Terça-feira, 15 de Outubro de 2013

A geração seguinte

 

Noite avançada já, três horas e picos da madrugada, o silêncio da rua era absoluto. Aqui e ali ainda se vislumbravam ténues luzinhas anunciando os tardios dorminhocos.

 

A pacatez e o silêncio da noite foram, repentinamente, quebradas pelo som saído de potentes altifalantes instalados em minúsculos automóveis.

 

Chegaram e fizeram-se anunciar, levando a que alguns adormecidos e outros não tanto, se abeirassem das janelas tomando conhecimento do sucedido. Alguns, certamente, julgaram tratar-se de um comício tardio, já que estamos em época de campanha eleitoral, mas não, era somente um ajuntamento de dois automóveis com quatro pessoas cada um.

 

Jovens, despreocupados com quem àquela hora já repousava de um dia de trabalho, ou não, mas eram tardias as horas e não apropriadas a tanto ruído. Vinham certamente de uma das noitadas de véspera de fim-de-semana que começa cada vez mais cedo e não se coibiram de o mostrar, anunciando-o aos quatro ventos.

 

Arrumaram os automóveis, parqueando-os correctamente em local apropriado, sem mácula, lado a lado, de forma a que, abrindo as janelas, pudessem cavaquear uns com os outros sem saírem dos assentos em que se encontravam mas, ao mesmo tempo, obrigando a que o som da música ritmada e batuqueira invadisse ainda mais os ares até aí sossegados incomodando de forma audível todos quantos desejavam não a ouvir.

 

Acenderam as luzes interiores e desembrulharam os sacos de papel de que cada um era portador, refeições Mc Donald’s, espalharam o conteúdo pelo tablier do automóvel e iniciaram o que seria um festival de dentadas em hambúrguer recheado de molhos e ingredientes impróprios para qualquer colesterólico, beberam cerveja, em copos plásticos, e terminaram com sobremesa, da mesma cadeia já se vê, gelados servidos em copos plásticos.

 

Terminado o repasto mantiveram-se estacionados em conversas cujo nível audível se sobrepunha às janelas de vidro duplo, penetrava-as e impedia qualquer tentativa de conciliar um soninho leve que fosse, fumavam um cigarrinho retemperador do esforço de tanta dentada em carne mole.

 

Mas a coisa não se ficava por aí. A cerveja, conhecida como muito diurética, acabou por fazer valer os seus direitos e, vai daí, sem WC por perto, nada melhor que dar largas a tanta necessidade, em plena rua. Quem sofreu foi o contentor de reciclagem do vidro que se mantinha mudo e quedo junto ao automóvel das criaturas.

 

De um dos automóveis saíram quatro e em cada um dos cantos do contentor esvaziaram o que havia para deitar fora. Do segundo automóvel também saíram quatro, o problema do local de despejo estar ocupado pelos quatro anteriores foi prontamente resolvido pela proximidade de uma carrinha de transporte de crianças. Os quatro pneus foram bafejados com o despejo quente da cerveja que estava mortinha para vir cá para fora.

 

Festa completa, pessoal satisfeito e aliviado toca a andar para a caminha que são horas de dormir. Claro que esta saída tem que se lhe diga. Ainda dentro dos automóveis, não estiveram com meias medidas e despejaram o que restou da festa em plena rua, ali, no chão, mesmo ao lado da porta dos automóveis, mesmo que à distância de meia dúzia de passos estivesse um contentor de lixo pendurado no candeeiro que lhes dava luz. Não isso era andar muito, isso cansava demais, ali mesmo no chão é que era, e assim foi. Alguém havia de vir limpar.

 

O que retiro de importante nesta estória, há sempre algo a retirar de qualquer estória, é que finalmente conseguiria dormitar um pouco e, afinal, o incómodo não tinha sido tanto que me pudesse aborrecer, sabendo que este pequeno sacrifício era em prol de algo maior, algo que até era um imperativo nacional, fazer a felicidade da nossa juventude.

 

A tal juventude “nem, nem” segundo um artigo do jornal expresso, “nem emprego, nem estudo”, ao que eu acrescentaria, porque sou atrevido, mais dois “nem”, ou seja, “nem emprego, nem estudo, nem educação, nem princípios”, mas é mania minha, não levem muito a sério.

 

Afinal estamos a falar da geração seguinte, aquela que irá, um destes dias, definir o rumo e assumir a responsabilidade de dirigir o país.


publicado por: canetadapoesia às 10:10
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Catatustão um país irreal

 

Parecia destinado a grandes realizações, a desenvolvimentos impares na história da humanidade e a grandes feitos na própria história do país. País de grandes tradições com largas centenas de anos de existência, no limiar do milénio, fazendo até inveja aos grandes impérios romanos da história nem Alexandre o Grande o conseguira.

