Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013

Momentos do futuro livro "Os três mafarricos - Noite escura, Meia de Leite e Branquelas".

"Um ligeiro restolhar no capim chamou-lhe a atenção, ali havia coisa. Aguçou os ouvidos, apurou a vista, não conseguia ver nada, estava abaixo do topo do capim, era bastante alto, mais alto que ele, só podia concentrar-se no ouvido, tentar decifrar aquele quase imperceptível ruído. Uma coisa sabia, tinha a certeza, não era ruído de animal, que os animais andam livres pela floresta e não se preocupam com estratégias de guerra, fazem o ruído que têm de fazer e o seu caminhar é mais barulhento, não, aquilo não era animal, aquilo era ruído de quem caminhava cuidadosamente pelo meio do capim.

Voltou a senti-lo, agora mais audível para quem estava totalmente concentrado nele. O silêncio da noite foi cortado pelo pio do mocho, deu o sinal aos companheiros que ali andavam homens caminhando na chana e entrando no seu perímetro de emboscada. O pio foi sendo repetido, o mesmo que Branquelas tinha ouvido e o pôs de sobreaviso, deste lado era o aviso mesmo, que passava de homem a homem para que todos se preparassem para o que ia acontecer a seguir. Não era o sinal de atacarem que esse viria depois de terem a certeza do que estavam a enfrentar e de ter o inimigo na zona perfeita para o efeito, aguardaram novo sinal do comandante, Noite Escura.

Passou-lhe pela cabeça toda a vida, como um filme, lembranças da infância, dos grandes e inseparáveis amigos, da família. As expectativas quanto ao futuro, quando tudo isto terminasse, pelo menos para ele que já ia com tempo mais que suficiente, estava cansado destas andanças, de andar de um para outro lado, da perseguição e ataque ao IN, enfim, estava cansado da guerra. Um dia, pensava para si, tudo isto acabaria, não tinha sentido, uma guerra interminável, pôr irmãos contra irmãos, não fazia sentido nenhum. Quando estivesse livre ia atrás de Meia de Leite, até à Europa, descansava disto e encontrava o seu velho amigo de brincadeiras, ia apanhar outros ares mas não ficava por lá que esta é que era a sua terra.

Parou o restolhar do capim, atentou no facto de ter acontecido depois do piar do mocho. Desconfiam de qualquer coisa, aperceberam-se que poderia haver por aqui tropa à sua procura, vão ser mais cuidadosos e vão levar mais algum tempo até avançar. Temos de manter a posição em silêncio até ao momento certo, temos de aguardar o seu primeiro passo, depois, avaliar a localização, o número de homens e a direcção que levam e então, só então, desferir o golpe necessário para os capturar.

Fez sinal para o homem que estava, ligeiramente afastado, mas atrás de si, guardando o guerrilheiro capturado, que o amordaçasse, mas era desnecessário, ele sabia o que tinha de fazer e já o tinha feito. Para além disso o prisioneiro estava tão amedrontado que quase tinha medo de respirar, deitado de costas com as mãos e os pés amarrados, não se movia. Voltou-se mais sossegado, tudo estava controlado, agora era só aguardar o primeiro passo, um passo em falso do IN e atiravam-se a eles sem dó nem piedade."


publicado por: canetadapoesia às 00:03
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