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Caneta da Escrita

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.


16.11.13

 

Olhou a montra de soslaio, deu dois passos e voltou atrás. Olhou e remirou, a fruta estava linda e apetitosa, hesitou uns segundos e acabou por entrar na frutaria.

 

Sentiu logo o cheiro inconfundível da diversidade de fruta que ali se encontrava exposta. Passeou o olhar pelas uvas, as maçãs brilhavam, diversos tipos de pêra, mas a rocha era a que lhe agradava mais, a variedade era infindável.

 

Parou frente a uma banca cujo conteúdo frutífero era na sua totalidade exótico. Frutos da China, frutos da Nova Zelândia, frutos da América Latina, frutos de Israel, frutos da África do sul, enfim frutos de todo o mundo amontoavam-se naquela banca sem que por isso se molestassem. A sua função era satisfazer a clientela que os procurava para, quem sabe, provar as iguarias, matar saudades ou qualquer outro motivo também aceitável.

 

Deteve o seu olhar em alguns destes frutos que, de uma forma ou de outra, sobressaíam no meio daquela amálgama de sabores.

 

As bananas estavam belíssimas, mas os mamões senhor, os mamões estavam mesmo a pedir que os comessem, e como eu gosto de mamão. Sabor único.

 

Levou a mão a um deles, levemente, sentiu a sua textura, apalpou-o, estava no ponto, não muito mole, mas suficientemente maduro para distender de imediato o palato ansioso de o abocanhar. Colocou-o no cesto sem que, antes disso, lhe sentisse o cheiro gostoso a outras paragens. De imediato se lembrou de quando criança, juntamente com o resto da malta da rua, fazia batidas aos mamoeiros munidos de paus com o comprimento suficiente para abanar a fruta cá de baixo enquanto um deles ficava à coca da esperada queda, para o apanhar antes de se esborrachar no chão.

 

Não estava ainda contente. Olhou para as mangas. Revirou os olhos com o seu aspecto, pequeninas, de um amarelo acastanhado, cheias de pintinhas na casca. Instintivamente salivou com a antecipação do seu sabor. Pegou numa, mexeu-lhe, eu sei que não se deve fazer, mas como apreciá-las no seu conjunto se não as tivermos na mão?

 

Sentiu-lhe o peso e o cheiro, olhou-a tão pequenina lembrando-se do porte da árvore de onde provinham, nessas árvores se passaram tardes infindas. Baloiçando nos seus ramos, trepando-as em busca do fruto, recostando-se nas suas frondosas ramagens e deglutindo o sabor dos seus filhos. O cheiro? Só uma manga cheira assim, uma manga de África.

 

Surpresa. Olhou para a etiqueta, produto de Israel. Pegou noutra e remirou também a etiqueta, produto de Espanha. E as de África onde estavam? Não havia, mas estas tinham o mesmo sabor e a mesma qualidade.

 

Esqueceu a sua proveniência e pegou em quatro delas, misturadas para as saborear a todas, meteu-as no cesto. Dirigiu-se à caixa e pagou a fruta.

 

Não trouxe maças, nem uvas, nem peras ou laranjas. Levou consigo os frutos da sua infância, os frutos da sua saudade.

 

Saudade é uma palavra bem portuguesa, mas os frutos e o sabor, ah!  isso é Africano concerteza. 

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