Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

O local

 

 

Explicar porque se gosta de alguma coisa, porque se tem especial predilecção por algo, por um sítio, pelo local onde se vive é difícil.

 

Às vezes são pormenores que nos ligam a determinados gostos e prazeres e eu tenho para mim que um dos meus prazeres é viver no sítio onde vivo. Lisboa, cidade desconhecida até aos meus vinte e cinco anos, que passei a conhecer e a amar como a minha cidade. Depois o bairro para onde vim morar já lá vão bem mais de trinta anos, adoro este bairro.

 

Todo ele cheio de verde e em determinadas épocas do ano de outros matizes igualmente interessantes e agregadores da vontade de cá continuar. Jardins, ainda que não muito cuidados, flores de todas as cores e uma diversidade de aves em pontificam os melros, grandes, gordos, anafados e cheios de vontade de comer tudo o que lhes aparece.

 

Gosto disto, gosto de abrir a porta e dar de caras com o verde que me envolve, tudo isto a um passo do metro e bem dentro da cidade, fabuloso, sou um privilegiado sem dúvida.

 

Não fosse um pequeno senão e tudo seriam rosas.

 

Um pequeno senão que estraga o conjunto harmonioso do que se poderia denominar uma vida de qualidade no turbilhão da cidade grande.

 

Construíram uma estação de serviço automóvel, até aqui nada de mais, daquelas que lavam, enceram e até atestam os ditos com o carburante que tanto custa a pagar. Construíram mercê de uma qualquer negociata entre as entidades que nestas coisas intervêm, o proprietário e a autoridade que o licencia, por troca com outra qualquer negociata que não vem ao caso.

 

O importante é que tal licenciamento e posterior construção não foram acompanhados da necessária vigilância para o perigo de conspurcar tudo o que existia à sua volta, no caso, as pessoas que aqui viviam. Daqui que se verifica que todo o lixo produzido nesta área vai sendo empurrado pelo vento para as portas de quem habita próximo sem que se vislumbre qualquer tentativa de menorizar este problema, bastava que se construísse uma pequena cerca de arame e já o dito lixo se acumularia com a facilidade de ser recolhido sem prejudicar os demais.

Mas não, a preocupação é que a estação de serviço se apresente limpa aos seus clientes não importando a quantidade de lixo que atira para os vizinhos. Falta de civismo de quem quer ser empresário à custa do mal dos outros.

 

É certo que este país ainda é novo, só tem quase um milénio de existência como tal, resta-nos então esperar tranquilamente que as consciências se abram o suficiente para que no próximo milénio, se o conseguirmos, sermos mais cuidadosos e civilizados com o que fazemos e com o que deixamos fazer.

 

Contínuo a gostar de aqui viver apesar deste pequeno deslize de fiscalização pública.


publicado por: canetadapoesia às 22:04
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

Piratas & Pirataria

 

 

João perneta é um pirata. Um pirata à moda antiga, com pala na vista esquerda e por isso só via da direita e não muito, a perna esquerda, também decepada algures no tempo e numa qualquer abordagem de navio mercante, foi substituída pela tradicional perna de pau.

 

Nada destes efeitos, quase cinematográficos, de que se poderia dizer que afinal são os perigos da profissão, o afectavam e lá ia andando ou antes mancando da popa à proa da escuna verificando o seu estado, todo o velame e o cordame necessário a todas as manobras do navio.

 

Inspeccionava a marinhagem e as suas tarefas pois não se podia descuidar, um pequeno descuido seria o suficiente para abortar qualquer abordagem de pilhagem aos navios incautos que se lhe atravessassem no cominho, na rota em linguagem do mar.

 

Mas o que mais lhe enchia o ego era o corpo principal da sua escuna, óptima construção, madeiras preciosas das florestas do novo mundo, rija e bem torneada. Uma escuna capaz das maiores proezas nos assaltos e embates em que a comprometia frequentemente e de onde retirava fundos suficientes para levar uma verdadeira vida de pirata. A sua construção foi seguida e supervisionada pessoalmente pelas andanças pelo estaleiro, algures nas Caraíbas, até que finalmente foi lançada à água e benzida convenientemente pelo sacerdote do grupo, sim que também os há piratas.

 

Apesar de pirata, sabia lidar politicamente com os adversários, de quando em vez fazia uma alianças com outros grupos, ajudava outros e até defendia governos e países contra os ataques de outros corsários para manter sempre aberta a porta de escoamento das suas pilhagens e ter um porto seguro para se acolher das tempestades.

