Sábado, 31 de Março de 2018

Encontro ao fim da tarde (38º Capítulo)

 

 

Desperta dos seus pensamentos quando, pelo canto do olho, habituado que estava a usá-lo para uma visão periférica mais alargada, depara com um vulto que caminhava na sua direcção. Não lhe era desconhecido, desengonçado, alto e magro como as coisas finas, Branquelas, em pessoa vinha aí para esperar por ele e ia encontrá-lo.

Olhou-o de frente, ele também depositou o olhar no único vulto que lhe chamaria a atenção naquela esplanada, Noite Escura. Sentado, com a cerveja meio bebida, ali estava à sua espera. Levanta-se já com o sorriso estampado no rosto, dois sorrisos, dois amigos que apesar de todas as vicissitudes não se largaram pelos desencontros da vida. Um abraço, umas lágrimas de parte a parte, dois corações acelerados e o bater de mãos nas costas um do outro. Finalmente juntos de novo, finalmente livres dos grilhões que os prendiam.

Sentaram-se por momentos tentando aliviar assim a comoção que os invadia, pediram mais duas cervejas, beberam os primeiros goles em silêncio, olhos nos olhos. A cumplicidade entre eles era tanta que sabiam perfeitamente o que os seus olhos estavam a dizer, saudosos das meninices da sua infância, juntos de novo para encetar uma nova vida. As lembranças dos seus perpassavam-lhes pela cabeça e de quando em quando humidificavam-lhes os olhos. Finalmente, atira de repente Branquelas, finalmente, retribui Noite Escura. Estamos num país que não conhecemos, mas foi o que nos acolheu e do qual vamos fazer nosso a partir de agora. O importante é deixar para trás tudo o que aconteceu e recomeçar a vida a partir deste zero em que nos encontramos, felizmente, tivemos o bom senso de fazer os nossos pais saírem a tempo daquele inferno, já temos onde nos acoitar. É verdade, foi a melhor decisão que tomámos, nem sei o que seria deles se lá tinham ficado, mesmo que não lhes fizessem mal, não iam aguentar aquilo, não da forma que tomou.

Já reparaste que estamos nas vésperas de Natal? É verdade, dia 23 de Dezembro, amanhã é a noite de vinte e quatro aquela que tradicionalmente passávamos juntos, as famílias reunidas à volta de uma mesa comum em que nada faltava para comemorar a data, ainda que vivêssemos em África e não na Europa. Era bom que este Natal conseguíssemos estar todos juntos de novo, mas não sei se Meia de Leite cá estará. Se o conseguíssemos era a comemoração do nosso regresso e da verdadeira amizade que sempre nos uniu, agora já com Meia de Leite a produzir uma próxima geração e já vai com dois, não pára.

Para estarmos lá a tempo devíamos sair daqui hoje e assim já passávamos o dia com eles, sinto saudades de abraçar os meus pais. Podemos ir logo de manhã de comboio e chegaremos aí pelo meio-dia, ou, em alternativa, ir hoje mesmo de autocarro, mas confesso que prefiro o comboio, é mais confortável e sempre vamos vendo a paisagem que nos cerca. Por mim está bem de comboio, tenho é de sair do hotel onde estou e procurar outro para passar a noite, hoje mesmo tenho de sair de lá que ainda é pago pelo governo. Não tens problema, ficas no mesmo em que eu estou e assim é só tomar o pequeno-almoço e partirmos para a estação bem cedo. Encontramo-nos no meu hotel que eu vou-me chegando e preparando o terreno, vou arranjar-te o quarto para hoje que aquilo não está cheio e logo que chegares já o tens à tua disposição. Depois damos uma volta por aí, jantamos e preparamo-nos para a partida de amanhã.

Deste notícia de que estávamos cá? Estarão à nossa espera? Não disse nada a ninguém, estou aqui perfeitamente incógnito, aliás, para as nossas famílias estamos os dois ainda por lá, longe daqui. Queria que fosse surpresa, uma daquelas que tinham quando, em miúdos, lhes pregávamos alguma. Vão ficar boquiabertos por nos verem e mais ainda quando souberem que é de vez, não precisarão de se preocupar mais connosco, ficaremos com eles, ao pé deles. Já me sinto feliz só de pensar com que cara ficarão quando nos virem, vai ser uma surpresa e tanto. Se calhar não à jantar para todos? Olha, parece que era a primeira vez que entravam pela casa bocas a mais para comer e não havia que chegasse. Já os conhecemos bem, não perderam os hábitos de certeza, chegamos e é uma festa, a seguir aumentar a manja que há mais duas bocas famintas dos quitutes da família, prontas a devorar. Vais ver que tenho razão e se não houvesse comida suficiente, repartia-se a que houvesse, sempre foi assim, o importante é a felicidade de nos verem, de nos terem ali à mão.

Mala arrumada, saída para jantar por perto, uma volta pela cidade ao anoitecer, quando ela se preparara para se resguardar do frio deste inverno. Podiam tê-lo feito no hotel mas gostavam de sentir a cidade, correr algumas tasquinhas tão típicas e onde se comem verdadeiros tesouros da culinária do país. Escolheram uma das várias que na rua onde estavam se amontoavam lado a lado, entraram que na esplanada estava frio e eles ainda não estavam completamente habituados a ele. Sentiram o bafo quente que vinha do interior logo que abriram a porta, os cheiros a comida acabada de fazer despertaram-lhes o apetite. Escolheram uma mesa perto da janela da rua, sempre apreciavam os passantes, escolheram, pela carta, os pratos que queriam com alguma dificuldade dada a variedade do que se apresentava.

Bacalhau para mim, diz Noite Escura, eu também quero. Sempre comemos disto mas aqui tem outro sabor, traga-nos bacalhau à lagareiro e para beber uma garrafa de vinho, qual é a região do vinho da casa? É boa, pode ser, essa mesma. Estás com vontade de apanhar um pifo, Branquelas. Não, não estou, estou só satisfeito por estarmos aqui os dois e isto tem de ser comemorado, não é todos os dias que se consegue sobreviver ao que nós passámos e voltar para os nossos intactos, esta é a nossa comemoração pela vitória que conseguimos ao sair de onde saímos e nas condições em que o fizemos. Vamos beber à nossa saúde e já agora a todos os nossos amigos e familiares.

Tilintaram os copos, saborearam lentamente cada gota daquele néctar, sentiram-no deslizar pela garganta, aqueceram-nos e, num estalo de língua, terminou a primeira prova. É isto que nos aquece por aqui, já estou a ver, e aquece bem que já me sinto encalorado. Conversaram sobre o que iria acontecer a seguir, o que iriam fazer, como iam ganhar a vida nestas paragens, a bem dizer nunca tinham feito mais nada do que a guerra, não sabiam fazer mais nada, mas alguma coisa se haveria de arranjar, não iam ficar de braços cruzados ou a viverem à custa dos pais. Ao mesmo tempo que o diziam já Branquelas imaginava algo que os poderia encaminhar para uma vida activa e em que pudessem até pôr em prática os seus conhecimentos da guerra que atravessaram, logo se veria se a ideia tinha pernas para andar, para já era só uma ideia.

Chega o bacalhau em travessas de barro, fumegante, o azeite em que tinha sido cozinhado ainda fervia, o aspecto delicioso, tostadinho e com umas batatinhas pequenas a envolvê-lo, o aroma do alho a entrar-lhes pelas narinas. Que delícia. Noite Escura não resistiu, pega no garfo e espeta uma daquelas apetitosas batatas, leva-a à boca e num repente atira-a para o prato, bolas que isto está mesmo a ferver. Pois está, isto é feito ao lume e o azeite ainda vinha a ferver, deve estar mesmo quente. Não é para comer assim, à glutona, é para se ir comendo, devagarinho, saboreando o verdadeiro paladar destas comidas, afinal isto é mediterrânico, as melhores comidas do mundo.

Despacharam o jantar, lentamente que a conversa estava agradável e da primeira garrafa de vinho já não havia rasto e a segunda para lá caminhava. Quem olhasse para os dois via reflectida, nos seus rostos, a verdadeira felicidade, não pela comida, que também ajudava, mas pelo prazer de estarem ali os dois. Sabes que nunca mais esqueci o nosso encontro naquela chana do leste, ficou-me gravada para sempre, à espera que disparasses sobre mim, porque eu era incapaz de o fazer contra ti, fiquei ali à espera e afinal és como eu, prezas mais a amizade que a lealdade a uma política. Enquanto esperava, naqueles segundos, pensava se serias capaz de o fazer, de disparar o tiro derradeiro, por outro lado, o coração dizia-me que não, que nunca o farias, tínhamos uma infância juntos, uma amizade indestrutível e que, logo ali, ficou provado que o era. Naquele dia, naquele preciso momento foste mais que um amigo para mim, olhei para ti e vi um irmão. Pois sim, um irmão preto que tinha um irmão branco. O ser irmão, não tem nada a ver com a cor da pele como bem sabes e sempre o provámos, tem a ver com sentimentos, tem a ver com aquilo em que acreditamos ser a nossa gente, aqueles que nos interessam verdadeiramente.

Toca aí e vira mais um copo que é para a caminhada até ao hotel. Amanhã será o primeiro dia do resto dos nossos dias, longe da nossa terra é certo, mas também, longe da guerra e junto à nossa família, esses é que são importantes e sê-lo-ão para sempre. Só lamento as preocupações que lhes dei, mas sei que me perdoam pelo meu sonho de construir um país novo e sem preconceitos. Não foste só tu Branquelas, eu também pensei que era possível, enganámo-nos, vai levar muitos anos até que seja possível que este sonho se torne realidade. Muitos anos mesmo.


publicado por: canetadapoesia às 22:18
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Sexta-feira, 30 de Março de 2018

Num país diferente (37º Capítulo)

 

 

Tudo de acordo com o planeado. Esta saída de Noite Escura, propiciou a fuga que encetariam, o abandono da sua terra, das esperanças e das ideias que Branquelas defendia calorosamente e por elas se passou para o outro lado e Noite Escura, nada politizado, mas encarcerado da sua entrega à guerra que sucedeu a libertação do país por imposição e não por sua própria opção.

Também ele olhou pela janela do avião que o levava para longe, oficialmente em trabalho, aquisição de material de guerra, no seu íntimo, ia para longe, mas para não voltar. De forma diferente de Branquelas, também ele sentiu o adeus, mas não com a profundidade do amigo. Estava cansado da guerra, estava cansado de um país onde, via a cada novo dia, crescer mais a distância entre quem era governado e aqueles que os governavam. Se os primeiros estavam cada vez mais pobres e miseráveis, subsistindo sabe-se lá como, já os segundos estavam gordos e luzidios de tanta ganância e riqueza acumulada sobre os corpos quase putrefactos dos primeiros.

Recostou-se na cadeira, ia à vontade, afinal era uma figura importante, tinha direito a viajar em classe superior, descansado, confortável, com todas as mordomias que o seu posto lhe garantia. Apesar de tudo, nada disto o atraía, estava distante desta política de destruição e fruição que nada de bom tinha trazido ao país, pelo contrário. Tinha visto a sofreguidão com se atiraram a todos os bens que podiam, nenhum era demais, quanto mais conseguissem mais importantes se sentiam e afinal, o que recebiam? Tudo feito, tudo preparado, nada tinham feito para os possuir a não ser ajudar a empurrar para fora os verdadeiros proprietários. Esta foi a grande revolução, pensou, tirar a uns para dar a outros, mas seleccionados, não era para todos.

Olhou de novo para fora, o avião rolava na pista, ganhava velocidade, mesmo ao fim da pista notou um pequeno e imperceptível impulso para cima ao mesmo tempo que se sentia enterrar na cadeira, o avião estava no ar, tinha levantado voo. Um longo silvo e um baque final, indicou-lhe que o trem de aterragem estava recolhido. O sinal de desapertar cintos foi apagado e de repente, dentro do avião nota-se uma azáfama extraordinária, pessoas levantam-se, conversam, andam pelo corredor, uma barulheira própria de uma feira, mas lá para trás, que, da cortina para a frente a classe era superior, nada de misturas.

Via agora as luzes da cidade a desaparecer ao longe, cada vez mais alto, sempre a subir até ver umas nuvens passarem-lhe pela janela. Não deixou de fazer o paralelo com a sua vida dos últimos anos, sempre a subir até à queda final que se iria consumar brevemente, quando tudo fosse abandonado em prol da sua sanidade mental e da sua família, que muito prezava, com quem tinha passado muito pouco tempo desde que assentara praça pela primeira vez. Era talvez a decisão mais difícil que tinha tomado, mas era irreversível, dentro em breve largaria tudo, todas as mordomias, o posto de general e o próprio país de que agora se despedia com um olhar vago e sem sentido.

Muitas horas de vôo, o bastante para pensar sobre a sua vida e afinar a forma de se desenvencilhar deste passado recente que o vinha atormentando. Quando despejou o último olhar sobre a cidade, daquela imensa altura, pareceu-lhe distinguir, ainda que de contornos difusos, o seu bairro, o seu velho bairro, a Vila Alice. O templo da sua meninice, a zona de guerra das brincadeiras com os seus eternos e inseparáveis amigos. Visto dali, mesmo sem ver, podia distinguir claramente a planta do bairro. A escola industrial, quase ao lado o liceu feminino e mais abaixo, mesmo em frente, ou quase, o cinema império, tantos filmes de aventuras viram ali os três juntos. A gritaria que era, sempre que o herói dominava o vilão da fita, filmes importantes para a formação do carácter dos três.

