Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Estavam em tensão máxima, agora, Branquelas, ouvia claramente o coração a bater desalmadamente, a adrenalina subia-lhe ao córtex cerebral, tentava desesperadamente pensar. Queria encontrar uma solução que lhes permitisse sair dali ilesos e sem serem capturados, não conseguia pensar, estava agora preparado para uma reacção imediata ao perigo que os cercava e ele lá estava, na forma dos comandos espalhados por aquela chana imensa em que também eles se acoitavam e procuravam passar dissimulados. O piar do mocho nocturno a distâncias tão díspares soltou-lhe a imaginação e o entendimento daquilo que se estava a passar.

Afinal o que ele temia aconteceu. O exército oficial ia capitalizar, o ataque que tinham feito, a seu favor e com base na sua protecção e segurança resolveu efectuar a perseguição muito para além das suas fronteiras. Entraram na Zazânia com toda a força das suas forças especiais, os seus comandos estavam na zona para perseguir todos os que conseguissem salvar-se do ataque à vila e, estava certo, seria mais devastador. Não sairiam sem aniquilar ou capturar todos os que pudessem e destruir os parcos meios de subsistência que mantinham nas lavras ao redor das aldeias, a experiência de todos estes anos garantia-lhe isso.

Por meia hora mantiveram-se ali, agachados, ouvidos atentos, nem um som, não se ouvia nada, até a passarada estava silenciosa o que era mau presságio. Quando se calam é sinal que há animais na redondeza e estes talvez sejam os mais ferozes da natureza, os que matam, não por necessidade de se alimentarem mas por razões políticas, por razões que só o animal homem descobre, inventa e desenvolve. Não seriam eles a mesma coisa? Pensou Branquelas, eram com certeza produto do mesmo fabrico, o animal homem, o animal mais feroz do mundo, o predador irracional e sem escrúpulos que lutava, matava e destruía em nome de algo que ele próprio tinha criado, o sentido de dever à pátria."


publicado por: canetadapoesia às 22:33
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Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"E nesse instante de uma solidão extrema, mesmo com os companheiros a seu lado, sentia-se só, muito só, longe de todos os que amava e que sempre o amaram, lembrou-se de novo dos amigos de infância, do Meia de Leite, longe e seguro, do Noite Escura, engajado noutro exército, um combatente especial. Torturou-se nos seus próprios pensamentos, será que ele estaria entre os que para aqui foram transportados? Não podia ser, era coincidência a mais, era um golpe sujo do destino vir a por frente a frente dois tão grandes amigos de infância.

Acontecesse o que acontecesse, não queria que isto viesse a ocorrer. Como reagiriam? O que fariam? Numa situação destas, o que teria mais peso? A amizade? O dever? Não, não podia acontecer, era demais para ele, nunca imaginaria estar numa situação destas, o branco que milita num movimento elimina o negro do exército oficial, como soaria isto aos ouvidos de todos? Que aconteceria a famílias tão amigas como as deles? Seria ele capaz de uma atitude destas? Eliminar o melhor amigo de infância? Que Deus me poupe de uma situação destas.

E despertou de repente, os sentidos estavam na máxima atenção e notou uma pequena, quase imperceptível alteração do meio ambiente. O piar das aves nocturnas desapareceu de repente, mas ele ouvia algo, ouvia algo que não lhe agradava mesmo nada. Um pio de mocho nocturno, outro pio respondeu, mas de uma distância enorme, ainda outro e outro e mais outro, todos separados por distâncias consideráveis. Levou o dedo aos lábios, abanou a mão direita no sentido descendente, os companheiros estacaram, agacharam-se aguardando as suas instruções."


publicado por: canetadapoesia às 00:37
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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2013

Tormenta

E apesar do meu silêncio, da minha aparente calma e sobretudo de uma postura quase normal, sinto qualquer coisa estranha.
Será que aquelas passagens dos vinte e poucos anos me vão perseguir para sempre?
O treino, a sistematização do controlo da dor, a lavagem ao cérebro, a preparação para ser robô.
Não pensar, agir de imediato, ser um gume afiado de uma faca que não amolámos, em prol do Estado.
Não terei paz no resto da vida?
É que cada vez se sobrepõem mais ao dia a dia, dito normal, e surgem sem que as espere e nos momentos mais inesperados.
O treino, o aguenta em silêncio que te podem ouvir.
Mistura-te com a sombra e sobreviverás.
E aparece quando menos se espera.
Não há descanso disto.


publicado por: canetadapoesia às 01:44
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Aliciado e mais ou menos anestesiado

 

Era daquelas oportunidades, uma grande campanha que anunciava descontos e mais descontos, mais umas ofertas daqui e dali e no final, diziam, uma pechincha.

