Domingo, 29 de Dezembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Foram falando sobre as coisas que ainda tinham para fazer hoje e mais as que ficariam para o dia seguinte. Inadvertidamente, ou talvez não, a sua perna encostou-se à dela, Meia de Leite sentiu um calor a subir-lhe pelas faces, controlou-se e, polidamente pediu-lhe desculpa. Não te preocupes, disse ela ao mesmo tempo que poisava a sua mão na perna de Meia de Leite, quente, abrasadora mesmo, pensou ele, isto é tão pequeno que não conseguimos estar sem uns encostos e encontrões, logo te habituas. Ele olhou-lhe para a mão sobre a sua perna, quase junto à coxa, de tal forma que notou que ela sentiu algo a crescer debaixo da mão. Não se desmanchou, apoiou a mão com mais força, deixou-a descair um pouco, sentiu tudo o que havia para sentir ao correr a mão sobre o que lhe tinha crescido, ao mesmo tempo que o olhava nos olhos.

Meia de Leite ia desfalecendo. No meio daquela confusão, uma coisa daquelas, não conseguia imaginar. Controle, controle, não podia deixar-se descontrolar, mais a mais que a sua perna já se encostara de novo e agora não se queria despegar. Já sei, vou-lhe falar dos documentos e do trabalho que preciso arranjar. Assim fez, queria saber como conseguiria arranjar trabalho que não podia viver eternamente da assistência que lhe davam, queria ser produtivo, ajudar o país que agora o ajudava. Não vais ter de te preocupar com arranjar trabalho, também temos um serviço de encaminhamento, das pessoas que entram no país como refugiados, para várias empresas que procuram trabalhadores e, dentro das disponibilidades existentes, escolherás um que te agrade e poderás começar a trabalhar de imediato.

Primeiro que tudo o mais, vamos acabar de tratar de toda a documentação necessária e depois então vem o trabalho. Dentro daquilo que houver, de ofertas de trabalho, vais seleccionar o que queres mas eu até te ajudo a escolher, conheço bem o mercado e as empresas que nos oferecem estas vagas e vou indicar-te a que for melhor para ti, está descansado. Vamos continuar o nosso périplo, que temos toda a tarde para aproveitar. Pagaram e ela levantou-se, deu um passo e estendeu-lhe a mão, como a querer guiá-lo para fora dali. Sentiu-lhe a mão quente, os dedos compridos, segurou-a bem e não a largou até estarem fora do restaurante, apertou o blusão e ajudou-a a apertar o casaco. Sorriu-lhe a agradeceu e o seu sorriso foi como um sol radiante que lhe aqueceu a tarde.

Mais umas voltas e agora, finalmente, o documento de identificação, uma espécie de cartão de cidadão. Com isto na mão já se sentia um verdadeiro cidadão do país. Sentaram-se numa secretária em que outro funcionário os atendeu e lhes deu os documentos necessários a preencher, medição, impressões digitais, fotografia colada e em alguns minutos de espera o tão desejado documento identificador nas mãos. Deu-lhe a volta entre os dedos, apalpou-o, sentiu-lhe a rugosidade, o seu cartão de identificação, podia, agora, circular livre entre os cidadãos do país. Mais umas assinaturas e estava livre dali.

Enquanto esperava, sentado ao lado de Jeanne, não deixava de soltar os pensamentos e olhava para ela, tirava-lhe as medidas mentalmente e as pernas, aquelas pernas metidas nuns collants que deixavam ver tudo o que era preciso para apreciar a sua delicadeza. Compridas, mais para o magro que gordas, elegantes, bonitas pernas, pensou, quando se punha de pé tinha sobre elas um corpo lindíssimo, bem proporcionado e até, de certa forma, atlético, da bicicleta, pensou ele. Loira, uns olhos azuis de fazer inveja aos céus da sua terra. Coisa linda. Será que conseguiria arranjar uma namorada assim? Não sabia, mas tinha esperança, que filhos sairiam de uma relação destas? Lindos com certeza, África e Europa numa mistura explosiva. Já ele o era mas assim afinaria a espécie.

Meia de Leite era uma mistura entre África e Europa, a mãe, africana de gema, nascida para os lados do Huambo onde o pai, europeu de Trás-os-Montes, estivera a trabalhar e por ela se apaixonou ainda jovem. Desta relação nasceu Meia de Leite, entre um e outro, moreno dizia, os traços europeus da sua face não o desmentiam, afinal, tantas voltas dá o mundo que acaba por atirá-lo para o continente de onde saíra seu pai, a Europa. O destino prega cada partida, que mais lhe estaria reservado agora que ia iniciar uma nova vida por aqui? Só o destino sabia, só ele lhe tinha traçado a rota, só ele tinha escrito nas estrelas o que o esperava, Meia de Leite só tinha de o seguir."

 

 


publicado por: canetadapoesia às 20:18
link do post | comentar | favorito
Sábado, 28 de Dezembro de 2013

O mestre de culinária

 

Ele era um mestre, um mestre de culinária, o supra sumo dos mestres de culinária. Não havia panelas que lhe resistissem e em cada uma delas deixava a sua marca de mestria.