 

Monarca desde nascença, mudou de opção e passou a ser república por mor de ser melhor servido o povo que a compunha. Desde esta altura se sucederam períodos de acalmia seguidos de outros de grande algazarra e fervor revolucionário, sempre em nome do povo do país que ansiava por melhorias no seu modo de vida.

 

Mas o Catatustão não estava quieto, havia sempre alguém que não estava satisfeito e que bramia aos céus a sua ira por haver aqui, num país tão pequeno, tantos que se limitavam à actividade mais lucrativa e conhecida no país desde os seus primórdios, a caça ao tostão, daí se ter baptizado como a república do Catatustão.

 

O tal povo que ansiava por melhorias ia sendo continuamente ludibriado por palavras e discursos inflamados, sempre em seu nome e pela sua melhoria de vida. De cada vez que havia uma revolução, era certo e sabido que os catadores de tostões aumentavam e aumentava também o seu pecúlio pela forma e das maneiras que mais facilmente o conseguiam fazer, através de esquemas, sempre legais, intocáveis pela justiça que sofria cada vez mais do mesmo mal do país, incapacidade de dar resposta a tantos pedidos.

 

O povo, essa anónima massa de gente que se aglomerava por tudo e por nada, seja para pagar impostos, tão necessários no Catatustão, seja por necessidade de votar, dando credibilidade ao que se chamava democracia, governo eleito pelo povo e em que o povo mais e melhor escolhe, seja para se fazer transportar para os seus locais de trabalho, em transportes públicos, já se vê, que não havia dinheiro para gastar em gasolina tão cara.

 

Talvez por isso as enormes auto-estradas do país estavam reservadas aos potentíssimos automóveis dos catadores de tostões que justificavam, assim, a sua existência. Certo é que eram construídas para melhorar as acessibilidades, diziam, certo, também, é que cada vez menos eram utilizadas por aqueles para quem foram criadas.

Neste entretanto, resolveu-se também que um meio de transporte tão arcaico como o caminho de ferro, os comboios de que todos se lembravam e que ainda levavam alguma alegria ao interior do Catatustão, deveriam ser abatidos ao efectivo pois o automóvel substituiria mais facilmente este atrasado transporte.

 

Esqueciam-se da enorme factura que esta república tinha de pagar por cada litrinho de crude que importava e eram uns milhões muito grandes. Assim, as contas do défice externo, estavam irremediavelmente contaminadas por dívida constante, consecutiva e galopante. Os que levantavam a voz para tão grande despesismo com estas despesas e com os faraónicos investimentos públicos em grandes obras, eram rápida e eficazmente qualificados como atrasados, avessos à mudança e retrógrados que mais não queriam que manter o atraso do país.

 

Chegou um dia em que os reinos vizinhos e as repúblicas que lhe prestavam assistência começaram a recear pelo pagamento das enormes dívidas que o Catatustão contraía quase semanalmente. Para animar o povo, faziam-se declarações pomposas, designavam-se os credores como algo de malévolo que só queriam o mal do Catatustão e dos seus inúmeros catadores que se começaram a sentir acossados de tão magra recolha e de tão mal agradecidas que eram estas gentes da república. Deram agora em pedir responsabilidades por dinheiros públicos mal gastos, por danos à gestão da coisa pública e pelo desaparecimento de grandes quantidades deste bem tão escasso.

 

Estava o povo em alvoroço, descrente, sem perspectivas e quase inerte de tantos impostos pagar tendo tão pouco para se alimentar. Só viam uma saída voltar ao que outrora fora uma chaga no país, regressarem à emigração. Havia um pequeno problema, agora, a emigração já não se fazia só de gente que trabalhava sem qualificações, a emigração agora era de luxo, gente formada nas melhores universidades do país que iam pôr o seu conhecimento, a sua arte e a sua força de trabalho a render para outras repúblicas que não só as apreciavam como ainda as procuravam.

 

O Catatustão ia ficando cada vez mais pobre, cada vez mais triste, cada vez mais vazio.

 

Os catadores de tostões estavam a entrar em pânico, onde iriam catar se o país se desmoronasse?


publicado por: canetadapoesia às 00:53
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Segunda-feira, 14 de Outubro de 2013

Os novos pastores

 

Nada é como era, tudo está em mudança, a grande verdade é que se esta mudança é reconhecida como algo de novo, algo dos tempos que vivemos agora, já, também não é menos verdade que já era cantada pelo grande poeta português Luís Vaz de Camões.

