Sábado, 15 de Julho de 2017

Willys, cansou-se e não andou mais

Em homenagem ao meu pai que tá precocemente nos deixou.

Porque faz hoje cinquenta e um anos!
Porque apesar da passagem do tempo a saudade se mantém imensa e inalterada!
Porque sinto e sempre senti a tua falta meu pai!

Willys, cansou-se e não andou mais

“Era uma criatura excepcional, Willys, assim se chamava, jeep para os menos próximos, nome completo Jeep Willys, uma criatura levada da breca. Quase só chassis, motor e pneus, mas, como se diria hoje, sempre a abrir. Nascida propositadamente para equipar o exército dos USA na segunda grande guerra e ali, nos confins das matas de África, corria picadas, desbravava caminhos e respirava o ar puro de tanta vegetação.

Criatura danada que tanto nos deu sem pedir mais que o líquido que lhe matava a sede e lhe dava força para a caminhada, e se bebia.

Obrigado Willys, nunca te esqueci.

Ainda hei-de contar aquela noite que não quiseste andar no meio da mata cheia dos perigos da noite africana, fiquei zangado, era pequenino e tinha muito medo, mas sabias que o meu pai nunca deixaria que nada de mal me acontecesse.

Eras uma sábia criatura, vias longe e não tinhas pressa. Eras a minha criatura preferida e sabias que assim era.”