No primeiro grande encontro de cozinheiros em que participara não deixou de ser notado, como grande mestre que era. Nem sequer estava para participar mas, como tinha um automóvel novo e precisava de fazer a rodagem, aproveitou para aparecer, por acaso, lá pelo sítio.

Chegou e foi notado, não era todos os dias que um mestre de culinária fazia a rodagem ao seu automóvel e logo para os lados onde se reuniam tantos cozinheiros em busca da tão almejada mestria.

Com tanta insistência dos restantes aprendizes lá se dispôs, o nosso mestre, a participar de tão interessante encontro. E foi como um raio de luz naquela sala repleta de pretendentes a mestre de cozinha. Levantou-se, botou faladura e todas as cabeças se vergaram numa única vénia a tão grata personalidade que, desinteressadamente lhes falou. Saiu em ombros, todos gritaram em uníssono, este é o mestre, este é o grande mestre dos cozinheiros.

Lá foi, coroado e desejado, para uma nova cozinha repleta de tachos e panelas e todos os ingredientes para uma cozedura lenta, que como se sabe leva tempo. Tempo era o que precisava tão ilustre personagem, que por ser mestre e supra sumo dos mestres, ponderava já alcançar um título muito mais elevado, mais de acordo com toda a sua sapiência e com o seu futuro estatuto que tinha de ser o maior jamais alcançado por alguém tão desprendido das baixelas e outras coisas da cozinha.

Pois mesmo assim, tão desprendido, tão desinteressado, não deixou de manter o olho em cima dos tachos e das panelas enquanto cozinhavam em lume brando, era uma pitada de sal para aqui, mais um raminho de salsa para ali, depois uma mexedela na panela para não queimar, e foi aumentando o seu pecúlio de conhecimentos da cozinha e da melhor forma de cozinhar, para além, claro, do pecúlio financeiro que também dava jeito ter uns trocos.

Apesar de haver muito quem não gostasse dos seus cozinhados, da forma como condimentava os pratos e até das misturas de sabores que fazia, lá foi granjeando adeptos que, embora sabendo que os cozinhados não eram por aí além e que até havia quem dissesse que acabariam por provocar azia, foram-no amparando e ajudando na fama que aumentava ao mesmo ritmo que o seu ego de grande mestre.

Como todos os grandes mestres chega uma altura que se torna necessário um retiro para introspecção e meditação, transcendental diziam alguns, estratégica disseram outros, acho que ganharam os últimos.

Eis senão quando, passados uns tempos, esquecidas algumas cozinhadelas mal concebidas e depois de ter passado a ténue lembrança da azia provocada, ao retardador, de que alguns fizeram eco na altura, o grande mestre reaparece. Agora com a clara intenção de se consagrar como o chefe dos mestres cozinheiros, o mestre dos mestres, ele próprio.

Reúne-se uma comissão de cozinheiros e consideram que sim, que o homem pode vir a ser efectivamente o mestre dos mestres. E foi.

Durante um reinado de longos cinco anos, foi o mestre dos mestres mas, seria porque o vigor não era o mesmo dos anos anteriores, seja porque estava mais cansado e achava melhor aproveitar as mordomias com que era mimoseado, passou, durante esse tempo quase despercebido.

Não se ouvia nem sequer se sabia de nenhum prato especial confeccionado pelo mestre dos mestres, aliás, dos poucos que tentou cozinhar, misturando os vários ingredientes, com laivos de inovação por juntar uns novos e apimentados sabores, conheceu-se o triste desfecho de uns pratos muito mal amanhados e que deram para o torto provocando até algumas intoxicações alimentares.

De tal modo mal lhe correram as coisas que até deixou de mostrar em público as suas criações culinárias, desculpando-se com os seus ajudantes e até despromovendo alguns que também aspiravam a alguma mestria. Os seus dias já não eram a mesma coisa, parecia que a mão lhe fugia aos temperos.

Tinha de fazer alguma coisa para voltar aos seus tempos de grande mestre, de mestre dos mestres. Vai daí, reúne mais uma comissão de cozinheiros para prepararem um prato especial que mostrasse ao mundo quem ele era. Que não estava acabado, que ainda tinha muito para dar a esta cozinha tão conhecida pelos seus excelentes tachos e panelas, sempre areados e brilhantes que até faziam doer a vista quando lhes púnhamos o olhar em cima.

Acharam por bem, os cozinheiros reunidos, que o mestre centrasse a sua atenção nas mudanças que tinha de produzir para se relançar nos cozinhados que tantos apreciavam. Matutaram, matutaram e chegaram a conclusões brilhantes. Que o grande mestre tinha que se firmar porque os outros que se apresentavam a disputar a mesma cozinha não tinham tanto gabarito como ele, nem sequer tinham cozinhado tanto que se pudessem gabar, por exemplo, de ter provocado uma azia ou intoxicação alimentar em qualquer dos comensais.

