Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Robin dos Bosques

 

Desde muito novo que me lembro de ler, lia tudo o que podia e me aparecia à frente e não me esqueço que os dias de Natal eram sempre uma altura esperada para receber os mais recentes heróis da nossa leitura de tenra idade, os famosos livros de aventuras de uma colecção em que pontificavam desde o homem da máscara de ferro, passando pelo conde de Monte Cristo e pelo exímio espadachim de França D’Artagnan e os seus célebres e inseparáveis companheiros, os três mosqueteiros, e tantos outros.

 

Ah! Aquilo é que eram leituras, tardes inteiras, pela noite dentro que não havia ainda televisão nem essas modernices de agora que nos retiram todo o tempo para estes prazeres da alma.

 

Mesmo com pouco dinheiro, nada nos parava, éramos verdadeiramente inovadores, como agora se diz, na arte de conseguir novas leituras e livros ainda não escrutinados.

 

Depois de lidos eram cuidadosamente amontoados para as trocas entre outros leitores e finalmente, quando a roda estava toda coberta, recorria-se às célebres rifas de portão de quintal, ainda se lembram? Umas tabuinhas estendidas ao longo do muro do quintal e logo se improvisava uma venda ou uma rifa de livros usados, sempre a preços muito abaixo do custo dos originais mas no conjunto permitindo a aquisição de alguns exemplares novos que voltavam à roda das trocas.  

 

Mas o que melhor simbolizava as esperanças dos tenros anos de idade era, sem dúvida, aquele que simbolizava a luta do bem contra o mal, a luta do opressor contra o oprimido, a luta do arrogante contra o humilde, enfim, a luta do explorador pelo explorado, Robin dos Bosques o grande herói.

 

Foi por me lembrar dele, esta coisa da idade serve-nos, também, para umas recordações da infância que lá vai faz tempo, que me deitei a pensar que nos dias de hoje um Robin dos Bosques fazia muito jeito.

 

Com um pouco de sorte ainda acabava, este Robin dos Bosques, por resolver o problema da dívida pública e satisfazer o reino e os seus vassalos.

 

Claro que nos nossos dias não podia ser um Robin qualquer, já não existem florestas dignas desse nome onde se pudesse acoitar e daí partir para as suas cruzadas contra os ricos e a favor dos mais desprotegidos. Agora, tinha de ser um Robin das Cidades, um autêntico “expert” nas artes das finanças, da economia e, ao mesmo tempo, ligado às raízes que o mantinham atento e vigilante na defesa dos actuais oprimidos.

 

Na realidade não vejo nenhum com estas características mas vejo outros. Vejo alguns que na ânsia de se mostrarem aos seus vassalos deixaram cair no tempo as premissas do verdadeiro Robin dos Bosques e agora encarnam a estória do avesso.

 

Estes não são o Robin dos Bosques meu amigo e companheiro de tantas aventuras em prol dos necessitados do reino. Os novos, também mantêm a luta para abocanhar as riquezas do reino, só que não em prol dos que necessitam mas em seu próprio benefício. Já não roubam os ricos para dar aos pobres, ao contrário, conseguem sacar o máximo aos pobres que têm cada vez menos para dar aos ricos que, coitados, estão a atravessar uma crise económica tremenda que lhes abanou as finanças todas.

 

Por estas e por outras, eu desejo ardentemente o regresso, não à juventude que já não é possível, mas o regresso do meu herói.

 

Ainda que metamorfoseado com as novas vestes da cidade moderna mas, que mantenha o ideal com que sempre me encantou. Que não roube aos pobres, tornando-os mais pobres, mas que tire alguma coisinha aos ricos, sabe-se lá como o conseguiram ser, para distribuir melhor as esmolas evitando estas enormes disparidades.

 

Estas disparidades que cavam um fosso cada vez maior entre ricos e pobres e que, mais tarde ou mais cedo, serão razão de preocupação dos que agora se sentem uns autênticos Príncipe João.


publicado por: canetadapoesia às 20:25
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Sábado, 26 de Abril de 2014

Willys, assim se chamava a criatura

 

Assim se chamava o animal.

Animal de carga, animal de transporte de gente, animal selvagem, animal teimoso por vezes, corroído pelo tempo e pela longevidade que lhe advinha do seu nascimento mas, ainda assim, um animal muito prestimoso.

Muitos anos se passaram, muitas luas, cacimbos imensos, em calendário Romano para aí uns cinquenta e quatro, cinquenta e cinco anos sobre o último vislumbre da dita criatura.

Ainda assim, não a esqueci e volta não volta recordo-a com saudade.

Com ela vivi grandes e pequenas aventuras. Com ela cresci alguns anos, não muitos que a vida se encarregou de nos separar mas, mesmo assim, ficou a memória, a memória dos bons momentos partilhados e dos maus também que disso se compõe a dita memória. Bons e maus momentos.

Nos bons momentos era uma maravilha, a criatura não se opunha a movimentar-se e então era uma correria, nunca demasiada que não conseguia, mas a que se fazia era suficiente para provocar a vertigem do gozo que sentíamos no seu dorso.

