, tinha conseguido atravessá-la sem problemas de maior, depois foi recebido pelo consulado e enviado para o país de onde agora dava notícias, foi bem recebido e deram-lhe todo o apoio, estava a integrar-se e à procura de começar a trabalhar. Era tudo o que sabiam, mas era bom saber que se encontrava bem e que pelo menos ele se livrara de tudo aquilo. Ouviu o que já sabia pela voz de Branquelas, não denunciou o seu conhecimento da situação, era melhor assim.

Também lhe disseram que foi um alívio para os pais saberem que ele estava bem e que depois disso até a mãe tinha melhorado daquela imensa tristeza que a consumia por nada saber do filho. Quanto ao Branquelas, nada sabiam, desaparecera logo de seguida, como ele sabia, e não voltara a dar de si, estava desaparecido por completo, achavam que um dia também saberiam alguma coisa como aconteceu a Meia de Leite, provavelmente também foi para a Europa. Mal sabiam que estava mais perto do que imaginavam, só ele sabia onde se encontrava, em que circunstâncias eles se encontraram. Se o seu desaparecimento tinha sido um choque para os pais, saber agora que se tinha passado para o outro lado ia arrasá-los, mas tinha de lhes dizer qualquer coisa. Ia fazê-lo no dia seguinte, durante o almoço.

Sábado de manhã, pouco trânsito nas ruas, nos quintais viam-se as pessoas de volta dos jardins, arranjando aqui, plantando acolá, passando o tempo de descanso em relaxe junto das flores. Espreitou da janela e o sol encadeou-o por momentos, já ia alto, dez horas da manhã, tinha dormido bem, como há muito não o fazia. Tratou-se e vestiu-se para iniciar o dia com um valente pequeno-almoço que a mãe lhe preparara, o pai, saíra para o quintal e lá se entretinha, também, de volta do jardim. Foi à janela da cozinha e deixou cair o olhar sobre ele, os cabelos brancos assomavam à volta da cabeça, não era velho mas a idade ia-se amontoando e, à volta dos olhos e na cabeça, era bem visível. Uma ternura imensa passou-lhe pelos olhos, o seu pai, a ele tudo devia, nunca se furtou a sacrifícios para que nada lhe faltasse e as coisas eram bem difíceis que ser funcionário público não era um trabalho que desse para enriquecer, mas pelo menos dava dignidade e o sustento suficiente para levarem a vida para a frente.

Uma volta pelo bairro para ver os amigos e logo regressaria para o almoço que seria no quintal de sua casa, os pais faziam questão que assim fosse, afinal o filho regressado era deles e tinham de fazer as honras da casa. Foram-se chegando os amigos, cada qual com as suas imbambas de comida para o almoço, era o prato forte, eram as sobremesas, eram os aperitivos e, o que não podia faltar, o vinho. A mesa posta debaixo da mangueira esperava que lhe depositassem em cima os respectivos manjares, não tardou a ficar coberta de deliciosos e apetitosos aperitivos para se ir debicando enquanto as comidas quentes estavam a ser preparadas.

Eram sete, sete pessoas das nove que era normal em tempos anteriores, mas agora faltavam aqueles dois mafarricos que resolveram desertar desta tertúlia de gente boa que se alicerçava na sua amizade para enfrentar a dureza do dia a dia. Ia-se falar deles na mesma, mas com alguma pontinha de tristeza, seriam lembrados pelos bons momentos que todos passaram e sobretudo pela amizade intocável que os unia, mais aos filhos que se tornaram inseparáveis. Dessa amizade nasceram dias de aventura e folia que ficam como recordação para o resto da vida, inesquecível juventude num país grande o suficiente para se alargarem nele. Começava a ter saudades desse tempo de menino. Das despreocupações da idade, da liberdade que tinham e dos momentos em que se juntavam a planear e a concretizar todas as aventuras imaginadas.

Já a paracuca estava no fim quando vem da porta da cozinha o grito de “afastem-se, arranjem espaço na mesa que isto está quente”. Ali vinham os pratos quentes, ainda fumegavam, o cheiro que exalavam, só por si já enchiam a barriga e depois de os testar na língua e no palato, então sim, sentia-se toda a força destes cozinhados experimentados e feitos com todo o amor e carinho, excelentes. Toma mais uns quiabos para lhe dar sabor, tira mais funge, enche aqui o copo se faz favor que eu também bebo. No meio desta barafunda e depois dos copos cheios, lá vinha brinde, à saúde de todos, à amizade e aos filhos. Foi aí que ele olhou para os pais de Branquelas e lhes notou aquela tristeza de tamanho tão grande que nenhum oceano se lhes comparava. Também eles levantaram os copos apesar de Maria, mãe de Branquelas deixar escapar uma lágrima furtiva, o pai baixou os olhos no momento do brinde, beberam e pousaram os copos para se servir.

Então D. Maria que é isso? Deixe de lado essa tristeza, vai ver que não tarda nada temos notícias do nosso Frederico, Branquelas para os amigos, ainda se encontra lá pela Bélgica com o meu Josué, vá lá que hoje temos aqui o nosso Ambrósio que só por si já é uma alegria. Bem gostaria que assim fosse D. Francisca, mas é mais forte do que eu, se ao menos tivesse alguma notícia, agora assim, sem saber nada dele há tanto tempo, custa muito, é difícil alegrarmo-nos. A refeição foi-se desenvolvendo, comendo e conversando até que, já com os estômagos aconchegados Noite Escura se resolve a abrir-se com eles, só ali estavam eles, os amigos chegados e podia falar sem receios que a sua conversa extravasasse os muros do quintal. Não sabia bem o que dizer nem como começar, ia tentar ser o mais delicado possível.

As nossas famílias sempre foram amigas, muito amigas e nunca houve nada que estilhaçasse essa amizade que eu guardo e muito prezo, até porque são os pais dos meus melhores e eternos amigos, inseparáveis mesmo. Ficaram todos a olhar para ele na expectativa do que vinha a seguir, ninguém emitiu um som. O que vou agora contar, fez uma pausa, espero e peço que não sai daqui de modo nenhum pois podia pôr-me em risco a mim e até aos meus pais por isso peço que mantenham segredo absoluto de tudo o que lhes disser. Não te preocupes que aqui somos amigos a sério e nenhum quer prejudicar o outro, afinal o que tens para contar de tão sério? Que é que trazes na cabeça que não possa ser ouvido ou sabido por mais ninguém? Conta lá anda.

Bem, a verdade é que eu devo ser a única pessoa no país, para além da polícia política, que sabe onde se encontra o Frederico. Fez-se um silêncio sepulcral, só se ouviam as moscas de volta da comida. Por um desses acasos que o destino nos reserva na vida acabei por encontrá-lo e estar com ele por alguns minutos. Onde foi diz-nos, está bem? Está, está bem, e deixei-o bem, um pouco mais magro talvez, mas bem. Mais magro? Minha Nossa Senhora, aquele rapaz mata-me, ele já é um palito e ainda está mais magro? Mas onde o viste? Afinal não foi para a Bélgica? Não, não foi, está mais perto do que pensávamos. O Frederico, seguindo aliás o que sempre pensou, aliou-se aos contras e milita num dos movimentos que lutam pela independência. E como o soubeste? Quem te disse isso? Não acredito, o meu filho? Ele sempre defendeu estas ideias e acabou por lutar por elas, sempre quis a sua terra livre e independente para decidir o seu destino, a maneira que encontrou para dar largas às suas ideias foi esta.

Estive com ele a meio de uma grande operação que encetámos para limpar a área junto à fronteira, no leste do país, as nossas missões eram opostas, ele a atacar e eu a defender. Encontrámo-nos no meio de uma chana quando eu o perseguia sem saber que era ele, evidentemente, e ainda bem que era eu a persegui-lo, foi Deus que me guiou naquela altura, podia ter entregue a tarefa a outro companheiro, decidi ser eu e ainda bem. Ali no meio do capim, sem ninguém a observar-nos, depois de o ter feito parar, conversámos e até lhe deixei as minhas rações de combate que ele precisava de se alimentar. Entregaste-o? Não, não o entreguei e por isso peço o máximo cuidado com as conversas sobre ele, falámos e acabámos por nos separar com um abraço, afinal a amizade que nós temos serve para alguma coisa, não? E como sabes que ele ficou bem? Fiz com que ali ficasse, naquele local, até retirarmos e depois poderia seguir sem que ninguém o visse e ele assim fez, por isso posso afirmar que ficou bem, eu não seria capaz de lhe fazer mal nem ele a mim e teve a oportunidade.

Do que retirei da conversa é que esta era a grande oportunidade do movimento se afirmar naquela zona e ele comandava a operação de ataque à vila e aquartelamento ali existentes, não conseguiram e foram derrotados, ele não sofreu nenhuma retaliação. Deixou-me a incumbência de lhes transmitir as saudades que sente de todos e manda abraços, que fiquem bem e não se preocupem com ele, foi o que me pediu para transmitir. Um dos motivos da minha vinda de férias era também o poder transmitir-lhes esta informação e as preocupações de Frederico para com os pais. O silêncio imperou durante uns minutos, todos absortos no que acabaram de ouvir. A mãe de Frederico levanta-se, vai direita a Noite Escura e, quando todos esperavam uma reacção negativa, abraça-se a ele, beija-o e agradece-lhe por não lhe ter feito mal nenhum. Sempre foste um bom menino, um grande coração, nunca me enganei. D. Maria, eu seria incapaz de levantar uma palha contra o meu amigo, mesmo naquelas circunstâncias, não tem de me agradecer nada, a única coisa que peço, que já referi, é que mantenham isto em segredo, se se sabe sou eu que vou preso por não o ter capturado.