Decidido, sobe ao palanque da associação dos cozinheiros e proclama:

De agora em diante, esquecendo os deslizes anteriores, vou mostrar quem é o chefe dos chefes, o mestre dos mestres, vou ser muito mais interventivo, vou ter uma mestria mais activa e dinâmica sobre esta cozinha.

Não vou permitir que os aprendizes de mestre se mostrem desleixados numa cozinha que se quer brilhante, limpa e digna, os tachos e panelas serão areados e renovados, não permitirei panelas de pressão.

Satisfez-se com o que se ouvia dizer e com a reacção dos que, mais uma vez, faziam a vénia ao mestre curvando a cabeça até se ouvirem estalar as vértebras da coluna e rematou com uma frase lapidar:

Podemos voltar a ser um país de cozinheiros respeitado em todo o mundo. 


publicado por: canetadapoesia às 21:44
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Pai Natal

 

Por muito que o tente, e bem tenho tentado, não consigo sentir-me em festa.

 

Não é de agora, sempre me senti assim para o tristonho, mesmo numa época em que as pessoas extravasam as suas alegrias natalícias.

 

O que sinto, e noto, cada vez mais, isto é, ano após ano e especialmente nos últimos, uma melancolia e um desinteresse cada vez maiores.

 

Analiso a questão do ponto de vista introspectivo e chego sempre à mesma conclusão: o mundo anda muito mal e eu sou afectado por isso.

 

Assim, surgiu-me a ideia de pôr em prática uma prece, uma súplica, chamem-lhe o que quiserem, um pedido muito especial ao “Pai Natal”.

 

Se bem o pensei, logo o quis pôr em prática e como tal aqui deixo o meu pedido:

 

Peço-te “Pai Natal”, que este ano, ao invés das habituais prendas com que nos mimoseias, nos deixes ficar no sapatinho algo de diferente, um mundo novo.

 

Deixa-nos um mundo cheio de pessoas que saibam respeitar-se e respeitar os outros, pessoas que saibam o que significa a palavra “solidariedade”.

 

Deixa-nos um mundo em que as pessoas para serem bem sucedidas na vida, não tenham de espezinhar, humilhar e denegrir os outros.

 

Deixa-nos um mundo de paz, em que não tenhamos receio de sair à rua.

 

Deixa-nos um mundo em que, nas empresas, possamos olhar para o colega do lado sem ver nele o inimigo que, a todo o custo, nos quer abater.

 

Deixa-nos um mundo em que não sejam necessários jantares de solidariedade com quem passa fome e necessidades, somente na época do Natal, as necessidades são de todo o ano.

 

Finalmente, que os meus pedidos já vão longos e tens muito trabalho pela frente, prolonga-nos o espírito de Natal, pelo menos, por mais trezentos e sessenta e cinco dias.

 

Talvez assim as pessoas se habituem a ver no outro um ser igual, com as mesmas esperanças, expectativas e necessidades que nós próprios.

 

Espero, “Pai Natal”, que o meu pedido não seja o único a ser por ti recebido, como súplica para um novo mundo, um novo ser humano.

 

Se os juntares todos pode ser que a onda seja tão grande que leve a uma efectiva mudança.

 

Obrigado “Pai Natal” sei que vais fazer o possível. 


publicado por: canetadapoesia às 23:10
link do post | comentar | favorito
Domingo, 22 de Dezembro de 2013

O velho pinheirinho

 

Pendurou-se no escadote, esticou-se, estendeu as mão até onde podia e tacteou à sua procura, não foi fácil encontrá-lo à primeira.

Subiu mais um degrau e deparou-se com a confusão mais ou menos organizada daquele armário poucas vezes visitado e onde, de tudo um pouco, lá cabia.

Levantou duas ou três caixas e, finalmente, deu com ele, ainda na sua caixa original, já um pouco gasta e maltratada pelos anos mas ainda completo.

Era um pinheirinho pequeno, não teria mais de oitenta centímetros de altura, tinha, no entanto, uma característica que o diferenciava da grande maioria dos pinheiros de Natal, este já tinha criado duas crianças.

Foi um pinheirinho comprado com muito carinho e amor para ser decorado e iluminado nos dias de Natal que aí viriam, sempre na perspectiva de que à sua volta se iria enchendo de presentinhos para aquelas duas crianças.

E assim, o pinheirinho, passou a ser, anualmente, uma companhia indispensável.

Pequenino mas de porte erecto com os seus raminhos estendidos e prontos a receber todos os enfeites de que o gostavam de carregar.

E era vê-lo depois de pronto, tão engraçado na sua pequenez, fazendo inveja aos de grande porte que o olhavam até com alguma sobranceria, ele não se importava.

O importante para o pinheirinho era o facto de, apesar de pequenino, ter cumprido sempre, com distinção, a missão para que foi adquirido.

As suas luzinhas brilhavam pela noite dentro e, quando o tempo de iluminação e o peso dos enfeites era grande, piscavam, uma aqui outra acolá e lá iam alegrando uma noite que esperava sempre festiva.