 

Não poucas vezes, após intensas batalhas com os saqueados, ferido e com a sua escuna cheia de mazelas e rombos por todo o casco, a meter água e quase a afundar, fora socorrido pelos concorrentes que, não de forma gratuita, mas sempre foram dando a sua ajudinha e apoiando as maiores e mais arriscadas batalhas em que se envolvia.

 

Até um dia. Um dia em que João perneta, exausto de tanta batalha, vencido pelos anos, não pode manter mais a eficiência dos assaltos e pilhagens. Nesse dia, após uma devastadora batalha em que defrontou até alguns grupos de corsários interessados também na mesma pilhagem que ele, quase derrotado, a escuna a necessitar urgentemente de reparação, procurou o abrigo do costume e as ajudas que sempre teve, mas nada, ninguém o ajudou, ninguém lhe deu guarida para se recompor. Já anteviam a possibilidade de João perneta não conseguir mais ser o seu protector, ser o pirata que distribuía benesses e fundos por todos os que sempre o apoiaram.

 

Abandoram-no.

 

João perneta, não tinha saída, mesmo os que sempre sobreviveram à sua sombra estavam agora em debandada e se ainda assim não tinha essa certeza, bastou-lhe olhar para os rombos da sua maravilhosa escuna, que tanta gente protegeu e amparou, e ver como os ratos se atropelavam na urgência de a abandonar.

 

Os ratos a abandonar o navio era mau sinal. Era sinal que já se organizavam para procurar outro que os acolhesse, até já tinham em vista uma nova escuna que apareciam agora no horizonte imponente na sua estrutura e no brilho que emanava apesar de, com todos estes adjectivos, não ter um capitão como o João perneta e nem sequer ter entrado ainda em nenhuma das batalhas que lhe granjeou a fama do maior pirata das Caraíbas.

 

Enfim, um pirata novo que queria o lugar de João perneta a toda a força e se vinha armando para o conseguir. Este novo aspirante a capitão da pirataria vinha com novas ideias, com vontades diferentes e até com novos apoios para além dos que conseguiu com os que abandonaram João perneta.

 

Esta é a estória de uma escuna pirata que sulcava os mares em busca de saques e pilhagens e acabou substituída por outra que quer seguiu o mesmo caminho.


publicado por: canetadapoesia às 21:10
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018

Que calor, humano e não só

 

 

Sufocante. Não se conseguia respirar ou não estava habituado. Suava por todos os poros, encharcava as T-shirts, secava o rosto com lenços de papel e nada, mas nada me dizia que ia abrandar aquele afoguear que atormentava os mais corajosos.

Que calor. Abafado, o próprio ar tão quente que parecia ter sido aquecido antes de o respirarmos. Que calor.

Andei pelas ruas de Habana la Vieja, conheci aquela gente, simpática, amigável e sempre pronta a bater dois dedos de prosa com quem lhes aparecesse pela frente. Falei e claro, mal sabiam que era de Portugal os olhos sorriam sozinhos e enchiam-se de orgulho em falar deste pequeno país que afinal lhes dá algumas alegrias, no futebol é claro. Conheciam os clubes, os jogadores e até os treinadores.

Gente acolhedora, sem maldade, gente boa.

Gente que do nada retira felicidade. Gente que esconde a tristeza atrás das mais pequenas coisas e da música enche o coração.

Andei por aquelas ruas de dia, andei por elas de noite e nunca me senti ameaçado senão pela grandeza e pela pureza daqueles corações.

À noite, Havana, é mal iluminada, pouca luz nas ruas, sai mais das casas que deixam uma ténue e fosca iluminação gotejar para os passeios onde se concentram quantidades de gente só para “hablar”, apanhar um fresquito e beber “una cerveja”, e claro que não podia faltar o degustar de um puro cujo odor extravasa o seu fumador e enche as ruas de um calmante único.

Andei pelas ruas de Havana à noite, com pouca luz e muito sentimento, acho mesmo que aquela falta de iluminação mais não é que uma demonstração do romantismo de que são possuidores. Fiquei apaixonado pelas gentes, pelas ruas e até pela miséria que circundava tudo isto com aquelas maravilhosas peças de arquitectura colonial a cair aos pedaços mas cheias de um charme indescritível.

Se não fosse aquele calor diria que era o paraíso na terra e, dos seus habitantes, nada mais me soava que serem o seu anjo da guarda.