 

Dizia ele uns séculos atrás, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades”, sabia-a toda este Camões e só via de um olho, se tivesse os dois não sei não.

 

Mas o que me interessa é a observação que faço da actualidade, embora não esqueça este génio. O que observo é uma grande mudança em todo o ambiente que nos rodeia, desde o trabalho às relações entre as pessoas, tudo tem mudado, tudo está em constante mudança.

 

Vem esta estória da mudança a propósito de pastores, admirados? Pastores pois, como não podia deixar de ser também eles a verem a mudança a acelerar à sua volta e tudo se alterar. Pastores que se têm adaptado aos novos tempos, têm telemóveis, utilizam veículos todo-o-terreno, enfim modernizam-se.

 

O que espanta não é os pastores estarem em mudança, é que as ovelhas também estão e onde havia uma ovelha ranhosa num rebanho, agora poderá haver uma única ovelha não ranhosa num rebanho de ovelhas ranhosas.

 

Trocadilhos estranhos mas reais, senão vejamos o que acontece ao pastoreio nas ruas das nossas cidades.

 

Começa por se acumular o rebanho, vindo dos pontos mais dispares do país, num local ermo, de preferência, juntam-se naquilo que se vulgarizou chamar de um quadrado e, depois de todo reunido, leva-se então o rebanho a pastos frescos.

 

Os pastores, esses estão pejados de tecnologias modernas.

 

Têm radiocomunicações espetadas nos ouvidos para se entenderem uns aos outros, vestidos a condizer, como todo o bom pastor, roupas negras, capacetes azuis com viseira anti-quebra, calçam botas e usam caneleiras e joelheiras de couro reforçado, ombreiras de igual confecção, tudo para evitar alguma marrada na certa que, por vezes, as ovelhas tresmalham-se e toca a marrar contra tudo o que encontram pela frente.

 

Mas não é tudo, também carregam um círculo de um material inquebrável que lhes serve de escudo protector, se as ovelhas ranhosas investem na sua direcção. Na mão levam um cassetete, negro, feito de qualquer coisa que depois de forrada, também, a couro quando cai no lombo das ovelhas ranhosas é vê-las a saltar de alegria por terem o pastor por perto.

 

E lá vão no tal quadrado em direcção ao pasto, todos juntos a cantar de tanta alegria e felicidade sem que nenhuma, mas nenhuma ovelha ranhosa se atreva a sair do tal quadrado. Se tiver o atrevimento de o fazer logo lhe caem em cima uma data de pastores a ensinar-lhe po caminho de regresso ao quadrado.

 

Não me admira que os pastores se adaptem aos novos tempos e às tecnologias ao seu dispor, já me assusta ver tantas ovelhas num quadrado cantando alegremente. Será que a teoria de Darwin está correcta e as espécies evoluem de forma diferente? Umas mais lentas que outras?

 

Tanta ovelha, tanta ovelha ranhosa. Não imaginava que ainda houvesse tantas depois de tanta mudança à nossa volta.

 

Que pena as ovelhas não evoluírem mais depressa, talvez não fossem precisos tantos pastores.


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Domingo, 13 de Outubro de 2013

Do porquê de um Lisboeta defender uma candidatura Portuense

 

Algo estranho se passa, dirão alguns dos mais desconfiados desta urbe mais a norte.

 

Mas não há nada de estranho, basta olhar para a história e verificamos da importância que o porto sempre teve na história de Portugal e eu que sou um dinossauro excelentíssimo por achar que o futuro não existe se não considerarmos o passado como um meio de lá chegar, não a desdenho e pelo contrário exalto-a.

 

Pois sim, Rui Moreira, de que acabei de ler no jornal Público de hoje, um texto notável sobre a sua vida, não, não sou um voyer da sua vida, mas surgiu-me no jornal de que há anos faço parte do meu domingo, e que afinal não esmoreceu o meu apreço por ele.

 

Desde que se começou a esboçar a sua candidatura, e honra seja feita a Rui Rio, que de longe a propiciou, com o recato que é devido aos grandes homens deste País, logo me atirei à sua defesa, mesmo sendo Lisboeta.

 

É que as minhas raízes são nortenhas, ou não tenha eu um Amorim no nome, e um Carvalho das terras de Trás-os-Montes mais precisamente daquela onde mais judeus se refugiaram e aí até questiono o meu sobrenome, Carvalho, nome de árvore, bem pode ser coincidência mas se vasculhar bem lá terei certamente uma raiz judia na linhagem.