Depois aquela imensa rua que dividia o bairro a meio, até mesmo ao fundo, ao Macambira, uma rua que lhes serviu de pista de corrida de carrinhos de rolamento e de trotineta. Os largos que a ladeavam, o do ringue de patinagem, tantas quedas se deram ali e ninguém morreu por isso. A sua casa, a casa dos amigos e vizinhos, a mangueira que trepavam, tanta coisa vista do ar, vista daqui é como uma fotografia, toda a sua vida, a vida de todos com quem privava estava retratada nesta fotografia. Agora via nitidamente que até a sua saída dali lá estava, representada por um avião que voava alto, muito alto e para bem longe dali. Para um país diferente, um país que não conhecia e que tinha de começar a querer como seu, pois, assim seria para o resto da sua vida.

O barulho seco do trem de aterragem a abrir e posicionar-se acordou-o do torpor e sonolência em que se encontrava, estavam a aterrar, dentro de alguns segundos, o chão que se lhe depararia era outro, não o seu, que o conhecia bem, vermelho, com cheiros quando chovia. Este não o conhecia, era a primeira vez que o pisava, passaria a ser aquele de que nunca mais se separaria. Esta era só uma escala técnica, mesmo assim, fez questão de sair do avião e senti-lo debaixo dos seus pés. Ia seguir viagem para outro país da Europa, para cumprir as suas obrigações e deixar todo o material de guerra, que vinha adquirir, em boas mãos para seguir o seu destino, depois, só depois voltaria a este chão, a esta terra de vez, para não mais sair.

Estava certo que Branquelas já ali estava, andaria por certo a visitar a metrópole que nunca tinha conhecido e a força das circunstâncias o obrigaram agora a vir conhecê-la. Corria a cidade em busca de parâmetros para a sua nova vida, era aqui que agora passariam a viver, não propriamente na cidade de onde partiram os descobridores que chegaram à sua terra, mas mais para o sul, mais perto do sol e do calor que lhes lembraria a sua origem. Voltaria a pisar este chão dentro de três ou quatro dias e então, seria definitivo, já não seguiria o caminho de regresso.

Regressou ao avião que o havia de levar ao seu local de destino, uma capital europeia onde os contratos seriam assinados e o material posto à disposição do governo que o enviara. Depois era o regresso, já não com escala na metrópole, mas com mudança de avião, teria um ou dois dias para deambular pela cidade, de acordo com os horários que lhe traçaram, era nessa altura que estava decidido a encontrar o seu amigo e ambos, reunidos outra vez, rumarem a sul, rumarem a casa, aos seus, àqueles que realmente importavam.

O encontro tinha lugar marcado, todos os dias, desde que chegara, Branquelas passaria umas horas, ao fim do dia, na esplanada de um café muito conhecido, no centro da cidade, internacionalmente conhecido. Como não sabiam ao certo qual o dia que ele se poderia libertar, esta foi a melhor forma de concertarem o seu encontro e era o que Noite Escura faria nos dias que tivesse livre, ia procurá-lo a esse ponto específico, perfeitamente marcado e difícil de se enganar.

Os assuntos que o levaram a sair do país estavam todos tratados, tudo em ordem e organizado, sentia-se livre neste momento para dar asas às suas intenções. Logo no primeiro dia que teve livre, levantou-se cedo, preparou-se e, vestido de forma desportiva, quase indiferente no meio da multidão, andou pela cidade, visitou os pontos turísticos principais. Aproximando-se a tarde e a hora combinada para o encontro, dirige-se ao café combinado, procura lugar na esplanada, senta-se com as costas viradas para a parede do edifício, fica com um campo de visão excelente à sua frente. Pede uma cerveja, beberica lentamente e aguarda que Branquelas dê à costa.

Alarga o olhar sobre a praça, já a conhecia, não por ter cá estado, somente porque sempre ouvira falar dela, a estudara na escola, e das áreas adjacentes, uma praça histórica e com estória. Larga, dois fontanários, cada um em seu lado da praça, um imponente edifício num dos topos, um teatro. Mesmo ao lado, outro palácio, o palácio da independência, sorriu ao ler o nome do palácio no folheto turístico que tinha entre mãos, entre os dois, um mar de gente de todas as cores. Um bocadinho de África estava ali também, a tagarelice, as cores, o ajuntamento das pessoas, não tinha dúvida era África, estava em casa ou quase. Não percebia era como, depois de os seus países serem independentes livres do jugo colonial, esta gente se fazia à estrada e vinha para a metrópole, sem outros horizontes que a tentativa de viverem melhor do que nos países que deixavam, não ficaram melhores é a conclusão a que chegava, vieram procurar uma vida junto aos antigos opressores.

O olhar vagava pela praça, pela vetusta arquitectura que a compunha, pelo mar de gente que a cruzava. Esta praça, este país, era mesmo um ponto de encontro do mundo, indianos, paquistaneses, árabes, africanos, brasileiros, de tudo havia aqui e até, aqui e ali, alguns nacionais. Espantoso um país que se mistura com tanta gente diferente, que é tolerante o suficiente para permitir que aqui, mesmo sendo pequeno, caiba sempre mais e mais diversificada gente. Abençoado por Deus, com certeza, pensava para dentro. A visita ao castelo, sobranceiro à cidade, deixou-o estupefacto, uma vista a perder-se por cima dela e até ao rio, o casario típico por baixo das amuradas do castelo, tudo o fazia sentir-se admirado com um povo que cresceu a partir destas muralhas.

Sentia que desta gente saíram os melhores, os que desafiaram o desconhecido, os que procuraram alargar horizontes, os que levaram o nome do país muito mais longe, os que o seu país expulsou deixando um vazio em seu lugar, desagregando uma sociedade multifacetada para criar não sabia ainda o quê. Entristecia-o que isto tivesse acontecido.


publicado por: canetadapoesia às 17:35
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Quinta-feira, 29 de Março de 2018

Sobrevivência (36º Capítulo)

 

 

Branquelas e Noite Escura não tinham uma vida fácil. Se o primeiro era um histórico do movimento, o segundo que nem sequer lhe pertencia, sofria pela perícia das suas qualificações e teve de aceitar ser inserido em mais uma guerra contra sua vontade.

Do seu bairro de infância já nada restava, os amigos, os vizinhos todos tinham debandado e em seu lugar chegou a ocupação das casas vazias, sem a alma dos que lá viveram. Assistiram à debandada, muitas vezes debaixo de tiros, agora assistiam à ocupação e mesmo as suas casas, onde nasceram e se fizeram homens, foram arrombadas, ocupadas e sem possibilidade de as reaverem. Viram os muros que até aí eram baixos, tinham a altura suficiente para quem circulava na rua falar livremente com quem estava nos quintais, subirem a alturas inauditas, foram entristecendo, a sua Vila Alice.

Nas suas funções as coisas corriam, ainda respeitavam Branquelas pelos seus feitos e pela opção que tinha feito, a Noite Escura também respeitavam, mas pela perícia e empenho nas acções militares em que se engajava ou que delineava com êxito garantido, esquecendo, pelo menos por enquanto, que tinha sido oficial das temidas forças de ataque do governo de ocupação anterior, agora era imprescindível. Uma sombra pairava, difusa, sob o céu azul daqueles dias quentes, algo os incomodava. As promessas de um mundo melhor tardavam em aparecer e o que viam não era mais que uma luta intestina pelo poder, pelo poder absoluto que garantiria o acesso a todas as riquezas do país e nessa luta, sem tréguas, esmagavam-se uns aos outros, irmãos contra irmãos, aniquilavam-se populações indefesas. Mas eles não podiam sair dali, estavam amarrados pelas obrigações que criaram.

Foram ascendendo na hierarquia das forças que, lentamente, se foram assenhoreando do terreno e se impunham como força dominante, nada lhes faltava já que o que de bom entrava no país era para as forças armadas e para os dirigentes. Noite Escura, general, estratega, ajudava imprescindivelmente à vitória que se desenhava. Branquelas operacional perito na execução das estratégias delineadas nunca chegaria a general. O país era para todos, mas mais para uns que para outros e Branquelas era isso mesmo, branco. Nunca lá chegaria, começou a ver ao longe e não lhe agradou a ideia de, depois de tudo o que tinha dado de si, vir a ser tratado desta forma. Foi-se avolumando a ideia de que não tinha sido por aquilo que lutara, que dedicara a sua vida a um ideal que agora parecia não o querer por perto, pelo menos depois de não precisar dele.

Noite Escura, apesar das mordomias de que era cercado, do poder quase absoluto sobre a vida e a morte nesta guerra, foi-se apercebendo de ouvido, umas frases aqui outras ali, uma conversa interrompida à sua chegada e outras pequenas atitudes, que também os seus dias não iriam ser muito risonhos. Uma revolta interna, uma facção que não gostava da forma como as coisas estavam a ser geridas, que queria outro rumo para o país, que não se revia no que estava a acontecer subleva-se. Tinha muitos seguidores, muitos apoiantes, muitos militantes de longa data; tinha de ser detida e mais uma vez os dois amigos foram chamados a por cobro a este atrevimento.

Não gostaram nada, obedeciam às ordens, obedeciam em nome de um interesse superior que era a nação unida, o país em formação, a sua terra. Foi sangrenta a resolução da crise, milhares de mortos espalhados por todos os cantos do país, questão resolvida e consciência pesada para ambos. Nunca mais foram o que eram a partir desse dia. Começaram a fechar-se em si, as conversas deixaram de ser descontraídas para passarem a ser feitas em surdina, amiúde, quando se juntavam para jantar os dois descambavam sempre na mesma opinião, temos de sair daqui isto está a dar cabo de nós, não fomos feitos para esta matança desenfreada, fomos educados como gente de bem e as armas seriam sempre a última das razões a utilizar. O que vemos agora é que estas mesmas armas que nos serviram para lutar por um país estão a reduzir esse país à miséria da sua população para bem de meia dúzia que tomaram as rédeas do poder e, na sua grande maioria, nem sequer estiveram na luta de libertação, apareceram agora cheios de esperteza saloia e fazendo-se passar por grandes patriotas.

Estou a atingir o limite. Não estás só, eu também para lá caminho e olha que até me tratam bem, mas há qualquer coisa que não me cheira, não consigo confiar. Estamos cansados de guerra e destruição é o que é e ainda por cima cheios de saudades dos nossos que felizmente pusemos a salvo a tempo e horas. Temos de pensar bem o que queremos fazer, e fazê-lo com toda a calma para não despertar atenções ou ficaremos aqui para sempre e não da maneira como o desejamos. Temos de nos ir embora, rematou. Aquilo suou-lhes aos ouvidos como o ribombar dos travões nas grandes chuvadas das terras de África. Ficaram a matraquear a ideia. Ir embora, conseguir sair sem despertar atenções, voltar para os seus, ter descanso e segurança, sabia bem sentir aquilo.

As coisas precipitaram-se no rescaldo do banho de sangue que terminou com a sublevação. Agora procuravam-se os que poderiam ter estado ligados a eles, amigos, ou simplesmente conhecidos serviam na perfeição como bodes expiatórios. Neste frenesim, alguns que nada tinham a ver com o assunto eram também arrebanhados e sumariamente punidos, para tal bastava uma simples denúncia que até podia vir de alguém que deles não gostasse ou, o mais comum, que quisesse ajustar contas malfeitas, tudo servia para arranjar culpados e porque não, fazer também uma limpeza aos que não interessava manter.

Foi a gota de água. Ver pessoas mais chegadas serem devoradas por este desvario, foi demais. Decidiram-se no jantar seguinte. Mas como haveriam de fazer? Era muito difícil conseguir autorização para sair e pessoas nas condições deles, com as responsabilidades que detinham, ainda pior. Para o fazer tinham de consegui-lo em separado, todos sabiam da sua amizade e um pedido conjunto estava fora de questão por ser liminarmente recusado e ainda os pôr de sobreaviso para com eles. Não, tinham de traçar uma estratégia que permitisse a saída de cada um, em separado, para não despertar atenções e Branquelas tinha de ser o primeiro a sair, Noite Escura fazia questão nisso, até porque tinha mais possibilidades por ser uma pessoa importante do regime, um general, as portas abriam-se com mais facilidade.

Resolvido, alegar doença de um familiar próximo, o pai que estava na Europa. Ninguém desconfiaria, pois, a grande maioria dos delfins do regime tinha as famílias fora por questões de segurança, até que as coisas estivessem suficientemente seguras para os fazer regressar de novo. Desta forma não haveria grandes comentários e desconfianças. Assim fizeram, um telegrama de casa dos pais foi a prova suficiente para lhe garantir uma autorização de saída por um tempo limitado. Noite Escura ficaria como se de nada se tratasse e, antes mesmo de acabar o prazo da autorização que dessem ao amigo, também se poria ao fresco. Aguardaram por uma boa oportunidade e ela surgiu por desígnios do destino, uma visita a um país que vendia armamento para o seu, foi o melhor que lhes podia acontecer. Noite Escura, como estratega e responsável do material de guerra, teria de ir ver o armamento, verificar a sua eficácia e efectuar a encomenda do que queriam para as forças armadas.

Melhor oportunidade que estas não teriam por certo. Prepararam-se para que, antes da saída de Noite Escura já Branquelas estivesse fora, conseguiram. Tudo correu como planeado, haviam de se encontrar os dois, mais tarde, na metrópole e depois disso rumar a sul, ao sol e à serra onde viviam agora os seus entes queridos. Ainda o avião não tinha descolado já Branquelas olhava pela janela e deixava cair uma lágrima de saudade, estava a despedir-se, a dizer adeus à terra em que nascera, a terra que o levara a tomar uma atitude drástica, magoando, inclusive, os seus pais, abandonando os seus amigos. Olhava por aquela janela e nada via, os olhos embaciados pelo desânimo que se apossara dele depois de tanto ter dado por ela, dizia-lhe adeus, silenciosamente, deixando ali parte da sua vida e dos seus sonhos de um país verdadeiramente novo. Tudo fora em vão, assim pensou.