Ninguém saberá para além de nós, fica descansado meu filho, nunca esquecerei o que fizeste por ele. Uma enorme amizade que, a partir de agora, era uma cumplicidade enorme, também eles tinham um segredo conjunto e tinham de velar por ele, mantê-lo entre todos, longe dos ouvidos de terceiros. Nasceu ali e por ali ficou no coração de todos, a tarde prosseguiu entrando na noite e alguma da alegria perdida pelos pais de Branquelas voltou a assomar aos seus rostos. O seu filho estava vivo, estava bem. Não lhes agradava muito a opção de vida que escolhera, que importava isso se era o seu filho, não seria a política a tirar-lhes o amor pelo filho.


publicado por: canetadapoesia às 17:52
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Março de 2018

Encarrilando a vida (23º Capítulo)

 

Por hoje acabámos. Já estás documentado, livre para andar pelo país, és um cidadão como os outros que cá vivem, por enquanto só como refugiado, daqui a dois ou três anos poderás pedir a nacionalidade e aí serás um autêntico Belga.
Estava feito, pensou Meia de Leite, para trás ficou um caminho doloroso, fisicamente só o da caminhada pela mata até à liberdade, mas a dor sentimental era enorme. Essa não sabia como acalmá-la, as recordações dos pais, dos amigos, de todos os que com ele conviveram no bairro ou na escola, estavam presentes nas suas memórias e acreditava que jamais se separaria delas. Doía-lhe, sobretudo, não lhes ter dito nada, ter-se feito à aventura sem falar com nenhum deles, mas tinha de manter o máximo segredo para as coisas funcionarem na perfeição e até aqui tudo correu bem.
Sentia saudades dos seus amigos, das brincadeiras, das farras, de tudo o que passaram juntos. Que seria feito deles, logo que estivesse definitivamente assente tentaria telefonar para casa, queria saber novidades, como todos estavam, como estavam os outros dois mafarricos, Noite Escura e Branquelas. Preocupava-o o facto de terem sido apanhados nesta guerra, não terem escapado como ele e esse facto mais o entristecia, porque não falou com eles, pelo menos? Talvez eles o acompanhassem e saíssem os três juntos do país evitando ser incluídos naquela loucura. Bem, não havia nada a fazer, só queria saber se estavam bem porque tinha a certeza que um dia ainda se encontrariam de novo.
Agora a sua grande preocupação era arranjar um emprego, preocupava-o, mas não em demasia, Jeanne também lhe tinha dito que, pelo menos o primeiro emprego, não seria difícil pois era apoiado pelas empresas que trabalhavam com os serviços do Estado fornecendo uma lista de vagas que iam sendo preenchidas por pessoas como ele. Era evidente que estes empregos não podiam ser o sonho de ninguém, era o possível, aquilo que se conseguia arranjar para começar a vida por ali, não eram muito qualificados, mesmo assim era um princípio e isso era importante. Com sorte e a ajuda de Jeanne, podia ser que se arranjasse alguma coisa melhor, ela saberia o que escolher, melhor do que ele que ainda agora chegara e mal conhecia o país.
Amanhã, vou dar uma vista de olhos pelas listas de oferta de emprego, como tenho de ir ao escritório de manhã, aproveito e faço uma pesquisa, à hora do almoço vou ter contigo e falamos sobre o que encontrar. Entretanto, podes ocupar a manhã a dar uma volta pela cidade, vais-te habituando às ruas, às pessoas, à vida local e ficas a conhecer o lugar onde vais viver por algum tempo. Já sabes que este apartamento só será teu enquanto não estiveres totalmente integrado, depois tens de o devolver, de qualquer modo o tempo que aqui podes ficar é mais do que suficiente para te ires integrando. Vais poder aqui estar, depois de arranjares emprego, por mais dois anos, tempo considerado suficiente para te adaptares e integrares, depois desse tempo tens de arranjar casa por ti e deixá-lo, é claro que se o puderes e quiseres fazer antes, podes fazê-lo, mas acho que deves aproveitar esse tempo, sempre podes fazer alguma poupança.
Agora diz-me, estás disposto a ir conhecer alguma coisa desta cidade à noite? Nada de muito dispendioso, convido-te para jantar comigo, eu pago, vamos a um pequeno restaurante simpático e barato, depois até podemos dar uma volta pelo centro da cidade para ires conhecendo, que achas? Meia de Leite, não achava nada, estava meio aparvalhado, começava a pensar que ela não estava ali, com tanta gentileza e a tentar ajudá-lo de todas as maneiras, só porque o tinha de fazer oficialmente. Tinha simpatizado com ela desde o primeiro dia, sentia agora que ela também lhe tinha alguma simpatia, aliás, o que aconteceu ao almoço no restaurante já indiciava alguma coisa que, na altura, não relacionou com nada. Agora começava a pensar.
Afinal queria recomeçar a sua vida aqui e isso incluía poder vir a ter uma namorada, alguém com quem partilhar a sua vida, alguém com quem pudesse criar uma vida, ter filhos e com uma mãe tão bonita também eles seriam pela certa. Não fechava a porta a uma relação com Jeanne, pelo contrário gostava desta ideia, era mais ou menos da idade dele, elegante, bonita mesmo e se gostasse dele, como ele achava que sim, estava ali a oportunidade de ter uma companheira e futura mãe dos seus filhos. Sabia que não era um grande namoradeiro, mas havia de ser um bom marido. Com estes pensamentos a assolarem-lhe a cabeça, já começava a gostar dela a sério.
Só o tempo diria o que daqui podia sair, mas para já aproveitava para a ir apreciando, aceitava ir jantar com ela e passear pela cidade, ela conhecia-a e dar-lhe-ia a conhecer as referências que precisava para se orientar. Ficou combinado, e nem precisavam de se separar, já era suficientemente tarde para que fossem a casa e voltassem para o jantar, sairiam dali directamente para o centro da cidade, de metro, e depois de umas voltas dirigir-se-iam para o tal restaurante que ela conhecia e onde jantariam. Parecia, a Meia de Leite, um bom programa, para quem tinha chegado como ele era um excelente programa, sorte a dele ter-lhe calhado aquela mulher como apoiante e suporte de integração. A ironia do destino era se no fim de tudo isto acabassem juntos, a integradora e o refugiado ligados por laços de um matrimónio que, por ele, até podia ser sem casamento, não alteraria nada.
Perguntou-lhe se ainda tinham tempo de passar por uma estação de correios. Que sim, havia uma, mesmo à saída do metro que iam tomar e quase no centro da cidade. Precisava de mandar um postal para os meus pais, ainda não sabem onde estou. Não lhes disseste nada do que ias fazer? Chegaste aqui sem que eles soubessem nada de ti? Mas que grande aventura, devem estar preocupados, o melhor é dares sinal de vida para que saibam que estás bem. Era o que pretendia, só enviar um postal que logo lhes escrevo com mais calma e talvez até telefone, o problema é que para telefonar tenho de o fazer primeiro para combinar as horas a que devem estar na loja do sr. Baptista para me atender. Porquê? Não têm telefone? Não, de onde eu vim não há assim tantos telefones como aqui. Ter um telefone para cada casa é um luxo que ainda não temos, portanto tenho de ligar uma vez ao sr. Baptista, avisá-lo que telefono no dia seguinte para que ele os avise e eles lá estejam para atender.
Ela admirava-se com estas coisas, não ter telefone em casa era uma coisa impensável para ela que vivia aqui no coração da Europa. Em África? Nem pensar. E quando lhe disse que também não tinham televisão abriu os olhos de espanto, mas vocês vivem no meio de um deserto? Não, não vivemos num deserto, mas dependemos de um país em que essas coisas não são consideradas prioritárias. Mas os correios são bons, não há carta que se perca, chegam sempre ao seu destino, ainda que possam levar algum tempo, mas chegam.
Entraram no metro, pagaram os bilhetes e passaram as cancelas, desceram umas escadas e ali estavam na plataforma do comboio que os levaria ao centro. Meia de Leite olhou à sua volta, aquelas instalações pareciam-lhe velhas e gastas pelo tempo, escuras e sujas, não gostou, reconhecia, no entanto, que era um transporte excelente para a mobilidade nas cidades. Como por magia, viu o comboio aparecer vindo de um túnel escuro como breu onde só o distinguiu pela luz que trazia acesa à frente da primeira carruagem onde também vinha, num canto envidraçado, o condutor do comboio. Entraram na carruagem que já vinha cheia de gente, aquela hora era uma hora de ponta, hora de saída dos empregos e as pessoas apressavam-se a regressar a suas casas.
Lá entraram, ela agarrou-lhe a mão para que não ficasse para trás, habituada como estava a estas andanças, empurrando aqui e acolá, conseguiram um lugarzinho, a um canto, apertado e em que só cabiam por especial vontade de viajar naquela carruagem, ele encostado à parede do comboio e ela encostada a ele. Para se segurar, agarrou-se a um varão que lhe passava mesmo por cima da cabeça, era alto, tinha essa vantagem, ela puxou a mala mais para cima do ombro, ajeitou-a e agarrou-o pela cintura, uma mão do lado esquerdo e a outra do lado direito. Estavam ali coladinhos, sem espaço para se mexerem e ele a sentir-lhe o corpo quente colado ao seu, as curvas, as suas curvas frontais encostadas a si e ele desesperado, sabia o que poderia acontecer nesta situação e aconteceu. Ela sentiu o que lhe estava a acontecer e pelo que julgou, encostou-se ainda mais, apertou-o mesmo. Meia de Leite já suava e de repente sente-lhe a mão a correr-lhe as costas, suavemente, para cima e para baixo, ainda pensou que era só ela a tentar segurar-se, qual quê, para se segurar estava com a mão quieta e agarrada a ele, não com ela a percorrer-lhe o corpo, as costas, mais precisamente.
A cada balanço do comboio o bafo quente da sua respiração, fazia sentir-se no seu pescoço e a mão continuava à solta pelas suas costas. Como é que um homem aguenta isto? Pensou para dentro, parece que se apraz em me provocar, não consigo temos de chegar rapidamente ao destino ou não sei o que me pode acontecer. Jeanne, tinha-o sentido a entusiasmar-se e ainda o espevitou mais, sabia muito bem como fazer as coisas para o deixar incomodado e naquela posição, com a carruagem cheia, ele não conseguia sequer mover-se, estava ali à sua mercê, ia provocá-lo um pouco, sempre queria ver de que fibra era feito. Não era nada feio, educado de mais para um refugiado político, não costumavam ter este aspecto pensou Jeanne, este era diferente, distinto, via-se que não era um desgraçado qualquer, tinha postura.
Finalmente a estação de destino e Meia de Leite suspira de alívio, ela volta-se para se dirigir à porta do comboio, roça-lhe com os seios no seu peito encosta-se para trás, instintivamente, Meia de Leite, encolhe-se, ela chega-se-lhe na mesma e aperta-o com as nádegas, agarra-lhe a mão e, como se nada fosse, puxa-o para a porta para saírem. Esta estação está com melhor aspecto, diz para si, segue-a por entre o mar de gente que vai saindo e caminhando pelo corredor em direcção às escadas que se vêm ao fundo. Sobem-nas, cá fora deparam com o edifício onde, no rés-do-chão, funciona a estação de correios, entram, preenche um impresso de telegrama, dirigem-se ao guiché e pagam o envio. Despachados desta tarefa deambulam pelas ruas da cidade, caminhando em direcção ao restaurante que ela pretendia atingir, vão passeando pelas ruas cada vez mais desertas da cidade.
A cara de Meia de Leite reflecte bem a sua admiração por tudo o que o rodeia, tudo o que vê lhe parece grandioso, tanta luz nas ruas, as montras de produtos das melhores marcas, todas iluminadas, o vaivém das pessoas que entram e saem, que circulam nos passeios, a confusão de uma cidade em hora de ponta, hora do regresso a casa e das compras de última hora. Uma cidade, isto sim é uma cidade, eu vivia numa aldeia, ao pé deste movimento a minha cidade era de província mesmo. Ela achava graça aos seus trejeitos e ria-se, nunca tinha vivido fora desta capital e não sabia como eram as outras cidades, as cidades de África.