Mas o calor senhores, esse não amainava nem de noite.

Cansado de tanta andança pelos pólos de atracção obrigatórios, “La Bodeguita del Médio”, onde Hemingway tomava os seus “mojitos”, mistura de rum açúcar e lima, com um toque sereno de hortelã. A “Floridita”, local de poiso obrigatório do mesmo Hemingway, aqui se tomam os melhores “daiquiris” de toda a Havana. Então resta-nos um local diferente, que todos os cubanos utilizam para matar a fome e saciar a sede, com um sugestivo nome de “media noche”, pois foi num destes locais, num dos cantos da “Plaza de la Revolucion” que nos quedámos comendo nada mais que uma sandes que, certamente, não comeria noutro lugar, mas comi uma “média noche”, misto de pão aparentado com o de leite, mas recheado com fiambre, do que cá usam, e queijo, grosso, pastoso, mas que soube divinalmente, no meio dos cubanos.

Nesta tasca, se assim lhe posso chamar, comprei um puro dos que só se vendem aos cubanos e nem são conhecidos, um “El Crédito”, puríssimo, forte, grosso, tabaco negro e com um sabor distinto, gostei, uma noite à Cubana, numa praça quase sem iluminação senão a que provinha de uma lua quase cheia.

Embrenhando-me mais para a parte velha, caminhamos por ruas estreitas, onde as conversas se cruzam de casa a casa e nas portas, todas abertas para que lhes entre algum fresco se vislumbram as gentes. Sentados às portas ou nas suas salas de que tínhamos ampla visão.

Damos de caras com algo mais elaborado mas tão típico que diríamos no seu estado natural, a “Plaza de la Catedral”. Amplo espaço empedrado e cuidado onde se situa um dos melhores restaurantes de Havana, “El Pátio”, assim se chama, pouco iluminada mas o bastante para transmitir o segredo de gente simples e acolhedora.

Acorrem a oferecer-nos lugar no restaurante mas recusámos preferindo ficar “hablando” um pouquito com os nossos interlocutores, também depois de uma sandes “média noche” já não entrava mais nada. E falámos de Lisboa, imaginem, “los gusta mucho”, Lisboa.

E a mim “me gusta mucho Habana la Vieja”.

E por hoje me quedo, ainda tenho de resolver esta coisa da diferença horária, que tenho de pôr em dia as vinte e quatro horas de sono em atraso, com tempo vou contando mais umas coisinhas.


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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2018

A velha fábrica

 

 

 

As paredes apresentavam o brilho vetusto dos anos passados.

 

A cor há muito tinha sido substituída pelo ocre do tempo, baço, castanho avermelhado e, na chaminé do forno há muito desactivada, ainda brilhava o neon evocativo do último natal em que fumegara.

 

Acendia e apagava em pleno verão, esquecido nas agruras do tempo que passou, anunciando, pela estrela brilhanta, uma festa de inverno em pleno verão.

 

Adivinhavam-se os fantasmasque agora a povoavam, relembrando aqueles que, pelo esforço do seu trabalho, lhe deram vida em tempos já idos.

 

O abandono tomara conta da velha fábrica, mas a altiva chaminé ali estava, intacta e erecta, apontando o céu e lembrando que ali houve vida, pujante, laboriosa, produtiva e económica, uma era findara, outra despontava, mas a fábrica já não funcionava como tal, ali estava, impávida e serena na sua vetusta altivez.


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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018

Três pedras

 

 

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

Uma preta, uma branca e a outra, um mistério pois é a mistura das duas anteriores.

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

Recolhidas na praia por serem roliças, lisas, tão diferentes entre si que suscitam alguma reflexão e, no entanto, simplesmente três pedras, calhaus o que se queira chamar-lhes.

Desde logo me questiono sobre o que pode conter uma pedra?

 

Uma alma, um sentimento, um mundo dentro de si?

 

Prosaicamente, grãos de areia solidificados, limados das suas arestas ao longo de centenas, milhares de anos até.

 

E um dia, apanhadas na praia porque alguém lhes encontrou alguma beleza, algum não sei quê de diferente.

Tê-las na mão é, já de si, uma experiência nova, diferente.

 

Senti-las húmidas de água salgada e acabadinhas de rolar na areia de onde foram retiradas, ou, talvez, quentes do sol abrasador que as fustiga impiedosamente até que uma próxima onda as envolva de novo no seu sal molhado.

