Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

CES (Contribuição Especial de Solidariedade versos Contribuição Eliminatória de Solidariedade)

 

Como declaração de interesses, começo por confirmar ser um dos milhares de contribuintes a quem é sonegada parte do seu magro rendimento, magro porque não possuidor de uma reforma cuja grandeza permita passar entre os pingos da chuva sem sequer me molhar.

 

Ora feitas bem as contas, sou um estorvo para o Estado, sou um peso, gasto dinheiro que, apesar de se terem enchido com o fundo de pensões da empresa para que trabalhei e rapidamente o terem feito evaporar, poderia ser gasto em BMW’s ou Mercedes último grito ou até em criações de umas essenciais fundações ou comissões que permitiriam diminuir o número de desempregados pela ocupação pelos seus exemplares boys and girls.

 

Sou um peso! Sou um estorvo!

 

Dizer em minha defesa que tenho muitos anos de trabalho, que trabalho desde a idade em que muitos dos que hoje me crucificam estavam ainda em brincadeiras e comemorações de praxes e outras iguarias tais, só permitidas porque, como eu, muitos começaram demasiado cedo a labutar, para comer e viver, pois então, que as coisas não caem do céu aos trambolhões, excepto, é claro, há sempre uma excepção, para os que agora me vêem como entrave à regularização das contas do Estado, esse mesmo que ajudei a construir e a desenvolver, amenizando a adolescência dos agora visionários de um futuro sem passado.

 

Quarenta e cinco anos de trabalho, de confiança no País e no seu futuro não foram suficientes para me garantir a merecida reforma, nada é garantido, dirão estes argonautas da nova epopeia, excepto, há sempre excepções, a garantia do eterno emprego enquanto dependentes dos partidos que os acolhem e da miríade de empresas públicas ou privadas onde são colocados.

 

Mesmo que quatro desses anos tenham sido de intensa perigosidade, numa guerra que a nada conduziria mas em que verteram o vermelho do seu sangue muitos dos seus melhores filhos, coisa que não acontecerá aos novos empreendedores da ordem inovadora que defendem, excepto, há sempre excepções, que se torne tão indigna que se transforme em desespero de causa e o fim é sempre impossível de adivinhar.

 

Sou um peso! Sou um estorvo!

 

Como peso, estorvo e gastador do erário público que sou, esquecendo todos os anos em que eu e as empresas onde trabalhei, foram contribuintes para a migalha com que agora me atiram à cara, anseio pelo dia em que, com a enorme capacidade inventiva e inovadora com que nos mimoseiam, abram o tal CES (Contribuição Eliminatório de Solidariedade) onde, depois de seleccionado, possa entrar decidida e solidariamente, até com um sorriso nos lábios, porque sei que estas coisas só aconteceram num período negro da história da humanidade e da Europa em particular, para ser incinerado, terminando assim o peso que represento e a que submeto o Estado ao ter de me assegurar a sopa dos pobres.

 

Há, evidentemente, uma excepção, há sempre uma excepção, é que a partir desse dia deixo de ser contribuinte da outra CES. 


publicado por: canetadapoesia às 20:53
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