publicado por: canetadapoesia às 19:02
link do post | comentar | favorito

A tristeza de uma família (24º Capítulo)

 

O que se passa D. Genoveva? Que aflição é essa? Entre, sente-se um bocadinho, vou buscar um copo de água com açúcar. Já tinha entrado que ali as portas estavam sempre abertas, era só empurrar e entrar, ainda assim, ficava bem a cortesia.

O Josué, o Josué desapareceu, ninguém sabe dele desde ontem, na verdade a última vez que o viram foi de manhã quando saiu para as aulas, não voltou a ser visto. A D. Francisca não deu por falta dele ao jantar? Lá dar deu, mas sabe como é, os rapazes nesta idade, atrasam-se, resolvem fazer outras coisas e ela não se preocupou muito, pensou que havia de vir para casa mais tarde, mas quando não o viu no quarto de manhã e a cama feita, aí sim começou a preocupar-se. Nessa altura bateu lá em casa a saber se o meu Ambrósio lá estava, pensava que estavam juntos.

E que vai fazer agora? Foi com o marido à procura dele, foram à escola a ver se alguém sabia alguma coisa e depois iam aos outros lugares onde ele costumava parar com os amigos e colegas de escola. Depois disto tudo, se não o encontrar, vai direita à polícia para dar parte do seu desaparecimento. E não precisa que a ajudemos em nada? Veja lá, se for preciso estamos aqui para o que for preciso. Não, por agora não quer envolver mais ninguém, bem pelo menos o pai não quer, ela não disse nada. Vamos então aguardar, se calhar dormiu em casa de alguém e logo aparece. Mas ele nunca dormiu em mais lado nenhum senão nas nossas casas, com os nossos filhos, eram mesmo inseparáveis. Agora dormir fora de casa numa casa de desconhecidos isso eu não acredito, nem eles.

De qualquer modo, logo vamos lá a casa e falamos com eles, vamos saber se já o encontraram ou se têm alguma novidade sobre o seu paradeiro, vai ver que tudo se resolverá por bem, outra coisa não espero. Ai estes filhos, só dão preocupações D. Genoveva, quanto mais crescem pior. Sabe o que lhe digo? A melhor altura ainda é quando são pequeninos e obedientes, também dão preocupações, mas não são como agora que já são uns homens. Quem me dera que nunca crescessem, assim ficavam sempre debaixo das nossas asas, crescem e com eles crescem as preocupações. Não temos descanso.

Vou andando D. Maria, depois venho cá para irmos a casa de D. Francisca, lá para o fim da tarde. Pensando bem D. Genoveva, com o mau bocado que estão a atravessar, não seria má ideia mostrarmos um pouco de solidariedade. Como solidariedade? Eles precisam de apoio, se o filho não aparece hoje as coisas ainda ficam mais feias para eles, faço ideia a preocupação em que estão e por isso, lembrei-me que nada melhor que nos juntarmos para conversar sobre o assunto e dar todo o nosso apoio e a ajuda que for necessária. E como fazemos isso? Fazemos o jantar aqui em casa. Assim como assim não será nada de extravagante e podemos até juntar as coisas, nós as duas que a D. Francisca nem deve ter cabeça para nada, que acha?

Ora aí está uma excelente ideia, trago o que ia fazer e juntamente com o seu fazemos o encontro aqui, logo ficamos a saber o que se passa e como podemos ajudar, que vão precisar de muito apoio. Combinado, cá os espero e se fizer o favor avisa-os que o jantar é aqui e não precisam de se preocupar com nada, é só virem jantar e conversar. Esteja descansada que assim, logo que dê por eles, vou lá a casa e informo-os do que combinámos. Genoveva marcha para sua casa a preocupar-se com os seus afazeres e com Meia de Leite no pensamento. Que lhe terá acontecido? O que foi fazer desta vez? Filhos! Só dão preocupações, graças a Deus que o seu Ambrósio se tem portado bem e não lhe tem pregado susto nenhum, até agora, pelo menos, tem andado direitinho.

A tarde vai passando, chegam os filhos da escola, Noite Escura e Branquelas que Meia de Leite ninguém o vê, depois os maridos de Maria e Genoveva que Manuel, a essa hora está com Francisca na Polícia a apresentar queixa do desaparecimento do filho. O fogão já funciona e a refeição vai-se preparando, nada de especial, um jantar como sempre fazem em casa mas agora para mais pessoas, para os amigos que vão tentar perceber o que se passa com Meia de Leite, o Josué por baptismo. Que se passa Maria uma mesa posta para tanta gente, temos convidados hoje? Não, não são convidados, são só os nossos amigos, coisa simples “não são convidados, são os nossos amigos”, simples mas a reflectir o nível de amizade entre eles, já são quase família. Mas assim de repente? Costumamos fazer estas coisas ao sábado que dá mais tempo para se ir fazendo, sem pressas e sem trabalho no dia seguinte. Pois é verdade Júlio, mas este é especial por causa do desaparecimento do Josué. Desaparecimento? Que estás para aí a dizer Maria? Desde ontem, quando saiu para a escola, que ninguém lhe põe a vista em cima e como é natural, os pais estão preocupadíssimos.

Não sabia de nada, porque não telefonaste? Ia adiantar alguma coisa? Passaram o dia à procura dele e se hoje não o encontrassem iam à polícia. Coitados devem estar ralados, fizeste muito bem em os trazer para jantar, assim logo saberemos mais qualquer coisa sobre o assunto. A Genoveva e o Manuel também vêm e trazem o jantar, juntando ao nosso já dá para todos sem grandes despesas e eles precisam pois nem devem ter cabeça para pensar em fazer comida neste momento. Vê lá se temos umas cervejas na geleira, para aperitivo e início de conversa, senão ainda vou ali ao Baptista comprar umas quantas. Não te preocupes que há que cheguem na geleira e ainda umas quantas na despensa.

Aproximava-se a hora de jantar, Genoveva tinha chegado com o seu jantar para juntar ao de Maria, a mesa posta para oito pessoas, faltava o lugar de Meia de Leite que hoje não seria preenchido por ausência sua. Passei por casa da D. Francisca e disse-lhes que o jantar era aqui hoje, devem estar a chegar. E do Josué, sabem alguma coisa? Nada, não sabem nada, não conseguiram encontrá-lo durante todo o dia e parece que a polícia também nada sabe, mas quando chegarem já ficamos a saber as notícias, que certamente nos transmitirão o que fizeram para procurá-lo e o que, até ao momento, houver sobre o assunto, vamos deixá-los contar pela sua boca.

Chegaram, cabisbaixos e abatidos, não tinham encontrado o filho em lado nenhum, já tinham ido fazer a denúncia à polícia e não havia conhecimento de que alguém tivesse tido algum percalço mais grave, a polícia ia investigar e procurar o que houvesse para encontrar. Jantaram num ambiente pouco festivo para amigos que gostavam de festejar tudo e que se animavam com o ânimo dos outros, estavam tristes com o sucedido e ninguém conseguia adiantar o que fosse que pudesse ajudar a descobrir o paradeiro de Josué, era um mistério para todos. Não propriamente para todos, havia uma suspeita, pelo menos o pai, o José, tinha uma suspeita, mas não passava disso.

Quando deram pelo desaparecimento, quando a mãe não o viu em casa e a cama estava por desfazer, logo se afanou em procurar pistas que lhe pudessem dar alguma indicação do que estava a acontecer, não ligou os sinais. Quando o pai foi informado e ela lhe contou que, numa vistoria ao quarto, deu por falta de alguma roupa e do saco de mão que ele lá tinha é que se fez luz dentro da sua cabeça. Tinha fugido, pensou logo, para onde era um mistério ainda não resolvido, achava que o tempo lhe daria a resposta. De qualquer modo, devia seguir os passos normais, procurá-lo e informar a polícia do seu desaparecimento, se não resolvia a questão, pelo menos deixava-os mais tranquilos sabendo que mais hipóteses de procura se abriam.

José sabia que o filho tinha posições bastante radicais face à situação política do país e que, mais de uma vez, mencionara que não queria fazer o serviço militar. Nunca ligou ao que ele dizia, achava que eram coisas de adolescente, que passariam com a idade, quando crescesse mais um pouco logo se lhe abririam as perspectivas e as ideias se clarificariam. Assim não aconteceu, o resultado foi este, dizia aos amigos, estou convicto que fugiu para não ser chamado ao serviço militar, para onde ainda não sei, tenho de esperar com paciência. Achas mesmo que o Josué nos faria uma coisa dessas? Deixar-nos em cuidados desta maneira? Ao menos dizia-nos alguma coisa, não te parece? Não, não lhe parecia, se ele o quis fazer desta forma foi para garantir que ficávamos na ignorância dos passos que ia dar e não nos metia em sarilhos com a polícia, quis manter-se sozinho e longe de todos sem criar complicações a ninguém, foi isso que quis. Nem parece do meu Josué, um menino tão sossegado e obediente. Esqueces-te que ele já é um homem Genoveva, pensa pela sua cabeça. Se nem aos amigos tão chegados disse nada, lá sabia porquê.