 

Mas dizia eu que defendi e martelei a cabeça dos meus amigos portuenses, tantas vezes que certamente até já me chamavam nomes, deses em que o Porto é pródigo em divulgar, mas não me interessava, estava na minha cruzada.

 

O que é certo é que se conseguiu que fosse eleito, o grande ganhador destas eleições autárquicas, Rui Moreira. Claro que achei uma falta de elegância a sua saída daquele programa de futebol da forma como a fez, e nem sei o que ele ali estava a fazer, não cabia na personalidade que eu teimava em ver como diferente daquilo tudo.

 

De qualquer forma, esse julgamento a frio e antecipado, ao carácter do homem, não me tolheu a qualidade do pensamento e vai daí até me reforçou, vá-se lá saber porquê, esta ideia de que era o melhor candidato para o Porto.

 

Porque defendia a sua cidade, porque defendia a sua gente, que é também nossa, porque, quer se queira quer não, nos defendia também. E sobretudo e todas as coisas, era uma pedrada no charco da incompetência que ao longo destes anos tem grassado em todos os partidos do dito arco da governação, já para não falar dos outros, via ali a oportunidade de virar, de mudar as coisas e logo com um homem sério.

 

Defendi e “chateei” os meus amigos portuenses para que pensassem antes de votar, para que não se enganassem, para que não levassem para o Porto o cavalo de Tróia que vinha do outro lado do rio.

 

Posso ter influenciado ou não mas deu-me um certo gozo ver que no final, quando se apuram as contas o meu homem, aquele em que depositava confiança, aquele que me fartei de encher os ouvidos dos meus amigos, acabou por ganhar.

 

Fiquei satisfeito, fiquei mesmo feliz, e nem o conheço pessoalmente, mas o ser humano é assim, quando acredita, acredita mesmo, e eu acreditei e espero não ser defraudado nas minhas esperanças. Caso contrário, lá terei de ouvir os amigos a quem me fartei de o recomendar.

 

Agora não pensem que isto foi uma coisa de rompantes, uma estratégia de curto prazo? Não não foi não senhor. Explico porquê.

 

Acho que este País, do qual o Porto é uma referência incontornável, precisa de homens sérios, que o sirva e que não se sirvam dele, este pareceu-me ser o exemplo do que eu procurava na política.

 

Mas como sou um fanático do País, pensei com os meus botões que este, bem podia vir a ser algo mais e que bonito seria, penso eu que até tenho uma pancada considerável.

 

Creio que o próximo sapo a ascender ao mais alto patamar da Nação, tem de se transformar em príncipe, logo ao soar das badaladas da meia noite e após o beijo da sua princesa. Um daqueles em que todo o reino ria e dance de contentamento por ter chegado ao leme dos destinos da Nação, compreendendo-se a Nação desde o norte, lá para o Minho, até ao Algarve, passando pelo Porto de onde ele irá levantar ferro até à capital do País, assim o espero.

 

Temos então que nas minhas mais optimistas previsões, o próximo presidente da república terá de ser, obrigatoriamente, Rui Rio, enquanto Rui Moreira faz o seu percurso e o seu tirocínio na grande capital do norte, sendo que deverá, naturalmente, suceder ao primeiro como presidente da República, coisa que muito me agradaria e com que certamente rejubilaria.

 

E mais não digo que me alongo, mas não liguem muito, é que sou um sonhador, embora acredite que os sonhos se tornam realidade e bem espero que este siga esse caminho, basta-nos estar juntos, mais uma vez, para que ele não se perca e definitivamente, o País encontre os seus melhores filhos para o dirigirem.

 

Porque as provas dadas por estes senhores são concludentes na perícia e parcimónia com que gerem os dinheiros públicos, não tenho dúvidas que serão os melhores para acautelarem o pecúlio que tanto nos custa a pagar.

 

Quanto à cultura, falaremos noutra oportunidade, porque não esqueço a noite em que a correr, saía do meu trabalho para rumar ao Porto e ver o que se podia fazer numa cidade maravilhosa e logo por uma princesa que mora no meu coração e até é Lisboeta.

 

 

Luis Filipe Carvalho


publicado por: canetadapoesia às 16:25
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Sábado, 12 de Outubro de 2013

Dizem para aí

 

Pois dizem, enchem a boca e vociferam, acusam e atiram as pedras que hão-de cimentar a minha calçada mas que, sem cuidados especiais, podem vir a derrubar os seus telhados.

 

Dizem que sou culpado.