Lá fui aliciado. Afinal o objecto era interessante, ultramoderno, cheio de mariquices, última geração e mais não sei quê, enfim, uma maravilha da tecnologia da comunicação. Para além de todas as coisas que fazia e permitia fazer ainda dava para falar.

Já se está mesmo a ver que estou a falar de um telemóvel, sim um aparelhosito que serve para as pessoas comunicarem entre si, para falarem. Para falarem é uma forma de dizer porque isso era antes, quando apareceram os primeiros que pouco mais faziam do que permitir que se falasse através deles, mas agora, agora era diferente.

Estamos a falar da última geração destes bichinhos que são tão avançados que até lhes mudaram o nome, agora chamam-se “smartphones”, em inglês pois, para lhes dar um ar mais prá-frentex, mais evoluido, mais inteligente, mais... tudo o que se possa imaginar, é sempre mais.

Numa tradução livre do inglês poderemos chamar-lhes telefones inteligentes, mas serão mesmo? Que coisa estranha, pensei que era um termo só aplicável aos humanos, pelo menos aos que pensam, mas começo a pensar que agora esperam que estas geringonças pensem por eles.

Pois depois de tanto aliciamento lá me decidi por um também. Trocar o meu que não era smart mas para máquina era bastante “esperto” e servia-me às maravilhas e ainda me deixava entabular conversação com outros do mesmo calibre, mais ou menos espertos e até com os smart, os tais super qualquer coisa.

 

Adquirido o bichinho, com todas as promessas que se fazem sempre nestes aliciamentos, não sem passar pela primeira grande prova que me deixou desde logo de pé atrás e bastante decepcionado pois foram longas horas a tratar da mudança de esquema ou de plano, como lhe chamavam, em pé, numa zona de atendimento público que nem uma cadeira tinha para o dito, enganos daqui e dali, lá consegui finalmente sair com a peça.

Era grátis, diziam, mas tinha de ser possuidor de um produto qualquer da promotora para se ter acesso a ele, tudo bem, estava dentro das exigências mas já me começava a ficar mais caro do que a gratuitidade oferecida, afinal passei uma tarde só para lhe pôr a mão em cima, começava a ficar farto de tanto smartphone e ainda nem o tinha utilizado.

Depois começou a melhor parte, a utilização.

A coisa complicava-se, era tanta a facilidade que não havia forma de atinar com ela, ele acedia à internet, ia ao google com a mesma rapidez, fazia fotografias fantásticas, ouvia-se música e até, espantem-se ou talvez não, era receptar de rádio, conseguia ouvir as minhas estações preferidas, tudo, fazia tudo o que se desejasse, cheio de aplicações e ainda se podia aditivar com outras, grátis ou pagas, uma verdadeira maravilha da tecnologia.

Só tinha um problema, não havia meio de engatilhar aquilo que lhe deu origem, as chamadas telefónicas, mais a irritante situação de não ter na memória os quatrocentos e cinquenta números de telefone que possuia no meu “esperto” anterior, era uma desilusão e nem me via a carregar tudo à mão de novo.

Por várias vezes o braço se levantou com a mão em concha e o smart pronto a ir de encontro à parede, mas em todas as vezes me refreei, afinal sou um homem da tecnologia. Toda a minha vida foi feita a criar instrumentos de execução automática para diminuir os custos das empresas com o factor humano, mas é que agora odeio estas coisas pelo mal que fazem à humanidade, apesar de algum bem que também existe.

