Terça-feira, 29 de Outubro de 2013

Voando baixinho

 

Destacou-se na imensidão do azul do céu. Grande, enorme, mesmo vista de perto mas, àquela distância, mais parecia um dos muitos habitantes do local, um pombo como outro qualquer.

 

No entanto, ia crescendo a olhos vistos cada vez que mais se aproximava, fixou um alvo, um velho poste abandonado faz tempo, mantido no seu lugar pela força da gravidade, que a EDP, que ali o colocara, nada queria saber dele.

 

Fez um voo rasante ao dito, volteou, voltou a rasar o poste, subiu nos céus e pairou por momentos no ar como que apreciando a solidez do alvo que destacara como seu.

 

Duas, três voltas no ar, repentinamente mergulha furiosamente em direcção a ele. Para aí a dois metros do cimo do poste faz uma travagem brusca, daquelas que só as aves sabem fazer, dobra as asas e bate-as devagarinho. Estende as patas e finalmente e em segurança pousa no cimo do poste.

 

Não tinha outro sítio onde se apoiar senão o espaço mínimo que encimava o dito poste, as suas patas estavam unidas e mal se podiam mexer para qualquer dos lados. Ainda assim, bateu as asas, como a esticá-las de preguiça, estendendo-as ao sol que o banhava abundantemente.

 

Sentia-se no topo do mundo.

 

Um mundo pequeno, certamente, mas enorme e desconhecido para uma pobre gaivota perdida em terra, longe do seu habitat natural.

 

O mar ficara para trás, algures para qualquer lado, não o via mas sentia-lhe o aroma. Sal, peixe e a imensidão da água salgada que habitualmente usava como campo aberto de treino, de voo e como meio de subsistência pois, estes voos rasantes, não eram mais que a prática adquirida nos mergulhos rápidos e rentes à água de onde retirava o peixinho fresco e ainda vivo de que se alimentava.

 

Estava tudo tão mudado que nem acreditava, tinha-se perdido. O que era mais grave ainda, perdera-se para o interior de terra até deixar de ver o mar.

Como iria sair desta enrascada ainda não sabia, mas, se sentia o agridoce sabor do sal que lhe entrava pelas narinas trazido pelo vento, seu amigo destas andanças, conseguiria lá chegar certamente.

 

Espreguiçou as asas uma vez mais, esticou uma, depois a outra, as duas em simultâneo, uma pata, outra, abanou-se vigorosamente. Estava pronta a dar início à marcha de novo.

 

Lançou-se no espaço vazio à sua frente, de cima do poste ao chão havia cerca de cinco metros de distância, a suficiente para ganhar espaço de abertura para o voo. Descaiu ligeiramente, cerca de dois metros depois de se lançar no vazio, bateu vigorosamente as asas e lá foi ela, ainda sem rumo certo mas na direcção de onde lhe vinham os odores marinhos.

 

Os prédios altos assustavam-na e por tal, moveu-se entre eles descendo a rua até ao cruzamento, dir-se-ia que seguia a estrada dos automóveis, mas não, só queria ganhar espaço para alcançar uma maior altura de voo.

 

Umas centenas de metros mais acima e estava salva. Já descortinava os bordos do seu mar, via claramente, cada vez melhor, as ondas batendo na costa.

 

Sentiu-se em casa, livre e aventureira no seu regresso. Afinal não eram todas as gaivotas que se aventuravam a uma incursão tão longe de casa e terra dentro. Voando baixinho mas voando longe.

 

Uma gaivota do seu tempo, uma inovadora, uma empreendedora uma autêntica pioneira no voo em terra. 


publicado por: canetadapoesia às 19:00
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