Porque a minha geração, a tal geração anterior às que lhe sucederam, usaram abusaram e deixaram tudo de rastos para aquelas que se seguiriam.

Dizem que sou culpado

Porque não permito que as gerações seguintes usufruam de um país evoluído e virado para o futuro em que ninguém passasse tão mal como estão a passar agora os portugueses.

Dizem que sou culpado

Porque a minha geração viveu com mais do que tinha e gastou à tripa forra sem cuidar que um dia tudo tinha de ser pago com língua de palmo.

Dizem que sou culpado

Porque em vez de arrendar casa preferi comprar, endividando-me.

Dizem que sou culpado

Porque sou reformado e sou um encargo para a segurança social.

Dizem que sou culpado

Porque beneficiei de um sistema de saúde que me protegia em caso de necessidades.

Dizem que sou culpado!

 

E sou mesmo, sabem, sou culpado e reconheço-o.

 

Sou culpado

Porque sempre me preocupei com o futuro deste país e com as gerações que se seguiriam à minha.

Sou culpado

Porque não usei nem abusei antes dei demasiado para que isto não acontecesse.

Sou culpado

Porque da minha vida de mais de quarenta anos de trabalho recebo uma miséria de reforma.

Sou culpado

Porque dos meus sessenta e tantos anos de idade pouco me restou de meninice antes do trabalho que me foi imposto por necessidades de sobrevivência.

Sou culpado

Porque parei a minha idade, como quase todos os da minha geração, contra a minha vontade, nos vinte anos e quando a retomei, aos vinte e cinco, já era velho, fiquei com a juventude cortada e suspensa por quatro anos por alegada defesa de um país que queria futuro para os seus filhos e que agora me maltrata.

Sou culpado

Porque me endividei para dar futuro aos filhos que queria que tivessem uma vida melhor e nestes, alargo o pensamento a todos os filhos de toda a gente da minha geração, com educação, cultura e também uma vida mais desafogada.

Sou culpado

Porque me endividei a comprar casa onde viver, por não haver para arrendar.

Sou culpado

Porque me reformei aos cinquenta e nove anos de idade, com quarenta e cinco anos de trabalho e descontos obrigatórios para a segurança social, impostos e tudo o mais que me foi exigido, ainda assim, forçado e empurrado pela moda de que o que era velho era para por de lado que os novos é que resolviam as coisas, está à vista o resultado.

Sou culpado

Porque também fui permissivo, eu e toda a minha geração, com as gerações que se seguiram à minha. Boa vida, poucas responsabilidades e muitas, mas mesmo muitas facilidades que a minha nem sequer sonhou ter.

 

Sou culpado!

 

Sou sim meus senhores, sou mesmo culpado, e sabem porquê?

 

Porque deveria ter enveredado por uma vida de facilidades, fugido ao pagamento das obrigações com o Estado e a Segurança Social, não ter sido e continuar a ser, apesar de tudo, solidário com quem necessita, ter vivido as aparências que as gerações seguintes viveram e vivem aguardando que a nuvem carregada passe por elas para as abastecer dos pequenos gadgets que lhes conferem felicidade, pelo menos material.

 

É mais fácil postar-nos diante do espelho e esperar que o que ele reflecte, o que nele vimos, não passe da imagem que desejamos ver. O que está por trás de nós, nas nossas costas, não interessa, o espelho não reflecte.

Temos de olhar para as árvores e não para a floresta.


publicado por: canetadapoesia às 15:47
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Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

1974 versos 2013

 

Madrugada de Abril de 1974.

 

Reviravolta política em Portugal, os militares tomam de assalto as ruas de Lisboa e nasce a esperança de uma nova vida, de um novo rumo para o país.

Consolidadas as posições revolucionárias no terreno, logo nascem as promessas de uma vida melhor para todos, sem polícias políticas, sem prisões por delito de opinião, sem pobreza, sem miséria, com saúde e educação para todos.

De uma madrugada para uma manhã, acabaram-se os pobres em Portugal. Os capitães de Abril satisfizeram as suas reivindicações salariais e de reconhecimento da sua entrada nos quadros do exército, ou não tivessem sido eles a fazer a revolução. Nalguns casos, como em qualquer país revolucionariamente subdesenvolvido, chegaram mesmo a proclamar-se generais.

Aqui começava a despontar a dúvida dos fins que nos levaram a esta revolução, mas, contenhamo-nos no espírito da liberdade conseguida e das chamadas conquistas da revolução.

Paz, com a entrega das colónias e o fim da guerra colonial, liberdade, sem prisões políticas ou por delito de opinião, saúde, grátis e em igualdade para todos, educação, idem, idem, aspas, aspas, justiça, idem, idem, aspas, aspas.