Em algumas alturas, quando os seus companheiros de alegria ainda eram pequenos, os presentes chegavam a tapá-lo por completo, as embalagens amontoavam-se à sua volta subindo em cascata até que atingiam alturas maiores que a do próprio pinheirinho.

Nunca se importou, sabia que se isso acontecia era porque a felicidade daquelas crianças estava assegurada quando se aproximassem dele e deparassem com tanto presente, e piscava, piscava ainda mais, abanando os seus frágeis raminhos repletos de guloseimas.

Pegou nele com carinho, retirou-o da caixa onde se aninhava durante todo um ano, saindo uns dias para nos alegrar e logo depois voltando ao seu isolamento.

Olhou-o, esticou-lhe um raminho, depois outro, e mais outro, esticou-os todos, calçou-o com as suas sapatas de equilíbrio e uma pontinha de comoção o invadiu deixando-o por momentos ausente do mundo.

Aquele era o pinheirinho que acompanhou todos os natais dos seus filhos, aquele era o pinheirinho que foi o seu companheiro de alegria e felicidade durante tantos anos, aquele era o pinheirinho que os acompanhou até à maioridade e mesmo depois disso.

Como pude ser tão egoísta ao ponto de pensar em substituí-lo por outro, renegando-lhe o direito a esta velhice já mais calma e sossegada, porventura com menos embalagens à sua volta mas com os seus meninos a, pelo menos, visitá-lo nestes dias festivos.

Abraçou-o, enfeitou-o, iluminou-o, e preparou-o para a sua soberba função de dar alegria sem nada pedir em troca.

Por fim, informou-o que já não eram só os seus meninos que tinha de alegrar.

Um dos seus meninos já tinha, também uma menina, Carolina de seu nome, sua nova amiga, e um dos presentes lhe pertenceria e a recentemente chegada Margarida, que ainda nada apreciaria, mas não deixava de ter também uma pequena lembrança.

Olhou-o por entre os seus raminhos, quase notou uma certa flexão no raminho mais alto, de satisfação, pensou, as luzinhas acenderam-se e, estava quase certo, brilharam mais ainda desta vez.

Nunca mais terá outro pinheirinho, pois este, velhinho mas conhecedor deste mundo de festa natalícia, vai continuar a sua função, agora também, alegrando a Carolina e a Margarida. 


publicado por: canetadapoesia às 22:59
link do post | comentar | favorito

Aos amigos neste Natal

 

Mesmo quando dizemos que estes são dias como os outros, que nada há de diferente e que até incomoda tanta azáfama nesta quadra, não deixamos de a sentir e de reviver outras quadras que, como esta, também passarão assim que se fechar a última luzinha brilhante da última iluminação natalícia.

 

Por isso, aqui quero deixar os meus votos também. Não o farei individualmente, tarefa demorada dado o interesse em chegar a todos, assim fica mais abrangente e com possibilidade de todos neles se enquadrarem.

 

Quero agradecer a todos os amigos, os actuais, os novos que aí virão e mesmo àqueles que o foram e deixaram de ser por motivos que só a eles dizem respeito, mas com grande mágoa minha.

 

A todos, mas mesmo a todos, desejo umas boas festas, um Natal feliz e que o ano novo traga alguma coisa de verdadeiramente nova e nessa coisa que desejo, incluo a amizade. A amizade que é talvez, na minha modesta opinião, a coisa mais importante do mundo. A amizade não se compra nem se vende, dá-se.

 

De livre vontade nos entregamos aos amigos e deles fazemos uma parte importante da vida, da nossa e da deles. De livre vontade nos afastamos de alguns e que pena que isso aconteça, estaremos a destruir parte do nosso ser, parte da nossa alegria, parte da nossa vida. Uma amizade que se perde é menos uma luzinha brilhante em cada novo Natal e eu quero a minha árvore bem iluminada. Da mesma forma, alguns se afastam de nós, quantas vezes por motivos fúteis, mas a vida é assim mesmo.

 

Tenham uma noite de consoada bem junto de todos os que vos são queridos e que este Natal nos traga a paz e felicidade de podermos lembrar-nos que, embora noutros locais, teremos os amigos a comungar da mesma felicidade.

 

Boas festas para todos, amigos próximos, afastados, menos amigos e futuros amigos, nesta ou noutras terras que o mundo é cada vez mais pequenino. 


publicado por: canetadapoesia às 11:32
link do post | comentar | favorito
Sábado, 21 de Dezembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Afastou-se para o lado, ela entrou e deu uma rápida vista de olhos ao quarto, tudo arrumado, cama feita, roupa nos armários, gostou do que viu e olhando para ele sorriu-lhe. Um sorriso de dentes brancos saiu-lhe da cara e foi então que ele, pela primeira vez reparou bem nela, uma mulher ainda jovem, vestida despretensiosamente mas elegante, um corpo firme e sem nenhum dos efeitos da idade ainda a passar-lhe por ele, uns lábios grossos e brilhantes, mercê do batom contra o cieiro, estatura um nadinha superior à média, podia dizer-se que era alta, quase à sua altura, Meia de Leite gostou do que viu e não deixou de ter uns pensamentos pecaminosos, mas não estava em posição de os demonstrar. Vamos que temos muito para andar hoje, diz ela, é melhor agasalhares-te que o dia está frio e leva o guarda-chuva que está tempo de molha.

