Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015

Dizem para aí

 

Pois dizem, enchem a boca e vociferam, acusam e atiram as pedras que hão-de cimentar a minha calçada mas que, sem cuidados especiais, podem vir a derrubar os seus telhados.

 

Dizem que sou culpado.

Porque a minha geração, a tal geração anterior às que lhe sucederam, usaram abusaram e deixaram tudo de rastos para aquelas que se seguiriam.

Dizem que sou culpado

Porque não permito que as gerações seguintes usufruam de um país evoluído e virado para o futuro em que ninguém passasse tão mal como estão a passar agora os portugueses.

Dizem que sou culpado

Porque a minha geração viveu com mais do que tinha e gastou à tripa forra sem cuidar que um dia tudo tinha de ser pago com língua de palmo.

Dizem que sou culpado

Porque em vez de arrendar casa preferi comprar, endividando-me.

Dizem que sou culpado

Porque sou reformado e sou um encargo para a segurança social.

Dizem que sou culpado

Porque beneficiei de um sistema de saúde que me protegia em caso de necessidades.

 

Dizem que sou culpado!

 

E sou mesmo, sabem, sou culpado e reconheço-o.

 

Sou culpado

Porque sempre me preocupei com o futuro deste país e com as gerações que se seguiriam à minha.

Sou culpado

Porque não usei nem abusei antes dei demasiado para que isto não acontecesse.

Sou culpado

Porque da minha vida de mais de quarenta anos de trabalho recebo uma miséria de reforma.

Sou culpado

Porque dos meus sessenta e tantos anos de idade pouco me restou de meninice antes do trabalho que me foi imposto por necessidades de sobrevivência.

Sou culpado

Porque parei a minha idade, como quase todos os da minha geração, contra a minha vontade, nos vinte anos e quando a retomei, aos vinte e cinco, já era velho, fiquei com a juventude cortada e suspensa por quatro anos por alegada defesa de um país que queria futuro para os seus filhos e que agora me maltrata.

Sou culpado

Porque me endividei para dar futuro aos filhos que queria que tivessem uma vida melhor e nestes, alargo o pensamento a todos os filhos de toda a gente da minha geração, com educação, cultura e também uma vida mais desafogada.

Sou culpado

Porque me endividei a comprar casa onde viver, por não haver para arrendar.

Sou culpado

Porque me reformei aos cinquenta e nove anos de idade, com quarenta e cinco anos de trabalho e descontos obrigatórios para a segurança social, impostos e tudo o mais que me foi exigido, ainda assim, forçado e empurrado pela moda de que o que era velho, era para por de lado que os novos é que resolviam as coisas, está à vista o resultado.

Sou culpado

Porque também fui permissivo, eu e toda a minha geração, com as gerações que se seguiram à minha. Boa vida, poucas responsabilidades e muitas, mas mesmo muitas facilidades que a minha nem sequer sonhou ter.

 

Sou culpado!

 

Sou sim meus senhores, sou mesmo culpado, e sabem porquê?

 

Porque deveria ter enveredado por uma vida de facilidades, fugido ao pagamento das obrigações com o Estado e a Segurança Social, não ter sido e continuar a ser, apesar de tudo, solidário com quem necessita, ter vivido as aparências que as gerações seguintes viveram e vivem aguardando que a nuvem carregada passe por elas para as abastecer dos pequenos gadgets que lhes conferem felicidade, pelo menos material.

 

É mais fácil postar-nos diante do espelho e esperar que o que ele reflecte, o que nele vimos, não passe da imagem que desejamos ver. O que está por trás de nós, nas nossas costas, não interessa, o espelho não reflecte.

Temos de olhar para as árvores e não para a floresta.


publicado por: canetadapoesia às 23:53
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2015

João, Alice e a manhã seguinte

 

"João, apegado a velhos hábitos, foi o primeiro a acordar. Meio atordoado ainda teve o cuidado de não fazer qualquer ruído já que Alice ainda dormia a sono solto. Na cara de Alice um sorriso revelador, na de João a estupefacção pelo que tinha acontecido no dia anterior, tão repentinamente que ainda se questionava como tinha sido possível.

A par da admiração com a noite anterior, também ele tinha, ainda que mais discreto, um sorriso de satisfação. João sentou-se na cama, olhou para o sono tranquilo de Alice, apeteceu-lhe passar a mão sobre o seu cabelo, acariciá-la, mas conteve-se. Qualquer gesto seu levaria Alice a acordar e ele queria que ela tivesse um acordar sossegado, descontraído, não forçado pelas suas carícias.

