Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013

OS VAMPIROS

 

“No céu cinzento sob astro mudo batendo as asas pela noite calada, Vêm em bandos com pés de veludo chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com o seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada, eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo”.

 

Este refrão dá início a uma das mais conhecidas e emblemáticas canções de Zeca Afonso, esse monstro imortal, conhecido por todos os portugueses pela sua magia na manipulação da palavra de protesto contra o regime político vigente até Abril de 1974.

 

Sob a sua batuta foram aparecendo variadas canções de protesto e, por isso, também, pagou com o seu sofrimento o facto tão simples, tão banal hoje em dia, de ser diferente, de pensar diferente e de não concordar com a concórdia nacional.

 

Muitos dos que o condenaram ou que, da forma mais simples, lhe viraram as costas quando mais precisava, são hoje reputados democratas, defensores indefectíveis da liberdade de escolha, da liberdade de pensamento, da liberdade de discordar.

 

No entanto, paira no ar uma nuvem que tem vindo a aumentar e a escurecer de forma assustadora. Sente-se o esvoaçar constante do ajuntamento dos novos vampiros que esvoaçam, esvoaçam por tudo quanto é lado poisando aqui e ali e sugando o sangue velho e já chupado mas, também, o sangue novo e fresco que tanto lhes agrada.

 

E descortinamos entre estes vampiros, os novos vampiros muitos dos que outrora já haviam esvoaçado em torno da manada. Lenta mas inexoravelmente vão deixando cair a máscara da liberdade e mostrando os caninos afiados, sempre em crescendo na procura da nova manada para sugar, sugar até à exaustão.

 

“A toda a parte chegam os vampiros poisam nos prédios poisam nas calçadas

Trazem no ventre despojos antigos mas nada os prende às vidas acabadas”.

 

Como é que um homem como Zeca Afonso teve a lucidez de produzir a excelente obra que nos deixou e, sobretudo, a lucidez de ver onde outros só sentiam pequenas mordidelas, dentadinhas quase inocentes mas que iam desfazendo a manada por inanição.

 

Hoje mais do que nunca, a actualidade destes versos é impressionante, tanto pelos exemplos como pelos actos a que temos vindo a assistir praticados por aqueles que deveriam ter memória e ser o garante das liberdades por que ele tanto lutou.

 

Os vampiros de agora vêm com melhor aparência para mais facilmente enganar os incautos, vestem armani, perfumam-se, engravatam-se, fazem-se transportar em grandes máquinas, sorriem amplamente. Já não mostram os caninos afiados e prontos a sugar, mas antes uns dentes brancos e alvos de tanto tratamento branqueador.

 

Tudo isto sugado com o maior dos à-vontades, sugado à luz do dia, sugado dentro das leis esconsas que eles próprios aprovam, sugado de todo o nosso esforço sem esforço nenhum da parte deles, estes vampiros são muito piores que os anteriores.

 

Os segundos não enganavam ninguém, estava na sua natureza o sugar da manada e assim procediam, toda a gente os conhecia. Já os primeiros metamorfoseiam-se e misturam-se para parecerem parte da manada, mas no fundo, só o fazem para escolher a melhor forma de sugar sem a dispersar e até tentando que ela os ajude.

 

“São os mordomos do universo todo Senhores à força mandadores sem lei

Enchem as tulhas bebem vinho novo dançam a ronda no pinhal do rei, eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo”.

 

Os “vampiros” tão actuais como outrora só com uma pequena diferença, já não poisam nos prédios nem nas calçadas, evoluíram, agora poisam nas empresas públicas, nas privadas, nas boas colocações em lugares da UEM mas continuam a chegar a toda a parte. 


publicado por: canetadapoesia às 15:47
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