Manteve-se em silêncio durante todo o vôo, às perguntas que lhe dirigiam respondia com um sim ou não consoante o que perguntavam e o seu espírito estava disposto a responder. Estava triste. A chegada à metrópole não lhe trouxe nenhuma felicidade ou alegria especial, não sentiu nada a não ser um vazio no estômago, sentiu-se vazio de alma. Esta terra nada lhe dizia, não a conhecia e lamentava que tivesse de ser desta forma que a viria a conhecer, não era a sua terra. Procurou alojamento para esperar mais uns dias até chegar o seu amigo, o general Noite Escura. Aproveitou os dias para percorrer a cidade, conhecer as pessoas, o bulício que se vivia nas ruas, os bairros tradicionais e concluiu, era impossível que conseguissem aguentar aquilo, de uma ou de outra forma acabaria livre, agora já defendia que devia ser de outra forma que esta não funcionou e estava viciada à partida.

E este vazio que não o largava, que sensação esquisita, nunca lhe tinha acontecido.


publicado por: canetadapoesia às 19:54
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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

Evolução na confusão (35º Capítulo)

 

Logo à chegada, no meio daquela imensa confusão em que se encontravam os que vinham de todas as partes do império moribundo, recusaram-se firmemente a ser separados.

Atravessaram um mar de gente deitada pelos cantos do aeroporto, embrulhadas em cobertores, em casacões que nunca usaram na vida, fruto de ofertas de quem os recebia. Crianças, espalhadas por entre os adultos caras espantadas, ainda sem reconhecerem a tragédia, na sua inocência, ainda brincavam umas com as outras. Os adultos, em cujas faces se marcaram as angústias e o terror do que lhes estava a acontecer, não exprimiam qualquer clamor, um rancor, nada que lhes aliviasse a dor de tal tragédia, estavam para ali amontoados, à espera. À espera de que alguma coisa acontecesse, à espera que isto não fosse mais que um pesadelo que, ao acordarem, logo desapareceria. Mas não era, nem os mais optimistas, que os havia, pensando sempre no retorno ao país de onde os trouxeram, já acreditavam nessa possibilidade. Estavam para ali à espera que algo acontecesse.

Filas enormes de gente que, parecia irreal, ordeiramente aguardavam que lhes dessem um destino, um porto de abrigo, um local para viverem e um molhinho de notas para sobreviverem ao primeiro impacto, dez mil escudos, este era o preço de uma vida, era o que custava uma vida destruída, um sonho desfeito. Também eles, três famílias amigas, desde sempre, ali se postaram. Lentamente a fila foi andando até chegar a eles. Depositaram-lhes o molhinho de notas nas mãos, destinaram-lhes um hotel para cada uma delas, a expensas do Estado que muito dinheiro recebeu de países amigos para os ajudar, até que organizassem a sua vida, mas recusaram. Recusaram-se a ser separados, recusaram que uma vida quase comum, fosse desta forma, abrupta e brutalmente separada pela burocracia que lhes estava à frente, impedindo-os de continuar unidos. Reclamaram, regatearam e finalmente conseguiram o seu objectivo, ficaram todos no mesmo hotel.

Lá se instalaram num pequeno hotel da cidade, bem no centro, que isto andava tão às moscas que até vinha por bem esta enchente dos hotéis pagas pela instituição criada para gerir todo este imbróglio. Não se quedaram por muito tempo, gente houve que ali viveu por muito tempo, até conseguir arranjar meios de subsistência que lhes permitisse largá-los, mas eles dispuseram-se a organizar a sua vida rapidamente, não queriam ficar a dever favores, muito menos a quem os colocara naquela situação. Como servidores do Estado foi-lhes, talvez, mais fácil, nem esperaram e assim que viram a abertura para tal logo se candidataram a ser reformados e conseguiram. Com esse estatuto e mais algumas poupanças que traziam, trocadas nas ruas da cidade de onde provinham, logo magicaram a melhor forma de, ajudando-se uns aos outros, conseguirem fugir desta ameaça à sua integridade psicológica.

Estudaram o país, estava um caos, quem podia, também daqui queria sair vendendo ao desbarato os seus bens e nesta situação, procurando bem, até podiam encontrar uma pechincha para adquirirem e largarem de vez este hotel que se ia tornando uma ruína com o excesso de gente e a falta de manutenção. Começaram por escolher o local mais adequado, e olharam para sul, mesmo no fim do país, juntinho ou o mais perto possível da sua terra, perto de África. Optaram por procurar aí alguma coisa que os satisfizesse, encontraram várias, escolheram a melhor, não junto às praias onde todos procuravam lugar, mas mais para o interior numa serra ainda pouco povoada onde as quintas, quase ao abandono se ofereciam a preços relativamente baixos. Aí fixaram a atenção, aí procuraram, e finalmente encontraram o ideal para eles, que não nadavam em dinheiro, mas que conseguiriam superar essa aflitiva situação em conjunto, sabiam que se não se unissem nunca o conseguiriam, a união faz a força, diziam e assim a praticaram.

Estabeleceram-se numa zona de montanha, sossegada e longe das multidões, sempre gostaram da calma e do sossego dos seus quintais, agora não tinham quintal mas tinham uma boa porção de terreno à volta das casas para utilizarem como lhes aprouvesse. Daí a porem a cabeça a funcionar no sentido de tirarem da terra o melhor que esta lhes pudesse dar foi um saltinho e era vê-los a fazer planos, plantar umas árvores de fruto tradicionais da região e também, porque não, já que o clima era ameno, tentar umas das que tinham deixado na terra que amavam. Foram surgindo, os abacateiros, as mangueiras, as bananeiras, uns pés de abacaxi e muitos outros, misturados com as frutas da região que já ali existiam ou que foram renovando, iam-se aprumando embora com o tempo mais frio se aquietassem no seu crescimento mas, assim que caíam os primeiros raios de sol de verão, cresciam a olhos vistos. Asseguravam assim, pela fruta e pela horta que os ocupava, algum do sustento alimentar de que careciam e os almoços de sábado, se sofreram alguma interrupção, logo se renovaram, com a facilidade de estarem muito próximos uns dos outros, afinal nem tudo fora tão mau, o pior eram as saudades da terra e dos filhos que por lá ficaram.

Este paraíso foi conseguido com a aquisição de uma quinta, suficientemente grande para ser dividida entre as três famílias. Juntaram todo o dinheiro que tinham e, ao comprá-la, já tinham destinado o que lhe fariam, a divisão pelos três e cada um com o seu pedaço de terra e uma casinha do campo, que iam melhorando na medida das suas possibilidades, lá se iam aguentando e tentando agarrar de novo a felicidade perdida. O primeiro Natal, dia do ano em que sempre se reuniram em casa de um ou de outro, que a coisa ia rodando para não ser sempre na mesma, retomou-se aqui, sem os filhos que não podiam estar presentes, o país estava em guerra acelerada, muito maior que a que tinham conhecido, nesta nada se poupava, nem havia misericórdia para os vencidos, trucidavam-se uns aos outros sem dó nem piedade, uma miséria. Só restava Meia de Leite que, estando na Europa, podia mais facilmente ir até eles, afinal era o seu primeiro Natal nesta parte do mundo e era altura também de conhecerem o neto que já espigava, mais a barriga de onde despontava, já sabiam, uma futura neta.

Dos seus quintais, na serra, perto do mar, pequenas quintinhas de onde agora extraíam enorme quantidade de alimentos frescos e saudáveis, que estavam habituados a obter da terra o que esta lhes dava sem necessidade de a forçar a produzir mais que o necessário. Chegava para eles e até distribuíam pela vizinhança, estavam finalmente a encarreirar as suas vidas depois da hecatombe, reformados, sem grandes necessidades que o carinho dos seus e dos amigos iam moldando a nova realidade à que traziam no peito. Pitangas, tinham de arranjar umas sementes para ver se conseguiam fazê-las crescer, adoravam aqueles pequeninos frutos amarelo-avermelhados, com um sabor entre o amargo, da sua acidez e o doce se estivessem madurinhas. Quando Branquelas e Noite Escura pudessem vir ter com eles trariam uns frutos de que retirariam as sementes para tentar a sua produção. De resto, quase todos os que conseguiram semear se reproduziram e melhor ou pior iam dando alguma coisa.

Foi uma festa, quinze dias de festa naqueles cercados do meio da serra. Meia de Leite chegou com Jeanne e José, Marie, nome da mãe de Jeanne, vinha aconchegada na barriga de sua mãe, já suficientemente crescida para se notar a proeminência. Todos festejaram a chegada, sem excepção, todos se congratularam pelo seu ar, pela sua família e pela sua presença no primeiro Natal que passavam nestas terras. D. Francisca e o sr. José, choravam a chegada do filho que não viam desde o funesto dia do seu desaparecimento, ou antes, o dia da sua fuga. Abraços, beijos, apertos, tudo servia para expressar a sua satisfação e a lagrimazinha sempre presente. Os amigos, pais de Noite Escura e de Branquelas, associaram-se mais comedidos, olhando para Meia de Leite não deixavam de se lembrar dos filhos, lá longe, em guerra por uma terra que nem sabiam como ia ficar ou quando iria acabar aquela maldita guerra.

José, pequenino ainda, corria pelo campo, perseguia as galinhas, fugia dos patos e corria, solto pela natureza sob os olhares atentos dos avós agora entusiasmados com o neto presente e a futura neta já a caminho. Agradeciam a Deus que no meio de tanta desgraça se tivessem salvo incólumes embora ainda preocupados com os outros dois que lá ficaram, um por opção, Branquelas, e o outro forçado, Noite Escura. Ainda haviam de se voltar a juntar todos de novo, mas todos mesmo, assim pensavam e rezavam para que acontecesse, custava-lhes ver os amigos naquela eterna preocupação por não terem os filhos por perto, mas Deus é grande, há-de trazê-los para junto de nós sãos e salvos, que é como os queremos. A festa foi preparada, a noite santa seria vivida por todos e com todos juntos, como sempre.

À mesa a conversa foi alegre, o jantar tradicional e, quando chegaram à fruta, aí é que todos se orgulharam de apresentar na fruteira a melhor de todas, aquela que eles próprios produziram, frutos da época, frutos do país e também outras iguarias, directamente das estufas que mantinham, bananas, abacaxi e mangas. Uma verdadeira mistura de Europa e África numa só mesa. Mas isto dá-se por aqui? Claro que sim, no inverno é mais difícil, mas como temos umas plantas nas estufas, tudo se dá, só nos faltam as pitangas, esperamos que quando os teus amigos cá vierem, tragam algumas, para aproveitarmos as sementes e ver se conseguimos fazê-las crescer aqui também. Que maravilha, não imaginava, e as bananas são saborosas, pois são, mais pequenas, mas muito boas. Tens de levar alguma coisa lá para a Bélgica, para matar saudades. Não é preciso, há lá de tudo isto, bem quase tudo, porque as mangas são maiores e não são destas pequeninas e pintalgadas as melhores e as que comíamos lá pela terra.

Notícias de Frederico e Ambrósio, sabem como estão? Aquilo nunca mais acaba, pensávamos nós que tínhamos uma guerra e esta, o que é? Uma carnificina é o que é. Nunca pensei e a verdade é que não me arrependo nada de ter vindo embora, só lamento a preocupação que vos dei. Tanto quanto sabemos estão bem só não gostei muito da voz do Frederico, pareceu-me triste, mas garantiu-me que estava tudo bem. O Ambrósio lá vai e é quase general, quem diria? A minha opinião é que deviam largar aquilo tudo, logo que o conseguissem e que viessem embora que aqui sempre têm quem lhes queira bem. O problema é que agora não os deixam vir de qualquer maneira, mas já nos garantiram que assim que pudessem viriam, estavam mesmo a pensar organizar as coisas de maneira a poderem vir os dois juntos. Isso é que era uma alegria e se pudesses cá estar também era uma festa, todos juntos de novo, vamos ter esperança que isso acontecerá.

Os quinze dias de férias de Natal passaram quase sem se dar por eles e agora, reunidos à volta do portão de casa dos pais, todos os amigos se despediam, abraços beijos, votos de boa viagem, não se esqueçam de ligar quando chegarem, para ficarmos descansados. Mãos no ar, o adeus até à próxima, venham depressa e naqueles olhos cansados e gastos pelo tempo e pela carga de desgraça que lhes caiu em cima, umas lágrimas, pequeninas, sentidas, foram rolando cara abaixo.


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Terça-feira, 27 de Março de 2018

Preocupação (34º Capítulo)

 

Desde que tinha começado a trabalhar naquela empresa que a sua vida tinha mudado substancialmente. Jeanne, depois de várias peripécias, idênticas à que o tinha surpreendido, não mais o largou, na verdade não sabia muito bem qual dos dois não largou o outro.

Sentiam-se bem juntos, o casamento nem sequer tinha sido equacionado, mas a vida em comum, trapinhos juntos, começou logo que ela lhe descobriu uma colocação, um emprego que lhe pareceu o melhor para ele. Já pensava certamente no que se seguiria, não discutiram condições, não quiseram saber de mais nada para além daquilo que era o amor entre eles. Sentiam-se atraídos, cúmplices da vida em comum. Só um assunto lhes chamou a atenção para uma discussão que se antevia resolvida sem delongas. O nascimento do primeiro filho. Vinha a caminho e estava prestes a ver a luz do dia, José assim se chamaria.

José já nasceria com uma estrelinha, o pai fugira da guerra, do país onde nasceu para lhe permitir uma vida futura em segurança. Desde o início que o nome foi consensual, Meia de Leite explicou a Jeanne porque gostaria que o filho se chamasse José, ela compreendeu sem nenhuma argumentação em contrário. José ficou, José seria. O porquê era tão simples como dois e dois serem quatro, o pai. O pai de Meia de Leite chama-se José e como era um rapaz seria José, caso contrário optaria pelo nome da mãe. A escolha não se pôs em termos de ser bonito, da moda, ou o que quer que fosse, não, era só e unicamente uma homenagem que fazia aos pais pelo que sempre foram para ele e sobretudo pelo que os fez sofrer com a sua fuga e ausência por todos estes anos.