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

Uma muito branca, outra muito preta, outra, ainda, de ambas as cores.

 

Coexistem no mesmo mar, envolvidas pelas mesmas ondas e roladas na mesma areia e no entanto simplesmente pedras, pedras de várias cores e sem nenhum espírito de separação entre elas.

Limadas até ao extremo em que a sua textura se torna suave e macia ao tacto, três pedras.

 

Se nada mais dissessem seria suficiente gostar delas e guardá-las, mas dizem, dizem muito daquilo que é o mundo em que vivemos, como se formou, como se desenvolve, como se coexiste entre pedras que são brancas umas, pretas outras e de ambas as cores, outras ainda.

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

E no entanto fica a pergunta, o que podem conter estas três pedras?

Conterão, pelo menos, uma lição de vida, três pedras de cores diferentes coexistem pacificamente nas praias que frequentamos.

Os humanos não conseguem coexistir porque lhes faltam muitos anos para limarem todas as suas arestas e ficarem lisos, aveludados e macios aos contactos dos outros humanos.

Tempo é o que precisamos para limar as arestas.


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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2018

À roda da letra “P”

 

 

 

Parece uma simples letra o “P”, parece simples mas pode complicar-se pois esta letra simples, parte do alfabeto que conhecemos e tão inocente, pode ser o início de várias palavras com forte conotação.

 

O “P” ou “p”, maiúsculo ou minúsculo, dependendo das circunstâncias da escrita e do poder que se lhe pretende adicionar, pode ser uma palavra doce, querida, desejada, pode também ter outra conotação, sendo, então, menos querida, nostálgica e até levada ao extremo da indignação.

 

O “P”ai, que todos estimamos e de quem devemos sempre a nossa vinda a este mundo, o “p”ão, de que todos nos alimentamos e que tanta falta faz a quem nada mais tem para levar à boca, o “p”razer, que tiramos de tudo o que nos agrade, momentos “p” que nos dão conforto e de que gostamos.

 

Por outro lado, o “p”aís que está tão abalado pela crise que atravessamos, o “P”ortugal que nos dá a nacionalidade e de que estamos cada vez mais arredados, o “p”oder de quem nos governa mal e muito se governa, o “p”inóquio que conhecemos da nossa infância e de cada mentira via crescer o seu nariz.

 

Isto são os “p” de que nos lembramos mas muito mais haveria a dizer dele.

 

É a letra que nos satisfaz e nos desagrada, é a letra que já não nos surpreende por ter transformado este “p”aís no “P”ortugal “p”inóquio.

 

Todos os dias se revelam as contradições do “p”olítico em que as verdades de ontem são as mentiras de hoje, e isto, em “p”olítica, é muito mau, é mesmo muito feio.

 

São estas contradições que criam a dúvida, as crispações, a descrença, o mal estar geral em que os “p”ortugueses se encontram por já não acreditarem nos “p”olíticos que ontem nos garantem que tudo está bem e hoje nos vergastam com crescentes paredes de dificuldade que se tornam cada dia mais difíceis de ultrapassar.

 

Estamos pois transformados num “p”aís de “p”inóquios em que os narizes crescem diariamente na medida de cada mentira atirada para os microfones da rádio e televisão a que assistimos.

 

E, na verdade, como na fábula, só existem “p”inóquios porque os Gepêtos deste “p”aís os criaram e lhes permitem as mentiras descaradas com que nos mimoseiam a toda a hora.


publicado por: canetadapoesia às 23:39
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018

Os cheiros e sabores

 

 

 

Olhou a montra de soslaio, deu dois passos e voltou atrás. Olhou e remirou, a fruta estava linda e apetitosa, hesitou uns segundos e acabou por entrar na frutaria.

 

Sentiu logo o cheiro inconfundível da diversidade de fruta que ali se encontrava exposta. Passeou o olhar pelas uvas, as maçãs brilhavam, diversos tipos de pêra, mas a rocha era a que lhe agradava mais, a variedade era infindável.

 

Parou frente a uma banca cujo conteúdo frutífero era na sua totalidade exótico. Frutos da China, frutos da Nova Zelândia, frutos da América Latina, frutos de Israel, frutos da África do sul, enfim frutos de todo o mundo amontoavam-se naquela banca sem que por isso se molestassem. A sua função era satisfazer a clientela que os procurava para, quem sabe, provar as iguarias, matar saudades ou qualquer outro motivo também aceitável.