Desta forma deu-se início a uma justa repartição da riqueza nacional apoiada por todos os partidos emergentes do espectro político nacional. Todos os partidos e não só os que se situavam mais à esquerda, todos.

Acabaram-se as filas enormes nas instituições de solidariedade nacional para satisfazer as imensas necessidades com que a agrura da vida contemplava a maioria da população portuguesa. Finalmente a miséria teria fim.

Dessas imensas filas resultaram outras, quase por passe de mágica, de um dia para o outro, outras imensas filas se formaram. Agora, não para a sopa dos pobres mas para a aquisição de tudo o que eram bens de consumo, desde os mais pequenos utilitários de cozinha aos automóveis, passando por toda a gama de luxos supérfluos de três e quatro televisões por lar a aparelhagens de som e etc e tal.

Um verdadeiro bodo aos pobres, no verdadeiro sentido da palavra.

Criam-se pois hábitos e expectativas que viriam a ser, lenta mas inexoravelmente queimados com o fluir do tempo que passa e tudo arrasta.

Dos revolucionários pouco se vai sabendo além de que, na sua maioria, todos os intervenientes se encontram bem e de saúde financeira assegurada e, se casos houve em que se enganaram na verve política, logo se mudaram para outros credos, outros sentidos e até outras paragens.

O País? Que é que isso interessa se eram uma data de fascistas? Os que não eram e com os primeiros sofreram? Mas o que é que isso tem a ver com o facto de eu melhorar de vida, cambada de invejosos é o que são.

E nestes entrementes, o país afundando-se e os ditosos da revolucionária pátria salvaguardando-se.

A economia está má? Arranja-se uma forma de sairmos do governo para um qualquer bom lugar na imensa estrutura da EU que aí está assegurado o nosso futuro, afinal somos de um partido irmão de tantos outros na Europa.

Os que ficam, que sofreram numa primeira vez das imposições da ditadura, de uma segunda vez da voracidade dos predadores emergentes da democracia e que pagam e pagam impostos, coimas, taxas e um sem número de outras coisas para os cofres do estado, só têm o que merecem.

Foi crescendo aquilo que se poderá designar por uma largura de banda enorme que separa os mais pobres dos mais ricos.

Este é o país em que a desigualdade é maior entre todos os países da comunidade europeia, e não há vergonha nenhuma nestas estatísticas.

Este é o país em que a esperança morre à nascença por falta de ética e seriedade na condução da coisa pública.

Este é o país em que a pobreza cresce mais na Europa.

Este é o país em que a miséria se voltou a implantar de forma gritante e ofensiva.

Este é o país em que cresceram mais depressa as instituições de solidariedade nacional que as empresas de produção de bens.

Este é o país em que as imensas filas da sopa dos pobres voltaram a ter um mercado de clientes de fazer inveja a qualquer campanha de marketing promocional.

Este é o país em que bastaram trinta e oito anos de sonho para uns e de abastança para outros para se transformar em quase inviável.

Este é o país em que, aqueles que mais beneficiaram e mais ganharam com toda esta desgraça, pedem uma baixa nos salários e nas pensões, que já de si são miseráveis, para sermos competitivos.

Este é o país dos gestores mais bem pagos do mundo.

Este é o país em que dizem, também há coisas boas aqui feitas, aqui nascidas, aqui criadas.

Este é o país em que, mesmo havendo coisas boas, o seu povo de nada beneficia.

Este é o país que quase comemora mil anos de existência.

Este é o país que ao longo destes quase mil anos nada aprendeu como país, mesmo tendo sido o primeiro a abolir a escravatura não perdeu o hábito de escravizar.


publicado por: canetadapoesia às 21:59
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À noite pela cidade

 

Saí do restaurante com uma daquelas vontades difíceis de suster. O jantar, ligeiro e frugal mas delicioso tinha corrido de maneira excepcional.

 

Os sabores sucediam-se e multiplicavam-se em catadupas de prazer. O vinho, estava no ponto, branco fresco e óptimo para acompanhar aquela espécie de degustação sofisticada mas que se referia simplesmente a um jantarzinho de comemoração dos cento e cinco meses de uma “second life” e vão somando.

 

Saí pois com aquela vontade, uma caminhada a pé após, o jantar, era muito bom mas seria muito melhor com a companhia de um bom charuto.

 

Andei, olhei, vasculhei e não encontrei uma única tabacaria aberta. Que tristeza, já ninguém sente o simples prazer do prazer?