Agasalhares-te, tratou-o por tu, esta gente é mesmo diferente, ganham logo um à-vontade com as pessoas que nos deixam atordoados. Antes de mais, deixa-me apresentar-me que ontem nem falámos com tempo para isso, sou a Jeanne e vou estar contigo durante uns dias para te ajudar a tratar de tudo, depois, quando ficares à tua conta, ainda poderás contar comigo, para isso deixo-te o meu contacto e assim poderás em qualquer altura ligar para mim, estarei sempre à disposição para o que necessites. Sei que é sempre difícil adaptarmo-nos a um novo país, mas vais ver que consegues e ainda vais ser feliz aqui.

Sou o Meia de Leite, desculpa, este é o nome por que era conhecido pelos meus amigos, todos tínhamos alcunhas, na verdade eu chamo-me Josué, eu sei, é um nome bíblico, não gozes, foi assim que os meus pais me baptizaram, titubeou no seu ainda hesitante francês. Não te preocupes, não te ia gozar, é um nome bonito, e sorriu-lhe de novo. Vou só vestir o blusão e podemos ir, vais-me contando o que preciso saber, como me orientar, onde arranjar trabalho, enfim, tudo o que é necessário para ser quase um cidadão Belga.

É para isso que eu estou aqui, para te dar uma ideia do que é e como funciona este país, pode nem parecer, mas até funciona bem. Vais ficar a saber o que for necessário e se mais alguma coisa houver a saber basta que me contactes, quando quiseres, a qualquer hora, estarei disponível. Soou-lhe bem aquele “a qualquer hora estarei disponível”, veio de África, é certo, mas aquela cabecinha formatada com o espírito africano e o latino, já fervilhava de ideias menos católicas. Deixou-a sair à sua frente, não por deferência e educação, que também o faria por isso, mas para puder apreciá-la enquanto se movia para fora do apartamento, gostou do que viu e imaginou-se já com namoro a uma rapariga do país e, quem sabe, a ter os seus descendentes de uma ligação a uma destas moças, tão diferentes mas tão bonitas."


publicado por: canetadapoesia às 22:55
link do post | comentar | favorito

Encontro com a Luz

 

Primeiro estranhou. A chuva não era assim tão intensa, podia mesmo dizer-se que era uma chuva mansa, calma, sossegada e própria para os dias como este. Depois, apesar desta chuvinha, do canto onde se abrigava conseguiu distinguir uma estrela a despontar no céu azul negro que vislumbrava para lá dos pingos de chuva.

 

Pensou que, eventualmente, a chuva só estava a cair para limpar os céus da poluição acumulada e permitir-lhe neste dia, em que a solidão mais se fazia sentir, ver a abóbada celeste, não em todo o seu esplendor, mas no possível já que visto de uma cidade cuja feérica iluminação, para as comemorações da época, pouco deixavam à vista para apreciar a criação do universo, mas assim, sentir-se-ia mais acompanhado.

 

Num relance de vista, entre a queda das gotas de chuva e uma abertura no céu, distinguiu claramente a via láctea. Engraçado, não se lembrava de alguma vez a ter conseguido ver nesta cidade. Mas lá estava ela, bela, resplandecente e cheiinha de estrelas, pequeninas, maiores, planetinhas minúsculos, à vista desarmada, que no seu conjunto permitiam um espectáculo único e imperdível, a via láctea, quem diria.

 

Com estas apreciações e circunspecções à roda destas pequenas maravilhas, mal tinha dado pelo terminar da chuva. Levantou-se, aproximou-se mais do passeio e experimentou a sensação do ar fresco acabadinho de ser molhado pela chuva.

 

Continuou a apreciar o céu e a via láctea que a achou mais bela do que quando a viu a primeira vez numa quinta de um parente, há muito desaparecido, para o interior do país e nas planícies do Alentejo.

 

Perdido na sua contemplação foi andando rua acima de cabeça no ar sem querer perder nada deste encanto de ser iluminado pelas estrelas e ter a via láctea como auto-estrada. De tempos a tempos uma estrela cadente passava rapidamente, cruzando o céu e correndo como que paralela à via que ele seguia com o olhar e agora também no caminhar.

 

Estranhou que todas estas forças se tivessem juntado para lhe prestar esta homenagem numa noite tão fria mas também tão festiva, era Natal. O seu não seria diferente de tantos outros ou mesmo dos outros dias, mas era um dia especial, um dia em que tudo poderia acontecer, e aconteceu.

 

Aconteceu que na sua contemplação lhe pareceu ver uma descida da via láctea no preciso local onde as estrelas também pareciam cair. Quase diria que se juntavam num só ponto de onde, aliás, irradiava uma luz muito mais brilhante que a de qualquer estrelas.