José nasceu, Meia de Leite chorou e a mãe, orgulhosa do seu rebento, sofreu as dores do parto sem um queixume. Em poucos minutos tinha nos seus braços um rapagão que embora os amigos dissessem que tinha parecenças aos dois, na verdade ela nada encontrava. Não sabia como conseguiam logo encontrar parecenças quando, o que tinha nas mãos, era uma criança recém-nascida e engelhada como um velhinho, dentro de dias, talvez uma semana, então talvez já notasse qualquer coisa de um ou de outro dos progenitores, mas agora? Não, não via nada.

Uma semana depois, efectivamente, começou a descobrir o seu filho. Uma mistura interessante, pensou, dois continentes que se encontravam para gerar uma nova espécie de vida. Uma pele morena, não demasiado escura, cabelos negros e longos, como o pai, mas os olhos, aqueles olhos que abarcariam o mundo, esses, ninguém lhos tirava. Olhos azuis-claros, como os da mãe. Que não, ainda era cedo, ia mudar, a cor dos olhos só mais tarde se afirmariam. Qual quê? Como era possível que aqueles olhos de cor clara, azuis, quase transparentes, da cor de um céu luminoso e límpido, como podiam mudar? Não, não iam mudar nada, eram os seus olhos e José ia ficar com eles. José uma mistura de dois continentes, da Europa e de África, pele morena e olhos tremendamente azuis. Que coisa mais bonita.

Sem o saber, José, simbolizou para o pai, a liberdade por ele atingida anos antes, nasceu no dia 25 de Abril de 1974, passava pouco mais da meia-noite e quinze. Parecia que tinha trazido a liberdade não só ao pai, mas ao mundo a que ele agora pertencia. Uma estrela, por certo, lhe tinha iluminado o caminho que o destino tinha composto para esta felicidade. Antes dessa hora, já Meia de Leite gastava solas de sapatos nos corredores da maternidade, estava quase, dizia o médico, estava quase, sem dúvida que hoje era o dia, dentro de alguns minutos, talvez meia hora estaria cá fora, forte e barulhento, repetia para um pai aturdido pela expectativa de o vir a ser. Uma experiência inolvidável. Não tinha as dores, até ali só o prazer, mas prometia compensar Jeanne do sofrimento do parto, nunca ela teria uma queixa a seu respeito, foi assim com os pais, de que se recordava sempre, a harmonia caseira, seria assim com ele também.

Foi no corredor do hospital que Meia de Leite teve conhecimento das últimas notícias de Portugal. Que tinha havido uma revolução, que os militares se sublevaram e tinham conseguido depor o governo. Ainda era confusa a situação, estava tudo muito em cima do acontecimento e aguardavam-se notícias mais concretas para o noticiário da noite. Uma coisa se sabia, a população tinha aderido em força a este movimento já denominado MFA e seguia-os para todo o lado apoiando a sua acção. Especula-se que a origem desta acção tenha a ver com as guerras de África onde o país se via envolvido e que não tinham fim à vista, há também opiniões, que se dividem, afirmando que o despoletar da situação se deveu a promessas financeiras não cumpridas pelo governo ora deposto. Vamos acompanhar a evolução da situação e daremos a conhecer tudo o que se vier a passar neste país que também é Europeu.

Agora sim, estava preocupado com os pais e com os amigos. Que iria acontecer a seguir? Que iria o governo, agora nascido desta revolução, fazer? Que linhas seguiria? Qual a sua posição face aos territórios de África? Como ficaria a guerra que se arrastava? Tudo questões a que não sabia responder nem encontrara respostas neste breve noticiário da televisão. Ia estar atento às notícias da noite, ligar para os pais e saber o que se passava por lá, ao mesmo tempo, dava-lhes a notícia de que a partir de hoje eram oficialmente promovidos a avós. Ficariam radiantes com certeza, afinal é o sonho de qualquer pai vir um dia a ser avô de um rebento dos seus filhos, ter um acrescento do seu sangue a germinar no mundo, eles não eram excepção por certo.

Por agora, até ao noticiário da noite, mais não faria que admirar a sua obra, a obra dele e de Jeanne, que não podia esquecer-se que ela tinha tido uma parte importante na produção deste ser maravilhoso que embalava nos braços. Teve por certo a parte mais pesada deste feito, suportou o seu peso, ainda que minúsculo, durante nove meses, os incómodos de ver a barriga crescer até ter formado, dentro dela, um ser que iriam amar para o resto da vida, suportou as dores do nascimento de José e agora suportaria os afazeres do seu crescimento, não era fácil, tinha de reconhecer, o seu papel tinha sido muito menor, mas era o que lhe cabia. Agora faria parte do acompanhamento que ele necessitava para se tornar um homem, um ser humano que ambos queriam que fosse educado, bem formado e saudável.

Entre o braço, que o apoiava, e o peito que o aconchegava, aquele feijãozinho, como lhe chamava, parecia um bonequinho de brincadeira. Tão pequenino que só uma das suas mãos seria suficiente para o segurar, mas tinha de o fazer com as duas, por segurança, e se mais tivesse mais usaria para o amparar. Olhava para ele e sentia arrepios na pele, como a natureza é generosa, deu-lhes o melhor do mundo, um filho, deu-lhes uma nova vida que teriam agora de cuidar e fazer florescer. Não lhe encontrava parecenças com ninguém, tão pequenino era e tão engelhado ainda estava, mas havia de as encontrar mais tarde. Sentiu o seu pequeno coração bater bem juntinho ao seu, apoiado no seu peito, aqueceu-o, os olhinhos ainda fechados, um ou outro som que nada poderia significar senão as dores da entrada num novo mundo que teria de percorrer. O seu filho.

As notícias da noite foram vistas no quarto do hospital onde acompanhava Jeanne. Lá estavam, logo à abertura, revolução dos cravos, assim lhe chamavam agora devido à ostentação dos ditos nos canos das espingardas que afinal e segundo se apurou depois, para mais não serviam. Foi uma revolução morna, sem sangue, tudo feito à boa maneira do povo sereno que era e, até se admirava de não ter sido logo comemorada com uma valente patuscada, mas viria a ser depois, durante muitos anos assim comemorada. O que se sabia era que tinham deposto o governo, que seriam enviados para fora do país e que se criava desde logo um governo provisório, uma junta de salvação Nacional, qualquer coisa entre o que se poderia supor ser um timoneiro para o país. Nada de eleições para já, que o momento era revolucionário e os artífices desta coisa ainda tinham de se organizar suficientemente para depois permitir esse regabofe de eleições populares num caminho que levaria à democracia parlamentar.

Quanto às colónias, as coisas não estavam muito certas, sendo que cada um proferia as declarações mais diversas, desmentindo o que anteriormente tinha sido dito e as afirmações proferidas. Estava tudo ainda muito verde e a bem da verdade, o que transparecia, era que não sabiam muito bem o que queriam, mas lá chegariam. O problema que se punha era a rua, a rua onde agora o povo impunha as suas vontades e influenciava decisivamente, desafiando até, os nóbeis conselheiros desta revolução. Queriam acabar com a guerra já, nem mais um soldado para as colónias, gritavam, independência imediata das colónias e outras pérolas como estas. Já não se cuidava em pensar um rumo, um futuro, uma política, nada, era o tudo ou nada de que se viriam a arrepender muitos anos depois, mas isso agora não contava, eram os grilhões quebrados que interessava mostrar ao mundo, da pior maneira, diga-se em abono da verdade, no futuro logo se pensaria.

Para Meia de Leite, isto era importante, saber o que queriam fazer da terra dele, da terra onde nascera e crescera e onde, ainda, residiam os amigos e os pais. Já tinha passado por turbulências inimagináveis nos países vizinhos daquele onde vivera, tinha sido testemunha, ainda bem pequeno, das atrocidades cometidas ao ascenderem a uma liberdade não programada e repentina, tinha receio do que viesse a acontecer por ali também. Logo que terminou o noticiário ligou para os pais, não conseguiu falar com eles, com a preocupação por um lado e a alegria do nascimento do filho por outro, esqueceu-se de que tinha, primeiro, de falar para o sr. Baptista, para este informar a mãe de que iria telefonar a determinada hora. Só assim ela poderia estar à espera da chamada, uma vez que não tinham telefona em casa. Teria de deixar para o dia seguinte, logo de manhã avisava o sr. Baptista e à tarde ligaria para falar com ela, para lhe dar a novidade do nascimento de José e para a questionar sobre a situação ao mesmo tempo que lhes daria uns conselhos pois sabiam que não ficariam sozinhos, ainda tinham um filho e este não os deixaria na rua se algo acontecesse de anormal.

Já tinha abordado o assunto com Jeanne, ao de leve, mas teria de o discutir com mais profundidade, agora mais que nunca dados os acontecimentos recentes. Em caso de necessidade os pais teriam de viver com eles, ela não se importava, para solidão já bastara a vida dela antes de o conhecer, dizia, agora ter uma família alargada até tinha a sua graça e era sempre bom o neto crescer com os avós ao pé, dava-lhe outra estabilidade psicológica. Aquietou-se com esta posição de Jeanne, agradeceu-lhe dizendo que era um filho à moda antiga e não poderia deixar os seus ao Deus dará, tendo condições para os receber. Ela olhou para ele e sorriu, tinha o que sempre quisera, uma família de verdade, estava feliz, embora o momento da vinda dos pais de Meia de Leite pudesse até ser traumático. Garantia para si própria que se isso acontecesse, ali, ao pé deles, recuperariam a vontade de viver, alegre e em família como sempre viveram.

 


publicado por: canetadapoesia às 18:25
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Segunda-feira, 26 de Março de 2018

E agora? Que fazer? (33º Capítulo)

 

 

A chegada de Branquelas ao almoço, foi vivida com a intensidade da amizade que não vê fronteiras nas proibições ou diferenças de opinião política. Eram amigos, isso era o suficiente, o resto era com cada um.

Sentiram a saudade da sua ausência de tantos anos, sentiram o alívio dos seus pais e sentiram-se de novo todos unidos. A recente situação e a evolução que estava a ter, deixava todos em cuidados e a recente saída de Noite Escura, a sua passagem à disponibilidade quase seis meses antes do que era espectável deixou-os ainda mais alarmados. Afinal, a manutenção da tropa era essencial à segurança que todos ansiavam ter. Logo se aperceberam que não ia ser nada assim.

As perguntas choveram em cima de Branquelas, qual era a sua impressão, como esperava que as coisas corressem, qual era a visão do movimento, por acaso o mais apreciado por todos já que, as pessoas que o compunham, as suas cúpulas, eram na sua maioria gente bem formada, pessoas que andaram na universidade, que tinham cursado nas universidades nacionais antes de se refugiarem no estrangeiro. Pessoas de confiança, diziam, tinham os mesmos princípios que eles. Branquelas garantia que não ia haver problemas, que tudo correria bem e que finalmente, todos, mas todos sem excepção, teriam a sua pátria na terra que sempre amaram.

Palavras, palavras leva-as o vento e aqui, o vento levou-as a uma velocidade estonteante. Acalmaram-se um pouco com o que Branquelas lhes transmitia, que não tinham de mudar nada, que o próprio presidente do movimento garantia que esta era uma nação para todos, mas os martelos nos caixotes não paravam. Alguns garantiam que os discursos eram feitos de uma maneira para que todos percebessem e que depois, nas línguas autóctones eram completamente diferentes e elevavam a ira contra os que agora eram considerados colonos.

Saber o que eram colonos não interessava, eram brancos e era o suficiente para que a ira se voltasse contra eles, e havia aquele discurso, aquele discurso em que o presidente do movimento disse claramente que todos o ouviram, embora mais tarde viesse garantir que era má interpretação, mas dizia que era hora de tirar aos brancos, que tudo aquilo era dos negros e não deles, que se fossem para a sua terra e deixassem esta para os de pele escura. Esqueceu-se certamente que muitos desses brancos que considerava colonos já eram a quinta, ou mais, geração nascida no país, que muitos deles, senão a maior parte, nem conhecia outra terra, que o nome da metrópole era uma coisa tão longínqua que nada lhes dizia.

Esqueceu-se deste pormenor, como se esqueceu que os verdadeiros exploradores da riqueza da terra nem sequer lá viviam, só iam recolher os lucros da sua exploração, esses nunca de lá saíram porque nunca lá estiveram, só tinham os braços do capital estendidos na sua direcção. Sempre foi assim, a coberto da desculpa do desenvolvimento da terra, apoiado pelo governo oficial que a mantinha refém dos seus investimentos, iam-na secando nos seus recursos naturais, se a queriam desenvolver como todos os que cá se encontram, que venham, venham e fiquem que serão sempre bem-vindos.

As três famílias aquietaram-se, mas não deixaram de expressar as suas dúvidas e as angústias que as atravessavam. Da minha parte, não sei qual é a vossa posição sobre este assunto, dizia o pai de Branquelas, vou ficando por aqui para ver como a coisa corre, mas não deixo de afirmar que se piorarem também me irei embora. É o que nós pensamos também, diz o pai de Noite Escura, não é por sermos negros que vamos ser poupados se alguma violência eclodir, para além disso sou funcionário do governo oficial, como me vão ver? Acham que me deixam passar incólume? Não, vou ficando até ver, se isto se agravar também nós vamos para fora daqui. Só os pais de Meia de Leite se mantinham com uma calma assinalável, felizmente o nosso filho está longe e salvo disto, para nós é mais fácil, não temos de nos preocupar com ele e também já somos velhos, não nos preocupamos tanto com estas coisas.