Só temos de agradecer aqui aos nossos amigos pela amizade que nos têm e pela pronta disponibilidade para nos ajudarem, acho, sinceramente que nada mais há a fazer, havemos de ter notícias dele, não sei quando, um dia dirá alguma coisa, não vai deixar-nos às escuras. Se assim pensa José, remata Manuel, só nos resta esperar e esperar que ele esteja bem. Claro que está, diz Júlio, se fossem más notícias já se sabiam, correm como o vento e são mais rápidas que o som, as boas, essas é que levam mais tempo a ser conhecidas. Assim que Genoveva me deu conta das faltas que havia no quarto foi logo o que pensei, que se tinha posto a andar, mas daqui para onde poderia ir? Intriga-me, mas não é impossível já que temos fronteira com diversos países, pode ter ido para um qualquer e não quis que ninguém soubesse o rumo que levava, para não o intercederem e impedir de prosseguir a sua marcha. Pelo menos é o que me convenço que aconteceu.

À mesa, Branquelas e Noite Escura, ouviam calados e tristes por terem ficado sem o amigo. Se o que o pai de Meia de Leite dizia fosse verdade, ele tinha tido uma coragem danada, meter-se por esse mundo sozinho para fugir à tropa, era obra. Por outro lado, se assim fosse, então um dia voltariam a encontrar-se de novo para manter os laços da amizade vivos. Ninguém reparou na expressão de Branquelas, também ele tinha ideias muito concretas sobre a política do país e sobre aquela guerra maldita que já tinha feito mais uma baixa e agora doía ainda mais, era o seu próprio amigo. Ninguém o acusou de desertar, de atraiçoar os princípios, tão propalados, da unidade da Nação. Todos se sentiram tristes, especialmente pelos pais, que ia ser deles sem o filho por perto? Iam ter uma vida em constante preocupação até terem alguma notícia de Meia de Leite.

Um bairro tão bom, com gente boa e unida que se entreajudava sem pedir nada em troca, que sabia conhecer o valor da amizade ficava agora sem mais um dos seus melhores filhos e os pais e amigos mais chegados naquele tormento. Notícias chegariam, estavam certos.


publicado por: canetadapoesia às 18:58
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 12 de Março de 2018

Surpresa, ou talvez não (22º Capítulo)

 

 

Enquanto Noite Escura se defronta com o guerrilheiro que capturou, os seus companheiros mantêm a perseguição, ziguezagueando por entre o capim, confundido a sua aproximação com este ruído que ora vem da sua direita ora da sua esquerda, não conseguem identificar a rota correcta dos que os perseguem.

Nesta corrida, nem sequer recorrem ao que normalmente se utiliza em questões de segurança quando recebem o fogo do inimigo, a conhecida “queda na máscara” quando, para se protegerem de alguma bala inesperada se atiram para o chão ficando rasteiros ao solo ou por trás de qualquer pequena elevação de terreno que lhes apareça e que lhes sirva de protecção. Aqui nem foi preciso porque são os perseguidores de homens que se preocupam em fugir e não em ripostar, querem ganhar distância dos que os seguem, querem tentar chegar à orla da floresta que lhes dará melhor protecção e esconderijo.

Um dos grupos perde um dos seus perseguidos, com uma espantosa sorte, dos dois que perseguem, um, deixa de correr, deixa-se cair silenciosamente no meio do capim. Fica imóvel, como se tivesse sido atingido, enquanto o seu companheiro mantém a fuga, levando atrás de si os perseguidores que, enganados, não percebem a manobra e progridem na busca do que ainda julgam ser dois guerrilheiros. Um vai escapar-se esperando que toda esta confusão desapareça e só depois se levantará e caminhará calma e silenciosamente para a floresta, sem que os cuidados a ter deixem de ser importantes para não ser detectado por algum grupo de soldados que ainda por ali ande, vai esperar, assim como assim não pode fazer mais nada, vai ficar deitado e silencioso até deixar de ouvir seja o que for.

O companheiro sente que deixou para trás outro, não se detém não sabe se ele foi atingido ou se tentou a fuga por outro lado, mantém-se na corrida em direcção à floresta, já a descortina próxima, se lá chegar vai conseguir salvar-se e aumenta a corrida, o coração quase a saltar-lhe pela boca, o ar a escassear, as pernas a vacilar, mas não pode parar agora, tem de conseguir lá chegar e corre, corre. Na tentativa de despistar os perseguidores vai-se desfazendo de todo o peso que trás consigo, que nem é muito, mas é peso, precisa de ficar mais leve para conseguir manter o ritmo da corrida, ainda tem um grande espaço entre ele e os perseguidores e quer aumentá-lo.

Em plena corrida, retira o cantil que trás pendurado à cintura, atira-o para longe, para que o ruído que fará ao cair distraia os que o seguem, ouve o ruído da queda do cantil e do capim, mais ralo que se abre com a objecto que lhe cai em cima. Por momentos, os que o seguem, baralham-se, ouvem um som vindo de mais ao lado, escutam o restolhar do capim e continuam a perseguição, uns segundos, uns segundos mais foi o que conseguiu, precisa de mais, só há uma solução. Continuando a correr, vai retirando uma granada das que traz penduradas no dólmen da farda, tropeça com o esforço de se organizar, recupera, retira a cavilha, nem se volta, vai atirá-la da pior maneira, de frente para trás, sabe que é perigoso, pode ser apanhado pelo seu deflagrar, não desiste e, sabendo que é a oportunidade de atingir a floresta, agora que está tão perto, não hesita.

Atira-a com toda a força do seu braço direito, ouve-a correr pelo ar e não pára, aumenta a corrida, sabe que a sua salvação está agora na velocidade que conseguir imprimir às pernas, tem de correr, correr muito, esforça-se até à exaustão, ouve o barulho da granada a cortar o capim e cair no chão. Os que o seguem também a sentem e, instintivamente, como sempre o faziam e estavam habituados a reagir, deitam-se ao chão e pela primeira vez nesta perseguição tem de utilizar a técnica da “queda na máscara”, por uma fracção de segundos não foram atingidos pelos estilhaços. Imediatamente se levantam e encetam a perseguição de novo, agora com a sensação de que o alvo ganhara mais terreno e seria mais difícil capturá-lo antes de atingir as árvores. Ia ser mais difícil ali, conseguir deitar-lhe a mão.

O guerrilheiro, sem parar, ouviu a detonação, o sopro da deflagração passou-lhe por cima e um silvo arrepiante aproximou-se da sua orelha esquerda, atingiu-o de raspão, rasgou-lhe o lóbulo da orelha, apalpou-a, sentiu o sangue quente nas mãos. Mesmo a sangrar, não parou ia conseguir atingir a floresta, começava a passar por uns arbustos mais fortes, as árvores e o escuro da floresta estava quase a protegê-lo, mais uns passos, conseguiu lá chegar, agora era tentar esconder-se de modo que não o detectassem. Correu entre as árvores, foi fustigado pelos ramos que ia afastando para se distanciar, tropeçou numa raiz de uma enorme árvore, endireitou-se continuou, foi-se tornando invisível no meio de todo aquele arvoredo fechado, cerrado, escuro como breu.

Não ouvia mais nada atrás de si, estava seguro, pensou, conseguiu iludir os perseguidores, ia agachar-se e aguardar, verificar que não o seguiam mais, se não sentisse mais nenhum ruído de perseguição então sim considerava-se salvo. De qualquer modo, sabia por experiência própria que eles não iam desistir tão facilmente, por isso se queria salvar-se ia ter de passar ali naquele canto escuro, muito tempo, quem sabe, até de madrugada, quando visse nascer o sol e alguns dos seus raios conseguissem penetrar o espesso manto verde da floresta, então iniciaria a caminhada em direcção à aldeia. Mesmo nessa altura com a atenção sempre alerta vendo com os olhos, ouvindo com os ouvidos e sobretudo, como estava habituado, sentindo o bater da terra, ouvidos no chão e mãos na terra para sentir qualquer tremor, por pequeno que fosse.

Ao longe, Noite Escura, ouviu distintamente o ribombar do deflagrar da granada, sentiu-o às três horas, sobressaltou-se, dois companheiros tinham ido em perseguição para aquele lado, mas não ouviu gritos de dor. Ou não tinham sido atingidos ou nem sequer tiveram tempo de gritar, não, era optimista, para ele eles não tinham sido atingidos, estavam preparados para se protegerem, nada lhes aconteceu, pensou para si enquanto avançava cautelosamente para o alvo que tinha aprisionado, ou antes, que tinha debaixo de mira da sua arma, aprisionado ainda não estava, estava só manietado. Começou a ver o vulto à sua frente com mais distinção, num relampejo de olhar verificou que afinal não tinha deixado cair a arma, mas ele ouviu o barulho dela a cair, como foi possível? Tinha deixado cair os binóculos que trazia consigo e isso enganou-o, tinha pela frente, neste momento, um homem armado e de arma aperrada, apontada para ele que não o quis abater.

Estacou quando os dois beligerantes, a menos de dois passos um do outro, conseguiram, definitivamente, reconhecer o rosto um do outro. Incrível, era um branco, um guerrilheiro branco, mas que raio de coisa, isto estava tudo ao contrário, ele, negro, ao serviço dos soldados governamentais e o outro um branco ao serviço da guerrilha. Incrédulo, ainda lhe passou pela cabeça que estava perante uma inovação, estavam a utilizar mercenários para combater as forças do governo, se o levasse consigo era uma vitória estrondosa e uma prova que o mal da guerra vinha dos países de fora que a apoiavam e mantinham, não o podendo fazer com os naturais estavam, desta forma, a tentar ganhar vantagem.