 

Quis averiguar, saber o que era, o que acontecia naquele preciso ponto e ao caminhar olhando o céu e o ponto luminoso distante, que sentia cada vez mais perto, não e deu conta que já não caminhava sozinho, atrás de si já havia uma pequena multidão de caminhantes, todos olhando o céu e as estrelas, todos dirigindo-se ao ponto luminoso.

 

Finalmente deparou-se com o local exacto onde lhe pareciam cair as estrelas e a própria via láctea. Por momentos hesitou, não lhe parecia nada de anormal, nada fora do comum, nada que não estivesse habituado a ver. Um armazém, era o seu aspecto, nada mais que um armazém, embora com alguma diferença dos que conhecia no dia a dia da sua vida de caminhante da rua.

 

Este estava iluminado, cheio de gente a entrar pela porta, na qual, algumas pessoas convidavam outros a entrar. Aproximou-se mais, mais e mais e pode apreciar a azáfama que se vivia no seu interior. Mesas postas, enormes mesas, compridas, onde pessoas sentadas aguardavam uma refeição que outra quantidade de gente se afadigava em servir.

 

Uma refeição quente, pensou, que bem lhe saberia.

 

E entrou, sentou-se onde lhe indicaram, serviram-lhe a refeição quentinha e fumegante.

 

Afinal, pensou com os seus botões, a via láctea apareceu-lhe com o propósito de lhe proporcionar uma noite diferente, uma noite melhor e acompanhado pela quantidade de conhecidos, desconhecidos que se sentavam à volta da imensa mesa. A sua mesa de Natal.

 

Naquele ponto, como outrora a estrela indicara o nascimento do menino, juntaram-se as estrelas para indicar que o menino estava ali também, metamorfoseado de tanta gente boa que lhe seguia os passos na ajuda aos seus semelhantes.

 

Foi uma noite diferente. Foi uma noite que perdurou pelos anos seguintes e em que, cada uma das noites que se lhe seguiu, permitiu ver a via láctea a indicar-nos um caminho, qualquer que ele seja, um caminho de encontro ao nosso semelhante. 


publicado por: canetadapoesia às 12:11
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

Hipotético Manifesto Eleitoral a uma presumível candidatura

 

A este povo que me apresento como candidato, tenho o dever de informar que:

 

- Não me sinto coagido por qualquer partido do arco existente no país ou estrangeiro.

 

- Não comungo de nenhuma ideologia ou doutrina ideológica conhecida por aqui embora defenda a matriz Social Democrata do tipo dos países nórdicos.

 

- Não estou arreigado a nenhuma ordem de suposto controlo do País ou do mundo.

 

- Não estive nunca presente, nas conferências de bilderberg, para delinear o mundo segundo matrizes próprias do capitalismo selvagem.

 

- Não sou membro da maçonaria.

 

- Não pertenço a grupos organizados de defesa do capital ou contra ele.

 

Posta esta pequena nota introdutória, para esclarecimentos que se fazem importantes, uma vez que os média vão certamente rejubilar em me chamar tudo e mais alguma coisa e sobretudo criar-me riquezas que não tenho e parcerias de que não faço parte, passo a descrever, sucintamente a meta a que me proponho como candidato.

 

Pretendo viver naquilo a que se chama uma Pátria, a minha, Portugal, sabendo de antemão que anda esquecida como tal, ou somente utilizada nos grandes eventos futebolísticos.

 

Para tanto proponho-me criar o amor e carinho por esta Pátria milenar, que deu mundos ao mundo e de que os nossos filhos pouco conhecem ou nada mesmo.

 

 

 

Em matéria de ensino:

 

É na escola que se começa a moldar o espírito e a alma portuguesa, é nessa escola que vamos envidar esforços para que se revejam como filhos da sua terra.

 

Para que isto aconteça, vamos:

 

- Prestigiar os nossos mestres, professores que se formam em Universidades Nacionais preparados para dar aulas.

 

- Preparar os alunos para a vida e o mundo, segundo a cultura enraizada nesta mesma Pátria.

 

- Não vamos fazer exames aos professores, porque eles já os fizeram durante todo o seu percurso escolar, já provaram que são válidos e prontos a ensinar.

 

- Terminar de imediato todo o imenso apoio e desperdício económico com a participação em escolas privadas. São autorizadas e cada um escolhe o que melhor lhe convier mas sempre com dinheiros privados e nunca com apoio do Estado.

 

- Criar condições para que nenhum aluno fique sem escola por viver longe dela, nomeadamente através de um parque de transporte escolar a gerir pelas autarquias.

 

- Criar condições para que os alunos tenham sempre uma refeição na escola, a meio do dia, bem como um lanche no intervalo da manhã e no da tarde, sem necessidade de sair dela senão quando regressam a casa.

 

 

Em matéria económica:

 

Proponho-me revitalizar todo o tecido económico do País.

 

- Pela agricultura, tão abandonada durante décadas.