Resultado, voltei a recolocar o cartãozito no “esperto” anterior, que não era “smart” mas fazia tudo o que eu queria e precisava. O “smart”, esse é jeitosito e terá a sua utilidade mas não como o pretendia. Dadas as suas excelentes qualidades, vai ser transformado em “Ipod”, dá para ouvir música e rádio também e até tira fotos com alguma qualidade fica assim resolvido o problema  da sua utilização e a minha consciência fica mais tranquila por não abandonar o meu esperto de serviço que tem a vantagem de já nos conhecermos mutuamente e pelo menos este permite-me telefonar sem problemas.

Viva a tecnologia amiga “user frendly” como lhe chamam.

Já não tenho paciência para estas mariquices todas afinal só quero poder telefonar.

 


publicado por: canetadapoesia às 01:26
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Sábado, 14 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"

Só muito raramente se assistia a uma operação como esta que envolvia tantos guerrilheiros, só se assistia a ela pelo simples facto de que, o movimento, precisava de dar, urgentemente, sinais de vida, de mostrar que estava actuante e que ainda conseguia efectuar ofensivas de grande calibre. Destes sinais, dependia a sua sustentação em termos das participações que recebia dos países que os apoiavam, sem resultados, as ajudas tinham vindo a decrescer chegando a um ponto insustentável, só esta acção revitalizaria toda a confiança no movimento, sem isto seria o fim a breve prazo.

Branquelas deu as indicações necessárias, sairiam dali em direcção à base evitando fazer-se notar, não que receasse de imediato a acção militar naquela zona, afinal estavam nas terras de outro país, mas todo o cuidado era pouco. Nada de conversas, fumar era proibido, entender-se-iam por sinais e, em caso de algum perigo, fariam o que estava combinado, desviarem-se uns dos outros, alargarem a área de procura, para que entre eles houvesse mais espaço e a procura fosse dificultada.

Seguiram pela chana, capim alto, mais alto que eles, não conseguiam viam nada à sua volta, também ninguém os conseguia ver a eles. A única coisa que os poderia denunciar era o ligeiro restolhar que, ouvidos atentos e apostados em os detectar, poderiam de imediato relacionar com o caminhar de seres humanos que os animais faziam outro tipo de ruídos. Por mais cuidado que tivessem tinham sempre de produzir estes pequenos ruídos, fosse a afastar o capim ou a pisar algum galho mais seco e, neste silêncio absoluto que a noite produzia, onde só se ouviam o piar das aves noctívagas, soavam como badaladas de sinos, estrondosos.

Aquele ruído de hélices de helicóptero que lhe pareceu ouvir ao longe, minutos atrás, soaram-lhe agora na cabeça, mais nítidos e mais aterradores. Os comandos, transportaram-nos para o teatro de operações. Agora estava mais acutilante nos seus pensamentos, se os trouxeram de helis de certeza que vão atravessar o rio e fazer a perseguição Zazânia dentro, temos de redobrar cuidados, simultaneamente fez sinal aos companheiros levando o dedo indicador aos lábios e fazendo-o rodar à volta do pulso, sinal de helis na zona.

Agora o silêncio que já era brutal, acentuou-se e até os movimentos de afastar o capim se tornaram mais lentos. Na noite, só as aves se faziam ouvir. Branquelas levanta os olhos para o céu, não estava uma noite muito escura mas tinha a sensação que estava a escurecer, mais. Reparou nas nuvens, fiapos de uns e de outros lados estavam a construir outras maiores, estavam a juntar-se e, as maiores, já se notavam mais negras, ia chover e aqui quando chove, chove mesmo, tinham de alcançar terreno mais alto antes dela cair ou sujeitavam-se a ficar encurralados na lama que produziriam ao contacto com o solo e aquela terra árida e seca onde só o capim se desenvolvia com a humidade subterrânea."


publicado por: canetadapoesia às 16:11
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Momentos de "Duas vidas & mais uma"