Durante uns segundos, olharam-se como duas feras acuadas, sem saída, um dos dois ia disparar primeiro, um dos dois ia ficar ali estendido, se não fossem mesmo os dois. A tensão subia, a adrenalina disparou, os dedos encresparam-se nos gatilhos, arma para baixo gritou Noite Escura, e a arma não se mexia estava virada para si apontada ao seu corpo e pronta a disparar. Noite Escura, já não me conheces? Soou-lhe aos ouvidos e Noite Escura ia caindo no chão, gelou. O pior dos seus sonhos estava a acontecer, a única coisa que ele temia que acontecesse estava ali perante si. Branquelas, o mesmo Branquelas da sua infância, aquele com quem partilhara o melhor do seu crescimento, um dos três amigos inseparáveis, um dos mafarricos.

Noite Escura descurou a defesa, foi o primeiro a baixar a arma, Branquelas fez o mesmo. Olharam-se por momentos, deixaram cair as armas ao chão, avançaram dois passos, abraçaram-se longamente, choraram. Por momentos o mundo parou naquele abraço humedecido por lágrimas descontroladas de ambos os litigantes, de ambos os amigos de infância, o sol brilhou em plena noite e a amizade falou mais alto. Nenhuma guerra os faria voltar as armas um contra o outro, nenhuma ideologia, nenhuma política os tornaria inimigos mesmo em campos diferentes. Que faço contigo agora? Não posso levar-te comigo, que diriam os meus pais se eu te maltratasse, mesmo no meio desta guerra? Não, não posso. Tu é que tens de decidir, eu estou cansado de continuar a fugir, apanhaste-me, para mim também é uma vergonha, para o que sofreram os meus pais não há resposta, era a minha opção, agora não quero que eles saibam que me apanhaste ou que eu morro às tuas mãos. Dispara aqui mesmo, ninguém saberá que foste tu e podes dizer que não o fizeste. Estás doido, bem podia fazer isso, e a minha consciência? Matar o meu melhor amigo? Nunca mais conseguiria olhar para os teus e nunca mais me ia recompor disso, nem penses, vamos arranjar já uma solução.

Sentaram-se no meio do capinzal, naquele momento o mundo tinha parado, naquela imensa chana só estavam dois homens que ninguém via, dois amigos de infância, dois dos três mafarricos que o terceiro, estava longe, a bom recato e fora desta loucura. O que vamos fazer é o seguinte, vou seguir e encontrar-me com o meu grupo como combinado, para todos os efeitos não consegui capturar-te, depois vamos fazer um briefing para contabilizar a operação no terreno. Avançamos para as zonas de apoio que vocês têm por aqui, isso não posso deixar de fazer, são as ordens e os meus homens não compreenderiam que abandonássemos a operação sem prosseguir com a destruição das bases. Tu vais ficar aqui até de manhã, não sais daqui, não te mexes nem, te denuncias, o que te garanto é que nos vamos afastar desta zona e que por aqui não vai passar mais nenhum soldado. Esta era a zona que me estava destinada, vou afastar o meu grupo para longe uma vez que esta parte da operação está terminada, ficas em segurança. Amanhã partes para o teu destino e ninguém saberá o que aqui se passou.

Não sei que te dizer Noite Escura, este foi o maior pesadelo que podia ter, deparar contigo numa operação desta, já devia imaginar que poderias andar por aqui, encontrar-te era uma coincidência impensável. Obrigado pelo que estás a fazer, ninguém saberá por mim o que se passou aqui e vou seguir à risca o teu conselho, fico por aqui quieto e sossegado até amanhecer. Assim também vos dou tempo de ir à minha frente com muita vantagem, porque a minha base é precisamente a que vão destruir. Ainda havemos de nos rir disto tudo um dia, não sei quando, que isto parece interminável. Tens tido notícias do Meia de Leite? Soube pelos nossos canais de informação que está bem, foi para Bruxelas e por lá vai ficar, safou-se disto, essa é que é a verdade e nós os dois, inacreditável, aqui no meio do mato um contra o outro! Vamos mudar isto, vais ver, mais tarde ou mais cedo as coisas têm de mudar para melhor. Agora vais fazer o que te disse e eu vou andando que tenho outras obrigações.

Um abraço prolongado selou a amizade que acabara de superar uma das provas mais difíceis da vida deles. Estás na mesma, andas bem tratado, o exército alimenta-te bem. Pois, mas tu estás um esqueleto maior do que eras, olha leva estas duas rações que aqui tenho que não preciso delas, pelo menos, enquanto aqui estás alimenta-te para ocupar o tempo e vê lá se te cuidas que ainda temos de tomar umas cervejas juntos quando isto acabar. As lágrimas inundaram as faces de ambos, separaram-se e Branquelas ainda lhe pediu que, se pudesse, assim como quem não quer a coisa, desse notícias dele aos pais. Está descansado que hei-de arranjar maneira de o fazer, pelo menos alivia-lhes a preocupação.

Noite Escura, voltou-lhe as costas com as lágrimas a escorrer-lhe pelas faces, seguiu o seu caminho para se juntar aos seus homens sem palavras, com uma crescente preocupação com o amigo. Estava mesmo tudo ao contrário pensou, mas isto não pode continuar eternamente, um dia ainda estaremos juntos numa das praias da ilha a tomar umas cervejas e umas banhocas de mar rindo deste pesadelo. Como iria dar a notícia aos pais de Branquelas ainda não sabia, mas havia de arranjar maneira. Por agora bastava-lhe saber que deixava o amigo em segurança e salvo. O mundo é mesmo pequeno, quem pensaria que uma surpresa destas lhes estava reservada? E afinal a amizade resiste às maiores provações que se lhe apresentam, se dúvidas houvessem aqui ficaram esclarecidas. Verdadeiros amigos, amigos de infância, em campos opostos, com uma indestrutível amizade pelo meio.


publicado por: canetadapoesia às 23:01
link do post | comentar | favorito
Domingo, 11 de Março de 2018

Debaixo de fogo (21º Capítulo)

 

 

Tanta iluminação na noite desta selva confirmou, a Branquelas, os seus receios, iam sofrer um ataque e perseguição de que dificilmente se livrariam. Nesta altura já a tropa estava disseminada no terreno e garantida a sua actuação contra eles, só ainda não sabia, nunca teria essa certeza, se os tinham detectado a eles ou se era uma acção normal de busca dos fugitivos do ataque à vila.

Depressa se dissipariam as suas dúvidas e aquele piar de mocho tão espaçado no terreno garantiu-lhe que o cerco, se não estava ainda, depressa se fecharia encurralando-os no meio da chana sem hipótese de fuga. Foi rápido na decisão, iria tentar ludibriá-los. Deu ordem imediata para se espalharem ocorrendo a fuga para vários locais ao mesmo tempo, uns tentariam escapar por um lado outros por outro e, em caso de ser sentida a perseguição, ainda deveria separar-se mais indo ao ponto de tentar a fuga isoladamente para rumos diferentes. O plano era fazer com que os soldados não soubessem muito bem para onde fugiam e despistá-los pelas várias rotas de fuga postas a funcionar.

De facto, durante alguns momentos a coisa funcionou, o ruído da fuga foi imediatamente detectado, mas enganador por vir de direcções diversas. Habituados a este tipo de guerra os soldados não tardaram a reagir e em menos tempo que leva a contar já estava organizada a perseguição por cada uma das rotas que lhes parecia serem de fuga imediata. A perseguição não foi facilitada pelo terreno que pisavam, capim alto, não viam nada à frente do nariz, sentiam, uma vez ou outra tinham de estacar a corrida para ouvirem os sons do restolhar no capim. O efeito dos very-lights tinha-se esgotado, agora era pelo escuro que se prosseguia a operação, a sua vantagem tinha sido a de proporcionar o início da acção ao obrigar o IN a tomar a iniciativa de se pôr em fuga deixando no ar os sons característicos do caminhar no mato e o rasto que ficava pelo pisar das botas de cada um deles.

Em grupos de cinco homens, os comandos foram encetando a perseguição a cada uma das rotas que deram sinal de haver homens em fuga. Enquanto se iniciava a operação de perseguição por uns grupos outros ainda esperavam no terreno, não fosse haver algum que ainda não tivesse demonstrado a sua presença ao iniciar a corrida. Assim aconteceu, Branquelas viu os seus companheiros dar início à fuga, manteve-se firme e silencioso no local em que se encontrava, esperava também ele saber se depois de iniciado o processo o terreno ficaria ou não livre para, aí sim, dar ele início à sua fuga. Agachou-se, sentidos na máxima atenção, arma aperrada e pronta a disparar, com ele ficaram mais dois companheiros que seriam o isco seguinte logo que partissem pelo meio do capinzal. Se se sentissem acuados, correria cada um para seu lado e talvez assim algum deles conseguisse salvar-se daquela situação de aperto.

Sentiu cada vez mais ao longe o som da perseguição aos seus homens, agora o silêncio já não se impunha e as ordens de ataque, de envolvimento e cerco eram perfeitamente audíveis. Estão a tentar chegar ao arvoredo, às dez horas há um elemento detectado, outro às duas horas, mais outro às quatro, envolvam-nos e cortem-lhes a fuga, a captura é mais importante que a eliminação, não se esqueçam, só em último caso abatem os elementos a perseguir. Ouvia tudo Branquelas, mas mantinha-se quieto com os dois outros companheiros, esperava uma oportunidade para seguir com mais segurança, mais a mais que os sons se afastavam cada vez mais, até que não passaram de meros sussurros naquela imensa selva, coisas muito longe já.

Como se mantinha o silêncio na chana, Branquelas resolveu-se, avançamos os três e em caso de sentirmos alguma coisa separamo-nos logo, cada um para seu lado para dificultar a captura. Estavam de acordo e preparados, iam dar início à sua tentativa de fuga a partir daquele buraco no meio do capinzal, com sorte, algum escaparia e conseguiria regressar à base, se é que quando lá conseguissem chegar ainda existiria alguma coisa parecida com o que tinham deixado porque, estava certo, iriam destruir tudo o que podiam e, neste aspecto até os entendia, queriam garantir segurança. Nada melhor que a destruição dos meios disponíveis de manutenção, eliminando as aldeias e as culturas de sobrevivência que tinham à volta.

