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Caneta da Escrita

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.

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28.10.13

 

João perneta é um pirata. Um pirata à moda antiga, com pala na vista esquerda e por isso só via da direita e não muito, a perna esquerda, também decepada algures no tempo e numa qualquer abordagem de navio mercante, foi substituída pela tradicional perna de pau.

 

Nada destes efeitos, quase cinematográficos, de que se poderia dizer que afinal são os perigos da profissão, o afectavam e lá ia andando ou antes mancando da popa à proa da escuna verificando o seu estado, todo o velame e o cordame necessário a todas as manobras do navio.

 

Inspeccionava a marinhagem e as suas tarefas pois não se podia descuidar, um pequeno descuido seria o suficiente para abortar qualquer abordagem de pilhagem aos navios incautos que se lhe atravessassem no cominho, na rota em linguagem do mar.

 

Mas o que mais lhe enchia o ego era o corpo principal da sua escuna, óptima construção, madeiras preciosas das florestas do novo mundo, rija e bem torneada. Uma escuna capaz das maiores proezas nos assaltos e embates em que a comprometia frequentemente e de onde retirava fundos suficientes para levar uma verdadeira vida de pirata. A sua construção foi seguida e supervisionada pessoalmente pelas andanças pelo estaleiro, algures nas Caraíbas, até que finalmente foi lançada à água e benzida convenientemente pelo sacerdote do grupo, sim que também os há piratas.

 

Apesar de pirata, sabia lidar politicamente com os adversários, de quando em vez fazia uma alianças com outros grupos, ajudava outros e até defendia governos e países contra os ataques de outros corsários para manter sempre aberta a porta de escoamento das suas pilhagens e ter um porto seguro para se acolher das tempestades.

 

Não poucas vezes, após intensas batalhas com os saqueados, ferido e com a sua escuna cheia de mazelas e rombos por todo o casco, a meter água e quase a afundar, fora socorrido pelos concorrentes que, não de forma gratuita, mas sempre foram dando a sua ajudinha e apoiando as maiores e mais arriscadas batalhas em que se envolvia.

 

Até um dia. Um dia em que João perneta, exausto de tanta batalha, vencido pelos anos, não pode manter mais a eficiência dos assaltos e pilhagens. Nesse dia, após uma devastadora batalha em que defrontou até alguns grupos de corsários interessados também na mesma pilhagem que ele, quase derrotado, a escuna a necessitar urgentemente de reparação, procurou o abrigo do costume e as ajudas que sempre teve mas nada, ninguém o ajudou, ninguém lhe deu guarida para se recompor. Já anteviam a possibilidade de João perneta não conseguir mais ser o seu protector, ser o pirata que distribuía benesses e fundos por todos os que sempre o apoiaram.

 

Abandoram-no.

 

João perneta, não tinha saída, mesmo os que sempre sobreviveram à sua sombra estavam agora em debandada e se ainda assim não tinha essa certeza, bastou-lhe olhar para os rombos da sua maravilhosa escuna, que tanta gente protegeu e amparou, e ver como os ratos se atropelavam na urgência de a abandonar.

 

Os ratos a abandonar o navio era mau sinal. Era sinal que já se organizavam para procurar outro que os acolhesse, até já tinham em vista uma nova escuna que apareciam agora no horizonte imponente na sua estrutura e no brilho que emanava apesar de, com todos estes adjectivos, não ter um capitão como o João perneta e nem sequer ter entrado ainda em nenhuma das batalhas que lhe granjeou a fama do maior pirata das Caraíbas.

 

Enfim, um pirata novo que queria o lugar de João perneta a toda a força e se vinha armando para o conseguir. Este novo aspirante a capitão da pirataria vinha com novas ideias, com vontades diferentes e até com novos apoios para além dos que conseguiu com os que abandonaram João perneta.

 

Esta é a estória de uma escuna pirata que sulcava os mares em busca de saques e pilhagens e acabou substituída por outra que quer seguiu o mesmo caminho.

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