"Manhã cedo se levantou. Preparou-se para o dia que aí vinha sem uma noção correcta do que a esperava, só sabia que estava satisfeita pela decisão tomada e mais ainda pelo primeiro passo que nunca se achou capaz de dar. Alice estava verdadeiramente feliz, sentia-se nas nuvens, encantada com o que iria iniciar. Uma leveza de movimentos e pensamentos percorriam-na até a fazer sentir verdadeiramente eufórica. Este era o dia do início do que, pensava, seria o resto da sua vida. O pequeno-almoço foi tomado como se de há muito estivesse habituada a tais preparos, rápido, sem grandes aglomerações das variedades de comida que geralmente utilizava nos seus antigos pequenos-almoços. Em pé, quase sem dar por isso engoliu a taça de cereais com leite e preparou-se para sair de casa. Alice queria, neste primeiro dia, impressionar quem lhe tinha dado a oportunidade, queria chegar cedo para começar a conhecer as pessoas com quem iria lidar, as pessoas com quem iria passar mais tempo de hora em diante. Aqueles que como ela tinham também decidido dedicar as suas vidas vazias, achava ela, com outros que a tinham muito mais vazia e solitária e, sobretudo, que a tinham de tal forma distorcida que uma pequena atenção significava, para elas, quase a descoberta do novo mundo. Chegar cedo significava estar na sede da organização antes da hora habitual de abertura, antes das nove horas da manhã, queria lá estar às oito e meia. Nessa meia hora, presumia, que conseguiria conhecer as pessoas, senão todas, pelo menos grande parte delas. Fecha a porta de casa e desce as escadas, pela primeira vez na sua vida esqueceu-se do elevador. Chegada à rua, após a descida dos cinco andares, não se sentiu cansada nem mesmo uma ligeira fadiga lhe tolhia os movimentos. Saiu do prédio e sentiu de chofre o ar frio da manhã inundar-lhe o corpo, o rosto ganhou cores com o ar frio e, por incrível que pareça, o corpo ganhou forças. Os seus pés calcorreavam o passeio em direcção ao seu novo amor, de tal maneira leves e ligeiros que se diria ter, repentinamente, ganho asas nos pés. Estava feliz, muito feliz, verdadeiramente feliz. De tal maneira absorta nos seus pensamentos que nem reparava nas pessoas que por ela passavam. A sua cabeça fervilhava de ideias, de planos, de iniciativas que pensava vir a pôr em prática tão depressa lhe fosse possível fazer parte daquela equipe de gente que só tinha por metas o bem alheio, a ajuda a quem dela precisasse. Cai-lhe um pingo de chuva na cara, passa a mão e afasta-o sem sequer se preocupar com a chuva que estava a começar a cair lentamente e, pelo aspecto do céu, se previa viesse a ser uma hecatombe de água. Com a ânsia de sair de casa tinha-se esquecido do chapéu-de-chuva. Mas quem se iria preocupar com tal instrumento numa altura em que o seu cérebro e todo o seu ser estava virado para um outro lado, muito mais empolgante, muito mais excitante, tão altruísta como nunca conhecera em si?"


publicado por: canetadapoesia às 15:37
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Terça-feira, 10 de Setembro de 2013

Momentos de "Duas vidas & mais uma", (Chiado Editora - 2012)

"A decisão que tomou iria transformar toda a sua vida. De agora em diante tudo seria diferente. Passaria a dedicá-la, não ao vazio que sempre fora, mas a algo muito mais gratificante. Iria dedicar-se ao voluntariado já que, como nunca tinha trabalhado, nada mais poderia utilizar como ajuda que a sua vontade, os seus préstimos como voluntaria de causas que levassem à mitigação da dor, que aliviassem a fome, que ajudassem quem mais precisava, os desvalidos deste mundo.

Começou de imediato a entrar em acção, desde logo iria começar com o pé direito, iria ser uma verdadeira madre Teresa de Calcutá. Para tal, dirigiu-se à casa de banho, olhou para a enormidade de cremes e perfumes que se espalhavam sobre a bancada de granito negro, abriu o saco de plástico e começou a enchê-lo pegando nas embalagens uma a uma e despejando-as dentro dele. Não deixou de lançar um último olhar a todas estas coisa de que agora se despedia, neste relancear de vista não sentiu qualquer arrependimento do que estava a fazer, não teve nenhuma pena de lançar para o lixo tanto dinheiro em cremes e perfumes, sentiu-se livre, sentiu-se bem consigo própria.

Acabada a tarefa sentiu-se aliviada, liberta de toda uma pressão que, por nunca a ter sentido, sempre fora ignorada, estava eufórica com a decisão que tomara de mudar a sua inútil vida, trocando-a, é certo, por algo ainda não muito definido e de certa forma bastante incerto, mas era um princípio.