 

Isto está mau e não se pode dizer que é por culpa do FMI. Está mau porque as pessoas estão a perder o prazer de sentir prazer.

 

Estão a fechar-se, a bloquear-se atrás de portas de segurança que não permitem sequer sentir a brisa da noite ou olhar para o alto e arrepiar-se com o redondo da lua cheia.

 

Sim, isto está mal, isto está péssimo, nem um charutinho? Que vergonha. Como me vou sentir depois de um momento tão especial se não posso sequer enviar aos céus através de sinais de fumo uma satisfação de prazer.

 

Como se pode andar pela cidade à noite se ela está fechada, cerrada, nada aberto, luzes apagadas?

 

É uma cidade sem vida, sem alma, não gosto nada disto.


publicado por: canetadapoesia às 21:57
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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

A escolha

 

Nem sempre é fácil, nem está ali à mão de semear. Escolher implica que se esteja ciente das vantagens e desvantagens daquilo que vai ser uma opção entre uma ou outra coisa.

 

Ficámos perante o espectro da escolha que nos foi servida de bandeja no último domingo e que escolha. Não sei se todos tiveram o mesmo problema que eu, mas garanto que esta escolha foi difícil. Até aceito que seja problema meu, que não sei escolher, que não sei analisar, entre o que tinha à disposição, qual o melhor candidato ou o que seria melhor para o país e para mim também, é claro.

 

Mas o certo é que tive imensa dificuldade. De um lado um candidato que se recandidatava, com nítidas vantagens à partida, mas em quem eu não depositava grande confiança. Não podia depositar toda a confiança em quem me garantia agora, que iria ser mais duro, mais interventivo na política do país e nomeadamente nas actividades do governo.

 

Só esta declaração me pôs logo de pé atrás, então ao fim de cinco anos agora é que ia ser? Então cinco anos anteriores foram só para apreciar a paisagem? E quem me garante que iria ser agora? Bom, à partida agora já não pode ser reeleito outra vez e, assim, tudo se torna mais fácil, mas não mais aceitável.

 

Do outro lado, uma esquerda fraccionada onde vários candidatos se perfilavam para abocanhar, também, alguma vitória eleitoral canalizando para si o descontentamento do povo português.

 

Não foi fácil escolher, não senhor.

 

Quanto desperdício.

 

Nem o voto útil funcionou dada a enorme variedade de candidatos, cada qual com a sua própria perspectiva e diferença. Assim não vamos lá. Destruímos a hipótese de agregar à volta de algo tão importante como o país e a figura do seu presidente, a vontade de todos os portugueses, que, certamente, tiveram a mesma dificuldade que eu na escolha.

 

Não houve fibra, vontade esmagadora, liderança eficaz para trazer os portugueses ao país real. Foram afastados das urnas, foram afastados da luta pelo país e os resultados assim o demonstram.

 

Quase sessenta por cento dos votos foram para o espaço, entre não votantes, abstencionistas, e votos brancos ou nulos, o país perdeu-se e perdeu mais uma oportunidade de se unir em defesa dos valores que estiveram na origem da sua criação, dos valores renovados com a revolução de Abril e com a reintrodução da democracia.

 

Candidatos sem alma, sem fogo, sem corações ardentes, defensores de princípios, sobretudo com ideias que se entendessem para que a mobilização fosse efectiva. Notou-se, de facto, uma enorme falta de ideias e de perspectivas para o país, entediante, desolador, um autêntico deserto.

 

Que miséria de escolha.

 

Se houve vencedores, foi sem dúvida a maioria dos descontentes que não votaram ou anularam os seus votos, a isto se chama a “maioria silenciosa”, essa sim, a maioria, indiscutivelmente.

 

E, das promessas de que agora é que ía ser, ficaram só as promessas. Não ía ser, não tem sido e a desilusão ainda é maior quando ouço dizer que é o que representa todos os portugueses. Todos? Mas quase sessenta por cento nem se deram ao trabalho de votar!!! Afinal que representação é esta?

 

 


publicado por: canetadapoesia às 11:45
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Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

A verdade da mentira

 

Olho para o homem e fico cada vez mais preocupado.

 

Vejo-o abatido, velho, mais dobrado, cabelos brancos enfim um homem derrotado pela vida. Mas não é tudo, vejo, também, que mantém a arrogância de outrora, apesar da derrocada anunciada do país e que tentou por todos os meios esconder aos portugueses.

 

Sobretudo noto uma enorme protuberância na sua face. Algo que cresce de dia para dia, algo que lhe desfigura a cara e lhe cria uma expressão dura, inexpressiva. Está cada vez maior e, hoje, notei-lhe mais um crescimento e desta vez mais rápido.