Do outro lado, o grupo de Noite Escura, mantinha-se em escuta e alerta para qualquer ruído estranho, estava convencido que a debandada, a fuga, como foi preparada e se desenrolou tinha um objectivo, fazer com que alguns se conseguissem escapar e, ele, não queria deixar os créditos dos seus homens por mãos alheias. Aguardou, pois havia de haver mais alguém escondido naquele capinzal à espera de melhor oportunidade de se escapar. Não se enganou, ao menor ruído de afastamento de capim e pisar de botas descobriu logo de onde vinha e confirmou as suas suspeitas. Um grupo tinha ficado para trás e, se foi assim, tinha a certeza que neste grupo havia gente importante, gente que não queria ser apanhada na teia que tinham montado.

Como tal, logo se impôs a si próprio a sua captura, se era gente importante era um golpe ainda maior no movimento pois de uma cajadada matavam dois coelhos, aniquilavam a ameaça e capturavam os seus responsáveis, os chefes do ataque à vila e, quem sabe, os responsáveis militares do IN naquela zona. Como ele estava certo. Branquelas era o responsável militar da zona, era o mentor do ataque, era importante para o movimento porque, sem ele ali, ficava o flanco aberto a limpezas mais vastas, talvez mesmo até à extinção completa das suas actividades, enquanto movimento de libertação, por incapacidade de evoluir no terreno. Para além disso, Branquelas era um exímio conhecedor do terreno e um experiente chefe de guerrilha. Perdeu esta batalha, mas, muitas outras houve, em que demonstrou uma capacidade superior ao eliminar forças governamentais e até impor as suas hostes em zonas bem difíceis.

Noite Escura e o seu grupo aguardaram mais um pouco, escutaram os sons, definiram a sua posição, com alguma certeza até souberam quantos eram. Esperaram para determinar o rumo que tomariam e depois atacar, sentiram que os sons se afastavam da posição que detinham no terreno, teve a certeza que se estavam a afastar deles. Deu ordem de abertura do grupo, espalharam-se em linha e começaram a avançar. Depressa que eles estão a afastar-se, correram mais, o som da sua investida não passou despercebido, foi escutado pelos ouvidos atentos de gente que também era perita na guerra da selva.

Branquelas estacou por momentos, escutou a aproximação do grupo de ataque e fez sinal aos dois companheiros para se separarem e dirigirem-se cada um por si, através do capinzal para o arvoredo que os circundava. Seria mais fácil, para eles, escapar se o conseguissem fazer, ficou sozinho e seguiu em frente no rumo que tinha traçado. Não muito longe dali, cerca de mil metros à sua frente tinha o arvoredo, a floresta, cerrada, quase inexpugnável, ia tentar a sua sorte, os dois companheiros também o fariam, mas a uma distância maior já que tinham de se afastar e fazer um enorme círculo para atingir o mesmo arvoredo, embora em pontos diferentes.

No grupo de ataque foi de imediato percebida a manobra e Noite Escura faz sinal para que, dois a dois, os seus companheiros persigam os guerrilheiros que se desviaram, fica com o que ficou sozinho. Este é dele, vai persegui-lo e capturá-lo que não lhe agradava nada a eliminação física, só em último caso o faria, esperava não chegar a isso. Segue-o, sente-lhe os passos mais apressados, também ele se alonga nos seus, o capim vergasta-o à medida que avança, a cara é a mais atingida, pela altura dos fios de capim que vai afastando e retornam com força queimando-lhe a cara de cada vez que os sente, não desarma, aquilo que está a passar também o outro, o que vai à sua frente e que persegue sofre do mesmo e se ele não desiste não será ele a tomar a iniciativa de o fazer.

Às três horas, do seu lado direito, ouve o nítido matraquear de uma costureirinha, uma kalashnikov, sinal de que o elemento perseguido está a dar luta aos seus dois companheiros que o seguem, não ouve os disparos deles, está convencido que só o farão em legítima defesa ou em caso de impossibilidade de o capturar, estas são as ordens e eles são excelentes cumpridores delas. Mais uma rajada, e outra, agora, enquanto segue o seu alvo imagina que os companheiros estão a esgotar a capacidade de tiro do elemento que perseguem, vão apanhá-lo à unha, quase certo. Quando não tiver mais munições só lhe restam as pernas para correr e aí vai perder a corrida pela certa.

Concentrou-se na sua presa, sentia-a a acelerar o passo ia ter de tomar alguma iniciativa ou ele alcançaria a floresta cerrada e aí desaparecia-lhe, não ia permitir-lhe essa escapatória, decidiu-se a uma corrida mais vigorosa, avançou, estavam demasiado perto das árvores já e sentia-o mesmo ali a um tirinho de distância. Deixou de o ouvir, parou pensava ele, abrandou a corrida, deu uns passos com mais cuidado, silêncio, não ouvia nada, está à minha espera pensou, assim que me sentir aparecer à sua frente vai disparar. Não, não estava à espera dele, estava só a tentar medir a distância que o separava do perseguidor. Voltou a mover-se, o capim a balançar de um lado para o outro, sinal de que acabara de ali passar.

À medida que se aproximavam do arvoredo o capim ia ficando mais baixo, havia já algumas áreas mais abertas, pareceu-lhe vislumbrar um vulto à sua frente, estava mais próximo, sentia-o. Mais uns passos apressados e estaria ao alcance da sua mão que, do tiro, há muito que se encontrava já. Do oponente não ouvia nada além de uma respiração quase descontrolada, ofegante, de quem já não podia aguentar muito mais, ele, ao contrário, ainda se sentia fresco para mais uma correria se necessário fosse.

Não foi preciso correr mais. Os passos da sua presa estavam mais fracos, sentia que ele se estava a atrasar na caminhada, já não tinha o vigor do início da perseguição, estava apanhado, pensou Noite Escura. Mais perto, ainda mais perto, o vulto não se virou para ele, não disparou, simplesmente estacou à sua frente. Viu um pequeno reflexo, a arma estava a ser levantada para, possivelmente disparar contra si. Deu-lhe ordem de paragem, ele já estava parado. Arma para o chão imediatamente, mãos bem levantadas acima da cabeça, nem um movimento suspeito ou disparo de imediato.

Branquelas, obedeceu, aquela voz era imperiosa, se não fizesse o que lhe dizia seria trespassado pelas balas da sua arma. Num lampejo, veio-lhe à cabeça a voz que o manietava, conhecia-a. Respondeu às ordens dadas e Noite Escura, sentiu um arrepio. Conhecia a voz rouca que lhe respondia, tentava lembrar-se, de onde seria, estava longe ainda a sua identificação, ia ser uma surpresa inesperada e sempre receada. Avançou devagar de arma aperrada, do outro lado não havia reacção, estava capturado. Branquelas perdeu tudo num dia só, antes, numa noite só, perdeu a vitória ambicionada, perdeu a capacidade de fugir por cansaço e perdeu a áurea de grande lutador e vencedor das batalhas em que entrou, estava derrotado.


publicado por: canetadapoesia às 23:02
link do post | comentar | favorito
Sábado, 10 de Março de 2018

Comemorando a amizade (20º Capítulo)

 

 

Isto merecia uma comemoração. Tudo merecia comemoração naquele bairro e entre aquelas três famílias, eram aniversários, eram os dias de festa consagrados no calendário, era tudo, até a perna de Meia de Leite, partida e agora consertada.

A comemoração estava presente em cada um dos minutos da vida daquela gente, não era bem pela comemoração, era mais um jeito de se juntarem, trocarem umas palavras à roda de uma cervejinha gelada, comerem uns quitutes bem preparados e apicantados, sobretudo era o estarem juntos como amigos que eram, amigos do peito, dir-se-ia melhor. Não havia preocupação nuns que não se espalhasse logo aos outros e todos queriam contribuir para que elas desaparecessem com a mesma velocidade ou mais, com que tinham aparecido, eram mesmo amigos.

Todos tinham ido viver para ali sensivelmente ao mesmo tempo, tempo que foi alargando e cimentando a amizade ao ponto de os filhos quase não saberem exactamente qual a sua casa. Desde pequenos, sempre foram livres de entrar e sair da casa uns dos outros, comer aqui, dormir ali, não havia limites, desde que as mães estivessem devidamente identificadas com as diabruras dos filhos. Assim cresceram e se tornaram amigos inseparáveis, só a vida, o destino, o que quiserem, foi mais forte e viria a separá-los, anos mais tarde, na idade da razão, diriam. Separou-os física e politicamente, mesmo assim, na hora de celebrarem a amizade, tudo isso desaparecia, eram amigos, amigos desde sempre e isso não tinha preço.

Hoje a comemoração era tão especial como tantas outras, celebrava-se a recuperação de Meia de Leite depois de ter partido a perna, a bem da verdade, sabendo que não eram necessários motivos especiais para celebrarem, até podiam estar a celebrar o partir da perna ou mais uma diabrura qualquer, mas era celebração, era festa, era mais uma reunião de amizade entre todos no quintal de um deles, neste caso da família de Meia de Leite. Sábado, que era o melhor dia, sempre tinham o Domingo para recuperar dos destemperos gastronómicos e estas festas que não eram do “jet-set”, mas que duravam muito mais tempo porque eram de amigos, prolongavam-se para lá do fim do dia, sempre bem comidas e melhor regadas que a bebida ajuda a empurrar qualquer comida.

A meio da manhã já era um corrupio. A mesa do quintal posta mesmo debaixo da mangueira, à sombra que era mais fresquinho, a toalha estendida sobre ela, de plástico, que a iam sujar toda, assim era mais fácil de limpar. Nove pratos espalhados à sua volta, tantos eram os intervenientes, mais uma pilha deles no canto da mesa, nunca se sabia se aparecia mais alguém e se aparecesse ali ficaria também que assim mandavam as regras da boa vizinhança. Miudagem era certo que aparecia, mal lhes cheirava a festa e comida boa ali se apresentavam, vinham só desejar as melhoras de Meia de Leite e iam-se logo embora, pois sim, todos sabiam o que a casa gastava. Mal chegavam ao portão, já iam entrando, Meia, estás melhor? Já andas bem? Ainda estás de muletas? D. Francisca já lhes gritava para a entrada do quintal, vão entrando que está quase o almoço na mesa, iam entrando, rodeando a mesa, picando a ginguba, os tremoços, a paracuca e, para empurrar, uma gasosa.

