Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

A dependência do Icon

 

O Icon para aqui, o Icon para ali, pressiona o Icon, procura o Icon, desapareceu o Icon.

Estava eu em serviço, claro, de apoio a minha filha recentemente sujeita a uma intervenção cirúrgica e ainda não recuperada para se deslocar com o à-vontade do costume, no entretanto do deixa-a aqui, vem buscar mais tarde, resolvi esperar um par de horas para a recolha que se faria necessária.

Recolhi-me a um jardim público, grande, espaçoso e frondoso já que as árvores ainda abundam por ali. Dirigi-me a um quiosque, um dos que celebrizaram a tomada da ginjinha pública mas, desta feita, erigido no interior do dito jardim. Procurei lugar numa das mesas, à sombra, que o sol queimava já, aí com 31 º às onze horas da manhã, e lá me consegui alapar numa mesinha de canto onde o sol cobria metade e a outra metade ia sucumbido ao fugir da sombra, mas enfim a esperança de que a minha vontade contrariasse o movimento perpétuo do sol, não consegui.

O jardim regurgitava do chilrear de passarada, grasnar de patos e, aqui e ali, o pio prolongado de um pavão, lindos de leque aberto. As crianças, muitas felizmente, agrupavam-se por escola ou por classe e lá se entretinham debaixo das frondosas sombras a fazer aprendizagem ao ar livre que o dia estava propício.

Na mesa ao lado, duas mesas juntas para ser mais preciso, seis ou sete pessoas discorriam sobre os assuntos mais diversos, seis mulheres e um homem, até aqui já estão em maioria.

Uma, que mostrava a mais recente sequência de imagens do feto que trazia no ventre, que sim, que era uma menina como sempre dizia mas, aqui com uma pontinha de desgosto a aparecer-lhe ao canto dos olhos, tinha pilinha. Todos viram as imagens, todos deram a sua opinião, todos comentaram e, na verdade, do local onde me encontrava pude constatar, ninguém viu nada e ninguém percebeu patavina do que ali estava, faltava-lhes um médico habituado à coisa para lhes mostrar os verdadeiros contornos do milagre da vida que ainda antes de o ser já se encontra retratado pelas modernices do avanço da tecnologia.

A futura progenitora, lá foi dobrando o primeiro filme da vida desta criança sem que, ao mesmo tempo, recomendasse à colega que não o dobrasse de qualquer maneira pois aquilo tinha uma sequência de imagens e se a perdia então é que não perceberia nada do que lá estava.

Na impossível quantificação dos parabéns, que seja uma hora feliz, já tens nome e etc, a futura mamã sempre foi dizendo que talvez ficasse de baixa mais cedo do que efectivamente necessitava, pois o mais importante é garantir a saúde da criança e o bem estar dos pais que ter de ir trabalhar. Ai se o FMI e a Merkel ouvem isto, havia de ser o bom e o bonito. Lusitanidades, Ibérices, coisas do sul da Europa.

Outra que discutia as causa da separação da amiga que ainda ontem assim, e hoje é o que se vê.

Mas, apanhando o fio da tecnologia, uma vez que estas conversas eram cruzadas e até incomodavam o meu livro que não conseguia concentrar-se em mim, que o tentava abespinhadamente ler, uma das senhoras, que trabalhavam por perto e, na hora de almoço, iam ao jardim tomar o cafezinho da praxe, levanta um problema crucial para quem trabalha com estas coisas de computadores.

O Icon desapareceu, à primeira ouvidela, liguei logo a coisa a uma daquelas pinturas Ortodoxas Russas que alguém teria surripiado ao seu lugar de exposição. Não, não era nada disso, ouvi mal. O que se passava é que o Icon e não o Ícone, tinha desaparecido do ecrã do computador. Parece uma coisa banal mas não é, falam tanto da tecnologia que todos devem saber utilizá-la e trabalhar com ela, que torna a vida mais fácil, que sem ela já nada seria a mesma coisa e de repente o Icon desaparece, assim, sem mais nem menos. E agora pergunta outra o que vais fazer? Sei lá responde a primeira, tenho que chamar um técnico senão não consigo fazer nada. Mas para que servia esse Icon desaparecido, pergunta ainda outra? Era o Icon do som!!!!

Fiquei sem som no computador. Mas não poderás resolver isso de outra forma sem o Icon?? Não sei, o que sei é que quando queria aumentar ou diminuir o som era no Icon agora sem ele sei lá como aquilo funciona?

Quase, quase, arrisquei dizer que existiam definições do sistema operativo que lhe devolveriam o Icon ao ecrã e que até podiam ser manipulados directamente sem o dito, mas calei-me a tempo. Ainda me chamavam ignorante.

Assim vai a literacia informática tão cara aos nossos governos.

O icon já se vê, sem ele nada feito.

Dei mais dois goles na loirinha, uma trinca na tosta mista e ignorei a tecnologia, afinal eu tinha nas mãos um livro à moda antiga, de papel, encadernado e colado, daqueles que, como costumo fazer, se abrem a meio e se sente o cheiro a livro quando encostamos o nariz.

Não preciso do Icon.

 

 

Luis Filipe Carvalho


publicado por: canetadapoesia às 00:40
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