Dirigiu-se à cozinha, preparou uma suculenta taça de cereais, adicionou-lhe o leite, sempre frio, pegou na taça e foi sentar-se na varanda a comer. Abriu a porta da sala que lhe dava acesso e sentiu o ar já quente da manhã encher-lhe os pulmões, deu um passo até meio da varanda e o sol inundou-a de luz, envolveu-lhe o corpo com o seu calor, insuflou-lhe uma nova vida cheia de esperança.

As empregadas foram dispensadas, a casa passou a estar mais silenciosa, o trabalho passou a ser feito por ela, organizou-se de forma diferente e mais simples. Alice deixou de ser o que era, uma pessoa fútil sem perspectivas de vida para além do consumo diário da herança que a família lhe havia deixado.

Nunca havia trabalhado na vida, nada sabia fazer além de gastar o dinheiro que nada lhe custou a ganhar, agora iria iniciar-se numa tarefa, num trabalho que não servia para lhe garantir o sustento, que não precisava, iria trabalhar para ajudar os outros, para ajudar quem dela precisasse.

A tarefa deste dia era simples, procurar organizações de ajuda social onde pudesse desenvolver a sua nova aptidão. Seleccionou algumas e começou a ligar para pedir informações, como poderia ajudar, o que poderia fazer em regime de voluntariado como poderia disponibilizar-se para tal.

De todas foi ouvindo que sim, que era possível, que era desejável e que era muito meritório que o fizesse. De todas as que consultou escolheu a que lhe parecia a mais indicada para o seu caso. Combinou o encontro e aguardou pela hora em que seria entrevistada para assumir o seu voluntariado.

Foi andando até ao local combinado, um pequeno apartamento que servia de sede à organização. Tocou à campainha, abriram-lhe a porta e subiu as escadas até ao terceiro andar esquerdo, empurrou a porta e entrou.

O movimento lá dentro era intenso, meia dúzia de pessoas atarefavam-se na discussão de um plano de ataque a uma coisa qualquer que ela não percebia muito bem. Alguém lhe perguntou ao que vinha.

- Sou aquela que quer dar o seu contributo em regime de voluntariado, falámos ao telefone à mais ou menos duas horas.

- Já sei, Alice, respondeu o interlocutor. Entre ali para a sala que já falamos.

Enquanto se dirigia para o local indicado, foi ouvindo falar de números, de sopas, de pão, de cobertores e de um sem número de outras coisas que não fixou.

- Então Alice, diga-me o que a leva a abraçar esta causa.

- O desejo de ajudar a ajudar, respondeu.

- E quais são as suas disponibilidades?

- Todas, respondeu, estou totalmente disponível. Nunca fiz nada e nada faço neste momento, tenho sentido que a minha vida não tem sentido nenhum e, depois de ter passado por aquilo que eu classifico de um trauma inesperado, resolvi dedicar-me inteiramente a esta actividade.

- Muito bem Alice, e quando acha que pode começar?

- Logo que possível, respondeu, estou ansiosa por começar.

- Combinado, amanhã pelas nove horas apareça aqui para planearmos o dia e dar início à sua colaboração.

- Obrigado, então até amanhã.

Saiu satisfeita consigo mesma. Tinha conseguido ser aceite como colaboradora daquela instituição. Agora tinha que se dedicar de corpo e alma ao que seria a total mudança da sua vida, amanhã seria o primeiro dia do resto da sua vida.

Dirigiu-se a casa, preparou alguma coisa para comer, frugal, que os grandes almoços teriam que acabar pois o tempo tinha-lhe sido tomado com a nova actividade, urgia organizar-se para que tudo funcionasse na perfeição.

O resto do dia levou-o a pensar no assunto e a organizar a sua vida.

Nada seria como antes, nada seria igual."


publicado por: canetadapoesia às 16:26
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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

A dependência do Icon

 

O Icon para aqui, o Icon para ali, pressiona o Icon, procura o Icon, desapareceu o Icon.

Estava eu em serviço, claro, de apoio a minha filha recentemente sujeita a uma intervenção cirúrgica e ainda não recuperada para se deslocar com o à-vontade do costume, no entretanto do deixa-a aqui, vem buscar mais tarde, resolvi esperar um par de horas para a recolha que se faria necessária.