Todos na expectativa, todos admirados com a metrópole, todos preparados para tudo. O que não podiam era fechar os olhos ao que se passava à sua volta, o barulho infernal dos martelos e caixotes em grande parte das casas, o bairro estava de saída. Por cada dia que passava mais pessoas se iam embora, as ruas iam ficando mais vazias e mais ao dispor do vandalismo sem limites. Ao cair da noite já ninguém se atrevia a sair sozinho à rua, os quintais começaram a ter como preocupação o fecho dos portões, antes inimagináveis, ninguém se deitava sem verificar o fecho de todas as janelas e portas. Começava a ser uma regra dormir por turnos em casa, para alertar os que descansavam ao menor sinal de qualquer violência que se aproximasse dela.

Uma simples ida à mercearia do sr. Baptista, passou a ser quase uma excursão, só duas ruas transversais separavam as suas casas da mercearia, mesmo assim, tinham de ir as três amigas juntas, mais outras que se juntavam pelo caminho, no regresso repetia-se a cena. Podiam não evitar males maiores, mas, pelo menos, sentiam-se muito mais seguras desta forma. Assim, mesmo que algo acontecesse, sempre poderiam defender-se. Nos empregos e repartições as coisas não eram melhores, se bem que a violência se pautasse pela verbalidade hostil, tinham de manter alguma discrição, mas os insultos eram constantes. Desde o vai para a tua terra, até ao “colonos usurpadores”, tudo servia de arma de arremesso e de terror, mesmo sabendo que esta era a sua terra, mas não adiantava, a hora era a de aterrorizar, fazer com que as pessoas saíssem, de preferência deixando tudo para depois se apoderarem do esforço de vidas inteiras de trabalho.

A sua ânsia de despojos aumentava à medida que as tropas oficiais iam baixando os braços e se desobrigavam do mais nobre das suas missões, a defesa da população civil apanhada no meio desta hecatombe. O sinal tinha sido dado na desmobilização imediata de toda a tropa de recrutamento local, para evitar dissabores, não fossem eles querer organizar-se e, armados, fazer algum disparate. Na verdade ninguém queria nada disso, o que todos queriam era que esta transferência de poderes fosse pacífica, que fossem organizadas forças armadas para o novo país em que todos participassem sem reservas e por igual. Queriam forças de segurança que garantissem efectivamente a segurança e não que se pusessem ao lado dos saqueadores. Queriam um estado em que as suas forças de segurança fossem isentas, que defendessem os cidadãos por igual e defendessem o Estado como um todo. Nada disso aconteceu.

A machadada final nas suas crenças de que tudo correria bem, começou no dia em que Noite Escura foi arrebanhado para o exército de um dos movimentos que, depois de várias guerrinhas de cidade, ganhou supremacia sobre os outros. A sua formação militar e a sua especialidade de comandos eram muito apreciadas, daí a irem-no buscar, como a tantos outros, foi um passo. Nesta altura todos serviam para aliviar os ataques de outros movimentos, concertados com avanços dentro do território, vindos de outro país vizinho, vindos de sul e outro movimento acolitado por mercenários que avançava de norte e já nas proximidades da cidade. Todos serviam para ajudar e nesta hora não se olhava a brancos, negros ou mestiços, a salvação do poder que já salivavam e a possibilidade de deitar a mão às riquezas do País, eram mais importantes.

Pelas conversas na sede do movimento Branquelas logo verificou que, ao contrário do que pensava e esperava isto não ia ser nada pacífico e a pressão sobre as pessoas para saírem do país ia aumentar e piorar em termos de violência, as coisas organizavam-se para esse fim. Tomou uma decisão e logo que foi a casa, juntou os amigos e anunciou-lhes que as coisas iam piorar e que, por motivos de segurança deles próprios, tinham de se ir embora pois ele, apesar de ser do movimento, e não sabia por quanto tempo mais, não conseguiria garantir-lhes a segurança que queria. Ao mesmo tempo, Noite Escura, já conformado com a sua sina de guerra, dizia a mesma coisa, queria os pais fora dali, para a metrópole, era mais seguro.

Estava decidido, se ainda resistiam, mais por causa dos filhos que por eles, agora que eram eles a pedir-lhes, iam mesmo embora. Também nos seus quintais se ouviria o martelo a trabalhar, também eles iam abandonar a sua terra, estavam a ser empurrados há muito e a tentar resistir, não havia outra forma, tinham de ir. Logo ficou aprazado o habitual almoço para o sábado que se avizinhava, onde todos, excepto Meia de Leite que estava longe, estariam presentes. Era o último almoço de quintal que fariam no chão da terra que os viu nascer, crescer, criar filhos, não queriam ali ser enterrados do modo como estavam a ver que seriam se não se fossem embora.

Era o seu último almoço, decorreu com a tristeza que se podia ler em todos os rostos. Nunca pensei que isto aconteceria, comentaram, sempre desejei a independência para sermos donos do nosso destino, mas isto não é nada, é selvajaria, vinda de quem devia ter o máximo orgulho em criar mais um grande país no mundo, como criou o Brasil, isto não tem justificação nenhuma que o sustente, não tem desculpa. Aqui só se pode ver uma mesquinhez de uma hipotética vingança pelas diferenças nas pessoas de aqui e de lá. Não tem desculpa nenhuma, uma acção destas, um abandono de pessoas e bens, sem respeito nenhum, comentavam todos.

Vão, vocês vão embora, se as coisas acalmarem voltam de novo, eu penso que isto vai ficar muito pior, dizia Noite Escura, eu e o Frederico por cá ficamos, até pelas responsabilidades que temos. No caso dele, uma opção há muito tempo tomada, no meu caso um engajamento recente, sem esperar e sem querer, mas os dois, sem a preocupação pela vossa presença e segurança, havemos de nos orientar e ajudar mutuamente. Acredito que sim, mas não deixaremos de estar preocupados, mesmo estando longe, vocês são a nossa preocupação. Mas também acreditamos que ficam melhor sem estarmos cá, ficam mais livres e sem o problema da nossa segurança, meus filhos, Deus vos proteja.

Com a influência de Branquelas acolitado por Noite Escura, os caixotes foram embarcados para a metrópole num dos muitos cargueiros que transportaram as magras imbambas de tantos deserdados do seu país. Depois escolheram um vôo e levaram-nos directamente ao aeroporto, meteram-nos no avião e só de lá saíram quando o avião levantou. Nos seus caixotes, poucas coisas levaram, de uma vida rica de vivências restou, uma mesa, quatro cadeiras, um rádio, um colchão, alguma roupa, bem embrulhados em papel, para evitar partirem-se, o serviço de pratos e de copos dos seus casamentos.

Um caixote cada um, uma vida por cada caixote. No avião um saco de pequenos utensílios de higiene e roupa para as primeiras impressões. Os despojos de um país estavam de regresso sem honra, sem glória, sem dignidade e sobretudo, mas mais difícil, com o anátema de serem os maus da fita, os exploradores dos pretos, os colonos e, final e negativamente os retornados. Um termo usado depreciativamente e em que todos os insultos cabiam numa só palavra, os retornados. Sentiam-se defraudados, envergonhados pelo tratamento, mais envergonhados se sentiam pelo país que lhes garantia tanta animosidade e tanta violência psicológica numa altura em que, tanto apoio necessitavam.

Os seus pensamentos ficaram com os filhos lá longe, aqui, só pensavam em sobreviver, e não lhes saía da cabeça a forma como foram tratados quando, enregelados, tolhidos pelo frio e pelo desconhecimento da terra, desembarcaram do avião Holandês que os trouxe da sua terra até este estranho país, no qual, nunca tinham pensado como sendo o seu, era uma coisa ao longe que um dia os haveria de largar, nunca desta maneira. Vergonha era o que sentiam, já nem raiva tinham, só pena daqueles em quem confiavam e que os abandonaram.


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Domingo, 25 de Março de 2018

Uma oferta excepcional (32º Capítulo)

 

 

 

Veio em tempo oportuno, mesmo a calhar. Os movimentos, em geral, estavam enfraquecidos por anos de guerra sem fim à vista e descredibilizados por não conseguirem vitórias expressivas sobre o governo oficial. Como consequência, estavam a perder os apoios internacionais que tinham, agonizavam sem perspectivas.

Branquelas, por seu lado, há muito que vinha sentindo este efeito carambola, sem vitórias não havia apoio e mais grave ainda, tinham cada vez mais dificuldade em se movimentar no interior do território. Da tradicional ajuda e apoio dos aldeãos, nascia agora um determinado antagonismo que não conseguiam superar. Deixaram de ter apoios no terreno, para se alimentarem e até para se esconderem, começava a ser normal, assim que apareciam ou davam pela sua presença, junto às aldeias, informarem de imediato as tropas governamentais que rapidamente encetavam a perseguição. Depois era um ver se te avias na tentativa de fuga, com algumas escaramuças, emboscadas à mistura e quase sempre a fuga desordenada. Estavam uma tropa fandanga, já não resistia a este estado de coisas, nem a ordem nem a disciplina dos grupos de combate do seu movimento.

As aldeias estavam cansadas de tanta guerra e de ter de dividir o pouco que colhiam com quem não os ajudava em nada, a não ser no consumo das suas pequenas reservas. Ao menos da parte do governo sempre recebiam alguma coisa em troca, já havia escola para as crianças, a assistência médica não seria a ideal, mas sempre que dela necessitavam ali estava, ou o médico da cidade mais próxima ou, em alternativa, caso estivessem mais longe, o médico do aquartelamento que estivesse próximo, em regra o que era responsável pela área em que se inseria a aldeia. As sementeiras também tinham deixado de ser problema pois as sementes das espécies que mais utilizavam na alimentação e até na venda nos mercados livres, eram cedidas pela agricultura, um organismo qualquer que trabalhava para o governo e que se dedicava ao desenvolvimento e apuramento das melhores sementes para a reprodução.

É claro que nem tudo eram rosas, o trabalho no campo era essencialmente braçal, não tinham ainda água canalizada, mas sabiam que em algumas aldeias a água já lá chegava através de tubos que acabavam num chafariz de utilização geral, as coisas melhoravam, lentamente mas melhoravam. Tinham vindo a aumentar o ritmo, dos melhoramentos, nos últimos anos, muito graças aos tempos de menor conflito que se viviam e, na maior parte dos casos, as obras estavam a cargo dos próprios militares que os protegiam, a engenharia militar entrava em força nos campos da guerra para ajudar as aldeias a serem auto-suficientes em matéria alimentar e estavam a consegui-lo, que fome, era coisa que não existia.

Face a tudo isto, como podiam continuar a ajudar os movimentos que prometiam, prometiam e nada davam em troca, a não ser, eles recordavam bem, o banho de sangue inicial a que foram sujeitos, para os atemorizar e os levar a ajudá-los e apoiar os seus guerrilheiros. Branquelas sabia tudo isto e por isso temia que se não houvesse uma reviravolta qualquer, as coisas ficariam muito feias para eles. Quando ouviu as notícias, depois de alguns boatos que correram pela base, ficou excitadíssimo pelas eventuais possibilidades que dali viriam. Informou-se da realidade do golpe na metrópole, confirmou-o, ainda não havia mais nada de concreto, mas as coisas estavam a evoluir e com sorte correriam a seu favor, que até havia uns partidos a apoiar as pretensões populares de independência imediata para as colónias, estavam confiantes.

Deram-lhe indicação de que se preparasse para avançar para a cidade para instalar aquilo que seriam as futuras bases dentro da cidade, seriam apoiados pelas células locais que nesta altura começavam a aumentar e alargar a sua acção. Sempre a mesma coisa, pensou, só quando as coisas já estão a caminho de uma vitória é que as pessoas aderiam e se faziam mais próximas, estes não são os verdadeiros apoiantes, são os oportunistas que aparecem quando tudo parece que os leva a perder e, na expectativa de se mostrarem bem para a fotografia e na possibilidade de não perder e pelo contrário ganhar, com a confusão que reina nestas situações, logo aderem rapidamente. Não deviam ser aceites, mas que fazer? Convinha ao movimento mostrar que era apoiado por muita gente e por isso aceitava o lixo todo, ainda havia de se arrepender, mas enfim, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Branquelas de imediato se preparou para levar os seus homens através da fronteira até à cidade para instalar as futuras bases centrais do movimento. Como ele, outros de outros movimentos o fizeram também, ainda eram muitos quilómetros, não fariam só num dia mas em dois dias estariam dentro da cidade. A prova dos nove ia tirá-la quando atravessasse a fronteira, ia fazê-lo, abertamente e sem se esconder pela mata, que se ali não houvesse problemas com os militares era sinal que na verdade a coisa tinha sido em grande na metrópole porque eles também queriam era largar aquela guerra a qualquer custo e que custo ia ter este abandono. O futuro o sentiria e o país, a sua metrópole, nunca mais recuperaria, esta pequena vitória, aparente, depois de anos de preparação e ocupação efectiva de tão vasto território, ia sair-lhe cara e impossível de ultrapassar sem sacrifícios pesadíssimos por parte dos seus habitantes.

A aproximação à fronteira foi feita sem problemas, do alto de uma colina verificaram a soldadesca quase em festa, a cancela que demarcava os territórios de um e de outro lado estava aberta, pessoas atravessavam sem serem incomodadas e até eram festejadas, deu ordem de avançar. Quando se aproximaram da cancela, os soldados estavam em euforia, barbas crescidas, desordenados, nada obedientes à sua estrutura hierárquica que também ela, se mostrava bem diferente. Foram recebidos com uma enorme gritaria de vivas, viva a revolução, viva aos movimentos de libertação, viva o fim da guerra. Os carros parados deram origem aos abraços de antigos inimigos, de convívio entre eles, de troca de lembranças, até umas cervejas, gentilmente surripiadas ao armazém da cantina do aquartelamento selaram este encontro amistoso de quem ainda há dois dias se guerreava. Como o mundo muda por tão pequenas coisas.

