Domingo, 29 de Dezembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Foram falando sobre as coisas que ainda tinham para fazer hoje e mais as que ficariam para o dia seguinte. Inadvertidamente, ou talvez não, a sua perna encostou-se à dela, Meia de Leite sentiu um calor a subir-lhe pelas faces, controlou-se e, polidamente pediu-lhe desculpa. Não te preocupes, disse ela ao mesmo tempo que poisava a sua mão na perna de Meia de Leite, quente, abrasadora mesmo, pensou ele, isto é tão pequeno que não conseguimos estar sem uns encostos e encontrões, logo te habituas. Ele olhou-lhe para a mão sobre a sua perna, quase junto à coxa, de tal forma que notou que ela sentiu algo a crescer debaixo da mão. Não se desmanchou, apoiou a mão com mais força, deixou-a descair um pouco, sentiu tudo o que havia para sentir ao correr a mão sobre o que lhe tinha crescido, ao mesmo tempo que o olhava nos olhos.

Meia de Leite ia desfalecendo. No meio daquela confusão, uma coisa daquelas, não conseguia imaginar. Controle, controle, não podia deixar-se descontrolar, mais a mais que a sua perna já se encostara de novo e agora não se queria despegar. Já sei, vou-lhe falar dos documentos e do trabalho que preciso arranjar. Assim fez, queria saber como conseguiria arranjar trabalho que não podia viver eternamente da assistência que lhe davam, queria ser produtivo, ajudar o país que agora o ajudava. Não vais ter de te preocupar com arranjar trabalho, também temos um serviço de encaminhamento, das pessoas que entram no país como refugiados, para várias empresas que procuram trabalhadores e, dentro das disponibilidades existentes, escolherás um que te agrade e poderás começar a trabalhar de imediato.

Primeiro que tudo o mais, vamos acabar de tratar de toda a documentação necessária e depois então vem o trabalho. Dentro daquilo que houver, de ofertas de trabalho, vais seleccionar o que queres mas eu até te ajudo a escolher, conheço bem o mercado e as empresas que nos oferecem estas vagas e vou indicar-te a que for melhor para ti, está descansado. Vamos continuar o nosso périplo, que temos toda a tarde para aproveitar. Pagaram e ela levantou-se, deu um passo e estendeu-lhe a mão, como a querer guiá-lo para fora dali. Sentiu-lhe a mão quente, os dedos compridos, segurou-a bem e não a largou até estarem fora do restaurante, apertou o blusão e ajudou-a a apertar o casaco. Sorriu-lhe a agradeceu e o seu sorriso foi como um sol radiante que lhe aqueceu a tarde.

Mais umas voltas e agora, finalmente, o documento de identificação, uma espécie de cartão de cidadão. Com isto na mão já se sentia um verdadeiro cidadão do país. Sentaram-se numa secretária em que outro funcionário os atendeu e lhes deu os documentos necessários a preencher, medição, impressões digitais, fotografia colada e em alguns minutos de espera o tão desejado documento identificador nas mãos. Deu-lhe a volta entre os dedos, apalpou-o, sentiu-lhe a rugosidade, o seu cartão de identificação, podia, agora, circular livre entre os cidadãos do país. Mais umas assinaturas e estava livre dali.

Enquanto esperava, sentado ao lado de Jeanne, não deixava de soltar os pensamentos e olhava para ela, tirava-lhe as medidas mentalmente e as pernas, aquelas pernas metidas nuns collants que deixavam ver tudo o que era preciso para apreciar a sua delicadeza. Compridas, mais para o magro que gordas, elegantes, bonitas pernas, pensou, quando se punha de pé tinha sobre elas um corpo lindíssimo, bem proporcionado e até, de certa forma, atlético, da bicicleta, pensou ele. Loira, uns olhos azuis de fazer inveja aos céus da sua terra. Coisa linda. Será que conseguiria arranjar uma namorada assim? Não sabia, mas tinha esperança, que filhos sairiam de uma relação destas? Lindos com certeza, África e Europa numa mistura explosiva. Já ele o era mas assim afinaria a espécie.

Meia de Leite era uma mistura entre África e Europa, a mãe, africana de gema, nascida para os lados do Huambo onde o pai, europeu de Trás-os-Montes, estivera a trabalhar e por ela se apaixonou ainda jovem. Desta relação nasceu Meia de Leite, entre um e outro, moreno dizia, os traços europeus da sua face não o desmentiam, afinal, tantas voltas dá o mundo que acaba por atirá-lo para o continente de onde saíra seu pai, a Europa. O destino prega cada partida, que mais lhe estaria reservado agora que ia iniciar uma nova vida por aqui? Só o destino sabia, só ele lhe tinha traçado a rota, só ele tinha escrito nas estrelas o que o esperava, Meia de Leite só tinha de o seguir."

 

 


publicado por: canetadapoesia às 20:18
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