Recolhi-me a um jardim público, grande, espaçoso e frondoso já que as árvores ainda abundam por ali. Dirigi-me a um quiosque, um dos que celebrizaram a tomada da ginjinha pública mas, desta feita, erigido no interior do dito jardim. Procurei lugar numa das mesas, à sombra, que o sol queimava já, aí com 31 º às onze horas da manhã, e lá me consegui alapar numa mesinha de canto onde o sol cobria metade e a outra metade ia sucumbido ao fugir da sombra, mas enfim a esperança de que a minha vontade contrariasse o movimento perpétuo do sol, não consegui.

O jardim regurgitava do chilrear de passarada, grasnar de patos e, aqui e ali, o pio prolongado de um pavão, lindos de leque aberto. As crianças, muitas felizmente, agrupavam-se por escola ou por classe e lá se entretinham debaixo das frondosas sombras a fazer aprendizagem ao ar livre que o dia estava propício.

Na mesa ao lado, duas mesas juntas para ser mais preciso, seis ou sete pessoas discorriam sobre os assuntos mais diversos, seis mulheres e um homem, até aqui já estão em maioria.

Uma, que mostrava a mais recente sequência de imagens do feto que trazia no ventre, que sim, que era uma menina como sempre dizia mas, aqui com uma pontinha de desgosto a aparecer-lhe ao canto dos olhos, tinha pilinha. Todos viram as imagens, todos deram a sua opinião, todos comentaram e, na verdade, do local onde me encontrava pude constatar, ninguém viu nada e ninguém percebeu patavina do que ali estava, faltava-lhes um médico habituado à coisa para lhes mostrar os verdadeiros contornos do milagre da vida que ainda antes de o ser já se encontra retratado pelas modernices do avanço da tecnologia.

A futura progenitora, lá foi dobrando o primeiro filme da vida desta criança sem que, ao mesmo tempo, recomendasse à colega que não o dobrasse de qualquer maneira pois aquilo tinha uma sequência de imagens e se a perdia então é que não perceberia nada do que lá estava.

Na impossível quantificação dos parabéns, que seja uma hora feliz, já tens nome e etc, a futura mamã sempre foi dizendo que talvez ficasse de baixa mais cedo do que efectivamente necessitava, pois o mais importante é garantir a saúde da criança e o bem estar dos pais que ter de ir trabalhar. Ai se o FMI e a Merkel ouvem isto, havia de ser o bom e o bonito. Lusitanidades, Ibérices, coisas do sul da Europa.

Outra que discutia as causa da separação da amiga que ainda ontem assim, e hoje é o que se vê.

Mas, apanhando o fio da tecnologia, uma vez que estas conversas eram cruzadas e até incomodavam o meu livro que não conseguia concentrar-se em mim, que o tentava abespinhadamente ler, uma das senhoras, que trabalhavam por perto e, na hora de almoço, iam ao jardim tomar o cafezinho da praxe, levanta um problema crucial para quem trabalha com estas coisas de computadores.

O Icon desapareceu, à primeira ouvidela, liguei logo a coisa a uma daquelas pinturas Ortodoxas Russas que alguém teria surripiado ao seu lugar de exposição. Não, não era nada disso, ouvi mal. O que se passava é que o Icon e não o Ícone, tinha desaparecido do ecrã do computador. Parece uma coisa banal mas não é, falam tanto da tecnologia que todos devem saber utilizá-la e trabalhar com ela, que torna a vida mais fácil, que sem ela já nada seria a mesma coisa e de repente o Icon desaparece, assim, sem mais nem menos. E agora pergunta outra o que vais fazer? Sei lá responde a primeira, tenho que chamar um técnico senão não consigo fazer nada. Mas para que servia esse Icon desaparecido, pergunta ainda outra? Era o Icon do som!!!!

Fiquei sem som no computador. Mas não poderás resolver isso de outra forma sem o Icon?? Não sei, o que sei é que quando queria aumentar ou diminuir o som era no Icon agora sem ele sei lá como aquilo funciona?

Quase, quase, arrisquei dizer que existiam definições do sistema operativo que lhe devolveriam o Icon ao ecrã e que até podiam ser manipulados directamente sem o dito, mas calei-me a tempo. Ainda me chamavam ignorante.

