Sábado, 28 de Dezembro de 2013

O mestre de culinária

 

Ele era um mestre, um mestre de culinária, o supra sumo dos mestres de culinária. Não havia panelas que lhe resistissem e em cada uma delas deixava a sua marca de mestria.

No primeiro grande encontro de cozinheiros em que participara não deixou de ser notado, como grande mestre que era. Nem sequer estava para participar mas, como tinha um automóvel novo e precisava de fazer a rodagem, aproveitou para aparecer, por acaso, lá pelo sítio.

Chegou e foi notado, não era todos os dias que um mestre de culinária fazia a rodagem ao seu automóvel e logo para os lados onde se reuniam tantos cozinheiros em busca da tão almejada mestria.

Com tanta insistência dos restantes aprendizes lá se dispôs, o nosso mestre, a participar de tão interessante encontro. E foi como um raio de luz naquela sala repleta de pretendentes a mestre de cozinha. Levantou-se, botou faladura e todas as cabeças se vergaram numa única vénia a tão grata personalidade que, desinteressadamente lhes falou. Saiu em ombros, todos gritaram em uníssono, este é o mestre, este é o grande mestre dos cozinheiros.

Lá foi, coroado e desejado, para uma nova cozinha repleta de tachos e panelas e todos os ingredientes para uma cozedura lenta, que como se sabe leva tempo. Tempo era o que precisava tão ilustre personagem, que por ser mestre e supra sumo dos mestres, ponderava já alcançar um título muito mais elevado, mais de acordo com toda a sua sapiência e com o seu futuro estatuto que tinha de ser o maior jamais alcançado por alguém tão desprendido das baixelas e outras coisas da cozinha.

Pois mesmo assim, tão desprendido, tão desinteressado, não deixou de manter o olho em cima dos tachos e das panelas enquanto cozinhavam em lume brando, era uma pitada de sal para aqui, mais um raminho de salsa para ali, depois uma mexedela na panela para não queimar, e foi aumentando o seu pecúlio de conhecimentos da cozinha e da melhor forma de cozinhar, para além, claro, do pecúlio financeiro que também dava jeito ter uns trocos.

Apesar de haver muito quem não gostasse dos seus cozinhados, da forma como condimentava os pratos e até das misturas de sabores que fazia, lá foi granjeando adeptos que, embora sabendo que os cozinhados não eram por aí além e que até havia quem dissesse que acabariam por provocar azia, foram-no amparando e ajudando na fama que aumentava ao mesmo ritmo que o seu ego de grande mestre.

Como todos os grandes mestres chega uma altura que se torna necessário um retiro para introspecção e meditação, transcendental diziam alguns, estratégica disseram outros, acho que ganharam os últimos.

Eis senão quando, passados uns tempos, esquecidas algumas cozinhadelas mal concebidas e depois de ter passado a ténue lembrança da azia provocada, ao retardador, de que alguns fizeram eco na altura, o grande mestre reaparece. Agora com a clara intenção de se consagrar como o chefe dos mestres cozinheiros, o mestre dos mestres, ele próprio.

Reúne-se uma comissão de cozinheiros e consideram que sim, que o homem pode vir a ser efectivamente o mestre dos mestres. E foi.

Durante um reinado de longos cinco anos, foi o mestre dos mestres mas, seria porque o vigor não era o mesmo dos anos anteriores, seja porque estava mais cansado e achava melhor aproveitar as mordomias com que era mimoseado, passou, durante esse tempo quase despercebido.

Não se ouvia nem sequer se sabia de nenhum prato especial confeccionado pelo mestre dos mestres, aliás, dos poucos que tentou cozinhar, misturando os vários ingredientes, com laivos de inovação por juntar uns novos e apimentados sabores, conheceu-se o triste desfecho de uns pratos muito mal amanhados e que deram para o torto provocando até algumas intoxicações alimentares.

De tal modo mal lhe correram as coisas que até deixou de mostrar em público as suas criações culinárias, desculpando-se com os seus ajudantes e até despromovendo alguns que também aspiravam a alguma mestria. Os seus dias já não eram a mesma coisa, parecia que a mão lhe fugia aos temperos.

Tinha de fazer alguma coisa para voltar aos seus tempos de grande mestre, de mestre dos mestres. Vai daí, reúne mais uma comissão de cozinheiros para prepararem um prato especial que mostrasse ao mundo quem ele era. Que não estava acabado, que ainda tinha muito para dar a esta cozinha tão conhecida pelos seus excelentes tachos e panelas, sempre areados e brilhantes que até faziam doer a vista quando lhes púnhamos o olhar em cima.

Acharam por bem, os cozinheiros reunidos, que o mestre centrasse a sua atenção nas mudanças que tinha de produzir para se relançar nos cozinhados que tantos apreciavam. Matutaram, matutaram e chegaram a conclusões brilhantes. Que o grande mestre tinha que se firmar porque os outros que se apresentavam a disputar a mesma cozinha não tinham tanto gabarito como ele, nem sequer tinham cozinhado tanto que se pudessem gabar, por exemplo, de ter provocado uma azia ou intoxicação alimentar em qualquer dos comensais.

Decidido, sobe ao palanque da associação dos cozinheiros e proclama:

De agora em diante, esquecendo os deslizes anteriores, vou mostrar quem é o chefe dos chefes, o mestre dos mestres, vou ser muito mais interventivo, vou ter uma mestria mais activa e dinâmica sobre esta cozinha.

Não vou permitir que os aprendizes de mestre se mostrem desleixados numa cozinha que se quer brilhante, limpa e digna, os tachos e panelas serão areados e renovados, não permitirei panelas de pressão.

Satisfez-se com o que se ouvia dizer e com a reacção dos que, mais uma vez, faziam a vénia ao mestre curvando a cabeça até se ouvirem estalar as vértebras da coluna e rematou com uma frase lapidar:

Podemos voltar a ser um país de cozinheiros respeitado em todo o mundo. 


publicado por: canetadapoesia às 21:44
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