Sábado, 30 de Novembro de 2013

Atónito

 

Li há tempos uma notícia de jornal, lida e relida. Dou desconto? Não dou desconto? Será verdade? Quase inacreditável.

 

Pelo menos não deixa de ser credível por falta de testemunhas, já que uma delas é, em simultâneo, protagonista da notícia.

 

Assim rezava a dita notícia, em capa de jornal: “ Senhora idosa de noventa e seis anos encontrada sem vida na casa onde vivia, juntamente com o seu cão”.

 

À primeira vista, nada de mais, as pessoas morrem, muitas vezes sozinhas. O que me espanta é que não houve ninguém que sentisse a sua falta, que ninguém se importasse com ela, que não tivesse família, ainda que remota, que se preocupasse com a sua ausência.

 

Mas assim foi, morreu e ninguém deu por nada durante nove anos. Nove anos?

 

Incrível, nem conhecidos, nem amigos, nem família ou um vizinho. Só com o seu cão. Ambos mortos. Ambos descobertos passado nove anos, caídos no chão da cozinha de sua casa.

 

Triste não é? No fim, só o cão, o fiel amigo, a acompanhou até na morte.

 

É uma estória triste, é uma estória feia, é uma estória incrível. Também é uma estória irracional, com contornos dignos de uma acusação pública, provavelmente sem precedentes, mas, ainda assim, justíssima em termos daquilo que se deveria receber do Estado que não presta à comunidade o serviço, que se lhe paga principescamente, com a qualidade que se deveria receber e também exigir.

 

A senhora morreu, deixou de pagar as suas contas, provavelmente as contas da luz, da água, do gás, da televisão e outras, talvez até a prestação da casa.

 

O Estado confisca-lhe os bens por falta de pagamento, em tribunal, para se ressarcir a si e a terceiros.

 

Esse mesmo Estado que pretende obter, pela sua casa, o máximo proveito com o bem confiscado e portanto avalia-o, põe-no à venda, obtendo assim o almejado proveito que visa cobrir os tais prejuízos da falta de pagamentos da dita senhora.

 

Aparece alguém que adquire o imóvel leiloado. Como feliz proprietário, dirige-se à sua nova casa, abre a porta… depara-se com o macabro espectáculo. Uma senhora de noventa e seis anos de idade, jaz no chão, em igual estado, a seu lado, o seu fiel cão.

 

Mesmo um bom escritor teria dificuldade em engendrar tamanho enredo.

 

Ninguém deu por nada. A excepção à vizinha que estranhou a ausência e comunicou às autoridades. Estas ignoraram e nem abriram a porta por não ser permitido arrombá-la, mesmo quando os familiares o solicitam, mas ninguém pôs a vista em cima da senhora, nunca mais. Não cheirava a nada argumentava a autoridade e sendo assim não se investiga, não se procura deslindar o mistério. Que autoridade.

 

O avaliador do bem, avalia-o sem conhecer a totalidade do que está a avaliar pois nem entra em casa, que avaliação. Assim fica tudo na mesma, ninguém entra em casa.

 

O confisco faz-se sem ter em conta o confiscado. Ninguém falou com ela. Pois se estava morta seria difícil, mas era obrigação do tribunal.

 

Descoberta ao fim de nove anos, quando chega o novo proprietária.

 

Nove anos???

 

Este Estado precisa de ser refundado, precisa de ser reorganizado, precisa de autoridades que o sejam de facto. Precisa de um novo País. 


publicado por: canetadapoesia às 13:38
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