Assim vai a literacia informática tão cara aos nossos governos.

O icon já se vê, sem ele nada feito.

Dei mais dois goles na loirinha, uma trinca na tosta mista e ignorei a tecnologia, afinal eu tinha nas mãos um livro à moda antiga, de papel, encadernado e colado, daqueles que, como costumo fazer, se abrem a meio e se sente o cheiro a livro quando encostamos o nariz.

Não preciso do Icon.

 

 

Luis Filipe Carvalho


publicado por: canetadapoesia às 00:40
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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Respiração normalizada, do coração já não se ouvia o ribombar das batidas, mais calmos e descansados, estava na altura de se porem a andar, saírem daquela margem e embrenharem-se chana dentro. Ainda tinham muito que andar para alcançar a aldeia que era o ponto de encontro assinalado para o reencontro de todos os que haviam participado no ataque à vila.

Não se esperava que todos convergissem para o ponto de partida de forma organizada e ordeira, isto não era uma força de um exército normal, daqueles que acima de tudo, põem a ordem e os standards de organização como essenciais ao seu funcionamento, isto era um grupo de guerrilheiros. Talvez se possa dizer e diz-se com alguma certeza, que não era um grupo normal, tinha sido aumentado pelo enorme número de homens que a ele se juntou, transformando-o num temível grupo de guerrilha.

O problema é que só se juntaram para este fim, para o assalto à vila que queriam fosse monumental e um exemplo de que a sua força não estava diminuída, como o afirmava a propaganda oficial. Queriam demonstrar que estavam vivos e actuantes e que até conseguiam dominar as tropas, enquadradas e organizadas no terreno. Falharam é certo, mas o susto foi grande e obrigou a uma envolvente militar bastante mais alargada para lhes fazer frente.

Já não se tratava só de lhes fazer frente, estava em causa uma credibilidade que o exército oficial não ia deixar passar em claro, ia rechaçá-los, persegui-los e aniquilá-los ou aprisioná-los para demonstrar, também ele, que era senhor dos territórios à sua responsabilidade. Era o que agora acontecia, tinha corrido com eles da vila, já de si com enormes perdas, em termos de vidas e em prisioneiros, estava a empurrá-los para o local onde, pela emboscada dos fusos seriam mais facilmente capturados, e já tinha em marcha a perseguição que lhes moveria.

Os homens destinados à perseguição que se seguiria ao fracasso do ataque à vila já estavam posicionados no terreno e a alargar a sua área de acção, preparados para só pararem quando nada mais houvesse que reprimir. A ordem era a captura, preferencialmente, e a destruição de todas as bases encontradas. Quando falamos de bases, não se pense que eram aquartelamentos como o da tropa, organizados, defendidos, abastecidos, não, nada disso, falamos de simples aldeias onde, com algum sentido de organização, é certo, mas depauperados de tudo o resto, se concentravam estes homens.

Homens que dedicavam a sua vida a esta causa, à causa da guerrilha, à causa da libertação de um país que consideravam o seu país, usurpado e explorado por outros. Aglomeravam-se nessas pequenas aldeias no meio da selva a que chamavam as suas bases, normalmente junto às fronteiras, daí partiam para as incursões que planeavam, açoitavam as tropas, as colunas militares e civis e destruíam o que podiam para afugentar quem se atreve-se a lá ficar."


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Domingo, 1 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Estatelou-se em pleno quintal, caiu e torceu uma perna, pensava, que ficou debaixo do corpo. Doía-lhe imenso, Branquelas e Noite Escura, aparvalhados com este final infeliz não sabiam o que fazer. Tentavam levantá-lo mas, a cada movimento um grito de dor saía da boca de Meia de Leite, partiu a perna diz Branquelas, não consegue pôr-se de pé. Que fazemos Noite Escura? Vai a minha casa e chama a minha mãe, que venha já que o Meia está mal, ela vai ajudar-nos. Corre Noite escura a casa de Branquelas chama pela mãe, nem lhe dá tempo a saber o que se passa, arrasta-a com ele para casa de Meia de Leite. Que se passou aqui? Porque estás no chão Josué? Caiu da mangueira, dizem em coro os outros dois, deve ter partido a perna. E agora? Que fazemos? Não está cá ninguém que tenha carro, como o vamos levar ao hospital?