Assim acabei a estória do Willys em texto anterior e com estas últimas palavras quero deixar o testemunho do dia em que ele nos deixou apeados.
Portou-se mal o sr. Willys, não se faz, sabendo que era a nossa única oportunidade de viajar por aqueles caminhos, deixar-nos assim sem transporte foi mesmo muito mau.
Por uns breves momentos senti a raiva a subir por mim a cima, por causa dele, senti que não estava a ser nada generoso ao abandonar-nos à nossa sorte tão longe de casa. Depois de começar a caminhar a coisa foi-se compondo ao mesmo ritmo que subia o medo que me assolava, fui desculpando-o numa perspectiva de excesso de trabalho e cansaço acumulado, o que hoje se chamaria stress, que o levou a soçobrar em plena picada.
Ah! Sr. Willys, se soubesses o “cagaço” que me pregaste, estou certo que farias mais um esforcinho para conseguires chegar a casa ou, pelo menos, mais perto de local seguro. Mas não conseguiste, foste-te abaixo das canetas, estás perdoado.
Tínhamos saído de Bolongongo, onde tinha acompanhado o meu pai que ali se tinha deslocado em serviço, aqueles serviços que se prestam a vizinhos de roça do mato, empresta aí que logo te empresto eu, era uma verdadeira entreajuda. Perto do fim da tarde pusemo-nos a caminho de Quikulungo, a caminho da roça Quito. Um bom par de quilómetros que se fariam rapidamente se aquilo fosse uma scut, mas não era, era uma picada reconhecida, apenas, porque mostrava os rodados das máquinas no calcar do capim da mata.
À partida tudo estava normal e o willys não denunciava qualquer alteração ao seu estado de saúde, ligada a ignição, roncou como um leão da selva, tremeu durante uns minutos, era o aquecimento, diziam os expert na matéria.
Acalmou-se e ficou-se pelo ronronar baixinho até ao momento da primeira aceleração e do lento arranque, que o meu pai era cuidadoso e sabia que levava ali, mesmo ao lado, sem cinto de segurança e sem porta, só agarrado a um dispositivo metálico em arco que se distinguia no tablier do Willys, o seu rebento.
Estrada fora a uma vertiginosa velocidade de quase cinquenta quilómetros, lá fomos andando até que, a determinada altura e ainda em terreno plano, o Willys dá um imperceptível sinal a que não se deu atenção nenhuma, tal a confiança naquela máquina. Se o tivéssemos atendido estaríamos mais perto da partida, em terreno mais favorável e mais seguros, mas não, ele tinha era de chegar ao destino, esforçou-se, mas não conseguiu.
Engasga-se, uma vez duas vezes, leva uma aceleradela maior, parece que desentupiu e lá foi mais um bocado, aproximava-se o morro, subiu sem dificuldades e a respirar toda a sua pujança, alcançámos o cimo do morro, daqui para a frente uns bons quilómetros a descer, sem problemas.
Mas o Willys esgotou-se com o esforço da subida do morro, engasgou-se de novo, outra vez, com mais força, as aceleradelas já não resultavam e o Willys quedou-se mudo enquanto efectuávamos a descida do morro.
Mais tentativas para o reanimar, deixá-lo seguir em roda livre e de repente atirar-lhe com uma segunda arranhada, nada, mais um bocado a descer, pode ser que com mais velocidade lá vá.
Não foi. Andou, em roda livre, enquanto houve morro para descer, assim que apanhámos o planalto a que se seguiria outra subida, bem mais pequena que a anterior, parou. Nem para a frente, nem para trás, simplesmente esgotado. Não adiantaram as várias tentativas de o reanimar, parecia que queria acabar os seus dias naquele local, aprazível por sinal.
Repentinamente, a noite, como sempre em África, despertou, abruptamente e ajudada pela densa cobertura da floresta cerrada, em que as árvores cobriam por completo a picada, deixando um espacinho minúsculo, quase um túnel de pequenas dimensões para a passagem do Willys, a escuridão tornou-se ameaçadora.
Nada mais a fazer, as “imbambas” ficaram no sítio onde estavam, que ali não havia ladrões, no dia seguinte se recuperaria a viatura e a carga. Toca a andar, caminhar noite fora, numa zona pejada de feras e sobretudo onde o rei da selva ainda mandava a seu belo prazer, um susto.
Como nos defenderíamos do ataque de um qualquer animal na sua hora predilecta de caça? Com nada, excepto uma pequena pistolita de seis milímetros que, por artes mágicas, o meu pai retira do bolso. Grande arma, apropriada para eliminar leões, sim senhor.
Bem, naquela altura com cerca de sete ou oito anos, aquilo pareceu-me um canhão, senti-me mais aconchegado, embora o maior seguro fosse sentir a mão de meu pai a segurar a minha, para que eu não me perdesse ou ficasse afastado dele na caminhada que teríamos de fazer.
Não sei nem me lembro quanto tempo caminhámos, a sua mão esquerda na minha direita e na sua direita o tal canhão, foi muito, horas largas, penso eu, quase sempre debaixo daquele matagal que não deixava ver nada nem para os lados nem para cima.
De quando em vez uma clareira, surgida sabe-se lá de onde, permitia-nos vislumbrar um esplêndido céu estrelado, daqueles que só é possível ver em lugares sem poluição e este era um deles, pareciam pintadas no céu, tantas e tão brilhantes estrelas. Pirilampos eram aos milhares, os sentidos sempre alerta detectavam os ruídos, ainda que menores, como sendo ameaçadores e, como tal, aterradores.
Conseguimos chegar sãos, salvos e derreados à roça já a madrugada ia alta e as gentes se encontravam esperando em sobressalto e prontas para sair à nossa procura, sem que tenhamos sido molestados por qualquer animal, se calhar não passámos pelas suas áreas de caça, foi uma sorte ou outra coisa.
AH! Se houvesse telemóveis naquela altura, que maravilha seria.
No dia seguinte, voltei a acompanhar o meu pai, agora numa missão mais importante, resgatar o sr. Willys e as “imbambas” que carregava. Lá estava no local onde o deixáramos na noite anterior, impávido e sereno como se tivesse tido uma noite descansada.
Não trabalhou, foi rebocado, reparado e voltou a sulcar os trilhos da aventura de uma vida.
Apesar do susto, obrigado Willys, nunca te esquecerei.


publicado por: canetadapoesia às 22:52
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