Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Respiração normalizada, do coração já não se ouvia o ribombar das batidas, mais calmos e descansados, estava na altura de se porem a andar, saírem daquela margem e embrenharem-se chana dentro. Ainda tinham muito que andar para alcançar a aldeia que era o ponto de encontro assinalado para o reencontro de todos os que haviam participado no ataque à vila.

Não se esperava que todos convergissem para o ponto de partida de forma organizada e ordeira, isto não era uma força de um exército normal, daqueles que acima de tudo, põem a ordem e os standards de organização como essenciais ao seu funcionamento, isto era um grupo de guerrilheiros. Talvez se possa dizer e diz-se com alguma certeza, que não era um grupo normal, tinha sido aumentado pelo enorme número de homens que a ele se juntou, transformando-o num temível grupo de guerrilha.

O problema é que só se juntaram para este fim, para o assalto à vila que queriam fosse monumental e um exemplo de que a sua força não estava diminuída, como o afirmava a propaganda oficial. Queriam demonstrar que estavam vivos e actuantes e que até conseguiam dominar as tropas, enquadradas e organizadas no terreno. Falharam é certo, mas o susto foi grande e obrigou a uma envolvente militar bastante mais alargada para lhes fazer frente.

Já não se tratava só de lhes fazer frente, estava em causa uma credibilidade que o exército oficial não ia deixar passar em claro, ia rechaçá-los, persegui-los e aniquilá-los ou aprisioná-los para demonstrar, também ele, que era senhor dos territórios à sua responsabilidade. Era o que agora acontecia, tinha corrido com eles da vila, já de si com enormes perdas, em termos de vidas e em prisioneiros, estava a empurrá-los para o local onde, pela emboscada dos fusos seriam mais facilmente capturados, e já tinha em marcha a perseguição que lhes moveria.

Os homens destinados à perseguição que se seguiria ao fracasso do ataque à vila já estavam posicionados no terreno e a alargar a sua área de acção, preparados para só pararem quando nada mais houvesse que reprimir. A ordem era a captura, preferencialmente, e a destruição de todas as bases encontradas. Quando falamos de bases, não se pense que eram aquartelamentos como o da tropa, organizados, defendidos, abastecidos, não, nada disso, falamos de simples aldeias onde, com algum sentido de organização, é certo, mas depauperados de tudo o resto, se concentravam estes homens.

Homens que dedicavam a sua vida a esta causa, à causa da guerrilha, à causa da libertação de um país que consideravam o seu país, usurpado e explorado por outros. Aglomeravam-se nessas pequenas aldeias no meio da selva a que chamavam as suas bases, normalmente junto às fronteiras, daí partiam para as incursões que planeavam, açoitavam as tropas, as colunas militares e civis e destruíam o que podiam para afugentar quem se atreve-se a lá ficar."


publicado por: canetadapoesia às 22:36
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