Vão ao sr. Baptista, da mercearia, que ele é capaz de nos ajudar a levá-lo na carrinha dele. Correm rua fora até ao outro largo, entram desabridos na mercearia onde o sr. Baptista conversava com a mulher, poucos clientes àquela hora. Que se passa com vocês, parece que viram algum bicho. Não sr. Baptista, o Meia de leite, isto é, o Josué, caiu da mangueira e partiu a perna e a minha mãe pede se o sr. nos pode levar até ao hospital que não há cá mais ninguém com carro para isso.

O sr. Baptista, beirão de gema, vai tirando o avental ao mesmo tempo que passa umas recomendações à mulher, vamos já, que se não for tratado a tempo ainda pode ficar com marcas para o resto da vida. Entram na carrinha, Datsun, caixa aberta, lá vão em direcção a casa do Meia de Leite, saem da carrinha, ainda a trabalhar e assim ficou para ser mais rápida a saída. O sr. Baptista pega em Meia de Leite ao colo, lava-o e deposita-o na caixa de carga da carrinha, deitado. Não faças força, deixa-te estar assim que é um pulinho até São Paulo, vamos aqui por dentro que é mais rápido. A mãe de Branquelas ao lado do condutor, o sr. Baptista, os putos na carroçaria, acompanhando o amigo. Segurança, proibição? Qual quê, emergência, isso sim e quando o amigo precisa não há polícia que impeça uma deslocação destas, também não havia proibição de galopar as estradas na caixa de carga de nenhuma carrinha. Vamos embora em direcção ao grande hospital de São Paulo, hospital universitário, como também era conhecido.

Paragem frente às urgências, maca, transporte para o interior, só a mãe de Branquelas entrou que ele era como um filho e como o seu o trataria. Os dois amigos e o sr. Baptista, esperaram cá fora, nervosos, preocupados com o estado de Meia de Leite e com o que diriam à mãe e ao pai dele quando chegassem a casa e soubessem do acontecido. Logo se resolveria, o que importava agora é que ele fosse tratado, e foi. Passado uma boa hora e meia aí vem Meia de Leite de muletas e com a mãe de Branquelas ao lado, impante e ufano na sua perna engessada.

Que tal correu? Ora sr. Baptista, uma perna partida sem mais consequências, está tratado, daqui a uns dias vem tirar o gesso e fica como novo. Raios dos miúdos, porque é que não vão comprar as mangas lá à loja em vez de andarem a subir árvores para as colher. Sempre a fazer publicidade ao negócio este sr. Baptista, então não vê que lhes sabem melhor quando as apanham na árvore? São novos, deixe-os lá crescer, têm muito tempo, quem me dera ficassem sempre assim. Vamos andando? Vamos, deixa-me ajudar-te a subir para a carroçaria que tens de ir com a perna esticada, vocês os dois, lá para cima também, vamos mais devagar que agora já não temos pressa.

Obrigado pela sua ajuda sr. Baptista, sem ninguém com carro aqui por perto ia ser difícil e chamar um táxi, não ia ser fácil, tínhamos de mandar um dos miúdos para a esquina da rua e sabe-se lá, quando passaria um. Ainda não havia telefones por todo o lado como agora, era bem mais complicado comunicar mas, mesmo assim, tudo se resolvia. Ora não pense nisso D. Maria, estamos cá para isso mesmo, se não ajudamos a comunidade, aqueles que afinal são os nossos clientes, quem ajudamos, aqui neste bairro somos quase uma família, todos nos conhecemos e todos se entre ajudam e eu sinto-me muito feliz por poder participar e ajudar no que for possível.

Mais um dia de aventuras e que aventuras, ainda faltava a chegada dos pais de Meia de Leite, o que diriam? Nada de mais, com certeza, só a constatação de que o filho que tinham deixado inteiro antes de saírem de casa, estava agora com uma perna engessada e que, graças aos amigos e vizinhos, tinha sido tratado, acarinhado e nada de mais lhe acontecera. Mais um dia na Vila Alice."


publicado por: canetadapoesia às 09:16
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