- Pelas pescas que mal utilizam a extensa zona económica que nos é afecta.

- Pela indústria que tem sido desbaratada, com especial cuidado para a indústria naval de que somos herdeiros históricos e de que tanto necessitamos para vigiar as nossas costas e equipar a nossa marinha, a de guerra e a mercante, esquecida já pelos tempos desta modernidade.

- Pela do têxtil e calçado com que vestimos e calçamos o mundo da moda e todos os outros e em que damos cartas em inovação e design.

 

 

Em matéria financeira:

 

Reorganização das finanças da Pátria com base em transformações estruturais a saber:

 

- Terminar de imediato com a ajuda e subsídios a todos os partidos políticos. Têm de fazer política com o seu próprio dinheiro, proveniente das quotizações dos seus militantes, e não com dinheiros públicos, de todos os cidadãos, que serão melhor utilizados em outras aplicações do Estado.

 

- Liquidar de vez as denominadas parcerias Público Privadas (PPP), por se terem mostrado um autêntico sugadouro do erário público, dinheiro dos cidadãos ao cuidado do Estado.

 

- Nacionalizar todas as empresas de carácter estratégico para o futuro do País, água, gás, electricidade. Poupando milhões de euros de desperdício com o pagamento de rendas.

 

- Eliminar todos os milhentos impostos que só criam confusão, arbitrariedade e impedem a transparência da governação financeira.

 

- Taxar os cidadãos a partir de um único e justo imposto, o IRS, cujos escalões variarão de acordo com os rendimentos a estabelecer, de modo a que cada um saiba sempre o que tem por obrigação pagar sem que o Estado o engane. A partir deste único imposto se transferirão as verbas necessárias às autarquias para impostos de imóveis, taxas de esgotos e outras mais que por aqui pululam.

 

- Eliminar as enormes frotas de automóveis que enchem os passeios frente aos vários ministérios e que não são essenciais ao seu funcionamento. Só automóvel para o ministro, os demais utilizarão uma viatura sempre que o solicitarem ao organismo responsável pelas viaturas do Estado e nunca para fins privados, levar os filhos à escola ou as mulheres às compras. Todas as viaturas do Estado ostentarão em local visível uma placa de dimensões adequadas para que se saiba que são propriedade do Estado, portanto, dos seus cidadãos.

 

- Eliminar de imediato todos os subsídios que o Estado dá a Fundações, Institutos e outros que tais. Há liberdade para se criarem mas sempre com dinheiros privados e jamais com o dinheiro do Estado, bem como cartões de crédito atribuídos a quem deve gerir o dinheiro público com sabedoria e parcimónia e não utilizá-lo em proveito próprio.

 

- Prestigiar as nossas forças armadas e policiais que tanto têm dado ao País em situações bem difíceis.

 

- Restabelecer as carreiras do funcionalismo público, já que são servidores do Estado e dos cidadãos em moldes funcionais efectivamente decorrentes do mérito na sua ascensão como sempre deveria ter sido. Terminamos com os lugares especiais para gente que os partidos lá colocam, para garantir empregos e benesses que os cidadãos têm de pagar, sem conhecerem os serviços e as suas funcionalidades e responsabilidades perante o País.

 

- Quanto à Segurança Social, garantir uma reforma/subsistência única de molde a que nenhum cidadão fique privado dos meios mínimos de sobrevivência. Determinar um tecto máximo, para que não haja os abusos a que estamos habituados e permitir também a sua sustentabilidade.

 

- No que respeita à saúde, será grátis e universal. Os Hospitais Públicos devem ser providos de meios e equipamentos que impeçam a utilização de hospitais privados, que podem existir mas sem terem de ser sustentados pelo Estado.

 

Em matéria de justiça:

 

Serão revistas as leis do País que, por serem tão deturpadas ao longo dos tempos com adendas e outras tropelias, já não servem a justiça e entopem desnecessariamente os tribunais.

 

Não admitiremos atrasos dos tribunais, já que quem os serve, serve também este povo, como tal tem de ser responsável pelos processos que tem em mão e resolvê-los em tempo oportuno.

 

Já vai longa a intenção e alguns dirão irrealista. A minha resposta é organização, responsabilidade, respeito pelos cidadãos e contenção nas despesas supérfluas.

 

E de onde vem o dinheiro? Perguntarão, a minha resposta é só uma, dos impostos cobrados através do IRS que será aumentado, naturalmente, pela eliminação de todos os outros com que nos têm mimoseado.

 

Tudo isto se fará com tempo e sem retroactividade. Vale como todas as leis de um Estado de direito, a partir do momento em que são definidas as regras.

 

É este o meu hipotético manifesto.

É para cumprir sem desvios ao objectivo final, tornar este País numa Pátria onde todos caibam, mas todos cumpram sem necessidade de fugas ao fisco e quejandas.


publicado por: canetadapoesia às 20:51
link do post | comentar | favorito

Presépio

 

Este ano vou fazer um presépio diferente.

 

Limitei-me a manter Maria, José, o menio e uma ovelhinha e explico porquê.