Picada fora, destrambelhada, lá ia ela cheia de força e do vigor que os anos não lhe tiraram. Subia montes, descia vales, corria nos trilhos calcados por tantas outras criaturas, por ela também, centenas de vezes e dava-nos a satisfação de nos sentirmos livres, cabelos ao vento, os que restavam porque naquela altura o verdadeiro corte era à escovinha e não havia cá modas.

Sentados, em pé, dançando de um lado para o outro com o seu balançar, quase uma dança tribal, e cheios do frenesim que só as grandes e impenetráveis matas verdes nos faziam sentir. Parecíamos uns cabritos monteses, às tantas não se distinguia quem mais gozava com tanto salto, ressalto, desvio, encontrão, um sem número de coisas que hoje seriam perigosas.

E era vê-la, à criatura, toda aperaltada, inchada de vaidade por nos proporcionar tamanhas alegrias. Quando balançava demasiado e nos atirava de um lado para o outro, quase instantaneamente se endireitava receosa de nos ter magoado e quando nos ouvia rir às gargalhadas de tanta satisfação quase lhe sentíamos um sorriso vindo lá da frente, juntinho ao chão da picada de onde não desviava a atenção.

Grandes aventuras sim senhor, que saudades da criatura.

Por muito que me esforce não consigo caracterizá-la convenientemente, a sua cor há muito se havia desviado da original, se é que cor alguma ainda tinha. Desprovida de tudo o que não era essencial, despida de todo o supérfluo mas ainda assim uma criatura maravilhosa.

 

Nos maus momentos era uma desgraça, não se movia um milímetro, não queria saber quanta pressa tínhamos nem que horários havia a cumprir, não se mexia e pronto. Falavam-lhe, viam-lhe o coração e nada, nem um trémulo movimento. Nestas alturas era o raios partam a criatura que saía de rompante de todas as bocas.

De repente dava-lhe para se mover e todos se aquietavam na esperança que não voltasse a quedar-se imóvel e muda como antes. Às vezes acontecia que depois de um repente se imobilizava de novo, mas nas outras recomeçava o prazer da marcha ainda que iniciada com algum vagar não fosse dar-lhe um treco qualquer.

Grande criatura que tão bons momentos nos deu e que, sempre que a memória acorda para as coisas de tempos idos, nos aparece na lembrança.

Era para aí por volta de mil novecentos e cinquenta e cinco ou seis, já levava uns anos largos de vida excepcionalmente dura, já tinha estado na guerra, na segunda claro. Daí veio directamente para as matas de África que não conhecia mas a que rapidamente se afeiçoou, como nós também, sofria de agudo SPTG (stress pós traumático de guerra) e ali, apesar da dureza da vida, encontrou alguma paz, um refúgio de gente que a utilizava em actividades de paz e prazer e não de guerra.

Era uma criatura excepcional, Willys, assim se chamava, jeep para os menos próximos, nome completo Jeep Willys, uma criatura levada da breca. Quase só chassis, motor e pneus mas, como se diria hoje, sempre a abrir. Nascida propositadamente para equipar o exército dos USA na segunda grande guerra e ali, nos confins das matas de África, corria picadas, desbravava caminhos e respirava o ar puro de tanta vegetação.

Criatura danada que tanto nos deu sem pedir mais que o líquido que lhe matava a sede e lhe dava força para a caminhada, e se bebia.

Obrigado Willys, nunca te esqueci.

Ainda hei-de contar aquela noite que não quiseste andar no meio da mata cheia dos perigos da noite africana, fiquei zangado, era pequenino e tinha muito medo, mas sabias que o meu pai nunca deixaria que nada de mal me acontecesse.

Eras uma sábia criatura, vias longe e não tinhas pressa. Eras a minha criatura preferida e sabias que assim era.


publicado por: canetadapoesia às 00:01
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Terça-feira, 22 de Abril de 2014

Aníbal e os elefantes

 

Aníbal cansou-se, exasperou-se e só encontrou uma solução.

Soltou os elefantes.

Que fazes Aníbal?

Soltas os teus elefantes numa loja de porcelanas finíssimas, com que intenção?

Estou a ver, queres partir a loiça toda.

Mas achas que depois de tanto tempo de descanso, os elefantes ainda te obedecem?

Tens a certeza de que estão em condições para essa tarefa hercúlea de quebrar loiça?

Bem, mesmo que não estejam, um elefante é sempre um elefante e, mesmo sem estar em condições de ir à luta, a sua condição de paquiderme é suficiente para causar estragos consideráveis.

Só tens de ter cuidado com a sua situação de saúde pois a passagem das gargantas Alpinas, que te levaram sessenta meses a atravessar, cuidou de lhes quebrar um pouco o ânimo, por cansaço e falta de alimentação condigna.

Mas lança-os, lança os teus elefantes e parte a loiça toda que puderes ainda que venha já bastante tarde a carga dos elefantes.

Ainda assim, pode fazer tremer esta Roma adormecida, abanar os patrícios do senado como classe dominante decadente, organizar os plebeus que só têm deveres e nada recebem em troca.

Carrega Aníbal, carrega em força com os teus elefantes que cá estaremos para limpar os cacos.


publicado por: canetadapoesia às 23:51
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