Domingo, 12 de Janeiro de 2014

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Isto merecia uma comemoração. Tudo merecia comemoração naquele bairro e entre aquelas três famílias, eram aniversários, eram os dias de festa consagrados no calendário, era tudo, até a perna de Meia de Leite, partida e agora consertada.

A comemoração estava presente em cada um dos minutos da vida daquela gente, não era bem pela comemoração, era mais um jeito de se juntarem, trocarem umas palavras à roda de uma cervejinha gelada, comerem uns quitutes bem preparados e apicantados, sobretudo era o estarem juntos como amigos que eram, amigos do peito, dir-se-ia melhor. Não havia preocupação nuns que não se espalhasse logo aos outros e todos queriam contribuir para que elas desaparecessem com a mesma velocidade ou mais, com que tinham aparecido, eram mesmo amigos.

Todos tinham ido viver para ali sensivelmente ao mesmo tempo, tempo que foi alargando e cimentando a amizade ao ponto de os filhos quase não saberem exactamente qual a sua casa. Desde pequenos, sempre foram livres de entrar e sair da casa uns dos outros, comer aqui, dormir ali, não havia limites, desde que as mães estivessem devidamente identificadas com as diabruras dos filhos. Assim cresceram e se tornaram amigos inseparáveis, só a vida, o destino, o que quiserem, foi mais forte e viria a separá-los, anos mais tarde, na idade da razão, diriam. Separou-os física e politicamente mas, mesmo assim, na hora de celebrarem a amizade, tudo isso desaparecia, eram amigos, amigos desde sempre e isso não tinha preço.

Hoje a comemoração era tão especial como tantas outras, celebrava-se a recuperação de Meia de Leite depois de ter partido as pernas, a bem da verdade, sabendo que não eram necessários motivos especiais para celebrarem, até podiam estar a celebrar o partir das pernas ou mais uma diabrura qualquer, mas era celebração, era festa, era mais uma reunião de amizade entre todos no quintal de um deles, neste caso da família de Meia de Leite. Sábado, que era o melhor dia, sempre tinham o Domingo para recuperar dos destemperos gastronómicos e estas festas que não eram do “jetset” mas que duravam muito mais tempo porque eram de amigos, prolongavam-se para lá do fim do dia, sempre bem comidas e melhor regadas que a bebida ajuda a empurrar qualquer comida.

A meio da manhã já era um corrupio. A mesa do quintal posta mesmo debaixo da mangueira, à sombra que era mais fresquinho, a toalha estendida sobre ela, de plástico, que a iam sujar toda, assim era mais fácil de limpar. Nove pratos espalhados à sua volta, tantos eram os intervenientes, mais uma pilha deles no canto da mesa, nunca se sabia se aparecia mais alguém e se aparecesse ali ficaria também que assim mandavam as regras da boa vizinhança. Miudagem era certo que apareciam, mal lhes cheirava a festa e comida boa ali se apresentavam, vinham só desejar as melhoras de Meia de Leite e iam-se logo embora, pois sim, todos sabiam o que a casa gastava. Mal chegavam ao portão, já iam entrando, Meia, estás melhor? Já andas bem? Ainda estás de muletas? D. Francisca já lhes gritava para a entrada do quintal, vão entrando que está quase o almoço na mesa, iam entrando, rodeando a mesa, picando a ginguba, os tremoços, a paracuca e, para empurrar, uma gasosa.

Os mais velhos, lá se iam sentando aqui e acolá, cerveja numa mão picanços na outra, fazendo boquinha para o sustento que vinha a seguir, e que sustento. Festa que era festa tinha de ter comida de gente, e as mães entusiastas e entusiasmadas com o que ofereciam àqueles estômagos sedentos, aprimoravam-se no que ofereciam ao repasto. Do grelhador em brasa, saltavam umas febras, uns pedaços de frango assado, que os pais se revezavam no assar para entrada. Da cozinha vinha um panelão de funge, ainda fumegante, colher de pau enterrada, pronto a misturar com a deliciosa moamba de galinha, isto sim, comida de gente a que ninguém ficava indiferente. Nem a miudagem avessa a algumas comidas de que, diziam, não gostavam, aqui atiravam-se ao tacho e nem desdenhavam os quiabos que tanto sabor lhe dava. Que rica funjada, saía em coro daquelas gargantas atafulhadas de comida e regadas a cerveja fresquinha.

Por não ser só de carne que se alimenta o estômago, havia também uma caldeirada de peixe, saída das mãos de D. Genoveva, um cheirinho que atraía a vizinhança e, lá mais para a noitinha, depois de um bom descanso debaixo do remanso da sombra da mangueira, com a miudagem longe dos ouvidos, vinha o cabritinho assado, especialidade de D. Maria. A esta hora já as geleiras tinham cumprido a sua missão e, recheadas da dita cerveja, já a tinham refrescado, gelado mesmo, preparando-a para o acompanhamento do cabritinho assado. Bonitas tardes de Sábado se passavam naqueles quintais, gente sã, gente amiga do seu amigo, quase um condomínio, como hoje soe dizer-se, mas aberto que, essa coisa de fechar tudo, só atrai ladroagem.

As sobremesas, sempre sóbrias e apetitosas, ficavam-se pelos leite-creme e arroz doce sarapintado de canela, e que bom que era, ainda a sentir-se o calor do fogão nos seus bagos doces. Claro que o carvão da churrasqueira nunca se apagava, havia sempre quem, nos intervalos, quisesse trincar uma febra, só para ir mantendo o estômago a funcionar, acabava por se apagar sozinho, lá para as tantas da noite, depois de se terem recolhido a um sono reparador, o sono dos justos. Vila Alice no seu melhor, tão pequena na sua dimensão e tão grande nos seus afectos.

Invariavelmente, o dia acabava com o quintal num reboliço, e ninguém se preocupava. Ninguém deixava de dormir porque as coisas ficavam desarrumadas, não senhor, no dia seguinte, Domingo, logo se arrumavam e a manhã era gasta nesse trabalho. Já a tarde de Domingo era de descanso, debaixo da mangueira, liam-se as notícias do dia, ou qualquer romance da actualidade, ou ia-se dormitando que amanhã era dia de trabalho e precisavam de estar descansados. Aplicava-se esta receita aos mais velhos que a gente nova não parava com brincadeiras e invenções criadas na hora para passar o tempo."


publicado por: canetadapoesia às 13:04
link do post | comentar | favorito

.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Seguir meu perfil

. 15 seguidores

.Pesquisar

 

.Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Posts recentes

. Orgulho

. 10 de JUNHO

. A república revisitada

. Consoada numa terra dista...

. Finalmente juntos (39º Ca...

. Encontro ao fim da tarde ...

. Num país diferente (37º C...

. Sobrevivência (36º Capítu...

. Evolução na confusão (35º...

. Preocupação (34º Capítulo...

.Arquivos

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Agosto 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

.Links

SAPO Blogs

.subscrever feeds