 

O casal e o menino porque representam o verdadeiro espírito desta noite sagrada de Natal.

 

A ovelhinha que aqui representa a inocência de todos os que ainda têm a faculdade de acreditar em promessas incumpridas.

 

Retirei os três reis magos por razões de equidade, tinham de sair os três.

 

O do ouro, porque quanto mais nos ofertar maior a nossa dívida, está inversamente proporcional à oferta.

 

O do incenso, porque era um esforço desnecessário estar a tentar fazer com que isto cheire melhorzinho quando cada vez é mais nauseabundo.

 

E o terceiro, o Gaspar, para não ofertar mais mirra que mirrados já estamos nós e era por demais acintoso juntá-lo, neste momento, à família sagrada.

 

Por uma questão de equidade.


publicado por: canetadapoesia às 12:07
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2013

VENDO SONHOS, VENDO O MEU SONHO PARA QUE OUTROS POSSAM SONHAR

 

Nunca dei por mim com inclinações especiais para ser um grande vendedor e por isso, talvez mais por isso que por outra qualquer coisa, sempre procurei comprar e guardar, dar quando se tornava necessário, mas nunca vender.

 

É que não tenho mesmo jeito para vendedor.

 

Só que, para minha desventura, e grande gáudio de quem nos governa, vou ter que fazer uma perninha nesse negócio, vou tentar vender.

 

O que eu vendo? Perguntarão com toda a razão, nada de especial, não são produtos de beleza, nem de emagrecimento rápido, não são gadgets da moda nem sequer produtos alimentares, nada disso.

 

O que eu vendo, são sonhos.

 

Aliás, o que eu quero vender. Porque como disse não sou, nunca fui, nem tenho vocação para vendedor, mas tenho de vender um sonho.

 

Só tenho de vender um que até é dos que me são mais caros, tanto emocional como psicologicamente e, claro, porque se torna materialmente necessário.

 

Os sonhos não se vendem, dirão alguns, e eu até concordo, porque vender um sonho é perder parte da vida. Se o vendo ficarei mais pobre espiritualmente, eu sei, mas a necessidade física obriga o emocional a restringir o espiritual ao simples olhar de longe depois do sonho ter ganho outras asas.

 

Vendo um sonho. Vendo sonhos do sonho.

 

Sonhos do sonho? Sim, dentro de um sonho outros sonhos se apresentam e deslumbram o brilhar do nosso olhar e sonham, com sonhos melhores que os que os olhos vêm mas que a alma procura maiores.

 

Vendo pois, o meu sonho, aquele que me tem enchido de sonhos. Por isso lhes digo que vendo um sonho de sonhos.

 

O que vendo materialmente é um barco.

Com 6,7 metros, para aí 22,5 pés, de sonhos ao comprido, acabadinho de fazer a inspecção válida até 2018, impecável no trato, excelente na navegação.

 

Nas suas velas novas, dança o vento. Enche a vela grande, arredonda a  genoa. Enfuna-as e com um ligeiro gemido e inclinação contrário ao vento que o açoita, quando dou por ele, desliza sobre as águas deste rio que deu mundos ao mundo mas que se sente incapaz de me guardar nas entranhas o sonho que era meu.

 

Alforreca II, assim baptizado, motor de popa de 5 cavalos a quatro tempos, ferro de proa para admirar paisagens em qualquer canto onde possa ser largado, para um descanso aprazível. Mesa de poço para os almoços, frugais, que se façam a bordo, toldo de cobertura de poço, para que o sol não nos derreta os miolos nos verões da nossa vida.

 

Quando o vento não abunda, enche-se a spinaker, simétrica, ou pode até ser a assimétrica, que depende da ocasião, sim, são aquelas velas enormes que se elevam na proa da embarcação, vulgarmente cheias de vida e cor a condizer com a satisfação de quem as utiliza.

 

E quando a água apetece, uma escada de casco para o regresso a bordo após o mergulho retemperador e refrescante.

 

Enfim, um sonho de tantos sonhos.

 

Porque não posso continuar a sonhar, que o meu País de marinheiros que desbravaram os oceanos agora se encalha em qualquer baixio da política de gente sem sonhos, e não me permito o abandono de um sonho que pode deixar outros sonhar, porque acredito voltaremos a sonhar como povo e como País.

 

Está à venda o meu sonho.

 

E por uma quantia irrisória face aos sonhos sonhados, € 7.500,00, chave na mão.


publicado por: canetadapoesia às 20:09
link do post | comentar | favorito

.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Seguir meu perfil

. 15 seguidores

.Pesquisar

 

.Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Posts recentes

. Orgulho

. 10 de JUNHO

. A república revisitada

. Consoada numa terra dista...

. Finalmente juntos (39º Ca...

. Encontro ao fim da tarde ...

. Num país diferente (37º C...

. Sobrevivência (36º Capítu...

. Evolução na confusão (35º...

. Preocupação (34º Capítulo...

.Arquivos

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Agosto 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

.Links

SAPO Blogs

.subscrever feeds