João levantou-se, devagar, dirigiu-se à casa de banho para as suas limpezas matinais. Olhou à volta, que luxo, até apetecia ficar por aqui, já não se lembrava de uma coisa como esta, banheira de hidromassagem, e todas as loiças necessárias a uma casa de banho completa. Um espelho enorme quase ocupava toda a parede frente à banheira, dois lavatórios suportados por uma bancada com armário inferior e os perfumes de Alice, alinhados num dos cantos da bancada, variados e de marca, já não tantos como Alice possuía, nem tão variados, mas mesmo assim, o suficiente para deixar João pasmado.

Lembrou-se que não tinha trazido nada que lhe permitisse lavar-se, escovar os dentes, enfim, tornar-se minimamente apresentável. Ainda pensou usar a escova de Alice para lavar os dentes, hesitou, não sabia se ela se importaria, resolveu então aguardar que ela acordasse e lhe desse a liberdade de o fazer como também ter o material necessário para um banho de chuveiro que lhe ia saber muito bem.

Sentou-se na poltrona do quarto, ao fim da cama, mesmo de frente para Alice e silenciosamente aguardou que ela despertasse. Não deixou de reparar na extraordinária beleza de Alice que, mesmo deitada e de cabelos revoltos pela noite dormida, não deixava de ser bela, os seus lábios ainda o atordoavam, vermelhos, sedosos, quentes e sequiosos de amor. João tinha de agradecer ter-lhe acontecido uma coisa destas, pensou mesmo que, afinal, não estava tão abandonado como julgava.

Sentiu um leve movimento na cama, Alice mexia-se, rodava, virava-se para o sítio onde João deveria estar. De olhos cerrados ainda, estica o braço, apalpa o colchão e de repente levanta o tronco, não encontrou João. Abriu os olhos, procurou na cama, voltou a cabeça e deu com ele sentado, de sorriso nos lábios, olhando para ela. Que susto, pensou, pensei que se tinha ido embora sem mais nem menos.

- Assustei-me, João, pensei que te tinhas ido embora sem me dizer nada, que coisa horrível.

- Já tinha acordado há um tempo, mas não queria fazer barulho para não te acordar.

- Que coisa simpática, obrigado João, perdi uns momentos contigo por acordar mais tarde.

- Ainda aqui estou, não perdeste nada, nem eu me iria embora assim, não agora.

Alice abriu um largo sorriso para João enquanto ele se aproximava dela pela cama acima. Chegou-se a ela, olhou-a nos olhos, esticou a cabeça e os seus lábios encontraram os dela, roçaram-se ao de leve, aprofundaram o beijo, forte, apaixonado, e assim ficaram durante alguns segundos em que as mãos voltaram a estar activas explorando um e outro naquilo que já conheciam da noite anterior mas que nunca era demais repetir.

- João, não sabes como me sinto feliz por esta noite fascinante.

- Eu é que nem sei o que me aconteceu, mas foi muito bom Alice.

Quase sem fôlego voltaram a unir-se num prazer sem limites em que João demonstrava ser um mestre de eficiência ao sentir o prazer que dava a Alice. As suas mãos eram uma ferramenta indispensável e útil para que ela sem resistência se abandonasse às suas explorações que a deixavam sem reacção. Subiam, desciam, rodeavam-na, levemente acariciavam os seios erectos e de mamilos rijos, chegavam ao triângulo dourado e deixavam Alice prostrada de prazer. Alice experimentou o que nunca tinha sonhado atingir, tremeu, vibrou em espasmos e sentiu algo que lhe retirou todas as forças.

Ainda estremecia de prazer quando João se lhe chegou de novo aos lábios, abandonou-se com ligeiros gemidos de prazer. Sentiu João sobre ela, que o tinha manietado na noite anterior fazendo-o ver as estrelas do amor, apoiado nos cotovelos, para que não sentisse o seu peso, beija-lhe os seios com uma delicadeza que a levou a revirar os olhos. Procurou, com a sua mão, encontrar o que João lhe podia dar, acariciou-o, conduziu-o, finalmente sentiu que João, dentro dela, de novo, a fazia vibrar e estremecer.

