Domingo, 1 de Setembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Estatelou-se em pleno quintal, caiu e torceu uma perna, pensava, que ficou debaixo do corpo. Doía-lhe imenso, Branquelas e Noite Escura, aparvalhados com este final infeliz não sabiam o que fazer. Tentavam levantá-lo mas, a cada movimento um grito de dor saía da boca de Meia de Leite, partiu a perna diz Branquelas, não consegue pôr-se de pé. Que fazemos Noite Escura? Vai a minha casa e chama a minha mãe, que venha já que o Meia está mal, ela vai ajudar-nos. Corre Noite escura a casa de Branquelas chama pela mãe, nem lhe dá tempo a saber o que se passa, arrasta-a com ele para casa de Meia de Leite. Que se passou aqui? Porque estás no chão Josué? Caiu da mangueira, dizem em coro os outros dois, deve ter partido a perna. E agora? Que fazemos? Não está cá ninguém que tenha carro, como o vamos levar ao hospital?

Vão ao sr. Baptista, da mercearia, que ele é capaz de nos ajudar a levá-lo na carrinha dele. Correm rua fora até ao outro largo, entram desabridos na mercearia onde o sr. Baptista conversava com a mulher, poucos clientes àquela hora. Que se passa com vocês, parece que viram algum bicho. Não sr. Baptista, o Meia de leite, isto é, o Josué, caiu da mangueira e partiu a perna e a minha mãe pede se o sr. nos pode levar até ao hospital que não há cá mais ninguém com carro para isso.

O sr. Baptista, beirão de gema, vai tirando o avental ao mesmo tempo que passa umas recomendações à mulher, vamos já, que se não for tratado a tempo ainda pode ficar com marcas para o resto da vida. Entram na carrinha, Datsun, caixa aberta, lá vão em direcção a casa do Meia de Leite, saem da carrinha, ainda a trabalhar e assim ficou para ser mais rápida a saída. O sr. Baptista pega em Meia de Leite ao colo, lava-o e deposita-o na caixa de carga da carrinha, deitado. Não faças força, deixa-te estar assim que é um pulinho até São Paulo, vamos aqui por dentro que é mais rápido. A mãe de Branquelas ao lado do condutor, o sr. Baptista, os putos na carroçaria, acompanhando o amigo. Segurança, proibição? Qual quê, emergência, isso sim e quando o amigo precisa não há polícia que impeça uma deslocação destas, também não havia proibição de galopar as estradas na caixa de carga de nenhuma carrinha. Vamos embora em direcção ao grande hospital de São Paulo, hospital universitário, como também era conhecido.

Paragem frente às urgências, maca, transporte para o interior, só a mãe de Branquelas entrou que ele era como um filho e como o seu o trataria. Os dois amigos e o sr. Baptista, esperaram cá fora, nervosos, preocupados com o estado de Meia de Leite e com o que diriam à mãe e ao pai dele quando chegassem a casa e soubessem do acontecido. Logo se resolveria, o que importava agora é que ele fosse tratado, e foi. Passado uma boa hora e meia aí vem Meia de Leite de muletas e com a mãe de Branquelas ao lado, impante e ufano na sua perna engessada.

Que tal correu? Ora sr. Baptista, uma perna partida sem mais consequências, está tratado, daqui a uns dias vem tirar o gesso e fica como novo. Raios dos miúdos, porque é que não vão comprar as mangas lá à loja em vez de andarem a subir árvores para as colher. Sempre a fazer publicidade ao negócio este sr. Baptista, então não vê que lhes sabem melhor quando as apanham na árvore? São novos, deixe-os lá crescer, têm muito tempo, quem me dera ficassem sempre assim. Vamos andando? Vamos, deixa-me ajudar-te a subir para a carroçaria que tens de ir com a perna esticada, vocês os dois, lá para cima também, vamos mais devagar que agora já não temos pressa.

Obrigado pela sua ajuda sr. Baptista, sem ninguém com carro aqui por perto ia ser difícil e chamar um táxi, não ia ser fácil, tínhamos de mandar um dos miúdos para a esquina da rua e sabe-se lá, quando passaria um. Ainda não havia telefones por todo o lado como agora, era bem mais complicado comunicar mas, mesmo assim, tudo se resolvia. Ora não pense nisso D. Maria, estamos cá para isso mesmo, se não ajudamos a comunidade, aqueles que afinal são os nossos clientes, quem ajudamos, aqui neste bairro somos quase uma família, todos nos conhecemos e todos se entre ajudam e eu sinto-me muito feliz por poder participar e ajudar no que for possível.

Mais um dia de aventuras e que aventuras, ainda faltava a chegada dos pais de Meia de Leite, o que diriam? Nada de mais, com certeza, só a constatação de que o filho que tinham deixado inteiro antes de saírem de casa, estava agora com uma perna engessada e que, graças aos amigos e vizinhos, tinha sido tratado, acarinhado e nada de mais lhe acontecera. Mais um dia na Vila Alice."


publicado por: canetadapoesia às 09:16
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