À chegada à cidade e por todo o caminho, as cenas de desagravo repetiam-se e as comemorações eram mais que muitas. Branquelas admirou-se da evolução que tinha havido nesta cidade de onde saíra anos atrás, tudo estava diferente, mais moderno, mais evoluído, sentia-se no ar a pujança de uma cidade viva, as suas artérias, por onde a circulação automóvel se fazia, não paravam e a seiva que por ali escorria era a economia de um país novo que, agora, talvez fosse mesmo um país. Depois de se acertar com a sua célula de apoio, de encontrar o primeiro espaço para se estabelecer como representante do movimento, uma vivenda na estrada por onde entraram, afinal não longe de casa e mesmo dentro do seu bairro, logo se decidiu a visitar os seus, os pais e os amigos. Talvez nem fosse difícil encontrá-los todos juntos, era sábado, dia do almoço semanal que sempre fizeram, através dos tempos, num quintal ou noutro, com sorte estavam todos juntos e assim, vê-los-ia a todos ao mesmo tempo.

Percorreu duas ou três ruas até chegar à que sempre fora a sua, onde as lembranças da vivência com os amigos eram presença constante. Não lhe agradou nada ver o que se lhe apresentava à vista, os quintais e jardins, outrora orgulho dos seus moradores, estavam agora transformados em estaleiros de construção de caixotes, grandes caixotes, o martelar era constante. As pessoas estavam a ir-se embora dali, mas porquê? Logo agora que o país ia ser livre e independente, porque o abandonavam? Todos queriam que assim fosse, todos ansiavam por esta libertação, agora iam embora? Nem queria acreditar. Compreendeu mais tarde o porquê desta avalanche de caixotes que levava para fora do país os melhores dos seus filhos, ficou triste, não fora para isto que dera o melhor de si numa luta sem futuro, que se sacrificara a lutar por um ideal que perseguia desde criança, a liberdade da sua terra, a sua independência, uma terra para todos os que dela gostavam e a amavam.

Não, não era para isto que se tinha batido e arriscado a vida. Não estava a gostar nada do que estava a ver e a sentir, o medo das pessoas, o medo que sentiam à medida que os movimentos se instalavam e aumentavam o seu poder dentro desta “cidade maravilhosa e cheia de encantos mil”, como cantava o poeta de outra, que podia vir a ser o modelo desta. Tinha ouvido o discurso do seu líder, que advogava uma terra em que todos fossem iguais, em que havia lugar para todos, e tinha-se animado, mas o seguinte, dirigido a um público ávido de aviltar e tomar de assalto tudo o que estava agora ao seu dispor, sem se preocupar com a lei e a ordem, nesse discurso, tudo foi diferente e até, na sua opinião, havia implícito um incentivo a que o terror crescesse e fosse acentuado para obrigar a que a população não negra se afastasse do país que era deles e só deles, embora nunca tenham feito nada para o merecer mas agora tinham-no quase na mão.

Uma oferta, tinha sido uma oferta excepcional, uma oferta dos Deuses esta revolução na metrópole. Com a ajuda de alguns partidos dessa mesma metrópole, rapidamente se tornariam donos e senhores deste novo país. Uma oferta, uma excelente oferta, pensou, logo quando estávamos a desfalecer e em vias de extinção total como movimento de libertação que nada tinha libertado até então.

Chegou a casa de Noite Escura, chegou-se ao portão, verificou de imediato que estavam reunidos, os seus pais, os de Noite Escura e os de Meia de Leite. Entrou, a primeira sensação foi a de uma grande comoção por os ver ali todos reunidos, olhou para os pais, mais velhos, cabelos brancos a encimar os rostos que o tempo e ele próprio tinham ajudado a marcar, sentiu-se mal por isso, mas sabia que eles compreendiam e lhe perdoavam o mal que lhes causara, a ansiedade de saberem se estava bem, a preocupação com o único filho que tinham. Tinha de os compensar de tudo isto e agora ia ser possível fazê-lo, quando fossem livres e donos de si.

Para Noite Escura estava guardado o maior momento do encontro, olharam-se, deram-se as mãos como se ainda fossem os meninos pequenos do bairro e, de repente, um abraço, um longo abraço, as lágrimas de um e de outro confundiram-se na celebração deste encontro, nada mais interessava, estavam juntos, estavam ali, estavam junto dos seus entes mais queridos. Nada mais interessava, o mundo, neste momento reduzia-se àquele quintal, o mundo deles estava ali, só faltava Meia de Leite que não voltaria mais. Ficou a saber que estava bem, integrado no país para onde partira e onde se refugiara, que já estava casado, bem que vivia com uma belga, que nunca mais voltaria ao seu lugar, ao seu país senão em visita. Entristeceu-se por isso, afinal a sua luta, o seu sacrifício era também pelos seus amigos, era por todos aqueles que amavam a terra e agora estava a vê-los partir, não regressar.

Um abandono que não compreendia, nomeadamente após esta revolução na metrópole que lhes abriu o caminho da liberdade. Uma oferta excepcional, uma oferta inesperada, uma oferta que tinham de olhar como uma conquista sua que na verdade não era, mas assim iria constar, ordens do movimento, eles eram os vencedores desta guerra, os outros, os que iam sair eram os derrotados. Mas que oferta, ninguém imaginaria isto. Uma oferta excepcional, verdadeiramente excepcional.


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Sábado, 24 de Março de 2018

Inesperado (31º Capítulo)

 

 

Alguma coisa aconteceu, houve qualquer coisa em grande na metrópole. Porque o diz D. Francisca? O que sabe, não ouvi nada na rádio? O Josué, o Josué telefonou, venho agora do sr. Baptista, de atender a chamada dele, perguntou se sabíamos de alguma coisa aqui que por lá onde ele está, na Bélgica, consta que houve uma revolução.

Uma revolução D. Francisca? Pode lá ser? Neste país não há revoluções, eu ainda não ouvi que tenha havido nada de anormal, mas vou estar atenta, até vou falar à D. Maria, pode ser que ela tenha ouvido alguma coisa. Não, D. Maria não sabia de nada, se houvesse alguma coisa, logo saberiam o que tinha acontecido. Tem razão D. Maria, logo quando os homens chegarem, se houver novidade, logo ficamos a saber, que eles nisso são os primeiros a dar conta dos factos que acontecem por este país fora. De qualquer forma, para o Josué telefonar à mãe lá de tão longe, assim de repente deve ter algum fundo de verdade. Talvez D. Genoveva, talvez, vamos aguardar e se for alguma coisa como diz, que seja para bem desta terra e nosso também que aqui vivemos.

Noite Escura estava por casa e notou a excitação da mãe, as suas andanças a casa das amigas e vizinhas, estava visivelmente alterada. Questionou-a sobre isso e ela desbobinou o rosário, que Josué tinha ligado à mãe. Da Bélgica imaginas? Contou-lhe que nas notícias de lá tinham dito que tinha havido uma revolução no país. Sempre a mesma coisa sabe-se primeiro das notícias no estrangeiro que no próprio país, disse isto à laia de desculpa; não ligou muita importância, achava que essas coisas nunca aconteceriam naquele país, isto era um paraíso de calmaria, tirando a guerra é claro, mas mesmo essa era levada na maior, sem grandes compromissos e sem se apressar o seu fim, se ela acabasse onde iam ganhar tanto como ganham agora? Eram comissões atrás de comissões, transferências de dinheiro para comprar apartamentos na metrópole, para juntar para tempos futuros, grande negócio era o que era esta guerra, isso irritava-o, mas não podia fazer nada e no próximo ano estaria livre para recomeçar a sua vida depois de tanto dar para esta paróquia.

Até gostava que tivesse acontecido, uma revolução para mudar isto tudo, mas quem a faria? Só se fosse louco, a polícia política dava-lhe logo cabo do canastro. E com estes pensamentos e devaneios se decidiu a ir dar uma volta pelo bairro, ver os amigos e colegas que por ali andassem que a semana estava a findar e a sua licença também. Em todos eles encontrou admiração pela tropa especial onde desempenhava o seu dever, mas nenhum deles imaginava quão difícil era. As dificuldades começavam logo na preparação, na recruta, mais difícil e dura que em qualquer outra e só no fim, se conseguisse lá chegar, receberia o respectivo crachá que lhe atestava a aptidão para elas. Foi um tempo difícil, logo seguido pelas missões em que foi integrado, cada uma mais difícil que a anterior. Tinha conseguido safar-se até ali, sem problemas, sem ferimentos e com todas as missões vitoriosas, estava satisfeito e agora, mais um ano e estaria livre.

No regresso a casa depara-se com uma aglomeração fora do comum para um dia de semana de trabalho. O que se passa? Uma revolução na metrópole, já é certa e garantida pelos noticiários internacionais, a rádio Brazaville já a anunciou também. Esta era uma rádio que se captava com frequência e onde ainda se conseguia ouvir algumas notícias diferentes das que costumavam dar nas nossas, retirando, é claro, a parte da demagogia dos movimentos que era inevitável não mencionar, de qualquer modo era mais uma janela para o mundo, pequena, é certo, mas mais uma. Uma revolução? Então é mesmo verdade e que se pretende com ela? Já se sabe alguma coisa? Ainda não há nada de concreto, mas esperemos que não seja como as outras que tão depressa começam como acabam pela reacção do governo. Ao menos que nos traga algo de novo, que mude isto tudo que de tão mau até já cheira a podre. Vamos ver o que dá, vamos ver.

Não teriam de esperar muito pelo resultado e mesmo aos pouquinhos lá foi chegando algum eco do que se estava a passar na metrópole. O povo saiu à rua atrás dos militares, cercaram o quartel da Guarda Nacional, o chefe do governo entregou o poder a um general, que depois foi, juntamente com o presidente da república, enviado para as ilhas, longe do continente e das possíveis acções de retaliação que poderiam ordenar. A verdade é que se o quisessem fazer há muito que o tinham feito e o que era uma revolução ficaria na história como mais uma tentativa falhada, mas não quiseram, desistiram, entregaram-se e esperaram a sua sorte que se resumiu ao seu envio para as ilhas e consequente passagem para fora do continente, para o Brasil.

A bem da verdade, se o chefe do governo o quisesse fazer, tinha abortado de imediato a tentativa de revolução, dando ordem de desbaratar e prender os seus mentores pela guarda nacional com o apoio da polícia política, mas assim não aconteceu. Talvez por cansaço, já que era considerado um moderado que estava a tentar dar a volta ao país, mas não conseguia fazê-lo com a velocidade que se desejava pela forte oposição dos ultras do governo, apoiados pelo presidente da república, e isso, segundo creio, foi um dos motivos. O outro, bem o outro é muito mais esclarecedor do homem que era este chefe do governo, preferiu que isto terminasse desta forma em vez de sujeitar o povo a um banho de sangue que era o que se seguiria a uma ordem para repor a legalidade da lei no país, isso ele não quis e como tal entregou-se aos militares revoltosos.

Então e as colónias? Sabia-se alguma coisa do que pretendiam fazer delas? Não ainda nada, mas as primeiras declarações eram de esperança, esperança numa autonomia com vista a uma independência futura. Assim já começavam a gostar da revolução, afinal estava no caminho que eles sempre desejaram embora nunca se tenham atrevido a comentar em público, era uma conversa entre eles, os amigos de sempre, porque sabiam que se alguém a ouvisse podia causar-lhes problemas e dos grandes. Se assim acontecesse, esta guerra deixava de ter razão de existir e a paz regressaria a todo o território, então se veria o grande desenvolvimento que esta terra ía ter, logo que gerida pelos seus próprios filhos.

Os jornais locais, dias depois anunciavam em grandes parangonas as manifestações na metrópole a favor da independência imediata das colónias, os comandos militares foram substituídos o governo local também. Os movimentos começaram a engrossar com a quantidade de gente que se perfilava para se mostrar anti-colonial e adepta da libertação, dividiam-se pelos três movimentos, instalaram-se na cidade. As escaramuças entre eles não se fizeram esperar, o terror foi-se instalando sem que os militares ainda presentes fizessem algo para os controlar. As pessoas foram ficando em pânico e, após um violento discurso de um dos mais respeitados líderes de um dos movimentos, precisamente o que mais aceitação tinha na população, em que despoletou, numa virulenta linguagem, um ataque aos habitantes brancos, o terror assenhoreou-se da cidade.

Os actos de atemorização contra esta população foram sendo ignorados, até consentidos, pelas forças de segurança do país ainda dirigente. Começou a debandada em busca de porto seguro, as poucas imbambas possíveis foram encaixotadas e embarcadas com destinos diversos sendo que um deles era exactamente a metrópole. Dos caixotes que em regra traziam dentro, não riquezas da terra, mas uma vida de trabalho agora exposto à barbárie se fazia nítido contraste com os camiões de atrelado longo carregados de tudo o que era possível carregar e, muitos deles, protegidos com escolta militar, direitos ao porto para embarque prioritário. Eram bens de oficiais que estavam de partida e levavam tudo o que aos outros era negado. Malhas que o império teceu e desmanchou descuidadamente.

Noite Escura, terminada a licença, apresenta-se na sua unidade pronto a servir de novo. Foi surpreendido com a ordem de desmobilização imediata e, abandono das instalações militares de imediato. Estava livre, bem antes do que esperava, mas ao contrário da alegria que tinha ao contar e ver passar os dias que lhe faltavam para despir a farda, desta vez ficou apreensivo e preocupado. Isto não ia correr bem, isto ia dar molho pela certa. Desmobilizar as forças de segurança desta forma ia garantir a impunidade da insegurança que grassava a olhos vistos pela cidade, já não estava a achar graça nenhuma à coisa. Voltou para casa, agora triste e apreensivo, sobretudo, preocupava-o a segurança dos pais, e os vizinhos e amigos como ia isto agora afectá-los? A eles e a toda a gente? Não estava nada contente.