Os mais velhos, lá se iam sentando aqui e acolá, cerveja numa mão picanços na outra, fazendo boquinha para o sustento que vinha a seguir, e que sustento. Festa que era festa tinha de ter comida de gente, e as mães entusiastas e entusiasmadas com o que ofereciam àqueles estômagos sedentos, aprimoravam-se no que ofereciam ao repasto. Do grelhador em brasa, saltavam umas febras, uns pedaços de frango assado, que os pais se revezavam no assar para entrada. Da cozinha vinha um panelão de funge, ainda fumegante, colher de pau enterrada, pronto a misturar com a deliciosa moamba de galinha, isto sim, comida de gente a que ninguém ficava indiferente. Nem a miudagem avessa a algumas comidas de que, diziam, não gostava, aqui atirava-se ao tacho e nem desdenhava os quiabos que tanto sabor lhe dava. Que rica funjada, saía em coro daquelas gargantas atafulhadas de comida e regadas a cerveja fresquinha.

Por não ser só de carne que se alimenta o estômago, havia também uma caldeirada de peixe, saída das mãos de D. Genoveva, um cheirinho que atraía a vizinhança e, lá mais para a noitinha, depois de um bom descanso debaixo do remanso da sombra da mangueira, com a miudagem longe dos ouvidos, vinha o cabritinho assado, especialidade de D. Maria. A esta hora já as geleiras tinham cumprido a sua missão e, recheadas da dita cerveja, já a tinham refrescado, gelado mesmo, preparando-a para o acompanhamento do cabritinho assado. Bonitas tardes de Sábado se passavam naqueles quintais, gente sã, gente amiga do seu amigo, quase um condomínio, como hoje soe dizer-se, mas aberto que, essa coisa de fechar tudo, só atrai ladroagem.

As sobremesas, sempre sóbrias e apetitosas, ficavam-se pelos leite-creme e arroz doce sarapintado de canela, e que bom que era, ainda a sentir-se o calor do fogão nos seus bagos doces. Claro que o carvão da churrasqueira nunca se apagava, havia sempre quem, nos intervalos, quisesse trincar uma febra, só para ir mantendo o estômago a funcionar, acabava por se apagar sozinho, lá para as tantas da noite, depois de se terem recolhido a um sono reparador, o sono dos justos. Vila Alice no seu melhor, tão pequena na sua dimensão e tão grande nos seus afectos.

Invariavelmente, o dia acabava com o quintal num reboliço, e ninguém se preocupava. Ninguém deixava de dormir porque as coisas ficavam desarrumadas, não senhor, no dia seguinte, Domingo, logo se arrumavam e a manhã era gasta nesse trabalho. Já a tarde de Domingo era de descanso, debaixo da mangueira, liam-se as notícias do dia, ou qualquer romance da actualidade, ou ia-se dormitando que amanhã era dia de trabalho e precisavam de estar descansados. Aplicava-se esta receita aos mais velhos que a gente nova não parava com brincadeiras e invenções criadas na hora para passar o tempo.

Estava-se na primavera destes amigos tão chegados, ainda vinha longe o tempo da separação, o tempo em que cada um deles, pensando pela sua própria cabeça, resolveria dar caminho ao seu destino. E o destino tinha preparado um caminho para cada um, separado dos outros, seguiriam por ele até onde estavam marcados para o seguir e mais tarde, quem sabe, talvez voltassem a trilhar o mesmo rumo outra vez, ninguém sabia, ninguém adivinhava. As nuvens iam-se juntando sobre as suas cabeças, mas estavam longe ainda. Havia tempo para gozar estas aventuras de menino e esta amizade que se esperava fosse eterna.

O dia ia correndo, a tarde a descair para a noite e a mangueira, mais uma vez, a ser testemunha muda de uma vizinhança feliz. Quantas vezes já assistira a estas festas, comemorações e outros eventos de cariz amistoso, perdia-lhes a conta, eram os exames da quarta classe, eram os aniversários e até a recuperação de Meia de Leite servia para festejar. Viviam felizes e festejavam essa felicidade de maneira alegre, convivendo uns com os outros. Assim se queriam os bons vizinhos, os amigos que sofriam com a dor dos outros que se uniam em torno das dificuldades de cada um para as tentar superar com essa união de onde, afinal, lhes vinha a força de combate diário a uma vida que nada tinha de facilidades.

As luzes acenderam-se na rua, no quintal ainda se apreciava o aparecimento da lua sobre as suas cabeças, acompanhando o seu desenvolvimento com mais umas trincadelas e uns golinhos à mistura. A conversa corria solta, de um lado os filhos, sempre motivo de agrado e orgulho e de conversa, com as suas diabruras e as vitórias alcançadas nos estudos para os quais muito pouco se esforçavam, diga-se em boa verdade, era o indispensável para não chumbar e chegava. Do outro lado o estado do país, a guerra que não acabava, as políticas implementadas, os receios com o futuro dos filhos.

Não me conformo com isto, anda um pai a criar um filho para depois o meterem sabe-se lá para onde, sujeito a ser trespassado por uma bala qualquer que lhe tire a vida, não têm o direito de dispor dos nossos filhos assim. Ainda se víssemos um fim a isto, dizia outro, valia o sacrifício, mas é que não se vê nada. Pois não, dizia o outro, isto nunca acabará porque é um cofre-forte para alguns, vêm aqui ganhar dinheiro como nunca ganharam e sempre à custa dos mesmos, se quisessem de verdade já isto tinha acabado há muito. Preocupação de pais que viam aproximar-se a passos largos o dia em que os filhos seriam chamados às fileiras.

Mais quatro, cinco anos e lá estavam os três mafarricos a dar o nome, a ser recrutados para uma guerra que já nada lhes dizia, uma guerra interminável, quase a guerra dos cem anos e esta ainda estava longe dessa marca. No entanto, nenhum destes pais poderia imaginar que o destino lhes ia pregar partidas, lhes ia criar preocupações, afastamentos dos seus entes mais queridos, os filhos que tanto custou a criá-los. Caiu a noite, entrou-se no negrume do fim do dia, as estrelas, indiferentes às suas preocupações, brilhavam no firmamento, que bonitas eram, umas fixas, outras piscando, quase um oásis de paz, aparente, que lá fora havia guerra, perseguiam-se pessoas, irmãos contra irmãos, cidadãos avessos com a ordem estabelecida, uma desgraça.

É melhor irmos chegando que a cama espera por nós ou teremos dificuldades em levantarmo-nos de manhã. Levantaram-se, despediram-se com um até amanhã e foi cada um à procura do seu repouso. O dia acabara, a satisfação estava latente nos seus sorrisos, os estômagos aconchegados e, mais uma vez, a amizade cumpriu-se. Acontecesse o que acontecesse, nunca deixariam a amizade, que sentiam uns pelos outros, ser estragada. De qualquer modo, amanhã seria outro dia, mais um dia no seu bairro, mais um dia de alegria e boa disposição, assim fora sempre, assim continuaria a ser, enquanto Deus quisesse.


publicado por: canetadapoesia às 20:33
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 9 de Março de 2018

Primeiro dia do resto da sua vida (19º Capítulo)

 

 

O Outono na Europa, o seu primeiro Outono longe de casa, nem sabia muito bem o que era o Outono mas ia aperceber-se que não era mais que uma estação mais fria que o seu conhecido e habituado cacimbo. Agora começava a despontar o frio que iria sentir daqui para a frente, os dias mais pequenos, a falta de sol, os fins de tarde directamente do trabalho para casa, nada do que sempre tivera à sua disposição, tão simples e tão fácil, sair de casa já com o sol sobre a cabeça, tão diferente seria agora.

Acordou ainda o galo não cantara, reparou que não o ouviu, não havia galos por aqui ou, pelo menos, dentro da cidade não os havia, ou será que eram galos que não cantavam? Era tudo tão organizado que, se calhar, os galos foram ensinados a não cantar para não incomodar as pessoas que viviam sob o peso do trabalho e necessitavam algum descanso fora de horas. Que falta lhe fazia o cantar do galo, sabia sempre que horas eram, aproximadamente, sempre que o ouvia cantar e depois disso ainda ficava a marinar na cama uns momentos, mas agora não tinha galo e tinha de se preparar que não tardaria muito até aparecer a assistente social.

Apoiou-se nos cotovelos, olhou a janela, as folhas baloiçavam ao sabor de um ventinho que começava a despontar, castanhas, as folhas estavam todas castanhas. Devia ser o anúncio do tal Outono, folhas acastanhadas e a cair, ao mesmo tempo que o frio se fazia anunciar e umas gotas de água começavam a cair lá de cima. O Outono, quem diria que era assim, na terra de onde vinha só conhecia o cacimbo e o calor, tudo mais simples, quando se entrava no cacimbo, bastava uma simples camisolita, que nas mais das vezes se levava ao ombro e já estava, a estação fria, diziam. Se bem que para os lados do sul a coisa era bem mais agreste mas suportável, mesmo assim. Mas o calor, o calor era a estação por excelência, logo se lembrou das longas tardes passadas na praia, até ao anoitecer, ver o sol deitar-se juntinho ao mar com aqueles tons amarelo-avermelhados, deixando à sua volta uma silenciosa sensação de bem-estar, já estava com saudades.

Deixou-se de pensamentos saudosos, deu um pulo para fora da cama, directo ao banho, vestiu-se e depois de mastigar umas tostas e bolachas com o seu primeiro copo de leite europeu, aguardou a chegada da que seria a sua companhia por alguns dias. Dirigiu-se à janela e espreitou para a rua, uma rua sossegada onde descortinou um crescente acentuar de movimento das pessoas que se dirigiam ao trabalho, à sua vida diária que começava mal despontava o dia. Chapéus-de-chuva abertos, ia ser uma constante companhia de Meia de Leite, o chapéu-de-chuva.