 

Deteve o seu olhar em alguns destes frutos que, de uma forma ou de outra, sobressaíam no meio daquela amálgama de sabores.

 

As bananas estavam belíssimas, mas os mamões senhor, os mamões estavam mesmo a pedir que os comessem, e como eu gosto de mamão. Sabor único.

 

Levou a mão a um deles, levemente, sentiu a sua textura, apalpou-o, estava no ponto, não muito mole, mas suficientemente maduro para distender de imediato o palato ansioso de o abocanhar. Colocou-o no cesto sem que, antes disso, lhe sentisse o cheiro gostoso a outras paragens. De imediato se lembrou de quando criança, juntamente com o resto da malta da rua, fazia batidas aos mamoeiros munidos de paus com o comprimento suficiente para abanar a fruta cá de baixo enquanto um deles ficava à coca da esperada queda, para o apanhar antes de se esborrachar no chão.

 

Não estava ainda contente. Olhou para as mangas. Revirou os olhos com o seu aspecto, pequeninas, de um amarelo acastanhado, cheias de pintinhas na casca. Instintivamente salivou com a antecipação do seu sabor. Pegou numa, mexeu-lhe, eu sei que não se deve fazer, mas como apreciá-las no seu conjunto se não as tivermos na mão?

 

Sentiu-lhe o peso e o cheiro, olhou-a tão pequenina lembrando-se do porte da árvore de onde provinham, nessas árvores se passaram tardes infindas. Baloiçando nos seus ramos, trepando-as em busca do fruto, recostando-se nas suas frondosas ramagens e deglutindo o sabor dos seus filhos. O cheiro? Só uma manga cheira assim, uma manga de África.

 

Surpresa. Olhou para a etiqueta, produto de Israel. Pegou noutra e remirou também a etiqueta, produto de Espanha. E as de África onde estavam? Não havia, mas estas tinham o mesmo sabor e a mesma qualidade.

 

Esqueceu a sua proveniência e pegou em quatro delas, misturadas para as saborear a todas, meteu-as no cesto. Dirigiu-se à caixa e pagou a fruta.

 

Não trouxe maças, nem uvas, nem peras ou laranjas. Levou consigo os frutos da sua infância, os frutos da sua saudade.

 

Saudade é uma palavra bem portuguesa, mas os frutos e o sabor, ah!  isso é Africano concerteza.


publicado por: canetadapoesia às 22:25
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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2018

O som e o sol

 

 

Como gostava de fazer, andou mais uns passos escolheu, de entre os que se encontravam livres, aquele que lhe parecia o mais livre. Ligeiramente afastado dos outros, rodeado do verde luxuriante das plantas que o circundavam e directamente banhado por um que sol quente e convidativo.

 

Sentou-se sem mesmo sacudir o pó, nunca ia nessas mariquices de limpar o banco antes de se sentar, confiava na civilidade dos que, antes dele, o utilizaram. Era um banco verde como tantos bancos de jardim, arredondado a adaptado ao corpo ao sentar, suficientemente largo para comportar para aí umas quatro pessoas, mas queria estar só.

 

Esticou as pernas, levantou os braços, em suma, espreguiçou-se. Mão ao bolso e toca a colocar os auriculares nas orelhas, nem grandes nem pequenas, normais, achava ele, apesar dos puxões que levara na escola primária de uma professora irascível, daquelas à antiga portuguesa, enfim, nada que lhe tivesse causado algum trauma de infância como agora se usa dizer.

 

Ligou o pequeno aparelho que de imediato começou a debitar sons, sim, sons, que música é outra coisa. Música era aquilo que ouvia na sua velha aparelhagem que sucumbira à idade e cuja longevidade se poderia discutir, tal a boa performance que demonstrara até ao pio final.

 

Embalado por esta lembrança acabou por desligar o pequeno aparelho, ícone das novas tecnologias e do tão propalado anti-social de orelhas tapadas com auriculares, nem a notável interpretação do Nabucco de Verdi o demoveram, a música não era aquilo, não se podia ouvir esta maravilha naquela caixinha de sons, perdia-se a qualidade que lhe enchia a alma.

 

Guardou o aparelho, esticou de novo os braços, passou-os por baixo da nuca, descaiu no banco do jardim, fechou os olhos e sentiu-se acariciado por aquele calor delicioso e envolvente. Não sabe quanto tempo assim esteve porque adormeceu envolvido pelo astro rei.