Não gostou, de maneira nenhuma que, depois de quatro anos da sua vida oferecidos em sacrifício ao país, as coisas acabassem como se estavam a demonstrar. Não gostou que depois de todo o sacrifício pessoal fosse empurrado para fora do exército como um pária, um indesejável, mas que gente era esta que faz uma revolução para piorar as coisas em vez de as melhorar? Percebia, finalmente, que isto tinha um objectivo, garantir que não houvesse oposição nenhuma dos militares ainda em armas pois poderiam pôr em risco tudo o que os revolucionários tinham planeado até então. Uma vergonha, pensou consigo, andei eu a lutar por esta farda e agora atiram-me para a rua como um cão.

No sábado, como de costume, almoçaram todos juntos, já não tão alegres que, a pressão dos acontecimentos, lhes tirava a alegria de ali viver como sempre, os assaltos sucediam-se, com violência impune, muitas vezes com mortes bárbaras que ajudavam a criar o terror a todos os que ainda tinham uma réstia de esperança que aquela era a sua terra. A meio do almoço, sentem a presença de uma viatura militar que estaciona junto ao portão, segundos depois têm diante de si o amigo de sempre que há muito não viam. Frederico assomou-se no quintal, todos se levantaram, a alegria voltou magicamente àqueles rostos, Maria e Júlio abraçaram o filho que tantas preocupações lhes deu, estava ali, ao pé deles de novo, só faltava Meia de Leite, mas esse não viria.

Decorreu o almoço, o resto do almoço, agora com a companhia de Branquelas, entusiasmado com a nova situação. Agora é que isto vai ser um país a sério, dizia, vão ver o que é ser livre, independente, ser dono do que é seu. Não sei se há assim tantas razões para nos alegrarmos, meu filho, isto vai de mal a pior e nem sei se nos aguentamos muito tempo por aqui. Claro que isto vai ser bom, isto agora são arrufos de namorado, logo será restabelecida a ordem e tudo correrá bem, o presidente, referia-se ao do movimento, está sempre a garantir que a terra é de todos brancos, negros, mestiços e até de outras cores, não há que temer. Pois o que eu te digo é que depois do discurso que fez, mais ninguém acredita nele e se tens dúvida ouve o que nos vai aqui à volta, não se houve mais nada nestes quintais que não seja o martelar de pregos na madeira.

Assim era, o som dos caixotes a serem construídos, onde todos queriam guardar o sonho de ser independente e criar uma nova pátria, ecoava agora por todo o bairro. Ensurdecedor, de noite e de dia, não parava, as pessoas estavam em pânico e queriam fugir dali para bem longe, não era nada daquilo que esperavam de uma libertação, de um país novo. O que lhes davam era ordem de saída e quanto mais depressa mais possibilidade tinham de levar a vida consigo. Branquelas, calou-se, não tinha reparado, acabava de ser colocado numa das sedes do movimento e a primeira coisa que fez foi visitar os pais e amigos, nem se deu conta desta debandada que se estava a preparar.


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Sexta-feira, 23 de Março de 2018

Inesquecível (30º Capítulo)

 

 

Manhã cedo se levantou, naquele céu de quase inverno ainda se descortinavam estrelas àquela hora. A luz boreal, já que estava mais próximo do Norte como o conhecemos, espraiava-se por uma abóbada celeste ainda quase adormecida.

Como habitualmente, salta da cama, puxa o lençol e a coberta e dobra-a no fim da cama, para que apanhe ar, senta-se lateralmente, olha o relógio, sete horas da manhã, ainda tem pelo menos uma hora para se preparar que Jeanne, apareceria pelas oito e trinta, mais minuto menos minuto, era pontual. Levanta-se e espreguiça-se elevando os braços acima da cabeça, ouve os ossos estalar, normal para quem dorme encolhido com o frio, dirige-se à casa de banho para o seu início de dia que não dispensa, um banhinho de chuveiro, hábitos que lhe vêem ainda da vivência africana. Nenhum dia se começa bem sem um bom duche, ainda se olha ao espelho, de frente, vira-se de lado, espreita pelas costas e pensa que ainda está no auge da sua vida. Aquele corpo ainda tem a leveza e a elasticidade da juventude, está muito bem, nem uma gordurinha, também, com a fome que passou, as que tinha a mais foram-se num ápice.

Pensou para consigo, com este corpinho posso muito bem atrair Jeanne para junto de mim, ela que também não tem nada que se lhe aponte naquele corpo, nem gorduras nem excessos do que quer que seja, uma verdadeira mulher, capaz de fazer a cabeça de qualquer homem andar à roda. Sobretudo porque, para além disso, era escultural, talvez tenha uns seios pequenos mas isso só avaliaria se um dia os tivesse à mão de semear, ou seja, com o seu olho clínico e as suas mãozinhas marotas. Se lá chegasse, que isto agora são só devaneios de um solitário que não tem ninguém ao pé de si, nem mulher nem família, nem amigos, absolutamente só. A ver vamos o que o destino nos prepara, quanto a ele, Jeanne era perfeita e até gostava dela, a tal ponto que começava a ter estes devaneios de a sentir em si, contra si, nas suas mãos. Mas não ia dar nenhum passo em falso, o que menos queria neste momento eram aventuras que o distraíssem do que era de primordial necessidade, o emprego.

Sentiu a água quente, fumegante mesmo, quase fervente, cair-lhe em cima do corpo, como lhe sabia bem aquela aguinha quente neste país tão frio, nada como em sua casa, lá longe, noutro continente, onde os banhos eram de água fria, natural, digamos, que o clima não pedia outra coisa. Quem se atreveria a tomar um banho de água quente para sair depois para o calor do dia? Era impensável, até se sentiriam mal. Mas aqui, aqui sim, sabia mesmo bem, aquecia o corpo para o frio que ia enfrentar assim que pusesse o pé na rua e nem sequer se atrevia a pensar que, juntando-se mais a Jeanne aqueceria um bocadinho, isso era atrevimento demais para a sua mentalidade. Tinha mesmo de enfrentar o frio da rua com a camisa de lã grossa, a camisola e a parka que lhe deram que era uma maravilha, tapava-o até quase ao joelho, era forrada com um tecido de pelo que o agasalhava e até impedia a chuva de penetrar no seu interior, bendita parka.

Com estes pensamentos e distracções demorou mais tempo a preparar-se e antes mesmo de estar totalmente vestido sentiu o tinir da campainha na porta de entrada do edifício, era Jeanne que chegava. Ainda não estou pronto, demoro mais uns minutos. Abre a porta que eu subo que aqui fora está frio. Abriu a porta e em menos de dois minutos ela estava à porta do apartamento, entrou e deparou-se com o espectáculo que ele lhe apresentava, um sapato calçado, calças vestidas e desabotoadas, sem camisa e ainda despenteado. Uhau! Que rico corpinho, mesmo de atleta, atira ela, nem uma gordurinha, dizia ao mesmo tempo que lhe passou a mão pela barriga, bem desenhada. Deves praticar muita ginástica, não? Na verdade, foi coisa que nunca fiz, ginástica, só aquela que se faz em criança, correndo para todo o lado, trepando árvores, enfim, coisas de menino.

Ela sorria para ele, ali, à sua frente, com um ar de quem espera lambuzar-se com o mel. Está calor aqui dentro não notas? Foi despindo o casaco, que era melhor, enquanto esperava que ele se aprontasse ou seria mais difícil depois enfrentar o frio da rua. Pois é melhor, põe-te à vontade, não demoro nada, é só calçar o outro sapato, vestir a camisa e estamos prontos a marchar. Sentou-se na borda da cama e inclinou-se para calçar o sapato, não soube o que lhe aconteceu, mas deu por si deitado de costas e Jeanne a beber-lhe os mamilos, o pescoço, a cara, não podia mais. Deixou cair o sapato que tinha na mão e libertou-a para outros voos, sem que fizesse esforço demasiado sentiu a camisola dela a sair-lhe pelo pescoço, tinha-a na mão, como é que isto aconteceu? Não interessa que agora não há tempo.

Encavalitada sobre a sua barriga, ela não o largava, enquanto lhe segurava a cara com a mão direita e o beijava, tentava desesperadamente soltar-lhe as calças ainda desapertadas, puxando-as para baixo. Meia de Leite que não era feito de pau deu por si a sentir o seu membro em franco crescimento, desordenado, ansioso também, fê-la bonita, esta mulher, agora como é que eu paro isto? Mas ele não queria parar nada, queria era que continuasse com mais frenesim ainda, estava doido, não era nada disto que queria, mas o que podia fazer? Deixar-se ir e aproveitar a ocasião para lhe medir os seios, foi o que pensou no meio daquela balbúrdia.

Já lhe tinha tirado a camisola, agora, olhando para eles, não lhe pareciam assim tão pequenos como vistos por trás da roupa. Ia tirar a prova dos nove, levou ambas as mãos atrás das costas dela, com alguma dificuldade encontrou o fecho do soutien, soltou-o, caíu para a frente, por breves momentos tapou-lhe os olhos, não que eu quero é ver tudo. Lutou com ele e com ela até lho conseguir tirar pelos braços, afastou-o da zona de guerra em que se encontravam, levantou-a um pouco de cima de si e olhou. Viu-os finalmente, uma maravilha, agora que se encontravam soltos, mostravam-se na plenitude da sua pujança. Roliços, durinhos e já com os mamilos erectos na sua direcção, estavam mesmo ao alcance dos seus lábios e atreveu-se a depositá-los à sua volta. Sentiu um ligeiro tremor de Jeanne, os olhos reviraram-se e sem grande esforço, posicionou-se de forma a que os seus lábios se deliciassem com aqueles monumentos.

Não sabia bem o que fazer com eles, mas sabia improvisar, assim fez, a língua saiu-lhe da boca, enrolou-se no primeiro mamilo, sentiu-o quente, rolou a língua à sua volta, viu-o crescer ainda mais, que delícia, que prazer. Acariciou-o lentamente, prendeu-o entre os lábios, tudo lento, tudo sentido, contrastando com a velocidade com que ela lhe explorava os olhos, as orelhas tudo o que pudesse beijar e sentir dele. Mudou de mamilo, agora repetia a operação no outro, ela emitia alguns sons roucos que ele mal ouvia, parou, levantou-a um pouco de cima de si, olhou-os, eram realmente uma maravilha, duros, perfeitos, não resistiu. Fechou as mãos em concha e ao mesmo tempo, depositou-as sobre os seios de Jeanne, ia desfalecendo de prazer, tão redondos, tão simétricos, maravilhosos. Apertou-se levemente de encontro ao tronco dela, os mamilos entre os dedos indicadores das mãos, mexeu as mãos e sentiu-os entre os seus dedos, duros tesos, de um rosado escuro, que apetitosos, pensou.

Estava excitado e não podia recuar agora, sentiu-a excitadíssima, já sentia na sua barriga a humidade da excitação dela. Tentou puxar as calças para baixo, não conseguiu, pegou-lhe nos pés, juntou-os ao cós das suas calças e empurrou-os ao de leve para que ela percebe-se que tinha de lhe puxar as calças para baixo. Ela entendeu, esticou as pernas no exacto momento em que Meia de Leite levantava as nádegas, as calças caíram-lhe pelas pernas. Não podia fazer mais porque um dos sapatos estava calçado, as calças não se desprendiam, ele estava como que manietado debaixo daquele vulcão que não o largava, que ansiava por se saciar dele. Tentou ainda tirar-lhe as calcinhas, não conseguiu, tinha uma perna, e que pernas, de cada lado do seu corpo, afastou as calcinhas para um lado, ela sentiu a manobra e ajudou-o.

Soltou a mão direita do abraço apertado à volta do seu pescoço, deixou-a deslizar pela barriga dele até lhe atingir o ponto nevrálgico, agarrou nele. Sentiu aquela coisa inchada de prazer que agora a procurava, ainda lhe passou a mão duas vezes, para baixo, para cima, guiou-o e introduziu-o na caverna dos sonhos.

Pararam por uns segundos, ela levantou o tronco de cima dele, meneou as ancas como a puxá-lo mais para dentro, sentiu-o bem lá no fundo, dentro de si, olhou-o nos olhos, mordeu os lábios enquanto semicerrava os olhos, que delícia pensou, não posso largá-lo mais. Num vaivém contínuo, desesperado, num estertor final, acabou por deixar-se cair em cima dele sem nenhuma outra reacção que um ligeiro gemido de prazer. Não se mexeram, dentro um do outro assim ficaram por mais uns minutos, as mãos de Meia de Leite, acariciavam-lhe as costas, corriam de cima a baixo, numa massagem lenta e regular, acariciaram-lhe o pescoço e ela revirou a cabeça, suada, cansada, satisfeita pela ousadia de se ter atirado a ele. Sem se poder mover, Meia de Leite, ainda por baixo dela, nada mais podia fazer que esperar que ela se acalmasse, que lhe passassem os últimos estertores pélvicos, ajudava-a com as suas carícias e com os beijos que lhe depositava nos lábios vermelhos de excitação. Que belo momento pensou.