Não resistiu a nada nesta investida de João, pelo contrário queria que ele ali estivesse, dentro dela, em união perfeita de duas pessoas que se amam. Ajudou-o até e, para que nem sequer desistisse, traçou-lhe as pernas nas costas puxando-o mais para si, mais fundo ainda. João tremeu em espasmos simultâneos com os estremecimentos de Alice e fundiram-se num só. Um minuto depois ainda se acariciavam e, finalmente, caíram um para cada lado da cama de mãos dadas. Arfavam fortemente, tentavam regular a respiração e o bater do coração, não conseguiam sequer falar.

- Alice, não tenho escova de dentes, não trouxe, não esperava passar cá a noite.

- Usa a minha João, vou comprar alguma coisa para ti, para teres sempre as coisas que precisares cá em casa.

Notou uma leve nuvem passando pelos olhos de João. Estava preocupado, não tinha previsto esta noite e as suas coisas junto à loja de Manuel estavam desprotegidas, será que ainda as encontrava quando regressasse? Alice também se preocupou, pensando que seria com ela.

- Estás preocupado com alguma coisa João, o que se passa, alguma coisa comigo?

- Não, nem pensar, tudo perfeito Alice, melhor n~~ao seria possível.

- Então porquê essa nuvenzinha de preocupação que te faz franzir a testa?

- Estava a pensar nas minhas coisas que deixei sozinhas e sem segurança nenhuma, o mais certo é chegar lá e não ter nada do que me faz falta para viver.

- Achas que alguém te ia tirar as coisas que todos sabem que são tuas? Não acredito João.

- Tem aparecido gente que não conhecemos e que por algumas acções, já temos percebido que não respeitam nada, nem os que, como eles, subsistem na rua, e eu só tenho aquilo.

- Temos de falar sobre isso João. Agora vai tomar um duche que eu já te levo a toalha de banho, de resto, tens lá tudo o que precisas.

- Até demais, não preciso de tanta coisa.

- Usa o que quiseres, o que usares só me dará prazer.

João no duche, procurou um sabonete e não encontrou, quando quase chamava Alice deu com o frasco do creme de banho, já devia saber que Alice usava estas coisas. Usou-o, ensaboou-se e debaixo do chuveiro sentiu o quente da água a cair-lhe sobre o corpo, muito quente para o seu gosto, pensou. Diminuiu a água quente até que, do chuveiro, despontou um jorro de água mais fria, tépida, o suficiente para distinguir o quente do frio e esta sim, esta relaxava-lhe o corpo por inteiro.

Alice chega com o toalhão de banho que deposita sobre a bancada para que, ao sair, João lhe possa facilmente deitar a mão e embrulhar-se nela. Olha através da porta do duche e vê o corpo de João, recto, sem gorduras, com os músculos visíveis sem ser um mister universo. Sentiu os calores subirem-lhe às faces de novo, não se controlou e abrindo a porta de mansinho meteu a mão no duche, molhou-se mas não a retirou, passou-a pelas costas de João, desceu até às nádegas, apertou-as, sentiu-as rijas e até bastante redondas sem excesso, desceu mais a mão passando-a por baixo entre as suas pernas, sentiu aquilo que tanto prazer lhe dera, levou a mão mais à frente e segurou as partes baixas de João que a sentiu e se virou.

Alice não desarmou e agarrou-as pela frente, gentilmente puxou-o mais para si, acariciou-o sentindo que João crescia de novo, baixou-se, beijou-as longamente, e João a crescer, todo molhado sem poder sair do duche. Levanta Alice até si, puxa-a para dentro do duche e ela não resiste, os dois molhados, os dois excitados, os dois em êxtase e ali se consomem de novo. Exaustos, debaixo do fluxo de água que lhes cai em cima, esfregam-se lentamente, banham-se juntos.

Saem do banho sem que João a embrulhe no toalhão que ela tinha trazido, seca-a entre beijos e abraços e ela acaba fazendo o mesmo sem sequer usar outra toalha.

Vestidos e prontos para o pequeno-almoço que Alice prepara. Sumo de laranja para os dois, torradinhas com manteiga, compotas e doces diversos, outras iguarias compõem o que Alice normalmente utiliza para pequeno-almoço. João acha um exagero, não está habituado, mas sabe-lhe bem, tem de repor energias. Alice prepara um café para cada um e, com as chávenas fumegantes à sua frente, ficam-se pelo olhar um do outro, um sorriso nos lábios e um ar de desejo satisfeito, tocam-se, mão na mão, olhos nos olhos.

O futuro, o que se seguirá, só o destino saberá, por agora duas vidas que se uniram por amor."

 


publicado por: canetadapoesia às 00:18
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