 

Melhor assim, pelo menos não estragou a música.


publicado por: canetadapoesia às 22:08
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2018

Doca (Relembrando dias felizes)

 

 

Que hora de chegar, quente, o calor a apertar, mas a água ali mesmo ao pé chamava insistentemente.

Não me atrevi a descer sem antes ir comprar uma garrafinha de água, afinal não sabia quanto tempo lá estaria.

Desci o pontão de acesso, cartão na mão, modernices até nas docas, abre o portão ao simples encosto em local apropriado.

Porta aberta, diante de mim um número, que já foi maior, de embarcações acostadas nos respectivos “fingers”, que chamar dedos a isto não é admissível, amarrações em ordem para não os deixar largar dali sozinhos que o mar apetece, mas não podem ir sem dono.

Calcorreando o pontão dá para ver que as gaivotas se banquetearam com os mexilhões que se agarram desesperadamente aos flutuadores e ao casco das embarcações. Depois do banquete deixam os pontões e “fingers” cheios de crustáceos devorados.

Pontapé aqui, outro acolá, vamos devolvendo ao ar o que de lá saiu.

Terceiro pontão à direita, quase até ao fundo. Alforreca à vista.

Primeira inspecção, amarras em bom estado, desapareceu uma das defensas, provavelmente arrancada com a ondulação que se deve ter feito sentir dentro da doca, há que reajustar as outras para cobrir o encosto no “finger”.

Subida a bordo, como eu gosto de dizer isto, “subida a bordo”, até parece um transatlântico e não o botezinho que é.

Enfim, tamanho não é qualidade o prazer que dá é que importa.

Abrir as locas e a cabine para arejar.

Preparar as reparações necessárias às anteparas que os cabos estão rebentados e precisam ser substituídos, agora por algo mais moderno e durável embora menos apreciado e bonito, mas, mais seguro sem dúvida.

Reparadas as anteparas nova tarefa. Lavagem exterior da embarcação que se encontra em estado lastimável, toda cheia do pó que desce da ponte e se entranha mais as porcarias das gaivotas.

Mangueira esticada e pronta a agulhar e lá vai. Água e escovilhão durante duas horas e meia até que se pareça com qualquer coisa limpa, quer dizer, mais ou menos.

Cansado? Não. Molhado? Sim, completamente. Ainda bem que trouxe as sandálias de material que se pode molhar.

Finalmente, enquanto seca um pouco para ser fechado, um descanso.

Cachimbo na mão, atestar o dito, sentar no “finger”, baloiçar um pouco, que aquilo abana mesmo, um gole de água, já não está fresca, que pena.

Agora sim, uma cachimbada ao som embalador da água e das gaivotas rodopiando sobre a cabeça.

Do outro lado, os restaurantes barulhentos em que gente diversa remói uma refeição à sombra dos toldos que escondem o sol.

Aqui, só o silêncio e o ruído das gaivotas, de vez em quando, um fuminho solta-se do cachimbo e dispersa-se no ar.

Apetece, e faço mesmo, deixo-me cair para trás e, por cima dos óculos de sol, o céu azul e o sol resplandecente.

Que dia.

Deviam ser assim todos os dias.


publicado por: canetadapoesia às 21:31
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Hoje queria escrever

 

 

 

Queria escrever qualquer coisa hoje como, aliás, o faço quase diariamente.

 

Procurei, vasculhei, mexi nas ideias, e tudo o que encontrei me desgostou, por isso hoje não escrevo. Hoje remeto-me ao silêncio da minha indignação.

 

E porque estarei indignado se até vivo num país paradisíaco? Mas estou, tenho direito à minha indignação e não é só por ter direito que o estou, estou por várias razões, todas com o mesmo fio de orientação.

 

A indignação começa a afrontar-me logo que inicio a leitura das notícias sobre o mundo e, especialmente quando me detenho nas que dizem respeito a este país.

 

Estou indignado por nos terem arrastado até ao precipício de onde só nos falta mesmo saltar.

 

Estou indignado porque quase quarenta anos de democracia fizeram ressaltar o que de pior havia neste povo, o oportunismo da xico-espertice.

 

Estou indignado porque por que em cada notícia vejo mais uma golpada, mais uma baixeza, mais um roubo aos portugueses.

 

Estou indignado, e tenho muitas razões.

 

Por isso hoje me remeto ao silêncio, ao silêncio da minha indignação.

 

O mundo está mal, o país está pior.

 

Vou ouvir música. 


publicado por: canetadapoesia às 00:18
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