Olhou para o céu, nuvens, umas mais escuras que outras, mas nuvens, nem sombra de um solzinho aquecedor. Reparou que das mais escuras vinha a chuva que começara a cair, estão carregadas, pensou, esta chuva miudinha não deve desaparecer com facilidade, assim era, uma chuva para todo o dia. Sentiu um toque de campainha, abriu a porta das escadas, minutos depois um ligeiro bater na porta, abriu-a. Jeanne, a assistente social estava ali à sua frente, fresca e pronta para o levar e ajudar a tratar de toda a papelada que teria de ter para viver em Bruxelas.

Afastou-se para o lado, ela entrou e deu uma rápida vista de olhos ao quarto, tudo arrumado, cama feita, roupa nos armários, gostou do que viu e olhando para ele sorriu-lhe. Um sorriso de dentes brancos saiu-lhe da cara e foi então que ele, pela primeira vez reparou bem nela, uma mulher ainda jovem, vestida despretensiosamente mas elegante, um corpo firme e sem nenhum dos efeitos da idade ainda a passar-lhe por ele, uns lábios grossos e brilhantes, mercê do baton contra o cieiro, estatura um nadinha superior à média, podia dizer-se que era alta, quase à sua altura, Meia de Leite gostou do que viu e não deixou de ter uns pensamentos pecaminosos, mas não estava em posição de os demonstrar. Vamos que temos muito para andar hoje, diz ela, é melhor agasalhares-te que o dia está frio e leva o guarda-chuva que está tempo de molha.

Agasalhares-te! Tratou-o por tu, esta gente é mesmo diferente, ganham logo um à-vontade com as pessoas que nos deixam atordoados. Antes de mais, deixa-me apresentar-me que ontem nem falámos com tempo para isso, sou a Jeanne e vou estar contigo durante uns dias para te ajudar a tratar de tudo, depois, quando ficares à tua conta, ainda poderás contar comigo, para isso deixo-te o meu contacto e assim poderás em qualquer altura ligar para mim, estarei sempre à disposição para o que necessites. Sei que é sempre difícil adaptarmo-nos a um novo país, mas vais ver que consegues e ainda vais ser feliz aqui.

Sou o Meia de Leite, desculpa, este é o nome por que era conhecido pelos meus amigos, todos tínhamos alcunhas, na verdade eu chamo-me Josué, eu sei, é um nome bíblico, não gozes, foi assim que os meus pais me baptizaram, titubeou no seu ainda hesitante francês. Não te preocupes, não te ia gozar, é um nome bonito, e sorriu-lhe de novo. Vou só vestir o blusão e podemos ir, vais-me contando o que preciso saber, como me orientar, onde arranjar trabalho, enfim, tudo o que é necessário para ser quase um cidadão Belga.

É para isso que eu estou aqui, para te dar uma ideia do que é e como funciona este país, pode nem parecer, mas até funciona bem. Vais ficar a saber o que for necessário e se mais alguma coisa houver a saber basta que me contactes, quando quiseres, a qualquer hora, estarei disponível. Soou-lhe bem aquele “a qualquer hora estarei disponível”, veio de África, é certo, mas aquela cabecinha formatada com o espírito africano e o latino, já fervilhava de ideias menos católicas. Deixou-a sair à sua frente, não por deferência e educação, que também o faria por isso, mas para puder apreciá-la enquanto se movia para fora do apartamento, gostou do que viu e imaginou-se já com namoro com uma rapariga do país e, quem sabe, a ter os seus descendentes de uma ligação a uma destas moças, tão diferentes e tão bonitas.

Foi um dia em cheio, repartições, serviços vários, tanta papelada a tratar e ele sempre ao lado dela, nas suas titubeações, ela servia de intérprete, de guia, de tudo, sentia-se bem com a sua companhia e que grande ajuda ela era. Pararam à hora de almoço, ainda havia muito que andar e tratar, agora iam descansar um pouco, comendo algo que os aconchegasse. Ela propôs levá-lo a um restaurante típico, comida do país, para se habituar, ele aceitou, descobriram um pequeno e acolhedor, barato, boa comida e aconchegado, quentinho que eles precisavam para aquecer os corpos do frio que fazia.

Entraram e já uma aglomeração de gente se fazia sentir lá dentro, galgaram uns passos no meio das gentes que comiam e conversavam, encontraram, a um canto, uma mesinha, pequena com duas cadeiras, o suficiente para eles. Sentaram-se, olharam o menu, escolheram o que queriam, bem, ela escolheu pelos dois e explicou-lhe o que era para que ele soubesse o que ia comer, pediram e minutos após ali estava um suculento prato à base de pão e salsichas gordas, grandes, cheias de molho e cebola, duas cervejas e estava completo o menu. Deram a primeira trincadela e ele sentiu o calor da gordura da salsicha aquecer-lhe o estômago, era bom, pensou.

Foram falando sobre as coisas que ainda tinham para fazer hoje e mais as que ficariam para o dia seguinte. Inadvertidamente, ou talvez não, a sua perna encostou-se à dela, Meia de Leite sentiu um calor a subir-lhe pelas faces, controlou-se e, polidamente pediu-lhe desculpa. Não te preocupes, disse ela ao mesmo tempo que poisava a sua mão na perna de Meia de Leite, quente, abrasadora mesmo, pensou ele, isto é tão pequeno que não conseguimos estar sem uns encostos e encontrões, logo te habituas. Ele olhou-lhe para a mão sobre a sua perna, quase junto à coxa, de tal forma que notou que ela sentiu algo a crescer debaixo da mão. Não se desmanchou, apoiou a mão com mais força, deixou-a descair um pouco, sentiu tudo o que havia para sentir ao correr a mão sobre o que lhe tinha crescido, ao mesmo tempo que o olhava nos olhos.

Meia de Leite ia desfalecendo. No meio daquela confusão, uma coisa daquelas, não conseguia imaginar. Controle, controle, não podia deixar-se descontrolar, mais a mais que a sua perna já se encostara de novo e agora não se queria despegar. Já sei, vou-lhe falar dos documentos e do trabalho que preciso arranjar. Assim fez, queria saber como conseguiria arranjar trabalho que não podia viver eternamente da assistência que lhe davam, queria ser produtivo, ajudar o país que agora o ajudava. Não vais ter de te preocupar com arranjar trabalho, também temos um serviço de encaminhamento, das pessoas que entram no país como refugiados, para várias empresas que procuram trabalhadores e, dentro das disponibilidades existentes, escolherás um que te agrade e poderás começar a trabalhar de imediato.

Primeiro que tudo o mais, vamos acabar de tratar de toda a documentação necessária e depois então vem o trabalho. Dentro daquilo que houver, de ofertas de trabalho, vais seleccionar o que queres, eu até te ajudo a escolher, conheço bem o mercado e as empresas que nos oferecem estas vagas e vou indicar-te a que for melhor para ti, está descansado. Vamos continuar o nosso périplo, que temos toda a tarde para aproveitar. Pagaram e ela levantou-se, deu um passo e estendeu-lhe a mão, como a querer guiá-lo para fora dali. Sentiu-lhe a mão quente, os dedos compridos, segurou-a bem e não a largou até estarem fora do restaurante, apertou o blusão e ajudou-a a apertar o casaco. Sorriu-lhe a agradeceu e o seu sorriso foi como um sol radiante que lhe aqueceu a tarde.

Mais umas voltas e agora, finalmente, o documento de identificação, uma espécie de cartão de cidadão. Com isto na mão já se sentia um verdadeiro cidadão do país. Sentaram-se numa secretária em que outro funcionário os atendeu e lhes deu os documentos necessários a preencher, medição, impressões digitais, fotografia colada e em alguns minutos de espera o tão desejado documento identificador nas mãos. Deu-lhe a volta entre os dedos, apalpou-o, sentiu-lhe a rugosidade, o seu cartão de identificação, podia, agora, circular livre entre os cidadãos do país. Mais umas assinaturas e estava livre dali.

Enquanto esperava, sentado ao lado de Jeanne, não deixava de soltar os pensamentos e olhava para ela, tirava-lhe as medidas mentalmente e as pernas, aquelas pernas metidas nuns collants que deixavam ver tudo o que era preciso para apreciar a sua delicadeza. Compridas, mais para o magro que gordas, elegantes, bonitas pernas, pensou, quando se punha de pé tinha sobre elas um corpo lindíssimo, bem proporcionado e até, de certa forma, atlético, da bicicleta, pensou ele. Loira, uns olhos azuis de fazerem inveja aos céus da sua terra. Coisa linda. Será que conseguiria arranjar uma namorada assim? Não sabia, mas tinha esperança, que filhos sairiam de uma relação destas? Lindos com certeza, África e Europa numa mistura explosiva. Já ele o era, assim afinaria a espécie.

Meia de Leite era uma mistura entre África e Europa, a mãe, africana de gema, nascida para os lados do Huambo onde o pai, europeu de Trás-os-Montes, estivera a trabalhar e por ela se apaixonou ainda jovem. Desta relação nasceu Meia de Leite, entre um e outro, moreno dizia, os traços europeus da sua face não o desmentiam, afinal, tantas voltas dá o mundo que acaba por atirá-lo para o continente de onde saíra seu pai, a Europa. O destino prega cada partida, que mais lhe estaria reservado agora que ia iniciar uma nova vida por aqui? Só o destino sabia, só ele lhe tinha traçado a rota, só ele tinha escrito nas estrelas o que o esperava, Meia de Leite só tinha de o seguir.


publicado por: canetadapoesia às 20:53
link do post | comentar | favorito

.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Seguir meu perfil

. 19 seguidores

.Pesquisar

 

.Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Posts recentes

. Orgulho

. 10 de JUNHO

. A república revisitada

. Consoada numa terra dista...

. Finalmente juntos (39º Ca...

. Encontro ao fim da tarde ...

. Num país diferente (37º C...

. Sobrevivência (36º Capítu...

. Evolução na confusão (35º...

. Preocupação (34º Capítulo...

.Arquivos

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Agosto 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

.Links

SAPO Blogs

.subscrever feeds