 

Mentiu mais uma vez, o nariz cresceu-lhe ainda mais.

 

Tem vindo descaradamente a fazê-lo, dizendo hoje uma coisa, amanhã outra e, depois ainda, outra. Garante que fará tudo o que for preciso e possível dentro daquilo que são as prerrogativas do Estado português, que nós é que sabemos o que temos de fazer e não temos de seguir o que os outros querem que façamos.

 

Mentira.

 

De cada vez que o afirma logo se desmente sem que para isso passe demasiado tempo. Acaba sempre por fazer o que, realmente, os outros querem. Acaba sempre por ser o pau mandado do mundo, quer sejam os demais governos europeus, quer sejam os americanos, quer sejam os mercados, quer sejam sei lá quem.

 

Afinal, questiono-me se não poderíamos poupar algum dinheirinho deixando de fazer eleições no país. Porquê? Pela simples razão que estamos a votar em candidatos que juram defender o Estado, o País, o seu Povo, a Liberdade e a Democracia, o que vemos depois, na realidade, não é nada disso.

 

Então se não servem para defender o País não vale a pena gastar dinheiro com eles, esperamos que os outros países europeus façam as suas eleições e que nos enviem alguns comissários para gerir este como querem que seja gerido.

Desta forma não só poupávamos dinheiro como deixávamos de receber ordens de fora por intermédias personagens. É que me custa muito ver os responsáveis deste país, os eleitos pelo seu povo, a rastejarem tanto pelo mundo fora, a andarem tão dobrados aos interesses alheios a este país, a mentirem tanto e tantas vezes em nome dos mercados que não são nada para o problema que este povo enfrenta.

 

Afinal quem manda neste País? Os portugueses, o povo português ou os mercados?

 

Por muito menos que todas estas mentiras, de quem não tem ou não consegue manter a sua palavra, Egas Moniz de corda ao pescoço entregou-se ao rei de Espanha.

 

Aos de agora não se vê tamanha coragem, não se vislumbra qualquer ética ou palavra com honra.

 

Teremos de lhes oferecer a corda com que se entregarão, não ao rei de Espanha, mas ao seu próprio rei, ao povo português.

 


publicado por: canetadapoesia às 18:54
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Terça-feira, 1 de Outubro de 2013

Momentos de "Duas vidas & mais uma"

"Fim de tarde, 19 horas e 30 minutos, carrinhas prontas a partir para mais uma noite de distribuição. As pessoas foram separadas por carrinhas, cada uma com as suas tarefas devidamente agendadas, sabiam exactamente o que teriam de fazer e a que locais deveriam dirigir-se. Alice era nova no assunto, para melhor se entrosar com tudo o que havia a fazer e, de certa forma, ser apresentada àqueles que iria, doravante, apoiar foi colocada com Maria. Assim seria mais fácil ir entrando neste mundo da ajuda a quem dela precisava, um mundo escondido e pouco visível à luz do dia, mas de noite era uma coisa assustadora. Nunca tinha imaginado tanta gente a viver desta maneira, estendidos em todos os vãos onde pudessem encontrar algum abrigo, iam-se espalhando pela avenida fora, nos bancos dos jardins, debaixo de algum beiral mais saliente que os protegesse da chuva e sempre, mas sempre, portadores de caixas de cartão, o que lhe fez alguma confusão. Para quê caixas de cartão? Nunca imaginaria que houvesse pessoas cujo único abrigo, cujo colchão pudesse ser uma caixa de cartão, mas havia. Quando lhe explicaram, vieram-lhe umas fugitivas lágrimas aos olhos, escorreram-lhe pela face e acabou a limpá-las com as costas das mãos. Não era possível. Ela que nunca sentira falta de nada, que o menor capricho era imediatamente satisfeito, não imaginava que algumas pessoas não tinham sequer o mínimo para viver, para comer, se o queriam fazer tinham de lutar pelos restos e desperdícios lançados ao lixo, vasculhar os caixotes na esperança que algo pudesse ser aproveitado para a sua própria alimentação e sobrevivência. Nalguns casos, reparou também, as caixas de cartão estavam intactas na sua forma original, não as via dobradas e imaginou logo que serviriam de abrigo para passar a noite, não se enganava. Eram caixas enormes, daquelas que vêm a embalar os frigoríficos, pensou ela, serviam perfeitamente para as pessoas se meterem dentro delas e, pelo menos, não apanharem tanto frio."


publicado por: canetadapoesia às 01:27
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