Soltaram-se e caíram na cama ao lado um do outro, os corações arfantes ainda não se tinham recomposto. Viraram a cabeça e os seus olhos encontraram-se, brilhantes de prazer, cheios de uma nova esperança, ela procurou-lhe a mão, a esquerda, que a direita ainda estava sobre o coração na tentativa de o acalmar, apertou-a com a sua, mais uns minutos de descanso para acalmar. Levantaram-se, ainda sem jeito, Meia de Leite, acabrunhado, pede-lhe desculpa do que aconteceu, não tinha intenção, não sabe como aconteceu. Ela levanta a cabeça na sua direcção agarra-lhe a cara, beija-o e dita a sentença, desculpa? Pedes-me desculpa? Quando muito devias acusar-me de te ter assediado, que foi isso mesmo que aconteceu, eu é que me atirei a ti e em boa hora o fiz que, quase desde o primeiro dia me apetecia fazê-lo, tu só foste o meu alvo. Quem tem de pedir desculpa aqui sou eu por te ter manietado desta maneira, mas quando entrei e te vi meio vestido, meio despido, não resisti, até te peço desculpa se quiseres, mas não me arrependo nada, foi maravilhoso Josué, não podemos ficar por aqui.

Com isto tudo estamos atrasados, não? Que atrasados o quê, diz ela, temos muito tempo, ou achas que eu tenho vindo sempre cedo para quê? Tu mesmo já viste que os sítios onde temos ido só abrem às nove horas, pois é, não me tinha apercebido. Eu só vinha cedo à espera de ter uma oportunidade para te conhecer melhor, e pela cama se conhece melhor um homem. Josué, Meia de Leite, que até me perco na descrição, olhou-a com ar de quem está meio envergonhado, não estava habituado a que as mulheres tivessem esta iniciativa, de facto o mundo é muito diferente, ou será que na terra dele, que até era bem para a frente, ainda estavam longe desta liberdade das mulheres? Pelo que conhecia, estavam mesmo muito longe disto, mas no que a ele dizia respeito, apesar de não o confessar, gostava muito que assim fosse.

Para o banho que estavam suados e até parecia que de repente a temperatura do interior se tinha elevado. Vai primeiro, enquanto te arranjo uma toalha lavada, eu vou a seguir. Procurou a toalha no armário e ouviu a água a cair, a cair naquele corpo maravilhoso, pensou, como é que isto lhe ía acontecer a ele ainda não sabia explicar, apesar de alguns indícios que já tinha tido, no metro, no restaurante, enfim, os avanços de Jeanne já vinham, de facto, desde quase o primeiro dia. Gostou é claro e resolveu a sua dúvida, afinal aqueles seios, aqueles deliciosos seios, melhor dizendo estavam na medida certa do que ele considerava normal, não demasiado pequenos e nem exageradamente grandes, que esses sim, assustavam-no. Levou-lhe a toalha, ela abriu a porta do chuveiro e como Eva apresentou-se-lhe, ao natural, depois de mordida a maçã.


publicado por: canetadapoesia às 18:44
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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

Encostado às cordas (29º Capítulo)

 

 

Depois do encontro inesperado, da surpresa deste encontro em nada desejado por ambos, ficou a sensação que afinal, tinha valido a pena serem tão amigos, terem tido uma infância em que, acima de tudo, estava a sua amizade, que se prolongou pela vida fora até ao momento em que esta os havia separado.

Foi um momento de excitação, de adrenalina, um dos dois podia ter morto o outro e, apesar de tudo, apesar do negrume da noite, algo lhes estava gravado na memória que impediu o inevitável de acontecer. Ambos se ouviram e aquelas vozes que durante anos se gravaram nas suas memórias foram cruciais para evitar uma desgraça de que cada um deles jamais se refaria, matar um amigo. O destino é tortuoso, escreve por linhas de difícil compreensão, mas nem sempre inevitáveis, por algumas delas se encontra uma saída, uma espécie de válvula de escape que permite o discernimento mais correcto em momentos de extrema delicadeza.

Para Branquelas, aquela voz de comando que soava aos seus ouvidos era uma dádiva do céu, era o seu amigo, não tinha dúvidas e arriscou, ao mesmo tempo que baixava a arma, atirou à silhueta que se recortava contra os escassos raios de luar, Noite escura, és tu? A reacção imediata, do outro lado, não se fez esperar, ao ouvir isto Noite Escura abrandou de imediato a pressão sobre o gatilho onde, o seu indicador direito, estava prestes a fazer o movimento final que provocaria o disparo e a morte do seu oponente, àquela distância não havia dúvidas. Baixou momentaneamente a guarda, parou no tempo, aquela voz, não podia ser, era demasiada crueldade do destino, à sua frente, já dominado pela força da sua voz, estava o seu amigo de infância, Branquelas estava diante dele.

Branquelas, és tu? Baixou a arma, suspendeu todos os seus sentidos de segurança e a adrenalina desceu abruptamente. As armas de ambos caíram ao chão misturando-se com o capim da chana, um passo em frente de cada um daqueles vultos transformou aquele minúsculo ponto no planeta num lugar de afectos à muito abandonados, estavam juntos de novo, ainda que em circunstâncias bem difíceis e quase irreais. Um abraço compulsivo, umas lágrimas nos olhos, que mesmo os mais duros também têm sentimentos e choram, se choram, choram com o encontro que nunca deveria ter acontecido ali. A única testemunha viva do momento encontrava-se a quilómetros luz de distância, mesmo assim, resolveu congratular-se com o momento inundando-os com a sua luz que, de tão envergonhada, só aparece à noite e em determinadas circunstâncias.

Para eles abriu uma excepção e inundou-os, por momentos com um radioso luar, afastando de diante de si uma nuvem ameaçadora para que os seus raios os atingissem na plenitude de um encontro de olhares esquecidos que se renovaram ao luar. Olhos nos olhos, sentiram-se, tocaram-se e arrepiaram-se após tantos anos sem se verem, sem se encontrarem, mas nunca esquecidos. Estás mais magro Branquelas, não comes? Só o que posso e nem sempre é possível. Tens de te alimentar, que dirão os teus pais quando te virem? Não sei se algum dia mais me verão, esta vida não é fácil e a minha volta, o retorno a casa, é impossível. Hão-de ver, um dia isto acaba e todos estaremos juntos de novo. Era bom que assim fosse, mas só seria possível se isto acabasse mesmo e não vejo como.

Sentados no chão, no meio daquela imensidão, Noite Escura só pensava em como ajudar o amigo, já era certo que não o levaria consigo, mas, estava tão magro, precisava de outras coisas. Deixou-lhe as rações de combate e umas barras de chocolate que trazia sempre consigo, queria que ele ali ficasse quieto e silencioso até os seus homens desaparecerem no horizonte, só depois disso estaria em segurança. Como duas crianças conversaram de mãos dadas, como se os fluidos positivos de um passassem através da pele para o outro, perderam-se no tempo do seu reencontro até que o pio do mocho se fez ouvir ao longe. Tenho de me ir embora, tenho de prosseguir a operação e tu ficas aqui até de manhã, altura em que o terreno estará livre da nossa presença e possas seguir o teu caminho em segurança. Um longo abraço selou a separação e, enquanto Noite Escura se afastava, branquelas deitou-se no capim, camuflado pela altura e quantidade da erva que o rodeava.

Branquelas acabou por adormecer por umas horas, acordou quando o sol lhe bateu em cheio na cara, já a manhã tinha despontado há tempos, lentamente soergueu-se por entre o capinzal, nada, não via nada por ali, ficou mais tranquilo ainda quando deparou com a passarada voando de cá para lá e vice-versa. Bom sinal, sinal de que não havia animais, humanos ou outros, que estivessem presentes na chana, caso contrário os pássaros tinham-se afastado e voado para bem longe. Ergueu-se com a arma na mão, limpou-a das ervas e terra que se lhe tinham pegado, verificou a culatra, o carregador, estava pronto e municiado podia começar a deslocar-se até à base que, estava certo, encontraria destruída, bem como as restantes que se encontravam na zona.

Efectivamente, o que fora um acampamento, quase uma pequena cidade no meio da mata, tinha desaparecido, as cubatas foram queimadas e todo o material existente destruído. Da escola restavam restos da ardósia onde os pequenos escreviam as lições, o posto médico estava reduzido a uma meia dúzia de medicamentos, que não tinham muito mais, espalhados pelo terreiro e espezinhados até se desfazerem. Nem uma cubata em pé, não tinha onde se abrigar senão á sombra vigorosa das enormes árvores que o rodeavam. Não via vivalma por ali, deixou os olhos vaguearem pelo amontoado de escombros para tentar distinguir alguém por perto, nada, não havia nada. Dos seus companheiros nem sequer sabia se algum tinha escapado, estava só. Sentou-se no que foi um banco para as reuniões de grupo, uma árvore velha e abatida que se estendia no terreiro, poisou a arma a seu lado e levou as mãos à cabeça como a perguntar-se o que tinha falhado.

Um pequeno e imperceptível estalido, só possível de ouvir por quem está muito habituado aos ruídos da mata, despertou-lhe a atenção e, de um pulo, estirou-se por trás do tronco de arma aperrada. Viu uma cabeça a despontar por entre o verde das árvores, depois outra e outra, e mais uma quantidade delas. Cansados e desnorteados, cerca de cinquenta homens apareceram do nada, vindos das entranhas da floresta, sentaram-se ao redor do tronco, questionou-os sobre os outros homens, que não, não sabiam de mais ninguém que se tivesse salvo, eles foram-se encontrando ao longo do trajecto, desde a fuga da vila até ali. Logo que deram por perdida a batalha do interior da vila, tinham-se deslocado uns quilómetros para norte, atravessaram o rio longe da barafunda do rescaldo das tropas e infiltraram-se pela selva até ali. Não sabiam de mais ninguém que tivesse conseguido fugir, pensavam que só eles o tinham conseguido.

Agora só restava inventariar os estragos e as perdas humanas e porem-se a andar para a base central, bem longe da fronteira. Branquelas sabia que esta derrota não ia ser bem-recebida na cúpula central, afinal, tinham apostado tudo neste ataque que esperavam ficasse na história como uma grande vitória do movimento. Assim não aconteceu, certamente ia ser o alvo preferencial, o responsável pelo desastre, era sempre assim, os que se escudavam na distância dos combates à sombra das grandes capitais da Europa eram os mais intransigentes na obtenção de resultados. Na verdade, as perdas eram enormes, tanto em homens como em material de guerra que dificilmente seria substituído, mas não havia nada a fazer a não ser tentar saber onde estava a fuga de informações que permitiu à contra-informação oficial saber o que estava em preparação, como estava, onde seria o ataque e o mais importante, quando se realizaria. Era impossível que o soubessem se não houvesse dentro das suas linhas alguém que os tivesse informado, descobri-lo seria importante, mas também sabia que era uma tarefa hercúlea e quase impossível.

Branquelas ía passar pela sua Sibéria em África, ía ser votado ao ostracismo, ía ser quase esquecido, se não fosse pior. A grande vantagem que tinha, relativamente às cúpulas do movimento era que sempre fora um operacional e um homem que foi somando vitórias ao longo dos tempos em que integrava a guerrilha. Vitórias pequenas, aqui e ali, mas vitórias que no seu conjunto mantinham a tropa em alerta e mobilizada nas zonas em que actuava, permitindo-lhe a mobilidade suficiente para rapidamente se transferir para outra área que desestabilizaria com novos ataques. Os homens que o seguiam, respeitavam-no pelo ardor e coragem que punha nos combates em que participava, na ajuda que lhes dava e na forma humana como os tratava, era mais um deles.

Agora sentia-se acuado, estacionado na base central, sem acção, sem a adrenalina a que estava habituado e isto fazia-lhe mal, alterava-lhe o humor e a sua boa disposição e fazia-o sentir inútil. No entanto aguardava que a sua vez chegasse de novo e ele sabia que chegaria, estava a assistir ao abandono senão mesmo à debandada de grande parte dos homens que combatiam ao lado do movimento, estavam cansados de guerra, cansados da luta e sobretudo, cansados de tanto esforço, tanto afastamento das suas famílias e sem verem resultados palpáveis. Por outro lado, o governo tinha aquela coisa da “psico” que procurava chamá-los para o seu meio sem os castigar e até com a vantagem de lhes proporcionar uma vida nova, material e humanamente. Estavam mal e os comandos da guerrilha, mal preparados, eram relativamente poucos e nem todos com o seu gabarito, esperava a sua vez.

Estava a assistir à dificuldade crescente de se movimentar nas matas do país, os culpados eram a excelente organização do exército, ao dominar e controlar enormes áreas, com base em aquartelamentos espalhados por todo o território e pelas prestações de uma mobilidade extraordinária das forças especiais, criadas para atacar e perseguir a guerrilha por todo o lado e nos locais menos esperados. Quase eram apanhados à mão, sem darem pela aproximação e envolvimento destas forças, ainda se debatiam com a facilidade de recrutamento, para estas forças, por homens oriundos da sua própria base de apoio. A coisa estava difícil e a piorar a olhos vistos.

O seu tempo morto, como ele considerava aquele que ali levava sem nada fazer, era destinado às suas recordações, os pais, os amigos, o bairro de que tantas saudades tinha, começava, também ele a sentir saudades desses pequenos mimos de que todo o ser humano não abre mão. Estava já há demasiado tempo ausente dos seus, fora da realidade do seu mundo, demasiado tempo no mato, estava a ficar afectado por tanta luta sem resultados palpáveis e logo agora que as ajudas internacionais começavam a rarear. Sem resultados, aqueles que os apoiavam material e monetariamente começavam a duvidar que algum dia conseguissem vencer aquela guerra e como tal os seus objectivos de abocanhar parte da riqueza do país estava a ser posta em causa. Ainda se debatiam com o aspecto da economia mundial que se estava a degradar e nos seus próprios países tinham enormes problemas por resolver o que acarretava baixar as ajudas aos movimentos como o deles. Não fazia ideia de como tudo isto iria acabar, nem quando.


publicado por: canetadapoesia às 19:40
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